Elogio às palavras “inúteis” ou pra que serve isso?


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Ilha da Utopia de Thomas Morus

Que fazemos nós com a inutilidade das palavras que não constroem pontes ou salvam vidas como aquelas palavras que são instrumentalizadas a serviço da nobre formação do engenheiro ou do médico, como também do veterinário? Ainda que não seja minha intenção destituir ofícios tão necessários, preciso aqui afirmar o oficio com a palavra, que chamarei de “inútil”, palavra a qual, na vida, tenho me dedicado.

Chamo de inúteis essas palavras poéticas. Palavras que interpretam, criam, resistem, ficcionam, metaforizam, festejam, balbuciam, mas, no entanto, não “servem” para nada, pois são aquelas que bordeiam o indizível, que nos salvam da paixão em nos fazer instrumentos, exatos, técnicos, plenamente úteis ao mundo da produção, do mercado, da fábrica.  Palavras que, libertas, não servem a nada, nem a ninguém, destas que muitas vezes dizemos com receio, sem jeito, como se com elas pudéssemos dizer algo de uma verdade subversiva que nos desnuda, a que os psicanalistas fazem cotidiano testemunho na clínica e usam atribuir, nem sempre bem compreendidos, ao “sujeito”.

Uma vez, alguém perguntou-me em tom de descrença: você acha que falar, que palavras adiantam para alguma coisa? Ao que lhe respondi, firme e sem muito pensar, para o espanto de meu interlocutor: é claro que sim! A urgência em afirmar naquele instante uma convicção (ainda que precária) de que as palavras ditas de improviso, essas que não servem para escrever bulas de remédio ou contratos de aluguel, as palavras ditas “sem o saber”, também salvam vidas e constroem pontes, sobretudo, lá onde toda a técnica, toda a ciência não são suficientes para dizer-nos. Isto simplesmente porque as vidas são algo para além da sobrevivência dos organismos e as pontes, ás vezes, nos faltam também para cruzar imensos oceanos “terraplanos”, ou para tentar atravessar esses imensos desertos que nos separam uns dos outros. Esses imensos monólitos de sentidos cristalizados.  As palavras são poderosas “armas”, talvez por isso, justamente, os poderes que se alimentam da alienação e da instrumentalização do outro tanto as temam. Para eles, um poeta, um filósofo, um sociólogo são mais perigosos que o mais armado dos exércitos (e talvez o sejam).

Quando suas vozes são censuradas, destituídas, nossa humanidade se esvai reduzida ao instrumento acéfalo, justificada pelos fins de uma racionalidade cínica. Quando simplesmente nos recusamos a afirmar as ciências (humanas), cuja função principal são problematizar nossas soluções precipitadas para os problemas da vida e da cultura. Quando denegamos os saberes cuja função principal é desatrelar os signos, estagnados de sentidos moribundos de seus leitos de agonia, deixamos de sonhar as utopias sem as quais a vida é desesperança, tempo expropriado ou “nada de desejo”.

Quando criança escutava de meu avô, repetidas vezes, uma sentença chistosa que eu não compreendia muito bem, mas que não deixava de me inquietar. Dizia ele:“a filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual o mundo resta tal e qual”, e se ria. Penso que é um pedaço de sorte, a mensagem nos vir do outro de forma invertida, ou seja, não nos resta tal e qual. Sorte essa sina infantil de mal compreender as coisas, que nos coloca desde muito cedo, como pequenos cientistas, a construir teorias frágeis frente aos enigmas que o outro nos impõe e, mais ainda, das metáforas e paradoxos que inadvertidamente me transmitiram o “amor pelo saber”, pois ao atacar a “utilidade” da filosofia, não sabia meu avô, tão positivista, que ele também filosofava.

Tento não me deixar levar pela tristeza quando pelos corredores da universidade em que ainda exercito minha vã filosofia, onde ainda insisto e resisto à burocratização utilitarista que ataca, cada vez com mais sucesso, seu conceitos mais fundamentais, algum estudante exclamar em protesto: não sei para que serve isso ou aquilo?! Referindo-se, assim a todo saber ou palavra que não esteja bem assentada na utilidade técnica, mercadológica e instrumental.

Tenho vontade nesse momento de fazer, em pleno corredor, elegias ao inútil, odes ao tempo perdido. Advertir aos gritos, romanticamente, ainda que seja para as paredes, parafraseando, endoidecido, o poema A Satrapia de Kontantinos Kaváfis: o mundo te dará muitas coisas úteis de que não precisas, satrapias de toda sorte, mas, e essas  palavras, poéticas, insistentemente inúteis pelas quais tua alma anseia? E que vida vais levar sem elas?

 

Marcos Pippi de Medeiros é psicólogo, psicanalista, professor no curso de Psicologia da UFN

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