Olhos em transe: riscos do uso excessivo de telas eletrônicas


Por Iuri Patias

 

Os brasileiros passamos cerca de sete horas diárias em frente a telas eletrônicas. Estamos em terceiro lugar no ranking mundial. Imagem: Google Images.

“Ooops, o celular apitou! Nova mensagem no Whatsapp? Talvez no Messenger? Quem sabe foi o Snapchat? Esquece, tem série nova no Netflix – ou acaba de estrear uma nova temporada de outra. Na verdade, agora não é uma boa hora para isso, afinal de contas, tem muito trabalho a ser feito no computador. Mas antes, é melhor relaxar jogando videogame”. Blackout!

Ainda que não sigam ordem cronológica, essas atividades são corriqueiras na vida de boa parte da população brasileira. Da simples checagem de uma mensagem no smartphone até a utilização do computador como ferramenta de trabalho no dia-a-dia, uma certeza: nos tornamos escravos das telas eletrônicas.

O brasileiro passa, em média, sete horas diárias em frente a diferentes tipos de telas eletrônicas, marca que nos coloca em terceiro lugar no ranking mundial. O dado vem de um estudo realizado em 2014 pela agência de marketing norte-americana Milward Brown AdReaction. A pesquisa aponta que os brasileiros dedicam 149 minutos do dia à tela de um smartphone, 146 minutos a computadores; passam 113 minutos em frente à TV e outros 66 usando tablets.

A exposição contínua a telas eletrônicas é uma realidade, mas – como qualquer coisa na vida – o uso excessivo pode causar uma série de complicações no organismo, principalmente quando se trata da visão. “Desconforto, coceiras, sensação de corpo estranho e olhos vermelhos são os sintomas externos mais comuns; apesar de não serem tão graves, são os que mais incomodam. Os sintomas mais preocupantes, entretanto, estão relacionados à acomodação, a contração muscular, que ocasionam dor de cabeça, cansaço visual, sonolência e dificuldades de leitura à noite”, detalha o oftalmologista Ricardo de Martini.

O oftalmologista Ricardo de Martini indica o uso de telas de led aos pacientes. Foto: Iuri Patias.

Cerca de 15% dos brasileiros adultos sofrem da chamada Síndrome de Visão do Computador, decorrente da exposição contínua ao brilho emitido por desktops ou notebooks. Entre os sintomas, estão problemas como visão embaçada e olhos secos. E, mesmo cientes dos males, driblar a necessidade de uso diário de telas eletrônicas é uma dificuldade para a maioria. É o caso do funcionário público José Altamir Rosa, 55 anos, que afirma ser praticamente impossível  ficar longe da luminosidade dos aparelhos em seu cotidiano. “Dependo muito do computador, de modo que – só no trabalho – permaneço utilizando-o por aproximadamente oito horas”. “É difícil de tentar alterar esse hábito quando o uso da ferramenta é extremamente necessário para a execução de minhas tarefas diárias”, conta.

Para Martini, não há como evitar o uso de telas no trabalho, mas é possível driblar os problemas mantendo certos cuidados: “Hoje em dia, nós não orientamos mais que o paciente não tenha acesso ao computador. Ele tem que ter. A vida exige que as pessoas acessem diariamente o computador. Então, o que a gente orienta é que as telas sejam de led. Que sejam grandes, no mínimo 14 polegadas; que a distância seja razoável, entre 60 e 70 centímetros; e que a sala seja iluminada, já que a luz do computador não é suficiente. A Altura da tela também é algo de suma importância. As pessoas erguem a  tela pra ficar no nível de olho, e isso está errado. A tela tem que ficar mais baixa, dessa forma, possibilita que o olho fique um pouco mais fechado e melhore a lubrificação, já que o principal problema do computador em relação aos olhos é o ressecamento”, afirma o oftalmologista.

Por outro lado, os problemas relacionados à luminosidade das telas de computadores estão longe de ser a maior das preocupações. Isso porque as grandes vilãs são as minúsculas telas dos smartphones! Para a acadêmica de jornalismo Luana Rodrigues, 19 anos, ficar longe de seu celular é uma tarefa quase impossível. O aparelho permanece em suas mãos por mais de 10 horas diárias. “ Fico toda hora coversando com alguém, ou atualizando meu Snap e Facebook. Qualquer nova notificação que recebo já é motivo pra ‘correr’ lá e checar. Quando percebo, já foram 10, as vezes 15 horas do meu dia em frente a tela de meu smartphone”, conta.

Luana Rodrigues: universitária chega a passar 15 horas diárias no smartphone. Foto: arquivo pessoal.

“A tela do celular é um problema. A fonte é menor, a distância de leitura é pequena e a tela é pequena. Então a exigência visual é muito maior”.  “A gente vê cada vez mais a tal da miopização devido à acomodação visual. O fato de o paciente ficar muito tempo olhando perto acaba dificultando a visão de longe. Por esse motivo, quando os pacientes se queixam deste problema, já sabemos que é alguma coisa relacionada ao esforço visual excessivo por conta do uso de smartphones”, relata o médico especialista.

Estudo realizado pelo instituto The Vision Council, observou que 68% dos nascidos nos anos 90 sofrem de tensão nos olhos, igualmente oriunda da exposição às telas eletrônicas. Outro dado interessante está relacionado ao número de vezes que piscamos. Normalmente um adulto pisca, em média, vinte vezes por minuto. Quando está exposto a qualquer tipo de tela eletrônica, porém, este número cai para seis, ocasionando ressecamento ocular e o consequente surgimento de problemas secundários, como problemas inflamatórios e até mesmo infecções.

Mas ainda que sejam inúmeros os problemas resultantes do uso excessivo de telas eletrônicas, Martini atenta para um dos mais preocupantes: a exposição à luz azul. “Hoje sabemos que o espectro luminoso da luz azul – que a maioria das telas tem – é danoso à retina, porque aumenta o processo degenerativo natural dela. A longo prazo, pode ser grave, porque a degeneração macular é uma das principais causas de cegueira no Brasil. Mas hoje temos óculos com bloqueio a luz azul, e outras formas interessantes de se lidar com este problema”, afirma.

Em uma sociedade cada vez mais conectada e dependente de aparelhos eletrônicos, certos cuidados devem ser tomados e atualizados. Na medida em que o número de smartphones e computadores no Brasil já chega a 168 e 160 milhões, respectivamente, concentrar nossos olhos em qualquer outra coisa é uma tarefa cada vez mais complicada, mas necessária.

 

Esta é uma produção para a disciplina Jornalismo Especializado III, do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano, durante o segundo semestre de 2016.

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