O medo e a autocensura


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Foto:Steve Jonhson- Iso Republic

Creio que estamos vivendo tempo estranhos, peculiares. Tenho acompanhado entrevistas com figuras públicas e, mesmo nas redes sociais, as pessoas tem sido incisivas nas ideias que tem expressado. Essa forma assertiva parece se impor ao mundo real e das práticas sociais, parece existir um desejo de que se dê maior valor as palavras que as ações. E as palavras estão ásperas, brutas, sem desejo de diálogo. Cada comentário, ao final das reportagens nos jornais on-line, parece querer encerrar o assunto, como se só importasse dizer a frase de efeito ou a última palavra sobre um assunto qualquer. Difícil não se sentir agredida ao ler os comentários, não importa o assunto: uma entrevista, assassinatos, colunas tradicionais. Fico me perguntando que tipo de comunicação estamos construindo com toda essa avidez em expressar nossas opiniões com tanta veemência, com aquele tom que deseja calar o outro…
De mãos dadas ao desejo de encerrar o assunto figura um dos efeitos colaterais deletérios dessa onda de intolerância é a busca de proteção na autocensura. Estou lutando com ela agora, enquanto decido escrever, pois não quero nutrir esse movimento de agressividade gratuita, todavia não acredito que calar seja a melhor saída. Escrever é expressar, via de regra algo íntimo e pessoal, então é uma tour de force, um compromisso ético com a vida que queremos para todas as criaturas.
Em meio a isso, enquanto país, vivemos numa democracia e o direito da livre expressão é o direito que retroalimenta esse sistema político, um dos que garante sua sobrevivência. Que mundo resta quanto abrimos de nos expressar? Que mundo nutrimos quando deixamos o medo imperar?
Nesse ponto, não posso deixar de lembrar de Thomas Hobbes, um filósofo da ciência política. O medo é o tema central na obra Thomas e, a ideia de poder absoluto do Estado na figura do rei déspota, é a marca final do que esse sentimento pode produzir. O soberano é um sujeito dedicado a manter a ordem pela força, sem nenhum critério de justiça estabelecido, que não o de seu próprio e insondável desejo. Thomas tinha uma crença quase infantil nessa figura, um tipo de pai despótico e castrador como a única solução para nos proteger de nós mesmos, afinal para esse autor, a humanidade se movia pelo egoísmo e violência. Sem reduzir a obra de Thomas e, em tom de brincadeira, é uma pena que no século XVI não existia ainda a psicanálise, talvez essa ansiedade toda poderia ter sido melhor elaborada num divã, quem sabe?!
O que quero dizer é que me assusta a opção do medo que compra a segurança a qualquer preço, via de regra achando que nunca vai pagar essa dívida com a própria vida. Estamos flertando com um ambiente muito volátil das redes sociais, onde os desejos perversos viajam pelos bites numa velocidade incontrolável. Temos disponível uma ferramenta extraordinária que acaba dando vazão aos pesadelos, mas aos sonhos também. Espero que possamos usar esses canais para construir pontes ao contrário de fossos. Se é algo que faz parte da experiência humana é a capacidade de sentir e a possibilidade de perder. Espero, como quem gesta a própria esperança no verbo, que nossas opções se ampliem, bem como os divãs nos aliviem.

  

Paula Jardim Bolzan, historiadora e antropóloga, professora na UFN

 

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