A ciência da meditação


Por Agência CentralSul de Notícias

 

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A ideia de que a meditação é algo exclusivo para monges, que se isolam da sociedade em busca de iluminação está, cada vez mais, caindo por terra. A luta diária contra o relógio, prazos e cobrança dos outros e de si mesmo por sucesso e realização estão fazendo muitas pessoas procurarem antídotos para a ansiedade que só parece aumentar.  Além desse cenário, a meditação também pode ser uma grande aliada da  saúde, prevenir doenças, regular o ritmo do corpo e proporcionar uma vida com mais qualidade. É por isso que as práticas meditativas, apesar de milenares, têm sido utilizadas de maneira bastante expressiva nos dias de hoje.

Não existe uma definição objetiva do que seja a meditação, pois ela varia de acordo com o contexto que está inserida. Ela pode, por exemplo, variar de acordo com a religião de origem, ou pode ser utilizada de maneira secular. De qualquer forma, pode-se dizer que é uma prática de autorregulação do corpo e da mente, caracterizada por um conjunto de técnicas que treinam a focalização da atenção.  

É possível classificar, de uma maneira ocidental, a meditação em dois estilos básicos: mindfulness e concentrativo.

O mindfulness pode ser considerado uma prática de abertura, em que há um cuidado na percepção dos estímulos do  corpo, como pensamentos, sentimentos e sensações. No entanto, a atenção mantida deve ser uma observação livre, sem julgamentos ou análises criteriosas.

Já o concentrativo restringe a atenção a um elemento, desconsiderando os estímulos do ambiente, focalizando uma atividade mental ou sensorial como um som (mantra) ou a respiração, por exemplo.

Rodrigo Debiasi, oncologista, utiliza técnicas de yoga e meditação no tratamento dos pacientes. Foto: arquivo pessoal

Nas últimas décadas, pesquisadores submeteram monges e meditadores a baterias de exames para descobrir o que acontece no cérebro dos praticantes. “Os cientistas descobriram que a meditação provoca um efeito físico na nossa massa cinzenta que ajuda a combater a degeneração cognitiva. O controle da mente também reduz o stress, uma das principais causas de doenças crônicas no mundo, além de recuperar o nosso DNA e ser um eficiente remédio contra a dor”, comenta o oncologista clínico Rodrigo Debiasi.

Meditação e redução da ansiedade

Sessões regulares de mindfulness reforçam o foco e a calma, melhoram a comunicação entre as áreas cerebrais e, como consequência, a capacidade de lidar com situações adversas. Outro benefício é a redução dos níveis do hormônio do stress, o cortisol.  Quando as taxas desse hormônio ficam elevadas por muito tempo, podem enfraquecer o sistema imune. “Ao reduzir o cortisol e aprimorar a forma como lidamos com nossos problemas, o sistema de defesa é reprogramado. Biomarcadores ligados a inflamações são reduzidos, blindando o organismo contra infartos, AVCs, diabetes e até o câncer”, explica Debiasi.

A meditação preserva a atividade de uma enzima, a telomerase, que protege os telômeros, estruturas marcadoras da idade celular formadas por DNA e proteínas. Cada vez que uma célula se divide, os telômeros ficam menores, enquanto a telomerase trata de reconstruí-los. Se a enzima não funciona como deveria, os telômeros ficam mais curtos, e a pessoa se torna mais propensa a infartos, diabetes, obesidade, depressão e desenvolver doenças degenerativas como a artrite e a osteoporose.

Como a meditação atua no corpo

O endocrinologista Rafael Reinehr. Foto: arquivo pessoal

O médico endocrinologista Rafael Reinehr elucida que a meditação está ligada a uma redução da atividade do sistema nervoso simpático, que leva a efeitos benéficos como redução da adrenalina, noradrenalina e do cortisol, um aumento do óxido nítrico, com consequente redução da frequência cardíaca, da pressão arterial do consumo de oxigênio, da glicose e da tensão muscular.

“Estudos de neuroimagem por SPECT cerebral conseguiram demonstrar que a meditação, praticada durante pelo menos dois meses, já é capaz de modificar a densidade e a atividade de áreas cerebrais como o giro do cíngulo e as amígdalas cerebrais, levando a uma menor irritabilidade e impulsividade, além de aumentar a atividade de áreas cerebrais responsáveis pela atenção, pela calma, pelo bem-estar e pela felicidade”, explica Rafael.

Além dos benefícios já comentados, Reinehr também explica que a meditação traz uma melhora na performance cognitiva, melhora da insônia e de sintomas em pacientes com dor crônica, fibromialgia, síndrome do cólon irritável, dentre outros.

Dessa forma, a meditação proporciona a criação de um ecossistema imunológico, hormonal e metabólico, indissociável do sistema neuroendócrino, que produz benefícios em larga escala em vários órgãos e sistemas corporais.

Nessa mesma linha, o médico Rodrigo Debiasi comenta que através da hipertrofia da massa cinzenta em áreas corticais relacionadas à atenção e outras áreas como a ínsula (núcleo duro das emoções) e o hipocampo (guardião da memória), a meditação pode servir como um antídoto contra o envelhecimento cognitivo, uma vez que as áreas citadas tendem a diminuir com o envelhecimento. “Além disso, a atividade no lobo frontal aumenta muito, o que faz com que o praticante experimente uma sensação mais clara de felicidade, e tenha menos pensamentos negativos”, explica o oncologista.

Meditação e estudos científicos

Apesar das práticas meditativas serem antigas, as comprovações científicas de seus benefícios são bastante recentes. A meditação tem sido estudada desde o início da década de 1950, ganhando força nas últimas duas décadas. “O interesse crescente faz com que hoje já encontremos mais de 4800 referências na busca pelo termo “Meditation” e mais de 5300 na busca pelo termo “Mindfulness” no PubMed, um repositório de artigos científicos”, explica Rafael Reinehr, que está compilando artigos científicos em um livro, a ser publicado no final deste ano, com o título “Os Efeitos da Meditação na Saúde Humana”.

O desenvolvimento tecnológico possibilitou a criação de exames de imagens que documentassem as alterações na atividade cerebral para análise científica. A melhora na resolução desses exames também tem ajudado os cientistas a chegarem em resultados mais minuciosos das alterações da espessura e do tamanho das áreas cerebrais. “Sem essas ferramentas, seria muito difícil mostrar dados objetivos a uma comunidade científica que cada vez mais se concentra em números e porcentagens. Apresentar apenas dados de testes de qualidade de vida, por exemplo, sujeitos a uma imensa variabilidade no aspecto subjetivo, teria muito menos credibilidade, pois careceria de comprovações anatômicas e fisiológicas”, comenta Debiasi.

Apesar dos avanços científicos, alguns autores advertem que ainda é necessário pesquisas com metodologias mais rigorosas que comprovem que os benefícios da meditação não sejam subjetivos. Por outro lado, há uma grande quantidade estudos que sugerem que a meditação é de fato a responsável pelos efeitos positivos. Isso faz com que o assunto seja um terreno fértil para ser explorado nos centros de pesquisa e, na medida em que os resultados se tornam mais conclusivos, a prática seja ainda mais reconhecida.

“Da forma com que é feita hoje, na busca de rigor científico, os passos para realizar uma pesquisa são árduos e caros. Nem sempre se consegue reunir uma equipe e os recursos necessários para a concretização de uma pesquisa bem desenhada, justamente pela falta de interesse econômico por trás destas pesquisas. Afinal, quem vai lucrar com algo que devolve poder às pessoas?” questiona Reinehr.

Seja qual for o estilo de meditação preferido, é importante fazer da prática um hábito, pois seus benefícios são mais aparentes nas pessoas que praticam por mais tempo. O fato da meditação não necessitar de muitos recursos e proporcionar uma vida leve e consciente, faz com que cada vez mais pessoas adotem a prática em suas vidas. E se você ainda não medita, motivos não faltam para começar.

Referências: MENEZES, Carolina Baptista; DELL’AGLIO, Débora Dalbosco. Os efeitos da meditação à luz da investigação científica em Psicologia: Revisão de Literatura. http://www.redalyc.org/html/2820/282021772005/ Acesso em 16 de junho, 2018.

Por Diego Garlet dos Santos. Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Científico

 

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