Discoteca da Memória


Por Lucas Schneider

 

Já dizia o poeta: recordar é viver. Na Discoteca da Memória busco recomendar discos sob um ponto de vista pessoal, de forma descontraída e livre de amarras. A ideia é baseada na escrita do jornalista norte-americano Robert Christgau, notório pelas suas resenhas curtas e autorais, publicadas desde 1969 em diversos veículos. O objetivo é resgatar discos que fizeram história, e outros nem tanto, perdidos no tempo. Álbuns musicais são um tesouro da humanidade. Sem eles, a vida não teria graça nenhuma. Sem música então…

The Beatles – Rubber Soul (1965)

            O ponto de ruptura na obra dos quatro rapazes de Liverpool. É aqui onde morrem os meninos, e nascem os homens. Já demonstrando cansaço do sucesso mundial, os Beatles deixam de compor canções inocentes e adolescentes, e as substituem por um teor mais adulto. Os traços reflexivos de John Lennon desabrocham aqui, ao compor letras de natureza intimista sobre um affair, alienação social e até a própria vida. Paul McCartney também amadurece em questões sentimentais, compondo belíssimas e tristes canções de amor sob o ponto de vista de um adulto estabelecido, ao tratar de sua relação cada vez mais desgastada com Jane Asher, sua namorada na época. George Harrison também começa a revelar seus talentos como compositor. Musicalmente o disco segue uma linha acústica, mais ligada ao folk. Intimista e levemente triste. Há todo um clima cansado e de suavidade ao longo de sua meia hora de duração. Em Rubber Soul, nossos simpáticos cabeludos dão um passo adiante na sua inovação musical, cada vez mais peculiar ao longo dos trabalhos seguintes.

Destaque: Girl – Reflexiva e melancólica. É uma balada característica do álbum. Composta por John Lennon, que divaga seus sentimentos confusos ao narrar as atitudes de uma misteriosa mulher que lhe causa alegria e tristeza em doses iguais. O refrão é irresistível, com o famoso suspiro, desintencionalmente cômico. Ao final, um majestoso solo de violão com toques da música tradicional grega.

The Beach Boys – Pet Sounds (1966)

            Se Rubber Soul foi o marco divisório na música dos Beatles, o mesmo pode se dizer de Pet Sounds para os Beach Boys. Adeus carros, garotas, diversão e sol. Olá reflexões, agruras, fantasias, decepções, tristezas e aceitações do amor. Mais uma vez sob a ótica adulta. O álbum todo é um conceito envolvendo as relações. As letras, escritas por Tony Asher, passam por todas essas sensações que só o temível amor pode causar em qualquer um. Musicalmente, é uma obra-prima para os ouvidos. A atmosfera de sonho e melancolia te transportam para o próprio álbum. Você parece estar lá vivendo tudo aquilo transposto nas letras. Brian Wilson, cada vez mais louco e inspirado, atingiu aqui o ápice de sua genialidade, compondo melodias e arranjos cada vez mais elaborados, barrocos, luminosos. Ele teria superado isso no projeto seguinte dos Beach Boys, Smile, mas aí ele endoideceu de vez e tudo foi por água abaixo. É uma pena. Mas Pet Sounds é o seu autêntico legado para o mundo, em meio a uma coleção de grandes pérolas de relativa beleza no cancioneiro popular. Esse álbum é pura magia top. Até sonhei com ele.

Destaque: Here Today – Ah, o amor. Como dói. Num álbum repleto de pedaços de framboesa, destaco Here Today tanto pela letra quanto pela música. Aqui o eu-lírico, interpretado por Mike Love, magoado, canta ao atual de sua ex, e nos lamentos típicos de uma decepção, conta a ele, e a nós, como tudo começa bem, pra terminar no pior dos dias, com noites longas e sentimentos desesperançosos. Tudo porque ele foi enganado e abandonado pela garota. Girl power e um homem sensível. E o mesmo acontecerá com este outro rapaz anônimo a quem ele dirige suas palavras de dor. Tudo bem que Mike Love não é o melhor dos seres, mas nem ele merece isso. Já a música, sem muitos comentários. Apenas ouça. E sinta.

The Byrds – Fifth Dimension (1966)

              Os Byrds foram pioneiros em muitos estilos musicais. Após o lançamento de seu álbum de estreia, Mr. Tambourine Man, abrindo portas para um novo som que dominaria muito as rádios americanas, o folk rock, ou folk eletrificado, com o intocável e cristalino timbre de uma guitarra Rickenbacker 12 cordas, e o segundo disco, Turn Turn Turn, inferior e lançado às pressas para aproveitar o sucesso do primeiro álbum, os Byrds mergulham na psicodelia. Era 1966, bicho, e as coisas estavam mudando. Todo mundo estava se tornando psicodélico, aderindo à moda e ficando doidão. Revoluções na mente, xará. Isso não quer dizer que o álbum seja datado. Muito ao contrário de outras obras da época, em especial americanas, os Byrds viajaram em seu som, mas sem perder a musicalidade típica da banda. Fifth Dimension soa fresco, como se tivesse sido gravado ontem. Há um tom de melancolia perneando o álbum. E a Rickenbacker 12 cordas de Roger McGuinn correndo solta, com solos inspirados em música indiana e no jazz de John Coltrane. Aqui também inicia a fixação de Roger McGuinn por temas espaciais e de ficção científica.

Destaque: What’s Happenning?!?! – A primeira, e esquecida, de muitas pérolas de David Crosby, é uma incógnita. Uma canção de diversas interpretações. Estaria ele drogado e sem saber de nada sobre nada? Ou é apenas mais um comentário social sobre a confusão imposta naqueles tempos sombrios na metade da década de 60? Crosby canta arrastado, como se estivesse dopado. O que nos leva a crer que ele tá é doidão mesmo. A música casa perfeitamente com a letra. Confusa e lisérgica, com a guitarra de McGuinn soando como um pássaro sobrevoando o Ganges.

The Beatles – Revolver (1966)

            Depois da ruptura, a evolução. Aqui os Beatles dão um passo à frente e gravam seu álbum mais experimental desde sempre. Guitarras ao contrário, efeitos sonoros de bolhas, festinhas, submarino e água, gaivotas loucas e lirismo. John Lennon continua na sua tendência de ser descoladão, compondo sobre a arte de dormir, cutucando seu parceiro musical com comentários jocosos e soando como um Maomé super platinado das montanhas embaixo de gaivotas lisérgicas. Paul McCartney amadurece ainda mais seu lirismo, e nos joga palavras sobre solidão, a beleza do nascer do sol e mais ocasionais dores de amor. Já George Harrison evolui como compositor, ao falar do horripilante hábito de não conseguir se expressar, uma sabotagem da nossa própria mente, e também ao criticar seriamente o aumento do imposto de renda proposto pelo governo britânico na época. Sim, é um disco tipicamente britânico. Musicalmente é um esplendor de psicodelia e, vejam só, música popular britânica. Um disco que veio  para ficar. Eternamente no túnel do tempo…

P.S.: ”este é o único revolver que você deve ter”, já dizia um manifestante anônimo numa dessas passeatas anti-armas nos Estados Unidos.

Destaque: For No One – Contudo, é surpreendente que, num disco tão eclético e inovador, a faixa de destaque é essa belíssima e tristíssima balada de Paul McCartney. A dor do amor mais uma vez. McCartney atinge um grau de lirismo nunca mais superado pelo próprio. Inspirado em sua já desgastada relação com Jane Asher, aqui nosso herói lamenta o fim de uma relação. Lágrimas choradas para ninguém. Que deprê. A música é um pedaço de torta de chocolate, daqueles de levar pra casa enrolado num papel de presente e chamar de ”meu bebê”. Melodia ao piano chicleteira, alegre e melancólica ao mesmo tempo. Tudo muito britânico. E um solo de trompa que é o céu na Terra. Paul McCartney, o homem mais amoroso do mundo.

Cream – Fresh Cream (1966)

            A estreia do primeiro supergrupo da história se destaca pela força de suas melodias. Na verdade, os quatro discos do trio formado por Eric Clapton na guitarra, naquela época ‘’Deus’’, Jack Bruce no baixo e Ginger Baker na bateria, são bastante melódicos. A diferença é que nesse primeiro, o peso está mais presente que nos posteriores. Aliás, a banda era mais conhecida pelos seus shows, com intermináveis improvisos, em especial da parte de Clapton. Isso não significa que devemos ignorar seus discos. Nesse primeiro há todo um clima de pub londrino de um sábado às 23 horas da noite. Muito enevoado e bêbados decadentes berrando e quebrando canecas na cabeça um dos outros. E o peso que caracterizou o som da banda, influência direta no heavy metal, acredite se quiser.

Destaque: Sweet Wine – A marca registrada do Cream está toda aqui. Bateria endiabrada, mas controlada, baixo pulsante e melódico e a guitarra chapada de Clapton. É um som bem 1966, mas nada datado. Letra libertadora, meio que escrita em cima da melodia, sobre os prazeres de não se preocupar com os temores da vida nas cidades. Ao invés disso, ficar em casa e beber um bom vinho. Coisas da Inglaterra. Ritmo lento, batidas arrastadas e um coro de ‘’pa pa pa pa pa pa pa pa pa pa pa pa pa pa’’ dos infernos. Depois Clapton brilha num solo improvisado, indicando que essa é uma ótima faixa para ser tocada em seus shows por horas. E foi.              

 

 

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