As potências dos Sistemas Agroflorestais


Por Tiago Teixeira Ferreira

 

Um assunto recorrente no atual contexto político do Brasil é, sem dúvida, a problemática ambiental. Desde o final das eleições, as redes sociais e outros meios de divulgação de notícias foram bombardeados por declarações polêmicas de alguns assessores e ministros do presidente eleito Jair Bolsonaro, que assumirá o executivo no início de 2019, sobre o futuro das discussões ambientais. Em um dos seus depoimentos ao jornalista José Luiz Datena, por exemplo, Bolsonaro já havia avisado que, no que dependesse dele, não existiriam mais demarcações para terras indígenas no Brasil.  Essas discussões levantaram alguns assuntos específicos sobre a agricultura, como os malefícios de se utilizar a monocultura como meio principal de cultivo.

As monoculturas são sistemas em que apenas uma espécie é produzida em uma área de campo e, assim, a biodiversidade animal e o solo são prejudicados, pois falta renovação. Há uma escassez de nutrientes na região onde ela é utilizada, gerando maior contaminação pelo acúmulo de inseticidas, o que torna o terreno acessível a pragas que se tornam mais resistentes, devido a ausência de biodiversidade no ecossistema. Conforme relata Matheus Gazzola, 21 anos, estudante de Engenharia Florestal na Universidade Federal de Santa Maria, “Por que a agricultura convencional é fácil? Porque é um pacote tecnológico, é uma receita de bolo”, afirma Matheus. Ele continua: “Tu faz uma análise do teu solo, recomenda adubação, pega o pacote de semente na agropecuária, consegue a máquina e o combustível, vai lá e vira aquele solo, pulveriza tudo, destrói tudo… É mais fácil ser destrutivo”.

Em contrapartida, apresentando outros modelos mais sustentáveis de cultivo, como os da agrofloresta, que seria uma prática da agroecologia, Gazzola explica que “a agrofloresta seria basicamente uma espécie de consórcio, onde você coloca componentes agrícolas junto com alguns componentes florestais, tendo como objetivo o nascimento de árvores frutíferas, sejam elas nativas ou exóticas, associando espécies anuais com espécies bianuais e também espécies perenes que se mantém de cinco a dez anos em um ciclo.” Para Matheus, é importante ressaltar que a construção da agrofloresta não é moda ou inovação, ela demora anos para ser cultivada e vem sendo feita pelos povos das florestas há séculos.

Mais do que pesquisas e experimentos, a agroecologia tem sido adotada como filosofia de vida. Foto: Matheus Gazzola.

 

A importância da agroecologia como uma opção sustentável

A agroecologia é um conceito desenvolvido pelo pesquisador Sir Albert Howard, em 1934. No período entre as décadas de 1960 e 1980, com as reivindicações por práticas de agricultura sustentável, o termo “agroecologia” passou a ser utilizado para representar a agricultura que incorpora as dimensões sociais, culturais, éticas e ambientais. Ela é uma ciência que pretende superar os danos causados à biodiversidade e à sociedade como um todo devido a prática da monocultura, do emprego dos transgênicos, dos fertilizantes industriais e dos agrotóxicos.

Conforme declara Camila Andrzejewski, estudante de Pós graduação em Engenharia Florestal na UFSM, “o que a gente vê durante o curso sobre agrofloresta é que acontece uma tentativa de reprodução dos processos da natureza, como se fosse uma imitação da floresta, ou seja, uma quantia múltipla de diferentes culturas, com biodiversidade presente”.

Ela continua o relato dizendo que onde se tem interação entre plantas, entre diferentes culturas em uma área de vegetação, também há uma relação de interação com a fauna, o que gera uma melhor qualidade no solo, por meio da adubação natural – sem agrotóxicos e insumos industrializados. Após a plantação das árvores, a poda é realizada e o material verde vindo da poda aduba as próximas culturas que serão plantadas na área do sistema agroflorestal.

A opção sustentável da agrofloresta se faz importantíssima para a reparação do ambiente e também para o resgate de algumas espécies que, com a monocultura, acabam correndo um maior risco de extinção pela perda de habitat, Gazzola assegura que “é sempre bom manter a biodiversidade, o solo coberto e também manter sempre uma diversificação de espécies, entendendo o papel que cada uma apresenta no ecossistema.” Em suas pesquisas sobre a agroecologia, o suíço Ernst Göstch já alertava que o consórcio de espécies pode fornecer diversos alimentos para o solo, confirmando o que foi explicado por Matheus.

Conforme nos contou a estudante de engenharia florestal, Bruna Mazzaro, alguns estudiosos da agroecologia tem uma consideração um pouco mais profunda sobre a Agroecologia, “muitas pessoas veem a Agroecologia como uma “filosofia de vida”, e não como ciência e campo tecnológico. Os princípios básicos da ciência agroecológica são baseados no respeito.”

A estudante ainda complementa que, “levando em conta o respeito e outros princípios das Agroflorestas, elas também favorecem a autogestão na comunidade e na unidade produtiva, de forma que as práticas utilizadas e as técnicas empregadas sejam culturalmente sensíveis, socialmente justas, ambientalmente corretas e economicamente viáveis, de maneira que a comunidade produtora tenha sua cultura e dinâmica social respeitada, assim como seus direitos assegurados”.

Texto de Tiago Ferreira, para a disciplina de Jornalismo Especializado do Curso de Jornalismo da UFN, ministrada pela professora Carla Torres, durante o 2º semestre de 2018.

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