Saúde mental exige cuidados e acompanhamento


Por João Pedro Foletto

 

 Painel sobre o cuidado em saúde mental durante o 9º Interfaces no Fazer Psicológico, no Conjunto III da Universidade Franciscana.Foto: Vítor Cargnelutti

O painel sobre o cuidado em saúde mental ocorreu na tarde de ontem, terça-feira, 28, no 9º Interfaces do Fazer Psicológico.  Ministrado pela psicóloga, doutora em antropologia pela Universitat Rovira i Virgili, Károl Cabral, e a graduada em enfermagem e obstetrícia, com pós-doutorado na Università degli Studi di Torino, Luciane Prado Kantorski, o painel trouxe ao debate as formas de cuidado com a saúde mental.

Károl iniciou o debate falando sobre acompanhamento terapêutico e os deslocamentos da clínica e produção de novos territórios existenciais. Segundo ela,  “o acompanhamento terapêutico é um trabalho clínico que busca promover a autonomia e a reinserção social do paciente, destinado a pessoas que apresentam dificuldades de relacionamento e convívio social, devido a comprometimentos emocionais e limitações físicas. O atendimento terapêutico utiliza o espaço público da cultura como dispositivo para o ato terapêutico”.

A psicóloga fez uma comparação do atendimento terapêutico com a obra “Sapatos Magnéticos” do artista belga Francis Alÿs, que fez um percurso caminhando pela cidade de Havana, em Cuba, com um par de sapatos magnetizados e, através dele, coletou uma série de objetos metálicos e colocou-os junto a mapas que traçaram seu percurso diário pela cidade.

Károl destacou que durante a caminhada de Alÿs pelas ruas de Havana, ele interagia tanto com a cidade quanto com a população, e isso possibilitou uma conexão que surge do encontro entre duas ou mais pessoas. Também ressalta que o artista sempre introduz sua obra em interação com a cidade em que habita.

Cuidar da saúde mental

Seguindo o debate, Luciane Kantorski abordou o cuidado em saúde mental: novas abordagens em saúde mental. Ela explica que muitas experiências desenvolvidas no contexto mundial têm demonstrado a possibilidade de criação de novas práticas voltadas para o respeito dos sujeitos, e visam garantir os direitos de pessoas agredidas por algum tipo de sofrimento psíquico por meio da valorização de suas experiências.
A enferemeira destacou que o diálogo aberto é um método para atender a crise psicótica através de uma intervenção nas primeiras 24 horas, onde o paciente e sua família são convidados para participar não só do primeiro encontro, mas de todo o processo de tratamento. Assim, o objetivo central dessa prática é criar diálogos para colocar em palavras as experiências vivenciadas pelos pacientes.
Durante cinco anos, Luciane constata que a contribuição do diálogo aberto para o mundo ajudou 86% dos pacientes a retomarem seus estudos e trabalhos em tempo integral, sendo que 17 % recaíram durante os primeiros dois anos e 19% durante os três anos seguintes. Ela também explica que 29% fizeram uso de medicação neuroléptica durante uma fase do tratamento.
Outro método para atender os transtornos mentais são os Ouvidores de Vozes. Esta técnica está presente em mais de 30 países que organizam uma conferência a fim de incentivar uma mudança na atitude da sociedade, mudando a maneira de como os ouvidores foram tratados pelos médicos e psiquiatras.
“Muitas vezes, essas vozes são desencadeadas por eventos traumáticos e emocionais, como acidentes, abusos sexuais e doenças. E há três fases entre as pessoas que ouve vozes: a fase da surpresa, quando o paciente se depara e ouve pela primeira vez as vozes; a fase da organização onde o paciente lida com as vozes; e a fase da estabilização”, afirma Luciane.
Segundo ela, para combater os tratamentos abusivos e violentos no âmbito da psiquiatria, foram criadas organizações: O Projects Icarus e o Freedom Center. “O Projects Icarus é uma organização que oferece palestras e espaço de escuta. Ela está relacionada à saúde mental e justiça social, colocando-se à disposição de instituições e organizações que desejam iniciar conversas sobre saúde emocional e justiça social”, diz.
 “O Freedom Center é uma comunidade de apoio administrada por pessoas consideradas com graves transtornos mentais. Suas atividades se baseiam na filosofia de relação de danos, no direito da escolha das pessoas em relação aos tratamentos médicos e nas pessoas que não fazem uso de medicação. Estas duas organizações têm trabalhado na possibilidade de uma construção conjunta de outros caminhos para a vida dos sujeitos”, conclui a doutora.

A 9º Interfaces no Fazer Psicológico ocorre de 27 a 29 de agosto, no Conjunto III da Universidade Franciscana. O objetivo do evento é promover o intercâmbio de experiências entre os acadêmicos do curso de Psicologia da Universidade Franciscana com os demais acadêmicos e profissionais da área.

Texto: João Pedro Foletto e Rafael Finger, estagiários de Jornalismo

 

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