Histórias de uma psicóloga sem fronteiras


Por Thiago Nunes

 

Conferência de abertura do 9° Interfaces do fazer psicológico teve a presença da psicóloga Débora Noal. Fotos: Thayane Rodrigues

Você já imaginou o seu telefone tocar a qualquer momento do dia e ter que largar tudo para atravessar o oceano Atlântico para ajudar centenas de pessoas que passam por algum momento crítico de saúde pública ? Pois essa é a realidade de quem trabalha na organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Fundada em 1971, a entidade é a maior organização de ajuda humanitária do mundo. Em 1999 chegou a ganhar o Prêmio Nobel da Paz. A MSF consegue manter os mais de 60 projetos em diversos países com doações de pessoas físicas. A entidade não recebe verba de governos ou de multinacionais, a não ser que a empresa comprove a licitude do dinheiro.

São 46 mil profissionais da área da saúde a disposição do projeto para atender comunidades que passam por guerras e casos de epidemia. Entre essas pessoas está uma santa-mariense. A psicóloga Débora  da Silva Noal contou um pouco da sua trajetória durante a conferência de abertura do 9º Interfaces no Fazer Psicológico, da Universidade Franciscana (UFN). O salão de atos do prédio 13 da instituição ficou lotado para acompanhar a fala da profissional.

Débora esteve em países em cerca de 40 países, sempre trabalhando em área de risco. Falou da experiência em países como Haiti, Guiné e Líbia. Ela revelou que em casos de destruição de cidades com terremotos aumenta o número violência sexual. “Após desastres temos um grande número de abusos sexuais e também abuso doméstico. Em um centro de trabalho que eu estava chegavam cerca de 20 a 30 mulheres violentadas em um bairro”, declara a psicóloga.

Um dos momentos que mais a marcou foi participar da ajuda humanitária na epidemia do vírus Ebola na República Democrática do Congo, na África. A doença tem uma taxa de mortalidade de quase 90%, segundo a Organização Mundial da Saúde. “Quem sofre em uma epidemia dessas são as pessoas que cuidam das outras. E a maior parte que morre são as mulheres, porque elas cuidam dos familiares”, explica a integrante da MSF.

Débora Noal: “Pensem nas histórias dos imigrantes com o coração e não com a cabeça”

Segundo a psicóloga, essas localidades são isoladas, não tem rádio, televisão, jornal ou internet. Conforme Débora, em determinadas comunidades eles nunca viram uma pessoa branca. Para evitar a contaminação com os doentes, os profissionais deslocados para os centros de epidemia usam 11 itens de proteção. O corpo fica completamente coberto.

O trabalho dos médicos nessas áreas de risco é isolar o vírus e dos psicólogos não isolar as pessoas, mesmo sabendo que muitas não irão sobreviver. Débora se emocionou quando falou sobre o pedido de uma mãe de querer saber informações da sua família. Ela disse que filmou a comunidade com uma câmera e projetou as imagens na tenda, já que não poderia ter contato com ela. “O nosso papel é muito maior. Cada um tem um projeto terapêutico. É o cuidado humano para humano. É assegurar que as necessidades básicas sejam atendidas. São pessoas que muitas vezes perderam tudo, como o vinculo afetivo”, afirma.

A psicóloga ainda deixou um recado ao público latino com a onda migratória dos venezuelanos. Centenas cruzam as fronteiras com o Brasil para ter uma condição melhor de vida, já que o seu país vive uma crise financeira e de falta de alimentos. “Pensem nas histórias dos imigrantes com o coração e não com a cabeça”, finaliza.

A estudante Caroline Ferreira dos Santos, de 20 anos, do 8º semestre do curso de Psicologia da UFN enfatiza a importância do encontro acadêmico para a troca de experiências. “É importante essa troca. A realidade que a Débora contou é tão longe, mas, ao mesmo tempo, muito perto da gente. Com essas falas saímos outros profissionais da faculdade”, admite a jovem.

 

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