No quintal de casa


Por Agência CentralSul de Notícias

 

A tragédia do dia 27 conseguiu fazer o povo parar. Literalmente parar e pensar. Não reconheci, até agora, alguém que não tenha tido um momento de reflexão.

Nessa sociedade midiática na qual assistimos as guerras da poltrona de casa, comendo um sanduíche e comentando sobre os ataques e os mortos, tudo é possível. Mas, tudo está muito distante do quintal da nossa casa. Queremos acreditar nisso. Olhamos os mortos que se acumulam dia a dia na Síria e não mudamos nossa rotina. Essas barbaridades, como diz o gaúcho, não é  parte do nosso dia a dia, não estão próximas do nosso quintal.

Grandes tragédias são coisas para as grandes metrópoles, que estão sujeitas a elas. Esses lugares que tem mais de 5 milhões de habitantes. Essas cidades que estão na rota dos terroristas, dos grandes assaltos, das grandes obras. Essas catástrofes não são para Santa Maria, que é uma cidade relativamente calma, ainda não tem 300 mil habitantes. Aqui as coisas ainda são pacatas. Vive-se em torno da estudantada, das trocas de experiências dos que aqui chegam para viver, do movimento nos vestibulares e algumas manifestações aqui e acolá. Vivemos a tranquilidade de uma cidade interiorana e muitos aqui se instalam para viver essa paz.

O bafo dos morros que circula a cidade,  tanto reclamamos da panela de pressão durante os meses de janeiro e fevereiro, deu lugar a outro calor.  O fogo que modificou para sempre a vida de todos que circulam pela Av. Rio Branco, que andam de ônibus para o Campus, dançam na noite e curtem um barzinho no final do dia.

A fumaça que tirou as tragédias da tela de led da TV e colocou a catástrofe no nosso quintal.. As referencias eram outras. A realidade nua e crua batia na nossa porta e sem pedir licença. Sim,  da forma mais cruel, levando 236 jovens, aqueles que outro dia assistiam aula, dobravam a esquina, trabalhavam na cidade e viviam a vida.  E nesse momento nossas vidas perderam o sentido. Ficamos perplexos, estarrecidos, inseguros e incrédulos.

Agora somos estatísticas no mundo inteiro. Da forma mais cruel: pela contagem daqueles que deixam a vida. Passamos a entender o verdadeiro sentido de tantas perdas. Não olhamos mais para a televisão da mesma forma. Deixamos a rotina de lado e choramos com todas aquelas imagens, pela nossa  impotência. Queríamos parar o tempo, voltar as imagens e editar tudo de novo. Não queríamos acreditar no que estava acontecendo, não naquelas proporções. Por que?? Santa Maria não era cenário para isto. Mais parecia uma história mal contada.

Mas, para a infelicidade de todos o quadro que pintava era pior,  maior do que todos nós sonhamos um dia. A tragédia estava no nosso quintal. Agora começamos a entender a dor, o sofrimento, o desespero de algumas pessoas que vivem uma guerra, um ato terrorista e tantos outros modos brutescos de perder a vida. As imagens que cansamos de ver na ficção,  estão na nossa vida, agora fazem parte do nosso mundo e não terão a licença poética do diretor, pois a realidade é mais dura.

Ainda não compreendemos de que forma trabalhar tudo isso. Mas, com certeza, aprendemos que a vida pode ser interrompida a qualquer hora. Que as tragédias não estão somente na tela da TV. Elas chegam sem avisar e deixam muitas, muitas vidas sem sentido. Não existe lugar e nem hora para acontecer. Entendemos que a dor dilacera, que nada ampara e que o desespero é muito maior numa morte trágica.  Aprendemos a olhar de outra forma as tragédias e suas vítimas. E, principalmente, passar a olhar a nossa vida de outra forma, com mais solidariedade, carinho e amor.

Maria Cristina Tonetto, jornalista e professora do curso de jornalismo da Unifra.

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