A Cidade que também foi das meninas


Por Agência CentralSul de Notícias

 

por Djuline Seiffert e Luana Baggio

Educadoras que atuaram na Cidade dos Meninos relembram o período em que trabalharam na instituição


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Fachada da Cidade dos Meninos, já restaurada pelo futuro Hotel Fazenda que funcionará no local

Lembranças, saudades e carinho são os sentimentos que ficaram em quem passou pela Cidade dos Meninos. Em dezembro de 2003, ouviu-se pela última vez o badalar do sino que anunciava o início das aulas ou a missa matinal na Cidade dos Meninos. A instituição fechou as portas por problemas financeiros e cerca de 130 crianças e adolescentes – de 7 a 17 anos – tiveram que procurar outras entidades para concluir os estudos. Na instituição, as crianças recebiam o ensino da 1ª à 5ª série e, no turno inverso das aulas, participavam de oficinas como: marcenaria, floricultura, serralheria e artesanato. Professoras e uma ex-diretora do colégio que funcionou no local relembram um pouco desse período que marcou a vida de muitas pessoas.

Alunos da 2ª série na sala de aula na Cidade dos Meninos

Alunos da 2ª série na sala de aula na Cidade dos Meninos

Grupo Escolar Albertina Soares era o nome da escola municipal que funcionou na Cidade dos Meninos entre 1971 e 1984. A partir de 1985, a instituição passou se chamar Escola de 1º Grau Incompleto Cidade dosMeninos.

– Em 1985 a escola deixou de ser municipal e se tornou particular, pois tinha compra de vagas. O estado pagava um tanto por aluno para as crianças estudarem. O município apenas cedia os professores – relembra Maria Rossatto, diretora da escola entre os anos de 1981 e 2000.

Uma grande mudança ocorreu no ano de 1998. Meninas passaram ser atendidas pela entidade. Elas frequentavam aulas e oficinas, mas não tinham direito a moradia, pois era restrita aos meninos.

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Turma mista de alunos da 2ª série junto com a professora Silvia Mohr, em 2002

Doralice da Silveira Martins, atual diretora da E.M.E.F. Renato Nocchi Zimmermann, foi professora da Cidade dos Meninos por quatro anos, entre 1999 e 2003. Doralice presenciou o desligamento dos alunos com a instituição e relata os problemas causados com a notícia do fim da escola.

– A Cidade dos Meninos tem uma história. As crianças tinham segurança. Ficavam o dia inteiro lá. Só voltavam para casa à noite. Os pais ficavam despreocupados para trabalhar. Quando souberam que a escola ia fechar, foi um transtorno bem grande, pois existia a preocupação de para onde seus filhos iriam – lembra a diretora que na época trabalhava com alunos da 3ª série.

Conhecida por receber alunos com problemas sociais, a Cidade dos Meninos proporcionava aos seus professores uma superação diariamente.

– As crianças eram filhas de presidiários, muitos sem pais. Cada história pior que a outra. Antes de trabalhar lá eu escutava que lá era um inferno, que aos alunos eram uns “diabos”. Resolvi ler as fichas das crianças para entender mais sobre eles. Nós pedagogos tínhamos que dar conta do recado – desabafa Marilene Venturini, professora de 1994 a 2001.

Conforme Cleiva Peripolli, diretora da E.M.E.I. Vila Jardim, os professores da Cidade dos Meninos conseguiam contornar todas as situações.

– Alguns alunos sofriam de carência afetiva, dificuldades de aprendizagem e disciplina. Mas, com atividades diferenciadas, conseguíamos um melhor desenvolvimento da parte deles – orgulha-se.

Mesmo com tantas dificuldades, o carinho e o amor pela entidade ficaram marcados na vida dos profissionais que por lá passaram.

– As crianças que passaram pela Cidade dos Meninos tinham uma formação diferente. Nós ensinávamos tudo. A gente buscava o melhor para eles, não era porque o nível dos alunos era baixo que não íamos realizar o nosso trabalho com carinho. Eu era professora, mãe, psicóloga, enfermeira… Eu era tudo – lembra Marilene, que trabalhava com as disciplinas de Português, Geografia, História e Ensino Religioso com alunos da 5ª série.

O espaço físico é outro ponto muito lembrado pelos antigos mestres. Era possível realizar atividades diferenciadas com os alunos, como recorda Silvia Mohr.

– O que eu gostava é que, no verão, eu dava aula ao ar livre. O espaço que tínhamos era muito bom – conta a professora, que hoje trabalha na EMEI Vila Jardim.

Alunos em uma aula diferenciada na Cidade dos Meninos no ano de 1992.

Alunos em uma aula diferenciada na Cidade dos Meninos no ano de 1992.

Marilene Venturini adorava subir o morro com seus alunos para comer bergamota no mato.

– Eles adoravam. Eu ia para outra escola fedendo a bergamota – lembra com saudades a professora.

Impossível perguntar sobre a escola e não surgir relatos e lembranças de eventos que proporcionavam integração com a comunidade e um grande envolvimento para os professores. Noiva durante oito anos do casamento caipira na Festa Junina, a professora Silvia Mohr confirma:

– As festas marcaram a minha trajetória na escola.

Professora Silvia de noiva no casamento caipira da instituição no ano de 1997

Professora Silvia de noiva no casamento caipira da instituição no ano de 1997

Eventos como o Festival da Canção davam oportunidades de descoberta de talentos entre os alunos.

– Eles descobriam coisas que nem sabiam que tinham condições de fazer. Lembro do orgulho e da questão da autoestima deles. Sentiam-se importantes, e isso me marcou muito – conta emocionada a professora Cleiva Peripolli, que trabalhou na cidade dos meninos de 1996 a 2000.

A esperança de uma vida melhor para muitas crianças e jovens e uma referencia de educação para toda uma comunidade, terminou, quando as portas da escola Cidade dos Meninos fecharam-se. A falta da entidade é sentida pela comunidade e pelos professores que vivenciaram as conquistas e aprendizagens de seus eternos alunos.

-Se tivesse a cidade dos meninos muitos teriam terminado os estudos. É uma escola que faz muita falta para a nossa comunidade. Eles tinham atividades que proporcionavam conhecimentos para eles, fazendo com que não ficassem nas ruas sem ter o que fazer- lamenta Silvia Mohr.

Silvia Mohr continua trabalhando nas proximidades da antiga instituição. Ela mantém contato com alguns ex-alunos, pois muitos deles hoje levam seus filhos para a creche em que a educadora trabalha atualmente.

Marilene Venturini tem certeza de que a escola mudaria a rotina e a vida de muitas crianças se ela inda existisse.

-Turno integral como eles ficavam, iam de manha passavam o dia e iam embora, essas crianças fome não passavam- afirma Marilene Venturini.

Doralice Martins tinha um carinho muito grande pela Cidade dos Meninos e por ela estaria até hoje trabalhando na escola caso ela existisse.

– Só sai de lá porque a escola fechou. Eu escolhi trabalhar na escola Renato Zimmermann porque muitos alunos viriam pra cá. Eu já tinha mais contato com os familiares e intimidade com as crianças- conta Doralice Martins.

A mestra que passou por apenas três escolas em seus 35 anos como educadora diz que adorava trabalhar na Cidade dos Meninos, pois foi uma etapa maravilhosa de sua vida profissional e finaliza:

– Nos éramos muito bem tratadas, valorizadas por todos lá dentro. É uma pena ter fechado- lamenta.

Ex-professoras relatam momentos marcantes da Cidade dos Meninos. Confira o vídeo:

De jovem-aprendiz a marceneiro de verdade

Ex-aluno conta como foi sua vida e os benefícios que a Cidade dos Meninos lhe proporcionou

A Cidade dos Meninos deixou várias marcas positivas na sociedade local ou santa-mariense. As oficinas que eram oferecidas para os alunos a partir de 14 anos contribuíram para a vida profissional de muitos desses adolescentes. O ex-aluno Otávio Pozzobon, 31 anos, entrou na instituição em 1990, com nove anos, e foi um dos primeiros semi-internos atendidos. Como a escola oferecia ensino até a 5ª série, ele continuou os estudos na Escola Estadual Margarida Lopes, ainda morando na instituição. Das oficinas oferecidas pela Cidade dos Meninos, Otavio ingressou na marcenaria, e hoje é sua atual profissão.

– O que eu sou hoje eu aprendi lá.  A Cidade dos Meninos pra mim foi fundamental. Eu não estaria aqui hoje se não tivesse passado por ela. Hoje com o meu trabalho sustento minha família e outras quatro famílias dependem de mim – afirma emocionado o atual proprietário da fábrica de móveis Pozzobon.

Primeira comunhão de Otávio e seus colegas

Primeira comunhão de Otávio e seus colegas

Otávio conta que vem de família humilde e que foi morar e estudar na instituição porque os pais se mudaram para o interior. Ele e seus dois irmãos passaram pela Cidade dos Meninos.

– No começo era como um presídio. Era só os maus caracteres. Juntavam “tudo” que não prestava e colocavam na Cidade dos Meninos – relembra o ex-aluno.

Otávio admite que não era um bom aluno e tudo que achava que não estava certo, ele argumentava, o que muitas vezes gerava discussões com os padres. Contudo, ele lembra com alegria do tempo que viveu na Cidade dos Meninos.

-Tu guri, fazia arte! Agora imagina trinta guris todos da mesma idade juntos? Era uma bagunça!- diverte-se Otávio.

A rotina de quem estudava e morava no local começava cedo. Os alunos tinham o dia cheio de atividades, conta Pozzobon:

– O dia lá era pequeninho. Tinha gado, horta, galinheiro, vaca. O dia começava cedo e a gente era cobrado. Eu levantava, tirava leite das vacas, tomava café e ia pra oficina. Depois do almoço, eu ia para o colégio. Era puxadinho. A gente ia da Cidade dos Meninos até a escola Margarida Lopes a pé. São quase 10 km com ida e volta – conta.

O marceneiro Otávio Pozzobon em sua própria fábrica de móveis.

O marceneiro Otávio Pozzobon em sua própria fábrica de móveis.

O ex-aluno conta que era possível se deparar com as mais diversas situações dentro da escola.

– Lá eu via de tudo. Na época fumar era novidade. Tudo que você via em filmes tinha lá. As portas eram abertas para quem quisesse ir embora. Era só ir. No começo, quem aprontava era castigado – revela Otávio.

Pozzobon saiu da instituição com 18 anos, quando foi servir o exército. Dos nove anos que ficou no local, permaneceu durante sete anos como interno. Segundo Otávio, ele foi o primeiro a trabalhar fora da instituição e continuar morando nela.

– Eu tinha a escola aberta pra mim. Eu fazia o que queria. Tinha acesso a tudo. Muitos dos meus colegas foram para outro lado, foram presos, estão mortos, muita gente foi para o outro lado por causa das dificuldades – lamenta o ex-aluno que hoje é casado é tem um filho de um ano.

As gorjetas que recebia dos padres pelos serviços prestados na instituição foram o inicio de uma busca por um melhor futuro.

– Eu quis levantar voo. Todo jovem quer isso e eu senti vontade de trabalhar fora. Comecei a ver as possibilidades. Trabalhei fora, servi o quartel e quando estava no Exercito sai da Cidade dos Meninos – conta com orgulho o marceneiro.

A Cidade dos Meninos para Otávio se resume na vida dele, lá está toda sua história e momentos de sua infância. Foi uma etapa fundamental para seu crescimento pessoal e profissional.

– Eu tenho a minha vida lá dentro. Quando eu saí da Cidade dos Meninos eu tive um impacto grande na minha vida. Eu entrei guri e sai homem. E quando eu vi o mundo aqui fora não me sentia preparado. É outra coisa. Essa foi minha maior dificuldade, o impacto com o mundo. Lá eu estava protegido por todo mundo e aqui fora eu estava solto por mim. Esse foi meu único despreparo. Uma pena a escola ter fechado – lamenta o ex-aluno.

Otávio Pozzobon conta sobre suas aventuras na Cidade dos Meninos

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