As tragédias e a necessidade da reparação simbólica em debate


Por Caroline Comassetto

 

Painel discute a Fotos: Juliana Gonçalves/LABFEM

O painel Memórias em Movimento: reparação simbólica e espaço público, do 9º Interfaces no Fazer Psicológico da Universidade Franciscana reuniu na manhã desta terça-feira, 28, o Antropólogo Social da Universidade de Buenos Aires, Diego Zenobi e as mães Ligiane Righi e Vanda Dacorso integrantes do grupo Mães de Janeiro e da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM).  

Vanda, mãe de Vitória Dacorso, vítima da tragédia na Boate Kiss em Santa Maria, iniciou sua fala fazendo uma ressalva aos psicólogos, estudantes de psicologia e outros profissionais da saúde mental presentes no painel, no que diz respeito ao termo evento. Vanda acredita que, apesar da palavra ser um termo comum ao tratar de psicologia, não é o tratamento apropriado para se referir a morte de 242 jovens no incêndio da Boate Kiss no dia 27 de janeiro de 2013, como também não o são os termos jurídicos acidente e incidente. “Evento é aquilo que diz no dicionário, algo que se promove, uma festa, algo programado. Para nós não foi isso. Foi crime, massacre, homicídio” declara Vanda.  

Para ela, é dever dos profissionais e da comunidade tratar o tema com sensibilidade e empatia uma vez que inúmeras famílias perderam seus filhos. Vanda destaca também a importância da rede de apoio que as famílias receberam no momento da tragédia, inclusive dos profissionais menos lembrados, como os taxistas da cidade. A mãe de Vitória considera que a ressignificação do incêndio é a tenda de vigília montada na praça Saldanha Marinho. “A tenda é o nosso lugar de resistência, de encontro, de risos e choros”, afirma Vanda.

“A tenda começou em 2013 com a intenção de fazer vigília para os 242 jovens”, corrobora Ligiane Righi, mãe de Andrieli Righi, também vítima do incêndio na boate. E lembra as críticas e julgamentos que os familiares sofrem pelos pedestres da praça. “As pessoas chegam na tenda, muitas vezes, para dizer: chega, passou, virem a página. Mas não é assim; não se diz isso para um pai ou mãe, pois, pais não esquecem seus filhos nunca”,afirma. E enfatiza: “Não podemos deixar esquecer, pois, o amor pelos nossos filhos é maior que tudo isso”.

Para que não se repita  

Para Ligiane a ressignificação da tragédia está nas ações das pessoas, como ir à tenda, fazer vigília, amparar e apoiar outros pais e mães que também perderam seus filhos, criando uma rede de amor. Um dos exemplos citados por Ligiane são as peças de tricô e crochê feitas pelas mães da Associação e doadas à comunidade. Isso, segundo as mães, ajuda a trazer ressignificação para outros pais também. “Perder um pai ou uma mãe é a ordem natural da vida. Perder um filho, não!”, declara Ligiane.  Com isso, ambas as mães fazem um alerta aos jovens presentes: “Saiam e se divirtam, pois vocês têm direito, mas nunca esqueçam da segurança”.

Outro assunto abordado por Vanda e também Ligiane é a necessidade de punição dos responsáveis. “Espero a Justiça do mundo divino, pois a Justiça do mundo material nos é falha”, acredita Vanda. “Nós temos que cobrar de todos os órgãos públicos em todas as instâncias, para que não se repita esta tragédia”, finaliza a mãe de Vitória.   

Reparação Simbólica

Diego Zenobi, da UBA e Camila dos Santos Gonçalves, da UFN.

Para Diego Zenobi, doutor em Antropologia Social e pesquisador da Universidade de Buenos Aires, uma ressignificação semelhante à tenda de vigília em Santa Maria é o santuário em homenagem às vítimas da Boate Cromañon, em Buenos Aires, na Argentina, criado após a tragédia em que morreram 194 jovens argentinos.  Zenobi relata que no dia 30 de cada mês, um movimento responsável pela memória da tragédia organiza marchas e vigílias, mobilizações que reúnem de mil a 4 mil pessoas nas ruas de Buenos Aires, pedindo por justiça.  

 O antropólogo conta que na Argentina, na Plaza de la Memoria, há dois memoriais:  um, de responsabilidade do governo argentino, construído em frente ao memorial erguido pelos parentes dos sobreviventes e das vítimas da Cromañon. Não se trata de um confronto mas sim, de dispositivos estatais que reconhecem as vítimas.  Ao falar sobre a relação de impunidade e trauma, o antropólog afirma que se as vítimas não têm Justiça, isso se torna re-traumatizante para os sobreviventes e familiares, ou seja, os sentimentos do trauma voltam” enfatiza Diego.

“Já que o evento traz provocações ético-políticas, gostaria de problematizar, como antropólogo social, o senso comum e o senso comum acadêmico sobre as relações entre as vítimas e os profissionais da saúde mental” argumenta Diego. Ele descreve o cuidado e o modo como os profissionais da saúde mental naquele país contribuíram e disponibilizaram ferramentas para as vítimas superarem o trauma e o estresse pós-traumático. Ele lembra que, na Argentina, não há um sistema único de saúde como o  SUS brasileiro. Daí o atendimento às vítimas num serviço descentralizado realizado por muitas clínicas. 

 Para ele, há a necessidade da reparação simbólica. “Este é um paradigma muito debatido pelas organizações internacionais como a ONU e Comissão Interamericana de Direitos Humanos, pois é uma categoria relevante para a reparação das vítimas”, diz ele.   

Segundo o antropólogo, na Argentina há profissionais que atuam em conjunto nas áreas de saúde mental e direitos humanos . Assim há mestrados, licenciaturas, disciplinas nas universidades e especializações que desenvolvem a política e a técnica de ambas as áreas, capacitando melhor os profissionais do meio.  

 

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