A ciência fora dos muros das escolas


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Museu de História Natural de Londres. Fonte: http://jovenscientistasdabahia.files.wordpress.com/

Museu de História Natural de Londres. Fonte: http://jovenscientistasdabahia.files.wordpress.com/

Antigamente apenas locais de armazenagem de objetos históricos, hoje os museus são vistos com olhos bem diferentes.  As exposições, dos mais diversos tipos de objetos e públicos, consegue atrair o público para suas dependências e afastar o velho senso comum de que Museu é lugar de coisa velha.

De acordo com um estudo da publicação The Art Newspaper, o Brasil teve quatro das 20 exposições mais populares de 2013. Este foi o terceiro ano que o país entrou neste ranking mundial. Ainda em 2013, apenas nos 30 museus federais que compõem a rede do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/MinC) receberam cerca de 1,1 milhão de visitantes.

Mais do que estatística e números, estes dados colaboram para afirmar o papel dos museus na atualidade. Não apenas um local de acumulação de objetos, mas uma fonte de conhecimento, que preserva expõe a realidade de uma determinada época. E, quando falamos de museus de ciência, uma oportunidade de tornar mais próximo e prazeroso o que é ensinado dentro das salas de aula.

As ciências naturais nos museus

Entendem-se ciências naturais como os campos da ciência que buscam estudar a natureza em seus aspectos mais gerais e fundamentais. São dividas em cinco grandes grupos: Astronomia, Biologia, Física, Geociências e Química. Diferem-se assim das ciências humanas e sociais, que buscam estudar o comportamento humano e a sociedade por meio de métodos científicos, e das ciências formais, como a matemática e estatística.

O pesquisador George Ellis Burcaw, no artigo “Aprendizagem Não Formal/Formal das Ciências: Relações Entre os Museus de Ciência e as Escolas”, de Isabel Chagas, afirma que existem dois tipos de museus de ciência: os de história natural e os de ciência e indústria (ou ciência e tecnologia). O primeiro grupo – que trata dos ramos da zoologia, botânica, geologia e antropologia – desfrutava de grande prestígio social no passado, devido principalmente às contribuições prestadas à comunidade científica. Por causa disso, seu público era mais restringido a cientistas e estudiosos, já que não havia um cuidado de contextualizar e explicar os conceitos por trás dos objetos. No século passado foi ampliado o esforço de reformulação na abordagem dos museus, procurando equilibrar o valor das coleções e a qualidade dos serviços educativos.

Já o segundo grupo, os museus de ciência e tecnologia – que tem por objetivo ensinar princípios de física, química e matemática, além de artefatos frutos do trabalho humano – nasceram com a revolução industrial, para formar operários adequados às novas condições de trabalho. A essa função primária, acrescentou-se a necessidade de entretenimento dos visitantes, devido à influência das grandes feiras internacionais de tecnologia – feiras estas que também forneciam coleções aos museus. Estes locais deram origem aos centros de ciência e tecnologia atuais, que tem como objetivo ensinar não só as ciências da natureza, mas também engenharia, tecnologia e saúde, de uma forma mais agradável ao público leigo.

Os museus de ciência natural em Santa Maria e Região

Fósseis em exposição no Museu Vicente Pallotti. Foto: Daiane Spiazzi

Fósseis em exposição no Museu Vicente Pallotti. Foto: Daiane Spiazzi

Entre os mais de 16 museus de Santa Maria, dos mais variados acervos e propostas, dois de Ciências Naturais funcionam como importantes locais de expansão do conhecimento ensinado nas salas de aula.

O Museu Vicente Pallotti funciona na Avenida Presidente Vargas, no bairro Patronato. O museu foi fundado em 1935, e funciona com um esquema de agendamento. A entrada é gratuita, e as visitações devem ser marcadas por telefone previamente. O tempo de visitação tem duração média de uma hora, contemplando grupos de no máximo 50 alunos (grupos maiores são subdivididos).Atualmente, o museu possui cinco salas de exposições no seu espaço de dois quilômetros quadrados, sendo uma para geologia, outra para paleontologia e outra para demais ciências naturais. As outras duas salas são de artes visuais e arqueologia.

De acordo com Daniele Sanches, diretora técnica do local, o museu não tem convênio com nenhuma instituição, mas fica a disposição de todos os colégios. “Nós recebemos em média 12 mil visitantes anualmente, de escolas de todos os níveis de ensino. Todo nosso museu foi pensado para o ensino fundamental e médio – as exposições foram planejadas nesse sentido. Qualquer pessoa que vier ao museu terá facilidade de identificação, porque ele foi feito para esse público.’’

A diretora não soube especificar cada escola, mas de acordo com ela, a grande maioria dos colégios de Santa Maria visita o museu anualmente. “Não só de Santa Maria, de fora do Rio Grande do Sul também. De Santa Cantarina recebemos bastantes alunos. Algumas escolas de São Paulo também nos visitam”.

Uma estação do Museu Interativo de Astronomia. Fonte: página oficial do Museu no Facebook

Uma estação do Museu Interativo de Astronomia. Fonte: página oficial do Museu no Facebook

Outro local disponível na cidade para as escolas levarem os alunos é o Museu Interativo de Astronomia – Mastr. O local se encontra no segundo andar do Planetário da Universidade Federal de Santa Maria. Fundado em 1998, o museu também funciona com visitas guiadas, que devem ser agendadas por telefone. O tempo médio de cada tour é de 50 minutos, e as turmas funcionam com até 25 pessoas. Um diferencial é que os monitores responsáveis pela condução dos grupos são alunos da UFSM, dos cursos de História, Geografia, Física e Engenharias.

O Museu foi planejado como um laboratório, onde os monitores apresentam visitas guiadas por um conteúdo pré-estabelecido, de acordo com a turma e o desejo dos professores. De acordo com o diretor do Planetário, Francisco Mariano da Rocha, “todos os dispositivos do Museu são sobre determinada área curricular que usa astronomia. Tem desde a origem do universo à explicação de fórmulas de física, passando pelas estações do ano, meteoritos e instrumentos de astronomia. Embora os monitores passem por todo o acervo, ele vai se focar naquilo que é interessante para a disciplina que o professor deseja”.

O Museu conta com mais de três mil visitantes anualmente. Sobre as escolas que utilizam o espaço, o diretor conta que “o Colégio Marista (Santa Maria) vem todos os anos. O Colégio Riachuelo também. Da região, escolas privadas de Ijuí e Cruz Alta também comparecem todo ano”.
Quando o assunto são as escolas públicas, depende bastante dos professores de cada instituição. Francisco conta que são eles que decidem levar ou não as turmas, por isso não há uma constante. “A (Escola Estadual de 1º Grau) Marieta D’Ambrosio veio nos últimos três ou quatro anos, e não vinham antes, apenas esporadicamente. Varia bastante de acordo com os professores que estão ocupando o cargo. Alguns deles assumem e decidem que preferem dar os conteúdos apenas na sala de aula”.

Exposição Ciências do Espaço e da Terra em São Martinho da Serra. Fonte: Divulgação Observatório Bioastronômico Cosmos

Exposição Ciências do Espaço e da Terra em São Martinho da Serra. Fonte: Divulgação Observatório Bioastronômico Cosmos

Há mais uma iniciativa na região que merece ser destacada. Funcionando desde 2003, o Museu & Observatório BioAstronômico COSMOS, de Itaara, realiza um projeto chamado Astronomia na Escola. O projeto percorre todo o Rio Grande do Sul, levando palestras, oficinas de Astronomia e atividades como construção de foguetes e sessões de cinema.

O objetivo desta iniciativa itinerante é, além de complementar as disciplinas do currículo escolar, estimular o interesse dos alunos pela Astronomia e Ciências afins. O grande diferencial do projeto é levar o Museu até as escolas, de maneira a possibilitar o contato nos municípios que não possuem Museus dessa categoria.
O projeto deve ser agendado por telefone, e necessita de um auditório ou ginásio esportivo (ou semelhante) para acomodar os alunos sentados durante a palestra e a exposição escolhidas, além das observações astronômicas. O evento tem a duração de um dia inteiro. De acordo com dados do site do Museu, de 2003 à 2013 280 mil alunos e professores foram atendidos, em 135 municípios do Estado.

As oportunidades de ensino em museus

O crescimento que os museus encontram nas últimas décadas reforça a oportunidade de discutir e redefinir o aprendizado de diversas disciplinas escolares, principalmente as que não encontram conexões tão óbvias com o dia a dia dos alunos.

Atividades sendo realizadas pelo projeto no Colégio Objetivo, em Santa Maria. Fonte: divulgação

Atividades sendo realizadas pelo projeto no Colégio Objetivo, em Santa Maria. Fonte: divulgação

Estes locais, que muitas vezes eram vistos como superficiais, possibilitam aos alunos compreenderem que o que é ensinado nas salas de aula se reflete em diversos aspectos da natureza. Também é uma oportunidade de despertar o gosto por áreas até então desconhecidas (ou apenas superficialmente), auxiliando na escolha de uma profissão dentro do campo científico no futuro.

O poder público, em colaboração com os museus, possuem em suas mãos uma oportunidade de fortalecer o currículo escolar, tirando das mãos dos educadores o papel de promover esta ferramenta de aprendizado.

Em dias que uma educação pública de qualidade ainda engatinha no país, é uma alternativa enriquecimento curricular que ainda tem potencial para ser muito mais desenvolvida.

Por Gustavo Pedroso.
Reportagem produzida para a disciplina de Jornalismo Especializado II.

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