Envelhecimento no Brasil: os desafios de quem alcança “a melhor idade’’


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Casal de idosos moradores do Lar Vovó Leopoldina – São Pedro do Sul. Foto: Adri Junges

Envelhecer é uma dádiva. Ou, pelo menos, deveria ser. Alcançar a velhice é privilégio de muitos, mas o desafio nos dias atuais é se tornar idoso mantendo a qualidade de vida. Esta tarefa fica ainda mais difícil quando se vive em um país onde não se planeja, – ou até mesmo ignora -, políticas públicas para melhorar e facilitar a vida das pessoas com idade superior a sessenta anos. O Brasil, que até então era considerado um país jovem, hoje enfrenta dificuldades para lidar com as situações que acometem a população de velhos que vem crescendo de forma acelerada nos últimos anos.

Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) fornecidos pelo IBGE, a população idosa no Brasil em 2012 estava em 25,4 milhões. Já em 2017, superou a marca de 30,2 milhões. No período entre 2012 e 2017, o número de idosos teve um crescimento em todos os estados, visto que o Rio Grande do Sul teve uma suba mais expressiva em comparação aos demais, em que 18,6% das pessoas são idosos. A projeção do IBGE para 2042 é que a população brasileira atinja 232,5 milhões de habitantes, sendo 57 milhões de idosos (24,5%), resultado do aumento da expectativa de vida nacional.

O que São Pedro do Sul faz pela população idosa?

Entre as responsabilidades dos órgãos públicos, está a necessidade de preservar a saúde e a qualidade de vida dos idosos, além de promover o acolhimento e a integração. O estado e os municípios, através de políticas públicas, devem garantir um envelhecimento saudável e digno à população. Todavia, na prática, as leis que asseguram os direitos dos idosos são falhas, resultando na precariedade de projetos governamentais que priorizam condições de vida dignas para a população que envelhece.

São Pedro do Sul – região centro do estado -, de acordo com o último censo demográfico (2010) realizado pelo IBGE, possui uma população de 16,3 mil pessoas. Desse total, mais de três mil ultrapassa a faixa etária dos 60 anos. Conforme dados da Secretaria de Assistência Social da Prefeitura Municipal, o município atende hoje 53 idosos em estado de vulnerabilidade social e 70 pessoas na mesma situação, porém, com 60 anos incompletos. Os casos englobam, geralmente,  abandono, violência e maus tratos. 

Existem alguns recursos disponibilizados pela Prefeitura Municipal por meio da Secretaria de Assistência Social, e que servem de auxílio para atendimento aos idosos na cidade e interior. Entre eles, o CRAS (Centro de Referência em Assistência Social), unidade pública que conta com a colaboração de profissionais da saúde como terapeutas, psicólogos e assistentes sociais para suprir as necessidades de idosos e da comunidade em geral. Unido ao CRAS, atua também o CRAS Volante formado por grupos de convivência que  percorre o interior do município semanalmente, realizando atividades de integração e acolhimento. Os grupos de convivência promovidos pelo CRAS visam o fortalecimento de vínculos entre os idosos, em que se busca autonomia na realização atividades. Depois do fortalecimento do grupo, a ideia é que os idosos sigam realizando os encontros sem o auxilio de profissionais. Oficinas de costura, palestras e ginástica laboral são algumas das atividades realizadas, e têm como principal objetivo a inclusão e a aproximação da equipe com a realidade dos idosos. Entre janeiro e julho de 2019, 98 idosos participaram dos grupos de convivência.

A assistente social da Prefeitura de São Pedro do Sul, Ticiane Alves Moreira explica que as atividades com os grupos e as visitas realizadas pelo setor de forma contínua visam melhorar a qualidade de vida dos idosos, em que é possível estabelecer vínculos e compreender aquela realidade. “As idosas, por exemplo, nem sempre são empoderadas o suficiente para revelar que estão sofrendo violência dentro da própria casa e com esse contato semanal é possível identificar’’, finaliza a profissional.

Quando o assunto é investimento do dinheiro público em favor da população, os resultados nem sempre são satisfatórios. Em São Pedro do Sul, existe um grande problema que impossibilita mais investimentos na área: o município não recebe verbas estaduais e federais para este fim devido ao Conselho Municipal do Idoso estar inativo. Com as atividades canceladas desde 2017, o órgão deveria estar em sintonia com as políticas nacionais e estaduais, se adequando às leis e promovendo políticas dirigidas ao idoso. É via Ministério Público que acontecem as denúncias e os atendimentos para casos vulneráveis, em que o primeiro passo é averiguar a real situação do idoso e entrar em contato com familiares. Caso a família não se responsabilize, o idoso é acolhido em instituições próximas, que são duas: Lar Vovó Leopoldina e a Clínica Geriátrica, ambas particulares. O custo de permanência varia de um salário mínimo até 3 mil reais. A Prefeitura Municipal, ao institucionalizar um idoso, fornece apenas remédios e fraldas, caso a aposentadoria não seja suficiente.

”Me sinto feliz aqui porque vivemos entre amigos, somos bem tratados. A gente brinca e inventa umas brincadeiras novas, porque é como dizem, quando a gente fica velho volta a ser criança”, diz Petronilla Noschang moradora do Lar, 97 anos. Foto: Adri Junges

Acolhimento e empatia resultam em qualidade de vida

Obter qualidade de vida durante a velhice significa preservar a auto-estima, a saúde emocional, física e mental, além de cultivar as interações sociais e familiares de forma saudável. A psicóloga Michele Rezende, de São Pedro do Sul, explica que a inserção do  velho no ambiente em que ele vive a fim de cultivar relações sociais se torna um complemento importante para o processo de valorização do idoso. “Neste contexto, o acolhimento, a empatia, o acesso à saúde, ao esporte, lazer, o incentivo a independência, o resguardo da cidadania e contínua inserção social são elementos relevantes para o envelhecimento saudável e de qualidade’’, explica a profissional.

A sociedade atual tem evoluído em ritmo acelerado. Porém, no Brasil, pouco se prioriza espaços de convivência e integração para que o idoso acompanhe este processo. O avanço das tecnologias, as rotinas atarefadas e a falta de tempo e interesse das pessoas acaba despertando nos idosos o sentimento de solidão, acompanhado, muitas vezes, de um adoecimento psíquico. Conforme a psicóloga e professora universitária Luciane Smeha, a sociedade ainda tem muito a evoluir em termos de valorização do idoso e os espaços de acolhimento são importantes, pois propiciam momentos de confraternização e trocas de experiências onde ele é visto e ouvido. “Ali os idosos convivem com outras pessoas, contam suas histórias de vida e, muitas vezes, recebem a atenção que ainda é precária em casa’’, finaliza Luciane.

Principalmente por se encontrarem em uma fase sensível e vulnerável da vida, necessitam de um abraço, uma visita ou uma brincadeira para aliviar o peso da idade. Às vezes, só o que eles precisam é que alguém dê uma pausa em sua rotina tumultuada para ouvir suas histórias antigas. “Sempre ouço as histórias e os ensinamentos dos velhos. Eles têm muito a ensinar, e nós a aprender. Não me importo de ouvir várias vezes a mesma, porque idoso não tem histórias novas, tudo é velho assim como eles. Mas cabe a gente ter a empatia de sentar, ouvir e fazê-los se sentirem importantes’’, explica Neisa Maria Mariano, 63 anos, que realiza atividades voluntárias há mais de dois anos no Lar Vovó Leopoldina. Pelo menos uma vez por mês, ela promove a auto-estima de homens e mulheres através de cortes de cabelo e manicure, além de proporcionar momentos de diversão com canto e dança. A velhice não precisa ser dura. Promover o bem e a sociabilidade dos idosos é fazer pelas atuais e pelas próximas gerações.

Por Andriele Hofmann da Cruz. Matéria produzida na disciplina de Jornalismo Humanitário.

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