Discoteca da Memória: a sofrência


Por Lucas Schneider

 

Quer queiram, quer não, ninguém pode se livrar das garras desse amor gostoso. Ou passamos a sofrer da terrível sofrência. A seguir, três discos repletos de dor, causada pelos sentimentos perdidos e inatingidos do amor, aquele monstro sádico.

Derek and the Dominos – Layla and Other Assorted Love Songs (1970)

 Lá pelos idos da década de 60 Eric Clapton se encontrava na pior. Estava apaixonado por Pattie Boyd, já comprometida. E pior, esposa de seu melhor amigo, George Harrison. Cansado e cada vez mais caindo de amores, naquelas de pensar na pessoa todos os malditos dias da vida que seguia, e querendo não sofrer mais, Clapton resolveu declarar a ela seus sentimentos. O casamento já estava em ruínas, e malandro que só ele, resolveu aproveitar a deixa. Não deu certo. Pattie continuou na tentativa de resolver seus problemas matrimoniais com o ”beatle quieto”, que também não era lá o santinho que todos achavam que era. Esses piscianos, tão imprevisíveis. Clapton, por sua vez, resolveu ter um caso com a irmã de Pattie, Paula, apenas pela semelhança física e uma maior aproximação de Pattie. Não é preciso dizer que isso só piorou a situação. O guitarrista então entrou numa depressão pesada, se viciando em heroína e álcool. Nenhuma novidade aí. Cheio de dor, decidiu formar um novo grupo com os músicos de estúdio Bobby Whitlock, Jim Gordon e Carl Radle. Surge Derek and the Dominos. Lançaram apenas um disco, duplo, todo dirigido à Pattie. Clapton convidou Duane Allman, o herói dos Allman Brothers, para transpor a delicada raiva e chororô em seus slides. Layla foi dividido entre canções autorais, inspiradas pela tragédia amorosa de Clapton naquele momento, e covers, que também falam das dores do amor inatingível. As observações de Clapton sobre suas agruras e sofrimento o permitem sonhar, se declarando em canções sobre o pecado de amar a mulher de outro e ser dela, não importa a distância que seja. Parece estranho, e com certeza o é. ”And if it seemed a sin/To love another man’s woman, baby/I guess I’ll keep on sinning/Loving her, till my very last day” (E se parece pecado/Amar a mulher de outro homem, baby/Eu acho que continuarei pecando/Amando ela até o último de meus dias), é o que canta Bobby Whitlock, soltando a voz num tom grave. Quase um pastor. Obsessão nunca soou tão trágica, determinada e sinistra. A razão, causa e circunstância do porque Clapton não cantou nesse trecho tão pessoal é um mistério. Já em Have You Ever Loved a Woman, um antigo blues de Chuck Willis, é ele que dá o ar de sua desgraça: ”Have you ever loved a woman so much you tremble in pain?/And all the time you know she bears another man’s name”. (Você já amou uma mulher tanto a ponto de tremer de dor?/E todo esse tempo você sabe que ela carrega o nome de outro homem). Arrepios. É um disco basicamente pop com temperos de blues e soul, derramando a angústia por todos seus quatro lados. A banda é afiada, tocando na precisão de um senhor Miyagi. Jim Gordon é um monstro na bateria, sempre com suas viradas marotas. Ouvir essa viradas no fone de ouvido é um prazer inenarrável. O disco também serve como veículo para o lado cantor de Clapton, aqui em seu melhor registro vocal. Ele se entrega às canções. Parece cansado, abatido pela sua dor. Mas determinado. Sua voz soa fraca e potente ao mesmo tempo. O timbre levemente sujo, talvez pela quantidade de álcool consumida para tentar aliviar seus pensamentos. E há o clássico dos clássicos, Layla. Um hino. Riff histórico presente em tudo o que há de clássico nesse mundo, e letra inspirada num conto persa de amor proibido. É a que mais se dirige diretamente à Pattie Boyd. Clapton soa raivoso, indagando sobre a escolha dela em permanecer num casamento já falido, e a ameaça de ficar sozinha pelo resto da vida quando as coisas ficarem feias para o seu lado. Homens, sempre tão… dramáticos. A banda acabou um tempo depois. As drogas cada vez mais afetaram Clapton, que se isolou. Apenas anos mais tarde é que seu sonho enfim se realiza, com o fim do casamento de George e Pattie, e os dois se permitem amar. Se casam em 1979, e o resultado não foi tão maravilhoso quanto o desejo de Clapton achava que seria. Talvez pelo abuso de drogas, Clapton deixou de se preocupar com Pattie, e sua vida teve ainda mais dor, muito mais dor, até se separarem no final da década de 80. No final, tudo pareceu mais um caso de mera paixão e perdição. Triste.

Destaque: Why Does Love Got to Be So Sad? – Um furacão banhado em groove, raiva e melancolia. Talvez é a que mais resume o espírito do disco e do estado de Clapton naqueles tempos. Clapton dispara lamentos piedosos sobre a distância entre os dois em seus versos. Ele não consegue parar de pensar nela, resumindo os efeitos que a paixão promove em nossas cabeças, para terminar perguntando o ”por que do amor ser tão triste”. Ah, esse monstro sádico. ”Like a song without a name/I’ve never been the same since I met you” (Como um canção sem nome/Eu nunca mais fui o mesmo desde que te conheci), canta. Nada mais direto. A banda se mostra no maior dos frenesis. As linhas do contrabaixo de Carl Radle dançando no ar, Jim Gordon mantendo o ritmo com suas viradas precisas e Clapton e Allman duelando em suas guitarras. Clapton num riff violento e rítmico, e Allman solando uma slide agressiva e melódica, chorando de desgraça. Dá até pra sentir a faísca soltando na alma.

Arnaldo Baptista – Lóki? (1974)

  Arnaldo Baptista também não estava nos melhores dias após sua saída dos Mutantes em 1973. Com a saúde cada vez mais debilitada pelo uso intenso de substâncias lisérgicas, e tal qual um Syd Barrett brazuca, demonstrando um comportamento dos mais bizarros, se encontrava em plena desgraça. Ainda tinha o fato de, pelo menos é o que conta a história, estar obcecado por Rita Lee, sua colega de banda e ”alma gêmea”. Mas também nem tanto. Em sua autobiografia, Rita conta que Arnaldo não era assim tão chegado nela, e quando surgia, era só pra atazanar. Talvez o primeiro embuste da história, quem sabe. Ou como já foi dito antes, apenas resultado dos efeitos que a paixão, ou o amor, causa nas pessoas. Você sabe, nos tornamos relativamente estúpidos em meio aos nossos sentimentos. Rita também afirma que eles eram sim ”almas gêmeas”, ao menos nos primeiros anos de convivência. Era uma relação mais familiar do que meramente sexual. Se completavam. Duas crianças fazendo peraltices. Amando ou não, e assim sendo, Arnaldo, após compor material novo, se fecha no estúdio, acompanhado de Liminha e Dinho, também parceiros de Mutantes, e grava seu primeiro e melhor disco. Lóki? é uma obra-prima, daquelas que já nascem com esse dom. Arnaldo se entrega na autopiedade. A produção crua e urgente ao extremo é um ótimo pano de fundo para um disco repleto de angústia e dor. Não é exatamente um disco de sofrência, mas sim de sofrimento no sentido mais melancólico e amplo da palavra. Arnaldo se deixa afundar na sua dor e delírio constante. Sobre as composições, afirmou certa vez não terem relação nenhuma com Rita, mas é impossível não pensar na presença constante dela em torno da obra. E se não dela, de alguma outra pessoa. É um disco muito subjetivo, com reflexões melancólicas sobre tempos áureos, saudade, perdição, fuga nos próprios pensamentos, solidão, isolamento e morte. Tudo transcrito na leveza do brilho dos dias pela aura de uma mente perturbada. Entre a desesperança e a esperança. Ele ama Rita, ou essa outra pessoa, e a quer de volta. Tudo nos mais altos padrões de sinceridade. E mesmo assim, Lóki? não soa exatamente depressivo. Nada é maçante aqui. Suas músicas, mesmo tristes, também são alegres. Há rock no meio das baladas melódicas. O trio mostra ao ouvinte que funciona em perfeita harmonia. O som é potente e leve na mesma exatidão. Tudo executado na maestria. Arranjos simples, porém complexos, andamentos e quebradas progressivas. Arnaldo mostra todo seu lado erudito. Criação de família. A atmosfera é íntima. O instrumental é composto apenas por piano, baixo e bateria, com eventuais participações de outros instrumentos, e da própria Rita nos backing vocais em duas faixas. Arnaldo está ferido em suas interpretações, sem demonstrar precisamente isso. Sua voz bastante jovem e potente. Canta num corriqueiro cansaço a sua esperança no futuro, suas reflexões sobre um país que ainda é criança, esperar o apocalipse na tentativa de reencontrar um amor perdido, sua solidão, não estar nem aí pra morte, pra sorte e ter como meta apenas ”decolar toda manhã”, além de se ver apegado ao passado, a coisas que lhe dão prazer e a indagar se vai virar bolor. Sentimos sua depressão. Após o disco, Arnaldo entraria numa longa fase de refúgio, perturbando Rita mais algumas vezes, formando a Patrulha do Espaço, passando por crises e decaindo cada vez mais em seu estado mental, culminando na trágica tentativa de suicídio ao se jogar da janela de seu quarto, no terceiro andar de um hospital psiquiátrico. Arnaldo, é claro, sobreviveu, conheceu Lucinha Barbosa, sua companheira desde então, se recuperou dos traumas e hoje está aí de boas com a vida.

Destaque: Desculpe – A perfeita definição de uma balada corta-pulsos. Chorosa, na maior sensibilidade melódica. Letra das mais confessionais e depressivas. Um pedido de desculpas cheio de ternura. Arnaldo está saudoso e esperançoso. E desolado também. Só a quer de volta. Se sente o maior dos lixos. ”Sinta o barato de ser ser humano, comigo”, canta. Então ele se fecha em seu casulo. ”Não sou perfeito, nem mesmo você… Riiiiiiiii!”, lamenta. Há dúvidas quanto à natureza do ”riiiiii”. Rita? Uma síndrome do pânico? Ou apenas um delírio imposto pela loucura da tristeza do momento? A música segue na tranquilidade, com eventuais progressões melódicas durante seu trajeto e ganhando força em algumas passagens mais íntimas. E capta toda a essência da letra. É como se estivesse lá, uma parte de si mesma, sofrendo ao lado de seu criador toda a solidão desesperada expressa em seus versos. Há um clavinet que torna a canção transcendental. Entre Beethoven e Bach, duelando nos anéis de Saturno. Tudo na maior angústia, das mais pesadas.

Bob Dylan – Blood on the Tracks (1975)

Situação parecida a de Bob Dylan em 1975, passando por uma crise no casamento com Sara, sua esposa há mais de dez anos. Talvez isso tenha o influenciado a gravar seu disco mais confessional na sua gigante discografia. O disco fala do fim de uma relação, do ponto de vista adulto e amadurecido. Há todas as diferentes fases, como negação, lembrança de momentos felizes, raiva, tristeza, medo da perda, medo da solidão, solidão em si, desespero e aceitação. Dylan diz que as canções não foram inspiradas em sua vida pessoal, já que, em suas palavras, não escrevia letras autobiográficas. Sua principal fonte foram as histórias curtas do escritor Anton Chekhov. Já Jakob Dylan, o filho, apenas uma criança quando esteve presente nas gravações de Blood on the Tracks, declarou que o álbum inteiro é uma conversa entre seus pais. Autobiográfico ou não, a obra reflete o teor íntimo de seu autor. Desprovido de grandes produções, o disco é seco como o fim de uma relação. Bem apropriado para as letras cheias de amargura, melancolia e dor. E aceitação também. Dylan admitiu ficar surpreso com o sucesso e relevância do disco para seus fãs. ”Um monte de gente me disse adorar o álbum. É difícil concordar com elas. Quero dizer… Pessoas curtindo esse tipo de dor, sabe?”, declarou sobre sua maior obra-prima. E a musicalidade está mais presente do que nunca. A música de Dylan sempre foi provida de arranjos melódicos e ganchos. Uma pintura musical. Sua interpretação passa do calmo, suave e terno para o irônico, raivoso (mas sem perder as estribeiras) e dolorido. Dylan foi, e ainda é, um grande intérprete. Sua voz analasada, cheia de choro nos lamentos sobre a solidão do abandono e da raiva do momento. Curiosamente o disco poderia ter sido ainda mais cortante em sua estética. Foi gravado originalmente em Nova York, com algumas músicas tocadas apenas no violão. Dylan não gostou do resultado, e foi para sua terra natal, Minnesotta, regravar algumas canções com a presença da banda. Talvez tenha suavizado o teor delas, mas continuam altamente íntimas em suas descrições e observações sobre uma relação em completo desgaste, com um toquinho de esperança. A dor e sofrência em sua roupagem mais lírica. Dylan encerra o disco com uma nota de leve otimismo, companheirismo, saudade, verdade e senso de humor. ”I seen pretty people disappear like smoke/Friends will arrive, friends will disappear/If you want me, honey baby, I’ll be here” (Eu vi pessoas bonitas desaparecem como fumaça/Amigos chegam, amigos vão embora/Se você me quer, querida, estarei aqui), canta em Buckets of Rain. Dylan nunca soou tão sincero em toda sua obra.

Destaque: Simple Twist of Fate – Cinema para os ouvidos. De forma altamente elaborada como só Dylan sabia fazer, descreve o dia de um casal prestes a se separar. Não há nada mais a fazer. Tudo não passa de uma ”simples guinada do destino”. Todo o vazio de acordar e perceber que a pessoa que você ama, e te amava, já não está mais ali. ”She was born in spring/But I was born too late” (Ela nasceu na primavera/Mas eu nasci tarde demais), canta Dylan, sobre a incompatibilidade das ”almas gêmeas”. De uma beleza triste e reflexiva, a melodia é um primor de sensibilidade. Simples – apenas violão, contrabaixo e gaita. É uma canção de uma força monstruosa, te fisgando logo nos primeiros acordes. Entra como uma névoa na nossa mente. O contrabaixo pincelando linhas no nosso cérebro já abatido, ao mesmo tempo acompanhando a melodia, e acrescentando cores na mistura. Podemos ver as imagens na nossa cabeça, passo a passo, com a música de trilha sonora. Ironicamente, o casamento perfeito no meio de um disco sobre uma relação já inexistente.

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