Discoteca da Memória: o ano é 1967


Por Lucas Schneider

 

Antes de tudo, um adendo: a parte chata de redigir aquilo que lhe passa pela cabeça é que, ao reler seu texto diversas vezes, você percebe que esqueceu de mencionar uma ou outra coisa a mais. É uma perturbação interna dos infernos isso. Mas seguimos em frente. Na coluna de hoje estão presentes cinco discos clássicos de 1967 que fizeram história, ao inovar no conceito de música pop e inventar novos estilos que entrariam em cena décadas depois.

Jefferson Airplane – Surrealistic Pillow

          Batidas primais e um riff que mais soa como uma corrida de karts pilotados por aviadores e, de repente, temos a inauguração do verão do amor. Você sabe… quando a juventude foi dominada pelas flores na cabeça, paz, amor e psicotrópicos. Muitos psicotrópicos. O curioso é que Surrealistic Pillow foi lançado em fevereiro daquele ano, em pleno inverno estadunidense. Mas não faz mal, o clima frio toma conta do álbum. E o quente também. Predominantemente acústico, com leves excursões por um território mais elétrico, Surrealistic conta com a estréia de Grace Slick e Spencer Dryden no grupo, substituindo a vocalista Signe Anderson e o baterista Skip Spence. E a banda atinge seu pico comercial e o ponto alto em sua discografia. Somebody to Love e White Rabbit logo se transformam em hinos de uma geração. O disco tinha tudo para soar confuso e desconexo pela quantidade de compositores nele presente. Mas não. Há uma conexão entre as faixas, ligadas pela brisa psicotrópica da época. É também o último momento de brilhantismo de Marty Balin, o fundador do grupo. Esse cara é uma pérola esquecida na história. Falo sério. Sua voz e sensibilidade na elaboração de melodias e arranjos deveriam ser mais valorizados. Balin interpreta com o coração as cinco composições de sua autoria no álbum. Após esse álbum, Grace Slick e Paul Kantner tomariam as rédeas da situação, aumentariam o peso no som do Jefferson Airplane, deixando Balin desconfortável com a mudança brusca, e sendo relegado ao mero papel de um vocalista secundário. Uma pena. Balin foi o compositor mais talentoso de todo o sexteto.

Destaque: Comin’ Back to Me – A grande balada do álbum e a melhor composição do cara talentoso e subestimado da banda. Como não poderia deixar de ser? Acústica, ao som de um delicado dedilhado e a mais bela, triste e reflexiva das harmonias. Há também uma discreta flauta doce que adiciona ainda mais tons reflexivos. Trilha sonora de fundo para momentos em que você só quer se encontrar sozinho, pensando na vida. Balin se entrega numa interpretação sensível e tímida. Sua tristeza nos comove. Na letra, visões de um amor perdido sob olhares poéticos e brisados. Saudade nunca soou tão deprimida. Imagens de desolação e nuvens cinzas. Sim, a famosa fumacinha teve influência na composição. De fato, podemos sentir a brisa de verão de um final de tarde alaranjado na varanda de uma casinha rústica no campo, à beira de um lago.

The Velvet Underground – The Velvet Underground & Nico

         O famoso, mítico e pai de todas as crias, o popular ”disco da banana”. Aqui tudo muda. Não vendeu nada na época. Mas como disse Brian Eno, quem o comprou, formou uma banda. Magistral. Os três primeiros discos do Velvet inventaram modas. Aqui, todo o conceito do que podemos chamar de rock alternativo foi posto em prática. Acessível, mas nem tanto. Entre o pop, pela ótica de Lou Reed, e a vanguarda, influência maior de John Cale. O belo e o feio também. Produção levemente precária, músicos não muito técnicos, batidas robóticas, melodias e arranjos simplórios, e faixas que beiram aos sete minutos. Nenhum teor radiofônico. Músicas calmas e repetitivas numa espécie de mantra elétrico hipnótico. Atmosfera de sono, mas tudo muito agradável e nada sonolento. As letras de Lou Reed apresentam a visão suja das ruas e da vida decadente das grandes cidades. O anti-verão do amor. Drogas pesadas, prostituição, violência, morte e festinhas ruins. Só coisa linda. Produzido financeiramente por Andy Warhol, o artista plástico mais influente do século XX, ou ao menos o mais conhecido. Foi ele que quis que Nico, uma de suas protegidas, participasse do álbum, a contragosto da banda. Canta em três faixas com seu vocal grave falado característico. Não estraga nada a sonoridade do álbum. Ouça. E muito. Nem que seja como música ambiental.

Destaque: All Tomorrow’s Parties – Cantada por Nico, é um exemplo clássico do som que fez o Velvet famoso. Arrastada e repetitiva em seus seis minutos, não cansa nunca. Marcada inteiramente por uma batida neurótica controlada no piano, que te absorve alucinadamente na própria música. Nico, Reed e companhia te transportam para as decadentes festas na Factory, quartel general de Warhol e suas estrelas, sob o olhar de uma misteriosa figura feminina com vestido de trapos e dor na alma. Todo mundo no desespero e desolação de uma vida fútil e blasé. Muito choro e bebida. Por essas qualidades, era a favorita de Warhol.

The Jimi Hendrix Experience – Are You Experienced

        Não há muito o que falar sobre esse disco. Mais inovação. Jimi Hendrix não precisa de apresentações. Mudou a forma de se tocar guitarra e popularizou o uso da distorção no instrumento. Mas a grande mudança aqui está na junção de estilos musicais que formaram um som único e influente a partir da própria visão de Hendrix. Blues, soul, rock and roll, psicodelia, funk, e temos pela primeira vez na história da música pop os moldes de um som mais pesado que se popularizaria na década seguinte. O disco transborda peso e lisergia por todos os poros. A produção é crua até explodir os ouvidos. O grande talento esquecido de Hendrix também se encontra aqui em todas suas forças: suas composições, um pouco deixadas de lado em prol do peso. Mais sobre isso na próxima coluna. Aguarde!

Destaque: Manic Depression – Peso, barulho e violência. Hendrix lamenta as dores de um amor inatingível. Você já deve ter notado que boa parte dos destaques em cada álbum aqui citados tratam das angústias que o amor nos causa. Amor é um sentimento universal. Está em todos os lugares. E nada melhor do que esse tema tão trágico como pano de fundo para a música pop. É o alimento primário que move esse tipo de som. A angústia de Hendrix é banhada em um riff tiranossaurico em conjunto com o ritmo da batida neurótica de Mitch Mitchell. Uma marcha militar marciana. A guitarra em si é um primor. Hendrix a faz lamentar de desespero angustiante. O casamento perfeito entre letra e música, parindo uma dor imensa. Tenso.

The Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band

       Em seu disco mais famoso, os Beatles decidem investir numa produção mais esmerada. E a indústria musical nunca mais foi a mesma desde então. Os discos passaram a ser um elemento primário, com uma produção mais cuidada e faixas compostas e selecionadas especificamente como um conjunto, não mais como uma colcha de retalhos feita apenas para vender. Há também um conceito por trás do álbum, com os Beatles emulando uma banda fictícia, a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, originando assim o álbum conceitual, que busca contar uma história ou um conceito através da ligação entre suas faixas. Mas deixe isso de lado e foque apenas no conjunto de canções. São especialmente mágicas. Nada mais a ser dito. Aqui, Paul McCartney assume a liderança. Por sua vez, John Lennon, naquela época em sua fase de ”homem mais preguiçoso da Inglaterra”, só contribuiu com três composições solo, mais duas em parceria com McCartney. Tenho um carinho especial por esse disco, repleto de canções que continuam a tradição de pedaços de torta de chocolate no catálogo dos Beatles. O maior destaque no disco é o contrabaixo de Paul, com suas linhas cada vez mais melódicas. Aqui soam como um fio condutor das canções, um narrador apresentando os personagens. E devo ser o único ser nesse planeta a amar de paixão a única composição de George Harrison no álbum, Within You Without You. Um exercício de pura música indiana, e tão viajandona quanto o resto do álbum, que faz todo mundo chiar de sono. Quem perde são eles.

Destaque: Being for the Benefit of Mr. Kite – A magia das atrações circenses em dois minutos de esplendor pop, composto por John Lennon após comprar um cartaz de uma antiga produção de circo. Somos transportados para a noite inesquecível narrada na letra, com todos os personagens e eventos mágicos nela citados. George Martin, o produtor dos Beatles, encheu a faixa de efeitos, órgão de parque de diversões e sanfonas. Sinta-se afogado num mar de elementos circenses. Ainda de sobra, uma valsa luminosa pelas ruas cinzentas de Londres. Lindo é pouco.

Pink Floyd – The Piper at the Gates of Dawn

    A estreia do Pink Floyd, capitaneado por Syd Barrett, o louco maravilha. O universo da mente infantil de Barrett domina o álbum, com canções sobre gnomos, astronomia, gatos siameses, contos de fada e bicicletas. É o disco que inaugurou a psicodelia britânica. Pop, mas underground. Talvez o disco desses tempos psicodélicos menos datado que há. Não envelheceu nada. Mas também pode soar estranho para ouvidos menos acostumados com anormalidades. Por exemplo: você se acostumaria com um pseudo jazz de cocktail instrumental recheado de grunhidos, uivos, cacarejos, exemplos primários de beatbox e berros aleatórios, nas vozes dos próprios integrantes do grupo? Esteja avisado. Mesmo diferente do som posterior que faria o Pink Floyd famoso, as bases primordiais de seu som já estão aqui, como os teclados artesãos de Rick Wright e a batida econômica de Nick Mason. Depois Barrett cairia cada vez mais num poço de loucura e comportamento errático, causado pelo uso abusivo de substâncias alucinógenas, até ser expulso da própria banda que formou. Gravaria dois discos com a ajuda de seus antigos companheiros de banda e depois sumiria para sempre do mapa, até sua morte em 2006. É por isso, crianças, que não devemos utilizar substâncias estranhas. Frita cérebros e sabota mentes brilhantes. Já o Pink Floyd, permaneceria na cena underground até o longínquo ano de 1973. Mas aí é outra história…

Destaque: Astronomy Domine – A abertura espetacular de um disco espetacular. O nascimento do rock cósmico, espacial, viajandão. De melodia e arranjos celestiais, somos entregues ao espaço, navegando em órbitas estelares de psicodelia e uivos fantasmagóricos de piratas celestes de Júpiter. É o que chamamos de aquele pop menos pop possível. Achou isso tudo estranho? Eu também…

 

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