Profissão: michê PDF Imprimir E-mail
Escrito por Lilian Abelin, Melina Brum, Michele Amaral, Patrícia Lemos e Tainara Becker (especial para ACS)   
Qua, 05 de Julho de 2006 15:45
De dia, eles trabalham, estudam, têm uma família, namorada e uma rotina comum. Mas quando o sol se põe e grande parte dos santa-marienses vai para casa, estes homens saem para mais uma jornada de trabalho. Eles são os profissionais do sexo.

 

Em Santa Maria, centro do Rio Grande do Sul, os homens oferecem o serviço nas ruas, nos classificados ou de forma menos formal, no boca-a-boca. Eles têm uma vida dupla, uma rotina diária e uma noturna. Diante da sociedade, são funcionários e estudantes e, à noite, colocam a melhor roupa para garantir uma renda extra. Muitas vezes, a atividade noturna é segredo para os amigos e a família, como no caso do funcionário público Alex*, de 23 anos.

De manhã, o jovem trabalha em uma repartição pública. À tarde, vai para a faculdade que é paga graças aos programas que faz depois da aula. Apesar de morar com os pais e ter uma namorada, Alex admite que a profissão de michê é um segredo. “Eu vivo da mentira, tenho que ter duas vidas. Possuo dois celulares, um para a família e outro que anuncio nos classificados e ninguém sabe, exceto os clientes. Às vezes deito a cabeça no travesseiro e a consciência pesa, revela”.

Como funcionário público, Alex recebe um salário de pouco mais de R$1mil. Já com os programas que faz com mulheres e casais, arrecada de R$ 3 mil a R$ 5 mil por mês. Parte do dinheiro está sendo guardada para garantir o futuro, já que pretende largar a profissão apesar de admitir que não consegue.  
O garoto de programa que é de família tradicional de classe média alta de Santa Maria, garante que o dinheiro dos cachês, que varia de R$ 70 a R$ 500, não faz falta. Ambicioso, ele diz que com a prostituição pode se dar ao luxo de aos 23 anos já ter um carro e um apartamento que está alugado. 

O michê revela que começou a vender o corpo a partir da proposta que recebeu de uma senhora, em um evento, há quatro anos. A mulher teria oferecido R$1mil para transar com ele. Depois dessa noite, Alex gostou da idéia e, segundo ele, transformou a atividade em uma maneira fácil de ganhar muito dinheiro e ter prazer. “Naquele dia pensei: que legal se fosse sempre assim, ganhar toda essa grana. Foi aí que me interessei e comecei a pesquisar em sites para anunciar. Agora, ponho meu telefone somente em jornais. Antes eu tinha preconceitos, mas agora vi que dá para unir o útil ao agradável”, conta.

Hoje, a prostituição está menos rodeada de mitos. Mesmo assim, a profissão mais antiga do mundo é alvo de preconceito e ainda é um tabu. O assunto fica mais intocável quando se trata da prostituição masculina. Segundo o psicólogo e terapeuta sexual, César Bridi, quando se fala em michês, remete à idéia de homossexualidade, portanto, os clientes obviamente são gays, que, muitas vezes, são pessoas de classe média ou alta, ou seja, quem pode pagar pelos programas. Mesmo se a clientela é feminina, trata-se de um grupo seleto de mulheres, por isso se fala menos ainda em garotos de programa. 

O psicólogo diz que a prostituição masculina é diferente da feminina. Ele explica que a sociedade é machista e, para os homens, o ato de vender o corpo é ligado à virilidade e justificado por questões financeiras, diferente das garotas de programa que sofrem preconceitos. “Ainda hoje, a prostituição continua sendo uma profissão depreciativa para mulheres, ou seja, a sociedade pensa que vender o corpo é a última opção, uma humilhação para elas e não para os homens. Se eles fazem isso é uma coisa legal”, esclarece César. 

Segundo o psicólogo, a clientela dos michês começou a surgir na década de 80, quando elas conquistaram independência financeira e passaram a ter autonomia para gastar o seu dinheiro onde e com o que quiserem, inclusive em sexo, como os homens já faziam. Esse avanço começara nos anos 60, com a invenção da pílula anticoncepcional. Foi a partir daí que as mulheres começaram a transar sem o objetivo de engravidar e passaram a exigir mais qualidade na relação sexual. 

Seja por prazer ou desejo de igualdade, hoje a mulher paga. O mototaxista Eduardo*, de 22 anos, que faz programas há quatro, acredita que a suas clientes se sentem poderosas ao dar dinheiro em troca de sexo. “Elas têm aquela idéia de que podem mandar e fazer o que quiserem porque estão pagando”, diz.

O curioso, segundo ele, é que as mulheres não o procuram apenas para fazer sexo. “Às vezes, elas querem só conversar. Eu ouço, faço carinho, dou a atenção que elas precisam. Muitas vezes, elas não têm coragem de se abrir com os maridos ou são sozinhas mesmo e não têm com quem falar”, conta. 

Eduardo divulga seu trabalho no boca-a-boca entre os amigos e transa somente com mulheres. Normalmente, é contratado para fazer  strep-tease e dançar em festas particulares. Em algumas ocasiões, recebe o convite para esticar a noite com uma ou mais garotas. Ele cobra de R$ 60 até R$ 200 reais pelos programas, mas não encara a atividade como profissão: “Eu não tenho vergonha. Para mim, é uma diversão e eu ainda ganho para isso”.

Prostituição masculina nas ruas
 
Ao contrário de Alex e Eduardo, que atendem a domicílio, há garotos que fazem das ruas escuras de Santa Maria suas próprias vitrines. A cena é bem menos explícita que a de mulheres e travestis passeando entre os carros à noite. A Avenida Rio Branco, no centro da cidade, que já sediou hotéis de luxo e cafés freqüentados pela alta sociedade no século XIX, hoje tem prédios que abrigam prostíbulos de baixo nível, que são pontos de prostitutas, travestis, uso de drogas e garotos de programa. Lá, a equipe de reportagem encontrou seis michês, de 18 a 22 anos.

Maurício*, de 22 anos, é estudante do Ensino Médio e à noite vai para a avenida onde, normalmente, já tem encontros marcados. “Comecei há um ano por causa das amizades. Os outros que faziam diziam que era dinheiro fácil, aí resolvi fazer também”, diz ele, que já estava de saída, pois tinha encontro marcado com um cliente. Segundo ele, grande parte dos cachês é usada para comprar drogas.

Quem garante a agenda cheia dos meninos é João*, de 18 anos, que é agenciador desde os 16. Ele promove os encontros e leva os meninos até esses homens. “Eu sei quem pode pagar. Conheço quem tem dinheiro. Os programas custam de R$ 50 a R$ 300, eu fico com 40% da grana”, explica João, que sustenta a mulher e os dois filhos com a renda dos programas. 
 João contata os clientes de classe média e alta, e leva os meninos até o lugar combinado, que podem ser em um motel, hotel ou ainda, na casa de quem contrata o serviço. Segundo o agenciador, a maioria dos compradores do sexo são pessoas públicas que não querem se expor.  O jovem não quis revelar os nomes dos clientes.
Segundo um taxista que trabalha no local e não quer se identificar, os clientes que procuram os meninos são homens com uma boa situação financeira. “Tem promotor, advogado, professor e até policial que vem aqui de carro e pega os guris. É só gente da alta sociedade”, revela. Ele contou ainda que já ganhou cerca de R$ 3 mil em uma semana fazendo corridas para levar os garotos de programa até esses homens.  

Além dos taxistas, hotéis e bares também lucram com a prostituição. Os estabelecimentos servem de ponto para encontro para os programas.    

Segundo a enfermeira Marta Souza, que trabalhou durante 11 anos em projetos de saúde e prevenção com garotas de programa, não existem dados de michês na cidade. Ela afirma que esses homens ocupam uma pequena parcela do comércio do sexo, que é pouco significativa se comparada às cerca de 360 prostitutas cadastradas no Consórcio Intermunicipal de Saúde. “São tão poucos homens no mercado do sexo que não há nenhum projeto em prática para essa categoria. Até agora, contatamos apenas travestis que são atendidos junto com as mulheres”, explica.
 

*A verdadeira identidade dos garotos de programa foi preservada.
 
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