Lágrimas negras


Por Agência CentralSul de Notícias

 

A noite de 29 de outubro foi, de longe, a mais difícil destes cinco anos. No momento em que abri aquela imagem, fui acometido por uma dor arrebatadora. Difícil acreditar no que estava acontecendo. Ainda mais ali, em um lugar para onde vou todas as noites. Em uma das salas que costumo ter aula. Sempre pensei que a universidade fosse um lugar para pessoas aprenderem a conviver, superar diferenças e se elevar intelectualmente. Um lugar neutro, longe da maldade do mundo. Um lugar onde as pessoas pensam, se educam e percebem seu semelhante da forma mais correta possível, como um ser humano.

Depois daquela imagem e com ela, só veio dor. Doeu na minha pele, na minha garganta engasgada com o choro de quem não acreditava. Não queria acreditar. Quando não coube mais dentro de mim tamanha tristeza, escorreu pelos meus olhos. Não só pelos meus, mas pelos olhos de todos aqueles que assim como eu, não conseguiram compreender o motivo de uma escrita tão perversa. Tão desumana. Aquelas palavras rabiscadas marcaram uma universidade inteira. Foi dolorido receber o impacto de tamanho preconceito e toda a bagagem negativa que veio com ele.

O racismo é um crime de ódio. Uma manifestação gratuita do que há de pior dentro do coração do homem. Vi muita gente chorando, de raiva, de dor. De um sentimento chamado empatia. Da capacidade de se colocar no lugar do outro e perceber o mal que fora gerado a partir do momento em que o giz foi pego para riscar aquele quadro. Vi rostos brancos, negros, pardos, de todas as cores escorrendo uma dor que a alma não tinha como suportar.

Se você me perguntar o que eu penso de ser negro? Vou te responder que ser negro em um país de brancos não é fácil. Ainda assim, tenho orgulho de minha cor, minha raça e minhas raízes. Este país foi levantado com suor e sangue negro. Pisamos em um solo que carrega a história da negritude. Um país com mais de 54% da população autodeclarada negra, não pode chamar este número tão majoritariamente gigantesco de minoria. Falta coerência nesta fala. Falta dignidade em reconhecer que o negro é discriminado. Que a escravatura foi abolida há 130 anos, mas no pensamento medíocre de uma mente doentia, o negro nunca vai deixar de usar correntes e dormir na senzala.

Não estava escrito meu nome naquele quadro. Estava escrito “Preto” e isso fere minha dignidade, minha tão simples e insignificante existência, enquanto alguém que está aqui de passagem. Não preciso que meu nome esteja lá, o racismo tem alcances muito maiores do que se possa compreender. Só sabe quem é “Preto”.

Vou lhe contar um segredo, sou feito de carne e osso. Assim como você, minha carne vai perecer e de mim só restará a lembrança de quem fui, as pessoas que toquei. Da minha pele negra, não sobrará nada. Da sua branca também não.

No momento em que partimos deste plano, deixamos tudo para trás. As roupas, a casa, o carro, tudo aquilo que conquistamos ao longo de nossa caminhada. O verdadeiro segredo que quero lhe contar é que estamos aqui para aprender. Para ajudar aqueles que precisam. Nossa tarefa não é discriminar, separar ou dividir as pessoas. É ensiná-las sobre o amor, a compaixão. Se você consegue entender o quão grandiosa é esta tarefa, parabéns.

Agora, se você entende que meu tom de pele lhe dá o direito de se ver como melhor que eu ou meus irmãos de cor, se o seu cabelo liso e suas roupas de grife lhe fazem mais importante que eu, ou se o seu olho claro consegue ver o que eu, cego, não posso ver, pois estou atormentado tentando combater meus demônios – e eles são muitos -, aí você certamente não terá aprendido nada nesta oportunidade que lhe foi dada. Vou ficar triste por você, mesmo que não queira. Não aceite! Cada um oferece aquilo que carrega no coração. Por dentro somos todos iguais, a cor da pele não pode ser tão importante assim. E se mesmo depois de tudo que falei nestas linhas, você continuar não entendendo o real significado do racismo, tente compreender então estas palavras: dor, morte, exclusão. Elas falam por si só!

A cultura do racismo precisa acabar. Este preconceito mata inúmeras pessoas todos os anos. Não podemos permitir que o ódio vença. Precisamos construir um mundo de amor. Precisamos dar as mãos uns aos outros, para que a corrente consiga ser mais forte. Mais forte que o racismo. Mais forte que a dor que hoje fala em nosso peito. Hoje é dia de dizer, basta. Racismo nunca mais!

Por Willian Ignácio, estudante de jornalismo na UFN

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