Pandemia contribui para a redução de impactos ambientais


Por Wellerson Leal

 

A pandemia provocada pelo coronavírus em todo o mundo fez com que cidades adotassem a quarentena, evitando que as pessoas circulassem pelas ruas. Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou estado de pandemia para a Covid-19, diversas tentativas de conter a disseminação do vírus foram propostas e implementadas, como, por exemplo, o isolamento social da população. A queda na movimentação nas grandes cidades causou efeitos diretos no meio ambiente, como a diminuição da emissão de poluentes na atmosfera. A professora do departamento de física e pesquisa climatológica da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Nathalie Tissot Boiaski, doutora em Meteorologia pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que as medidas de quarentena são positivas não só para a sociedade, mas para a fauna e flora silvestres. “É nítida a diminuição da exposição humana à poluição ambiental; consequentemente, diminui-se também os problemas respiratórios relacionados. De certa maneira, também é positivo para a fauna silvestre, igualmente exposta a essas elevadas concentrações de gases ”, afirma ela.

Montanha Dhauladhar,Índia. Foto: Sumitsaroha310/Pixabay

Em decorrência da diminuição da poluição ambiental, pela primeira vez em cerca de 80 anos, a montanha Dhauladhar que faz parte da cordilheira do Himalaia, pode ser avistada novamente na Índia. Esse fenômeno ocorreu devido à queda da poluição atmosférica pela diminuição da produção nas fábricas e o trânsito reduzido na quarentena. Na China essa redução chegou a 25% desde o início da pandemia, sendo que o isolamento social no país pode ter salvo entre 50 e 75 mil pessoas da morte devido à poluição, de acordo com a Universidade Stanford. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2018, a poluição do ar foi responsável por 320 mil mortes nas Américas, só no Brasil foram registradas 51 mil, em 2019. Enfermidades como asma e infarto são acentuadas pela baixa qualidade do ar.

Por outro lado, Nathalie, salienta a existência também de impactos ambientais negativos. “O maior deve ser na produção de alimentos. As pessoas estão em casa, consequentemente consumindo mais comida, água, energia, serviços como comunicação e gerando muitos resíduos. Creio que a geração de lixo seja o segundo impacto mais considerável. Em contrapartida, o ar está mais limpo e até a água dos rios pode melhorar; um freio necessário para uma sociedade imediatista e egocêntrica. ” 

 Consumo de energia elétrica e combustíveis

Segundo o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), o consumo de energia começou a apresentar sinais de retração no dia 19 de março, quando foi 2,3% inferior ao verificado uma semana antes. No domingo (22 de março), a queda foi de 8,9% na mesma base de comparação. Com isso, caiu também a necessidade de geração hidrelétrica, o que possibilita a recuperação do nível de armazenamento dos reservatórios. No domingo, as usinas da região Sudeste e Centro Oeste tinham 48,7% de sua capacidade. Há um mês, eram 37,5%. A carga de energia do sistema elétrico interligado do Brasil deve ter recuo de 8,1% em abril, segundo o ONS.

De acordo com a Fecombustíveis (Federação Nacional do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes), os postos vêm sentindo também os efeitos das medidas de isolamento. Na quinta (19 de março), as vendas em São Paulo foram 39% menores do que a média histórica para o município. Em Goiânia, a queda foi de 42%; em Porto Alegre, de 26%; e em Belo Horizonte, de 19%. O alívio provavelmente será momentâneo, mas a redução de emissões e consumo de combustíveis fósseis pode acabar sendo realmente significativo para os balanços anuais do meio ambiente.

“Essas novas formas de relação à distância, sem tanta necessidade de transportes, vão favorecer a recuperação dos sistemas ambientais e climatológicos. Muitas extinções previstas terão alguma chance de ser revertidas em ecossistemas menos alterados e mais equilibrados. Creio que o impacto ambiental será positivo e trará alguma perspectiva para as futuras gerações. O ser humano tem sido o maior problema do planeta Terra. Ele terá essa única chance de mudar o seu status para algo mais humano ”, conclui a pesquisadora Nathalie.

Matéria produzida para a disciplina de Jornalismo Científico.

 

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