Getúlio ainda vive!


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Por Guilherme Kalsing e Lidiana Betega

Depois de meio século de sua morte, Santa Maria relembra a trajetória de um dos maiores presidentes que o Brasil já teve.

Líder da Revolução de 1930, que pôs fim a á República Velha, Getúlio Vargas torna-se presidente da república e um dos homens mais emblemáticos no cenário político do Brasil. Não é a toa que depois de 58 anos de sua morte, o gaúcho de São Borja ainda é lembrado com carinho por uma legião de admiradores espalhados pelo país todo. Casado com Darcy Lima Sarmanho, Getúlio teve cinco filhos: Lutero, Getúlio, Alzira, Jandira e Manuel.

Getúlio Dorneles Vargas foi presidente do Brasil em dois momentos, O primeiro com 15 anos interruptos (1930 – 1945) que se dividiu em três fases: de 1930 a 1934, como Chefe do Governo Provisório, de 1934 a 1937 governou como presidente do Governo Constitucional e de 1937 a 1945, enquanto durou o Estado Novo, implantado após um golpe de estado. Já em um segundo período, por voto direto, comandou o país por três anos e meio, de 1951 a 24 de agosto de 1954, quando se suicidou no Palácio do Catete – Rio de Janeiro, entristecendo uma geração de Getulistas.

O termo Getulismo foi adotado devido à doutrina seguida pelo gaúcho, pelo seu jeito de governar, fazendo com que sua influência se estendesse durante muito tempo por outros representantes políticos como João Goulart.

Foi intitulado “O pai dos pobres” por criar muitas das leis trabalhistas e sociais do Brasil, muitas delas vigorando até os dias de hoje. Entre os benefícios que o governo Vargas trouxe para o país, podemos citar a criação da OAB (Ordem os Advogados do Brasil), a regulamentação da Medicina, Odontologia, Medicina Veterinária, Enfermagem e Farmácia, além de criar a Carteira de Trabalho, o Código Florestal, a regulamentação de trabalho para as mulheres em indústrias e comércios com as mesmas condições salariais que as dos homens, entre outras coisas que promoveram o crescimento do país.

Ideais que se estendem até os dias de hoje

Entre os partidos políticos que seguiram as ideias de Getúlio Vargas, estão o PDT (Partido Democrático Trabalhista) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Na opinião do Vereador de Santa Maria, Werner Rempel do PL (Partido Livre), Getúlio Vargas foi uma pessoa muito importante para o país e que influenciou muito nas ideias do PL. Rempel acredita que o gaúcho foi a maior figura política do país, pelo contexto histórico que enfrentou, pelas coisas que fez pelo Brasil e salienta a admiração que o PL tem por Vargas: “O nosso partido é um partido que pretende resgatar a figura e os ideais de Getúlio Vargas, assim como as do Jânio Quadros e também de Lula, acreditando que eles foram grandes pessoas dentro do meio em que atuaram e que promoveram mudanças significativas para o Brasil”.

Ouça a entrevista com o Vereador Werner Rempel:

 

Já para o Vereador Manoel Badke do partido Democratas, a figura de Getúlio Vargas, sem dúvida nenhuma, influenciou a política brasileira, deixando um legado de admiradores: “A maior benfeitoria de Vargas foi a sua luta a favor classe trabalhista, buscando sempre a valorização e qualidade de vida desses trabalhadores. Eu acredito que todos os partidos políticos de hoje em dia seguem as ideias de Vargas, inclusive o Democratas, apoiando projetos que promovam sempre e educação, a saúde e trabalho, vertentes que tiveram suas raízes no governo Vargas”.

Quanto às leis trabalhistas, Badke enfatiza que Getúlio criou inúmeras leis e decretos a favor da classe trabalhadora, porém com o tempo é preciso aperfeiçoá-las: “Eu vejo que constantemente as leis estão se adequando ao trabalhador, buscando a sua satisfação, porém, é preciso colocar em uma balança, o empregado e empregador, medindo suas necessidades, gerando assim benfeitorias para ambos”, conclui.

Ouça a entrevista com o Vereador Manoel Badke:

 

Getúlio com seu companheiro, o chimarrão.

Getúlio com seu companheiro, o chimarrão.

Durante seu governo, o gaúcho instituiu outras leis para assegurar a qualidade de vida do brasileiro, como o salário mínimo, a limitação da jornada de trabalho, além de férias remuneradas e a proibição da demissão sem justa causa para a classe trabalhadora. Por esses e outros motivos, é notável a admiração dos brasileiros por Getúlio devido a tantas ações criadas para afirmar a segurança e os direitos dos trabalhadores.

Para o admirador de Getúlio, Marco Aurélio Weber da Luz, apesar da ditadura seguida por Vargas, o gaúcho transpareceu ser uma pessoa do bem e disposta a lutar pelas suas ideias e o funcionário público conta que desde criança aprendeu a admirar Vargas devido ao fanatismo do pai. “Meu pai era um grande Getulista, e com o tempo eu fui estudando sobre a vida de Vargas e aprendi a admirá-lo. Acredito que a política daquela época, por ser muito complexa, infelizmente levou ao suicídio de um grande ídolo do país”, conta.

Ouça a entrevista com o Funcionário Público Marco Aurélio da Luz:

 

Mais de meio século do Brasil sem Getúlio, uma pesquisa realizada pelo jornal Folha de São Paulo em 2007, reuniu cerca de 200 pessoas, envolvendo jornalistas, políticos, artistas, esportistas, religiosos e militares, que são considerados referência em suas áreas de atuação. Perguntou-se quem é o Maior Brasileiro de Todos os Tempos e pediu-se também a justificativa da resposta. Com cerca de 70 nomes indicados ao posto, o gaúcho de São Borja foi o mais votado, ficando à frente de Juscelino Kubitscheck, Machado de Assis, Rui Barbosa, Santos Dumont, Tom Jobim, Oscar Niemeyer, Lula, Ayrton Senna, entre outros.

Para o escritor, jornalista, historiador e professor universitário, Juremir Machado da Silva, Getúlio Vargas é o personagem político mais importante da história do Brasil. “Ele foi conservador, foi revolucionário, foi ditador, foi democrata. Ele mudou o Brasil, industrializou o país. Ao mesmo tempo em que ele foi autoritário, ele teve muita sensibilidade social e se suicidou no poder, e eu o vejo como um personagem fabuloso por essas diversas facetas”.

Conversamos com Juremir sobre o seu romance chamado “Getúlio”- lançado em 2004 – que conta a trajetória da vida do político que se transformou em um símbolo brasileiro. “Por todos esses motivos, é que escolhi a figura de Vargas para escrever o romance, por ele ser um personagem extraordinário, um verdadeiro motor da renovação política e econômica brasileira e que integrou junto à sociedade enormes contingentes de excluídos, fazendo o país dar “saltos” em direção a modernidade”, conclui.

Ouça o escritor Juremir Machado:

 

Carolina Brum Corrêa, jornalista formada pela Unifra, fez sua monografia sobre Getúlio Vargas e nos contou via email, o quanto foi delicado escrever sobre um homem tão importante: “Explorar a figura do ex-presidente Getúlio Vargas remete a muitos caminhos. Pode ser trabalhado pelo viés trabalhista, modelo pelo qual governava; pelo viés partidário; pelo lado digamos que “ruim” do Vargas, que foi seu período como ditador civil e também pelo seu lado “herói”, que foi o que norteou o meu trabalho. A relação do Vargas “herói” com o jornalismo foi descoberta ao decorrer do trabalho onde foi analisado o Jornal do Brasil de 25 de agosto de 1954, dia imediatamente posterior ao suicídio do presidente e concluiu-se que sim, a imprensa é influenciada pelo fato e ajudou a criar um mito, um ícone, um herói nacional”. A jornalista ressalta que aprendeu a admirar o gaúcho depois que realizou a pesquisa: “É impossível não adquirir uma admiração pelo político Getúlio Vargas. Eu consegui entender que muito dos frutos que se colhemos hoje vem do legado trabalhista de Vargas”.

Hoje residindo em Restinga Seca, Carolina gosta de estudar a política e reconhece as heranças deixadas por Vargas, nos políticos de hoje, principalmente se tratando de leis trabalhistas: “Tenho ligação com o meio politico e vejo os feitos de Vargas como um legado, um norte, para os políticos de hoje. Ele deu o pontapé inicial e desencadeou uma rede de proteção ao trabalhador, valorização e tantas outras coisas que hoje se percebe nas políticas públicas de todos os governos. Ele abriu os olhos dos homens da sua época e dos seus sucessores, colocando o trabalhador como a peça chave, o que move o país”.

Carolina conta que a sua monografia abriu horizontes para ela, além de ampliar seus conhecimentos sobre o período da Ditadura Militar, Era Vargas e demais momentos históricos do Brasil. “Como jovem percebi que precisamos conhecer nossa história, saber de onde viemos e porque chegamos a este lugar. O TFG me mostrou que nós jornalistas, somos totalmente dependentes dos fatos, mas também colaboramos com o desenrolar deles. De Getúlio Vargas levo uma grande admiração”, conclui.

Conversamos com a historiadora Rose Casanova, que analisa a figura de Getúlio Vargas como uma pessoa carismática e muito querida em sua cidade natal, São Borja, e também em nível estadual e posteriormente em nível nacional. Rose enfatiza o por que de tamanha admiração por parte do povo à pessoa de Getúlio Vargas: “Ele consegue a adesão do povo, pois nas leis de trabalho ele cria as férias, jornada de oito horas de trabalho com direito a um dia de descanso na semana (domingo), e várias outras medidas que até então não existiam no país naquela época”. A professora do curso de História da Unifra ressalta que Vargas ainda é muito lembrado e representado pelos políticos nos dias de hoje: “Ele é referendado por todos os candidatos à presidência do Brasil. A primeira eleição após a Ditadura Militar, que elegeu Fernando Collor, aponta os gestos e maneiras de se expressar do candidato, semelhantes às de Getúlio e também de Juscelino, além de Lula, que também utilizou várias nuances, palavras e gestos de Vargas, o “pai dos pobres”. Então, essa capacidade que Getúlio teve de manipular a grande massa, a própria burguesia é uma coisa inédita, embora ele tenha tido sempre uma oposição”, conclui Rose.

Ouça a entrevista com a Professora de História Rose Casanova:

24 de agosto – o dia em que o Brasil perde um homem e ganha um mito

24 de agosto de 1954 - sepultamento de Getúlio Vargas

24 de agosto de 1954 – sepultamento de Getúlio Vargas

Na madrugada de 5 de agosto de 1954, ocorreu um atentado a tiros de revólver, em frente ao edifício onde morava Carlos Lacerda, em Copacabana, no Rio de Janeiro, acabou matando o major Rubens Fiorentino Vaz da Força Aérea Brasileira e fere no pé, Carlos Lacerda, jornalista e ex deputado federal da UDN, que fazia parte da oposição a Getúlio Vargas. Entre as diversas versões do fato, a de Carlos Lacerda predominou. Ele contara que quem disparou os tiros foram os seguranças de Getúlio, Alcino João Nascimento e Climério Euribes de Almeida. A mídia não perdeu tempo e divulgava diariamente boletins sobre o ocorrido, assim como notícias sobre a perseguição dos suspeitos, Alcino foi capturado no dia 13 de agosto e Climério no dia 17, porém até hoje não foi desvendado o verdadeiro desfecho da história.

Em 2004, cinquenta anos depois, um morador da rua Tonelero (onde ocorreu o atentado), deu uma entrevista a Rede Record, onde garantiu que Carlos Lacerda não foi ferido por uma bala. Os documentos e laudos médicos de Carlos Lacerda, no Hospital Miguel Couto, onde ele foi socorrido, simplesmente desapareceram. Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio, assumiu ser o mandante do atentado, sendo condenado a 15 anos de prisão.

Devido ao atentado da rua Tonelero, Getúlio foi pressionado pela imprensa e militares a renunciar ou ao menos se afastar da presidência. Na noite do dia 24 de agosto, após participar de uma reunião ministral, no qual fora aconselhado por ministros, a se afastar da presidência. Encerrada a reunião ministerial, ele sobe as escadas para ir ao seu apartamento. Vira-se e despede-se do ministro da Justiça Tancredo Neves, dando a ele uma caneta Parker 21 de ouro e diz: “Para o amigo certo das horas incertas”.

“Saio da vida para entrar na história”

Getúlio registrou na sua agenda de compromissos, na página do dia 23 de agosto a seguinte frase:

“Já que o ministério não chegou a uma conclusão, eu vou decidir: determino que os ministros militares mantenham a ordem pública. Se a ordem for mantida, entrarei com pedido de licença. Em caso contrário, os revoltosos encontrarão aqui o meu cadáver.”

A carta testamento, no qual Getúlio escreveu pouco antes de se suicidar, foi divulgada ao público em 1967, por Alzira Vargas, sua filha e foi publicada na Revista Cruzeiro. Nesta carta, Getúlio explica seu gesto de “desistência”.

“Deixo à sanha de meus inimigos, o legado de minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro, e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia.
A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos, numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa.
Acrescente-se na fraqueza dos amigos que não defenderam, nas posições que ocupavam, à felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês, à insensibilidade moral de sicários que entreguei à Justiça, contribuindo todos para criar um falso ambiente na opinião pública do país contra a minha pessoa.
Se a simples renúncia ao posto a que fui levado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranquilo no chão da pátria, de bom grado renunciaria. Mas tal renúncia daria apenas ensejo para, com mais fúria, perseguirem-me e humilharem-me. Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas.
Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não dos crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes. Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos. Que o sangue dum inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus. Agradeço aos que de perto ou de longe me trouxeram o conforto de sua amizade. A resposta do povo virá mais tarde”.
Getúlio Vargas

A Era Vargas na Era Digital

Século XXI, ano de 2012, O Brasil vive uma grande ascensão tecnológica. Diariamente são lançados inúmeros aparelhos celulares, computadores, i phones, e os tão admirados, tablets. Com tantas mudanças, favoráveis, claro, para a transformação do país, ainda é grande a procura por um bom livro ou filme. Getúlio Vargas é uma das pessoas que mais estamparam capas de livros, e com grande crescimento nos últimos tempos, também é inspiração para longa metragens. Uma dica para quem quer conhecer ou entender melhor a trajetória da vida do ex presidente Getúlio Vargas, o livro Os tempos de Getúlio Vargas, do escritor José Carlos Mello. O livro reúne em forma de romance, os principais acontecimentos da vida política e social desse personagem histórico. Também podemos citar outros livros que direta ou indiretamente, abordaram a vida de Getúlio, como O país dos tenentes, (1987) de João Batista de Andrade, Agosto, (1990) de Rubem Fonseca, Quem matou Vargas, (2004), de Carlos Heitor Cony, Olga, (1985), de Fernando Morais, biografia Dos anos de formação à conquista do poder, (2012), de Lira Neto, entre tantos outros. Já no cenário fílmico, Vargas aparece em muitas produções, como em Getúlio Vargas, 1974, de Ana Carolina Soares, O mundo em que Getúlio viveu, (1963), de Jorge Eleli, Olga, (2004), de Jayme Monjardim, minissérie JK, (2006), de Maria Adelaide Amaral, entre outros filmes e documentários que mostraram um pouco ou muito da vida na Era Vargas.

Para quem viajar até o Rio de Janeiro, uma boa dica é incluir no roteiro, uma visita ao Memorial Getúlio Vargas, localizado na Praça Luís de Camões, no bairro Glória. Quem quiser obter mais informações sobre o memorial, virtualmente, é possível através do site: www.rio.rj.gov.br/memorialgetuliovargas.

Getulio também influenciou grandes artistas da música regional, como o cantor e também ídolo dos gaúchos, Teixeirinha.

Confira abaixo, um pequeno trecho da música:

“Vinte e quatro de agosto a terra estremeceu
Os rádios anunciavam o fato que aconteceu
As nuvens cobriam o céu, o povo em geral sofreu
O Brasil cobriu de luto, Getulio Vargas morreu.”

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