
O que a “União Sinistra” tem a ver com as semifinais da Copa do Brasil?
Uma das maiores alianças do futebol brasileiro é representada por quatro clubes na semifinal da Copa do Brasil.

Uma das maiores alianças do futebol brasileiro é representada por quatro clubes na semifinal da Copa do Brasil.

Entre as atualizações apresentadas pelo Estatuto Digital, foi estabelecido o controle parental obrigatório para menores de 16 anos, antes ignorado pelas big techs (como o Google e a Meta), que são consideradas as maiores empresas de tecnologia e inovação do mundo.

Com o aumento dos desastres climáticos extremos, novas discussões estão ocorrendo sobre o impacto na saúde mental.

A busca por equilíbrio se tornou negócio global e, junto com o lucro, aumentam as distorções, ilusões e impactos na saúde física e mental.

Hoje, há quem recorra a assistentes virtuais e chatbots não apenas como ferramentas, mas como uma espécie de presença constante, capaz de oferecer atenção, diálogo e uma forma peculiar de acolhimento.

Algumas características marcam o que as pessoas consideram ser homem: bancar a sua casa sozinho, não chorar, proteger a família e se vestir de uma maneira propriamente masculina.

A Nave de Histórias é um projeto de extensão da Universidade Franciscana, dos cursos de Jornalismo, Design, Letras e Pedagogia.

Em Santa Maria, as escolas Manoel Ribas (Maneco), Cilon Rosa e Maria Rocha, da rede estadual de ensino da região, passaram por transformações significativas ao longo das últimas décadas.

Em um dos anos mais críticos para incêndios no Brasil, Santa Maria enfrentou as consequências de uma onda de queimadas recordes que já devastou uma área maior que o Japão e afetou a qualidade do ar,

De tempos em tempos, o mercado imobiliário se transforma, a depender da situação econômica e política do país. Segundo a professora do curso de Economia da UFN, Taíze Lopes, o público trabalhador depende dos bancos públicos
A Agência CentralSul de Notícias faz parte do Laboratório de Jornalismo Impresso e Online do curso de Jornalismo da Universidade Franciscana (UFN) em Santa Maria/RS (Brasil).

(Fotos: Cesar Greco/Palmeiras, Matheus Lima/Vasco, Pedro Souza/Atlético-MG e Lucas Uebel/Grêmio)
Quatro clubes em que torcidas fazem parte dessas alianças estão entre os semifinalistas da Copa do Brasil 2026: Grêmio, Atlético-MG, Palmeiras e Vasco. Mas, afinal, o que é a União Sinistra e qual é a sua importância para as torcidas organizadas?
A história do futebol ncional é marcada por uma série de rivalidades, clássicos históricos, provocações e disputas dentro e fora de campo. Tudo isso intensifica ainda mais a paixão dos brasileiros pelo futebol. A fim de deixar um pouco de lado essas rivalidades, torcidas organizadas começaram a criar laços com outros grupos, com o objetivo de conectar torcedores de diferentes estados, criar amizades dentro das arquibancadas e compartilhar símbolos, gestos característicos e histórias que marcam gerações.
Apesar de os clubes, em si, não terem relação direta com essas alianças, as torcidas iniciaram esse movimento a partir da década de 1970, em razão do aumento do número de jogos disputados por todo o território brasileiro. À medida que passaram a viajar mais para acompanhar seus times, começaram também a criar vínculos de amizade com grupos de outras cidades. Dessa forma, quando viajavam para assistir a um jogo fora de casa, podiam contar com o apoio da torcida local.
Esse apoio ia muito além das arquibancadas. Quem chegava a outra cidade podia ser recebido pelos grupos locais, acompanhar a partida ao lado deles e ainda receber ajuda com questões relacionadas à viagem. Aos poucos, essas relações deixaram de envolver apenas duas torcidas e passaram a reunir diferentes grupos, formando alianças que se espalharam pelo país.
De acordo com pesquisadores do tema, essas aproximações nem sempre aconteciam apenas por afinidade entre as torcidas. Em muitos casos, elas também eram motivadas pela existência de adversários em comum. É daí que surge a ideia popular de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.
Ao longo dos anos, essas relações entre torcidas passaram a se estruturar em grandes blocos de alianças, reunindo grupos de diferentes clubes e estados brasileiros. Entre as principais estão a União Punho Cruzado, União Dedo Pro Alto, União Punho Colado, Lado A e Lado B.
Juntas, essas alianças envolvem diversas torcidas organizadas de diferentes regiões do país e ajudam a formar uma ampla rede de relações entre grupos das arquibancadas brasileiras.
Além das torcidas que fazem parte de cada bloco, as alianças também possuem símbolos próprios de identificação. Em muitos casos, os gestos feitos com as mãos são utilizados pelos integrantes para demonstrar a qual grupo ou aliança pertencem.
Outro bloco importante dentro desse sistema de alianças é a União Dedo Pro Alto, que reúne algumas das torcidas mais conhecidas do futebol brasileiro. Entre os grupos associados à aliança estão Mancha Verde (Palmeiras), Força Jovem do Vasco, Galoucura (Atlético-MG), Geral do Grêmio e Torcida Jovem do Botafogo, entre outras.
Dentro desse contexto, também ganhou destaque a chamada “União Sinistra”, nome utilizado por torcedores para identificar a relação histórica entre Mancha Verde, Força Jovem do Vasco, Geral do Grêmio e Galoucura. A aproximação entre os grupos começou ainda na década de 1980 e mantém uma relação de amizade até os dias atuais.
A força dessas alianças também aparece em um momento marcante do futebol brasileiro em 2026. Grêmio, Palmeiras, Vasco e Atlético-MG estão entre os quatro semifinalistas da Copa do Brasil. Os confrontos definidos são Palmeiras x Vasco e Atlético-MG x Grêmio, colocando clubes ligados a torcidas que fazem parte dessas alianças na reta decisiva da competição.
Em meio aos avanços da tecnologia, os influenciadores digitais não geram em seus seguidores apenas reações engraçadas, mas também, com os seus conteúdos, trazem reflexões sobre temáticas pertinentes à sociedade. Nesse cenário, em agosto de 2025, um vídeo sobre adultização infantil movimentou as redes sociais no Brasil. O influenciador digital e youtuber Felipe Bressamin Pereira, conhecido como Felca, gerou, a partir do vídeo, um intenso debate sobre os limites de privacidade de crianças e adolescentes nas redes sociais e trouxe à tona um tema já previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, mas que pouco era discutido até então.
A repercussão trouxe visibilidade ao ECA DIGITAL e levou à aprovação e sanção de uma atualização do Estatuto em menos de 2 meses, em setembro de 2025. No documentário, o influenciador denunciou uma espécie de “reality show” transmitido nas redes sociais do casal de influenciadores Hytalo Santos e Israel Vicente. Com a repercussão do vídeo, as investigações da Polícia Federal, que já estavam em andamento, avançaram e levaram à prisão de Hytalo e Israel. Em fevereiro de 2026, os dois foram condenados após o trâmite do processo.
Segundo uma pesquisa divulgada em 2024 pela agência We Are Social Media, o Brasil ocupa o 3º lugar no ranking dos países que utilizam redes sociais no mundo. A professora do Curso de Direito da Universidade Franciscana, Rosane Leal da Silva, lembra que crianças e adolescentes são uma parcela significativa da sociedade brasileira, sendo em torno de 24 milhões de adolescentes e de 40,1 milhões de crianças em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Entre as atualizações apresentadas pelo Estatuto Digital, foi estabelecido o controle parental obrigatório para menores de 16 anos, antes ignorado pelas big techs (como o Google e a Meta), que são consideradas as maiores empresas de tecnologia e inovação do mundo. Agora, o acesso às redes sociais precisa ser gerenciado por pais ou responsáveis.
“Talvez a exigência de vincular a conta do adolescente ou da criança à conta do responsável legal minimize esses efeitos e também responsabilize mais os pais, que possuem dever de supervisão e orientação parental. Muitas vezes, os próprios pais não cumprem adequadamente esses deveres, o que gera consequências negativas para os usuários que são menores de idade”, frisa a professora Rosane.
Em entrevista para uma matéria da Câmara de Deputados, o especialista em cibercultura André Lemos aponta que o Brasil ,como país, no âmbito digital, teve uma transição de uma rede que incentiva a troca de informações e ideias de forma livre para um ambiente dominado pelos algoritmos das big techs, que têm por principal objetivo o conteúdo chocante e, por vezes, sensacionalista para gerar engajamento.
Na visão de Rosane, o posicionamento de Felca em seu vídeo reacendeu o debate sobre a pauta da criança e do adolescente em relação a uma lei de 2022 que já existia no Congresso Nacional, mas que estava parada no Brasil. O projeto de lei proposto pelo senador Alexandre Vieira (MDB – SE) sofreu modificações em agosto de 2025. Em setembro de 2025, o Presidente Lula sancionou a lei, que foi promulgada em março de 2026 com as novas atualizações de segurança no âmbito das redes sociais, jogos online e plataformas em geral.

A professora relata que, em 2021, o Comentário Geral de número 25 do Comitê de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) tornou mais rígido o acesso a certos tipos de conteúdos para crianças e adolescentes, bem como uma punição mais severa para casos de crimes cibernéticos. No Brasil, em 2024, foi promulgada a resolução número 245/2024, um mecanismo social e político que regulamenta os direitos de menores de 18 anos a partir do trabalho em conjunto de pais, educadores, do Estado e, principalmente, de empresas que atuam no ramo digital. A resolução indica que todas as crianças e adolescentes devem ter garantido o direito ao acesso ao ambiente digital, assegurando-se de que os conteúdos e serviços acessados sejam compatíveis com seus direitos e seu superior interesse.
Para Rosane Leal, “existem riscos de conteúdo, riscos de contato e riscos de conduta. Ou seja, crianças e adolescentes podem entrar em contato com conteúdos prejudiciais, com pessoas que os influenciam negativamente e isso pode repercutir no comportamento deles, inclusive em práticas de violência contra terceiros. Muitas vezes encontramos casos de perseguição, bullying e cyberbullying praticados por adolescentes que também sofreram influência de outros ou ficaram expostos reiteradamente a conteúdos violentos”.
O ECA DIGITAL apresenta o artigo nº 6,que responsabiliza os fornecedores (sites, empresas, redes sociais), pais ou responsáveis ,com o objetivo de diminuir os riscos de acesso a práticas e conteúdos ilícitos. Entre eles estão a violência física, a violência virtual sistemática ou o assédio, seja na operação das suas aplicações, como exposição, recomendação ou um fácil acesso de contato com tais práticas. Por ser um conteúdo altamente sensível, ele é impróprio para menores de 18 anos e, principalmente, crianças e adolescentes entre 2 e 15 anos, que estão em fase de desenvolvimento.
Suane Pastoriza Faraj, psicóloga escolar, destaca a necessidade do cuidado e da atenção que os pais precisam ter com os filhos. A psicóloga desenvolve um projeto na escola onde trabalha sobre o uso consciente da tecnologia, em que promove rodas de conversa com os estudantes e pais, promovendo uma reflexão sobre os cuidados em relação ao conteúdo digital.
Ao longo dos últimos anos, os famosos “desafios” da internet como Baleia Azul, Momo, entre outros, foram percebidos no contato de Suane com adolescentes. Nesse sentido, ela destaca a necessidade do controle parental e alerta que temas, jogos e “brincadeiras” que estão presentes na sociedade, colocando a vida de crianças, pré-adolescentes e adolescentes em risco, também fazem parte do ambiente escolar. “Em um dos anos em que trabalhei com eles, surgiram inúmeros riscos de exposição à Internet. As crianças falavam onde moravam, quando estavam sozinhas e mostravam objetos que tinham dentro de casa, e isso era muito grave porque elas faziam esta exposição sem prever o perigo”, ressalta Suane.
Devido a estas demandas e questionamentos trazidos à sala de aula, desde 2023 ela realiza na escola um projeto sobre o uso consciente da tecnologia, que ocorre conforme o desenvolvimento de cada nível de ensino (educação infantil, anos iniciais, anos finais e ensino médio). O objetivo é discutir os riscos, os benefícios, o uso consciente da tecnologia,e também mostrar as possibilidades que a infância e a adolescência têm para além da tecnologia.

A psicóloga conta que, em 2024, com os anos iniciais, foi trabalhada a conscientização sobre o conteúdo das redes sociais através da construção de um bingo com imagens. Já a partir da adolescência, o bingo é utilizado para a compreensão de aprendizagem. “Muitas questões que chegam ao setor de psicologia estão relacionadas ao uso da tecnologia e das redes sociais na adolescência. Então aparecem relatos de conflitos, comparações, exclusões e de cyberbullying”, destaca Faraj.
Suane também acredita que muitos adolescentes, mesmo com as novas restrições feitas pelo Estatuto Digital, buscam burlar o sistema de proteção das redes sociais mentindo sobre a idade, dados ou acessando de outras maneiras. Ela comenta que os alunos em sala de aula apresentam uma certa noção dos perigos e dos conteúdos compartilhados de maneira indevida.
Para a psicopedagoga Fernanda Torres, a problemática do uso de telas surge no contexto do uso precoce, pois, no período entre 6 e 12 anos, o indivíduo está com o cérebro em fase de amadurecimento. Devido a isso, as telas se tornam um obstáculo ao desenvolvimento das crianças e dos pré-adolescentes. Entre os obstáculos encontrados estão a dificuldade no desenvolvimento do controle inibitório, que é a capacidade de controlar os impulsos ,e a baixa tolerância à frustração, com o uso de telas de forma exagerada.
“ Quando a criança desliga a tela do celular, o cortisol fica elevado e isso faz com que a criança fique estressada, e ela não consegue lidar com a frustração e no fim isso vai prejudicar a evolução dela como indivíduo”, destaca Fernanda.

“Eu tenho inúmeras experiências com pacientes que mostram que a mudança de rotina com horário para desligar a televisão e o telefone, por exemplo, em até duas semanas, a criança já começa a ficar menos irritada e que irá, por exemplo, desenvolver melhor a fala”, destaca a psicopedagoga. Em casos graves, pode haver necessidade da internação do adolescente.

Fernanda comenta que quando há o apoio dos pais e/ou responsáveis na construção de novas rotinas e diálogos na dosagem dos prejuízos das telas dentro de casa após as consultas, tudo fica mais fácil de ser trabalhado com a própria criança. O ECA Digital veio para proporcionar aos pais, crianças e adolescentes segurança para o uso das redes sociais, mas é necessário que haja, de forma cada vez mais prática, uma atuação ativa neste processo junto às famílias.
Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Especializado, sob orientação da professora Glaíse Palma, no 1º semestre de 2026.

Você já ouviu falar em ecoansiedade? O termo surgiu nos estudos científicos no começo dos anos 2010 e, segundo a Associação Americana de Psicologia (APA), se refere ao medo crônico da destruição ambiental. Com o aumento dos desastres climáticos extremos no estado do Rio Grande do Sul, novas discussões estão ocorrendo sobre o impacto na saúde mental.
A preocupação com crises climáticas não está isolada, a exemplo disto a ONU (Organização das Nações Unidas) destaca em seu Plano de Desenvolvimento Sustentável: Agenda 2030 um conjunto de 17 objetivos com 169 metas. Essas metas são parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) a serem atingidos até o ano de 2030 de forma global. Entre estes objetivos está o ODS número 3, que visa assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.
Pesquisas recentes demonstram que em casos de desastres climáticos de longo porte, como enchentes e incêndios florestais, há impactos na saúde mental. Em entrevista ao G1, a psicóloga Jaqueline Assis destaca que se o clima e o território não forem considerados nas discussões sobre território não há como garantir uma qualidade de vida aos moradores.
Carina Boeck, professora de bioquímica da Universidade Franciscana (UFN), destaca que a ecoansiedade está relacionada a crises climáticas e ecológicas. Segundo a professora, a ecoansiedade é caracterizada por sintomas negativos em razão do clima, do meio ambiente e de pensamentos repetitivos associados ao medo do futuro de forma direta. Conforme as pesquisas indicam, estes fenômenos se tornam mais comuns entre os jovens adultos, caracterizados pelo início da carreira profissional, por exemplo. “As preocupações com as mudanças climáticas devem ser motivo de atenção caso gerem pânico. Os medos são importantes para nós e nos colocam para nos preparar para algo. Mas, há descontroles quando existe o excesso.”, destaca a professora.


Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu uma das maiores catástrofes naturais da sua história. As enchentes foram causadas por diversos fatores, como chuva abundante, falta de tratamento dos esgotos e falta de área permeável para absorver a água. Para Carina, em casos como este observa-se alguns impactos psicológicos. “Nós conseguimos enxergar que durante o período destas catástrofes as pessoas mais atingidas pelas chuvas foram, naturalmente, as que tiveram mais problemas de saúde mental. Em casos de agricultores que perderam suas plantações e famílias que perderam suas casas, pode haver o transtorno pós-traumático, que vai além da ecoansiedade.” Segundo a professora é necessário entender a individualidade de cada um, seus sentimentos e as experiências de vida.
De todo modo, cabe a todos ter o autocuidado assim como cuidar do meio ambiente. Atividades práticas podem ser aplicadas no dia a dia, como fazer a separação correta dos resíduos domésticos e consumo de produtos sustentáveis, ajudando a não poluir mais o meio ambiente, e também atenção consigo próprio com atitudes como manter-se hidratado, ter uma boa alimentação, duração e qualidade adequadas de sono e atividades físicas de formas regulares.
Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Especializado no 1º semestre de 2026 do curso de Jornalismo, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.
A busca por equilíbrio se tornou negócio global e, junto com o lucro, aumentam as distorções, ilusões e impactos na saúde física e mental
Apenas 36% dos brasileiros usam suplementos com recomendação de um profissional de saúde. Imagem: Enzo Martins/Labfem
Em 2002, o economista americano Paul Zane Pilzer lançou o livro The Wellness Revolution. Na época, a ideia de que o bem-estar poderia se tornar o novo motor da economia global parecia ousada, quase utópica. Porém duas décadas depois, suas previsões se confirmam. O Global Wellness Institute (GWI) estima que a economia do bem-estar movimentou US$ 6,3 trilhões em 2023, cerca de 6% do PIB mundial, e pode alcançar US$ 9 trilhões até 2028, consolidando-se como uma das maiores forças econômicas do planeta.
A busca por equilíbrio entre corpo, mente e estilo de vida saudável deixou de ser privilégio de poucos e tornou-se um dos principais motores de consumo no mundo. Mais que uma tendência, trata-se de um novo paradigma, impulsionado por um público cada vez mais informado, exigente e conectado. Estudos da McKinsey & Company mostram que as gerações Y e Z encaram o bem-estar como parte diária da rotina: sono, alimentação, aparência e saúde mental são prioridades tão importantes quanto carreira e renda.
Uma das empresas de bem-estar que gera controversias é a Goop, fundada em 2008 pela atriz americana Gwyneth Paltrow, com dicas de receitas, sugestões de viagem, entre outros conselhos de autocuidado. Rapidamente, a empresa virou uma marca gigantesca de lifestyle, com loja online, podcasts, eventos e até série na plataforma de streaming Netflix. A proposta sempre foi vender uma vida “equilibrada” e cheia de rituais, só que, no caminho, a empresa passou a apostar em terapias consideradas excêntricas e sem base científica, o que renderam muitas críticas de médicos e pesquisadores.
A discusão cresce porque muitos dos produtos e práticas promovidos pela Goop prometem efeitos que não foram comprovados, como enemas de café para “purificar o corpo”, ovos de jade para “regular hormônios” ou vaporização vaginal para “limpeza energética”. Especialistas alertam que essas tendências podem ser ineficazes ou até perigosas, além de reforçar um mercado de bem-estar que lucra com soluções milagrosas. Por isso, apesar de ser um sucesso comercial, a Goop virou símbolo de um bem-estar que parece mais com marketing e misticismo do que com ciência.
Outra empresa desse meio é a Lemme, criada pela influenciadora americana Kourtney Kardashian, com a proposta de tornar o consumo de suplementos mais simples e prazeroso, apostando em gomas coloridas que prometem benefícios como foco, energia, menos estresse e até mesmo, apoio ao metabolismo. A marca foi construída a partir da imagem de Kourtney nas redes sociais, como referência de bem-estar. Ela afirma ter passado anos pesquisando ingredientes e consultando especialistas para formular produtos “limpos”, veganos e pensados para fazer parte da rotina de quem busca uma vida mais equilibrada.
Junto com o sucesso, a Lemme passou a ser questionada por especialistas e consumidores por não deixar claro quanto de cada ingrediente realmente existe nas fórmulas, além de usar compostos em quantidades consideradas insuficientes para entregar os efeitos prometidos. As críticas apontam que as gomas contêm açúcar, um contraste evidente com o estilo de vida natural promovido pela própria Kourtney. A situação se intensificou após o lançamento do suplemento GLP-1 Daily, divulgado como uma alternativa “natural” aos remédios para emagrecimento. Médicos afirmam que os extratos usados pela marca não reproduzem, nem de longe, o mecanismo do Ozempic, levantando dúvidas sobre a eficácia real do produto e alimentando a suspeita de marketing exagerado.
No Brasil, esse cenário se reforça com a expansão de academias, o avanço de estilos alimentares como vegetarianismo e o crescente interesse por práticas alternativas. Para a personal trainer Kamilla Corrêa Soares, no entanto, essa busca tem se tornado distorcida pela influência das redes sociais, que alteram a percepção de muitas pessoas sobre o próprio corpo. Ela observa que a maioria chega à academia com pressa e expectativas irreais. “As pessoas esquecem que o processo é lento, que existe uma longa caminhada até a construção de massa corporal”. “Não dá para comparar alguém que trabalha com o próprio corpo com uma pessoa que tem uma rotina comum, com filhos, trabalho e estudos”, afirma a personal.
A pressão estética, segundo Kamilla, tem atingido principalmente adolescentes. Até mesmo jovens com boa saúde e condicionamento físico passam a se sentir insuficientes ao se compararem com padrões inalcançáveis. Para a personal, ter um corpo saudável envolve capacidades simples do cotidiano, como subir escadas ou levantar do sofá sem dificuldade, algo que muitos já não conseguem realizar no dia a dia. Ela lembra que saúde não depende de um corpo “definido”, mas de qualidade de vida, embora reconheça que boa parte da população ainda associe bem-estar a uma aparência extremamente tonificada, distante da realidade da maioria.
Kamilla também comenta que muitos evitam a musculação por acreditar que ela não auxilia no emagrecimento. Para ela, isso é um erro, pois quanto mais massa magra uma pessoa possuir, maior é seu gasto calórico, inclusive em repouso. Apesar disso, a personal conta que muitos chegam influenciados por tendências de internet, buscando treinos rápidos e exaustivos, com intervalos mínimos, acreditando que o cansaço extremo garante resultados. Ela alerta que essa lógica pode prejudicar o desempenho. A ausência de descanso reduz a capacidade de aumentar cargas, tornando o treino menos eficiente. Para a personal, uma musculação bem estruturada, com intervalos entre dois e três minutos, tende a gerar resultados mais consistentes, mesmo sem provocar exaustão imediata.
O acompanhamento profissional faz muita diferença na construção de uma rotina de exercícios. Imagem: Arquivo Pessoal
A indústria do bem-estar também é relacionada a nutrição. A área é indicada para além da estética, como: prevenção de doenças, equilíbrio e mais disposição. Contudo, atualmente, são geradas diversas informações sobre alimentação que circulam de forma desproporcional. Pois, nem todas essas informações são corretas ou seguras para a saúde.
Em 2024, o Conselho Federal de Nutrição criou a campanha “Nutrição é Ciência”, iniciativa que visa informar a população sobre a importância de buscar orientação nutricional e outros conteúdos relacionados à alimentação com base em evidências científicas. Segundo eles, muitas vezes nos deparamos com dicas de alimentação sem base científica, que podem ser prejudiciais. Essas informações falsas circulam amplamente e podem levar a práticas alimentares inadequadas, colocando em risco a saúde de quem segue arriscadamente. A campanha reforça que a alimentação é uma questão séria e deve ser tratada com responsabilidade. Apenas profissionais qualificados possuem o conhecimento necessário para entender a complexidade dos nutrientes, como eles interagem no nosso corpo e como podem ser utilizados para melhorar a saúde e o bem-estar.
A nutricionista Maíra Penna reforça que esse mesmo comportamento ocorre frequentemente na alimentação. “Hoje em dia os influenciadores têm um papel enorme na qualidade de vida e hábitos alimentares da população em geral. Seguir essas dietas de internet pode causar deficiências nutricionais, pois muitas vezes nos espelhamos em realidades diferentes das nossas”, afirma. Ela ressalta que, embora a internet seja uma grande fonte de informações, também abriga desinformações disfarçadas de verdade. “Há perfis sérios, com bases científicas, porém, a maioria são conteúdos sensacionalistas e simplistas”, completa.
Do ponto de vista psicológico, especialistas apontam que rotinas supostamente saudáveis podem se tornar prejudiciais quando geram sofrimento e rígidas restrições, levando a crises de ansiedade e estados depressivos. O ciclo de comparação constante, especialmente com influenciadores, faz com que muitos desenvolvam uma percepção de fracasso, mesmo quando seguem hábitos adequados.
Para compreender melhor essa relação entre saúde, estética e bem-estar, o doutor em Psicologia Félix Guazina comenta os impactos psicológicos dessa busca.
Uma pesquisa realizada pela ONG inglesa Girlguiding, em 2023, revela que mais de mil garotas, entre 11 e 21 anos, possuem uma relação delicada mundo virtual. Uma em cada três jovens relatou que sua maior preocupação era comparar a sua vida com a de outras pessoas por meio das redes sociais. Outro dado levantado pelo estudo é sobre a percepção que os pais têm da pressão que elas sofrem na internet. Cerca de 50% das entrevistadas relataram que os pais reconhecem esse tipo de pressão, porém, apenas 12% afirmaram que seus responsáveis têm alguma preocupação real com esse problema enfrentado por elas.
O personal trainer Jeferson Gonçalves também compartilhou sua visão sobre o impacto das redes sociais. Para ele, as plataformas digitais funcionam como vitrine de trabalho, motivam alunos e ajudam a divulgar informações importantes, mas também alimentam expectativas impossíveis. “As pessoas são expostas a corpos perfeitos e editados, o que gera uma comparação constante e, muitas vezes, leva à desistência”, afirma. Jeferson reforça que o desenvolvimento de um corpo saudável exige tempo, consistência e paciência, elementos que não aparecem nos vídeos curtos de influenciadores. “Não adianta enganar as pessoas com promessas de resultados rápidos. Mudar hábitos de uma vida inteira leva tempo”, conclui.
Para Jeferson Gonçalves, cada aluno possui necessidades e objetivos que devem ser considerados durante o treinamento. Imagem: Arquivo Pessoal
O personal conta que percebe um aumento significativo de alunos que chegam com metas incompatíveis com a realidade, sem considerar que influenciadores têm rotinas de treino e trabalho completamente diferentes. Muitos acreditam que treinos curtos compensam anos de sedentarismo, mas Jeferson esclarece que o corpo precisa de meses de adaptação. Nos primeiros 45 dias, o organismo está apenas reconhecendo força, resistência e capacidade de recuperação. Resultados estéticos reais só começam a aparecer após cerca de seis meses de prática contínua. “As pessoas querem reverter anos de maus hábitos em dois meses. Não existe isso”, reforça.
Ele também alerta para a influência de desafios virais e treinos “milagrosos” que se espalham, principalmente na rede social TikTok. Segundo ele, esse tipo de conteúdo ignora a necessidade de treinos específicos para cada pessoa. “O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. A individualização do treino é fundamental”, destaca.
Quanto ao uso de suplementos e hormônios, Jeferson adota uma postura cautelosa. Embora reconheça benefícios quando utilizados com orientação, critica o uso indiscriminado. “A suplementação deve ser feita de maneira estratégica, de acordo com o objetivo individual. O que funciona para uma pessoa pode não ser a melhor opção para outra.” Ele destaca que muitos consomem substâncias sem saber se são adequadas à idade, saúde ou momento do treinamento. “Às vezes, a suplementação é direcionada ao momento errado. Por exemplo, uma pessoa mais velha poderia se beneficiar mais de creatina ou de um anti-inflamatório natural, ao invés de um pré-treino com cafeína, que pode ter efeitos colaterais”, explica Jeferson.
O universitário Eduardo Gomes usa suplementação há um ano e diz que a mudança foi nítida, principalmente na recuperação pós-treino. Segundo ele, a creatina teve um impacto direto no físico e no desempenho. Eduardo também treina com apoio de um personal trainer, que monta rotinas específicas para suas necessidades. Com isso, afirma que deixou de sentir dores no corpo e passou a render muito mais nas atividades físicas. “Ter acompanhamento foi a melhor escolha da minha vida. Recomendo para todo mundo”, destaca.
Para o personal trainer e gerente de academia, em Itaqui (RS), Fabiano Gomes, é fundamental que o profissional seja transparente e nunca engane o cliente.
Fabiano é personal trainer e afirma que as pessoas focam tanto nos resultados visuais que ignoram sinais de dor e exaustão. Imagem: Arquivo Pessoal
Segundo o Law Society Journal, existem quatro pilares que sustentam a saúde mental e o bem-estar integral: a mente e o equilíbrio emocional, o corpo e a saúde física, o espírito e a sensação de propósito e felicidade, além dos relacionamentos e da participação na comunidade. Juntos, esses elementos abrangem as principais dimensões da experiência humana e reconhecem o indivíduo como um “ser completo”, formado por múltiplas camadas que se influenciam mutuamente.
Cada um desses pilares levanta questões essenciais que pedem reflexão e, sobretudo, ação concreta em nosso cotidiano. Mesmo que não tenhamos respostas definitivas para todas elas, é possível afirmar que buscamos, como seres humanos, uma vida com menos dor e sofrimento, na qual possamos aproveitar plenamente a complexidade e a beleza da existência. A sociedade deseja usar o tempo da forma mais significativa possível, cultivando bem-estar e construindo uma vida que faça sentido. Apesar de especialistas apontarem que o bem-estar depende desses quatro pilares, o resultado é um cenário preocupante: muitas pessoas reconhecem a importância desses pontos, mas têm dificuldade em incorporá-los na rotina.
O ritmo acelerado da vida impede que a maioria das pessoas consiga dedicar tempo e atenção aos próprios fundamentos de bem-estar. As rotinas cada vez mais cheias, a pressão por produtividade e a constante sensação de urgência fazem com que até necessidades básicas, como descanso adequado, alimentação consciente ou momentos de conexão social, sejam deixadas em segundo plano.
Nesse cenário, mesmo quem compreende a importância de cuidar da mente, do corpo, do espírito e das relações encontra dificuldades reais para transformar esse conhecimento em hábito. A vida corrida cria um ambiente em que o autocuidado se torna mais uma tarefa a cumprir, e não um componente natural do dia a dia. Assim, o ideal de viver de forma plena e equilibrada acaba se chocando com as exigências de um cotidiano que não oferece tempo, espaço ou energia para que esse equilíbrio aconteça de fato.
A indústria do bem-estar virou um gigante que se alimenta das inseguranças e do cansaço coletivo. Entre aplicativos de meditação, treinos milagrosos e suplementos coloridos esse mercado se vende como resposta para praticamente tudo, estresse, foco, sono, humor, produtividade. Porém, por trás dessa estética de vida perfeita, existe uma lógica comercial poderosa, que transforma autocuidado em mercadoria e faz parecer que saúde é algo que você compra em frascos, não algo que se constrói com tempo, acesso e acompanhamento real.
Ao mesmo tempo, é um setor que cresce porque acerta na necessidade de sentir algum controle. Em meio à rotina acelerada, redes sociais e pressões estéticas, muita gente encontra nessas marcas uma sensação de pertencimento e promessa de mudança rápida. O problema é que esse discurso muitas vezes ignora ciência, exagera resultados e reforça padrões inalcançáveis. No fim, o desafio é distinguir quando estamos cuidando de nós mesmos, e quando só estamos alimentando uma máquina que lucra justamente com o nosso desejo de melhorar.
Reportagem produzida por Isadora Rodrigues e Thine Feistauer em Narrativa Multimídia, no 2º semestre de 2025, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.
O uso da inteligência artificial faz parte ativa do cotidiano de muitas pessoas. Foto: Enzo Martins/LABFEM
Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) deixou de ocupar apenas o território da praticidade, aquela que agenda compromissos, acende luzes ou responde perguntas rápidas, para atravessar uma fronteira mais íntima e delicada. Em silêncio, quase sem perceber, ela começou a povoar também os espaços emocionais. Hoje, há quem recorra a assistentes virtuais e chatbots não apenas como ferramentas, mas como uma espécie de presença constante, capaz de oferecer atenção, diálogo e uma forma peculiar de acolhimento.
Esse movimento revela algo que vai além do fascínio por máquinas inteligentes. Aponta para uma tentativa humana, talvez desesperada, talvez sutil, de preencher fendas afetivas que se alargam em um cotidiano cada vez mais digital. Em meio às rotinas apressadas, às conversas interrompidas e aos vínculos frágeis, há quem encontre na IA um tipo de companhia que não julga, não exige e está sempre disponível. Uma presença que, embora artificial, parece ouvir com paciência infinita.
Para o professor Felipe Schroeder, do curso de Psicologia, essa aproximação nasce de uma solidão que nem sempre é visível. “Não é preciso estar isolado do mundo para sentir-se só”, explica. Muitas pessoas possuem círculos sociais, convivem diariamente com colegas, amigos, familiares, mas ainda assim carregam uma sensação persistente de não serem verdadeiramente vistas. Relações superficiais, diálogos apressados e a falta de conexão genuína abrem brechas que a tecnologia, com sua prontidão matemática, tenta preencher.
Nesse cenário, a IA se torna uma espécie de refúgio emocional. Uma zona segura onde o indivíduo encontra atenção sem conflitos, companhia sem desgaste, escuta sem interrupções. Mesmo que o afeto seja simulado, mesmo que tudo esteja amarrado a linhas de código, o conforto que produz é real, pelo menos por um instante.
Mas Schroeder faz um alerta importante: essa relação também carrega riscos. Diferente de um amigo humano, a inteligência artificial é programada para manter o usuário engajado, oferecendo respostas moldadas para agradar, acolher ou reforçar expectativas. Ela devolve o que a pessoa deseja ouvir, não necessariamente o que precisa. Assim, a experiência pode se transformar em um espaço de estagnação emocional, onde não há confronto, fricção nem crescimento.
“É como tentar tirar um carro atolado: você acelera, gasta energia, a roda gira, mas você continua no mesmo lugar”, compara o professor. Para ele, a IA até pode servir como companhia breve, como apoio em momentos de vulnerabilidade, mas jamais substituirá a profundidade que nasce do encontro humano. Porque é no diálogo imperfeito, cheio de pausas, falhas e afetos verdadeiros, que algo em nós se movimenta. É ali que o vínculo existe.
Segundo o professor Felipe Schroeder, os vínculos com a inteligência artificial podem surgir mesmo em pessoas socialmente ativas. Foto: Enzo Martins/LABFEM
O professor e coordenador do curso de Inteligência Artificial, Mirkos Martins, costuma dizer que o medo das máquinas nasce, muitas vezes, de um equívoco: a crença de que a tecnologia age como um substituto direto do humano. Para ele, essa visão é estreita demais. Em sala de aula, Mirkos repete que a IA não surge para ocupar lugares, mas para preencher os espaços deixados por quem parou de se mover. “Ela não vai substituir a gente. Vai substituir quem não quer aprender, quem escolhe o conforto de não arriscar nada novo”, afirma, com a serenidade de quem acompanha o avanço tecnológico de perto.
Mesmo com o ritmo acelerado das inovações, ele reforça que a inteligência artificial ainda depende do que só o humano possui: curiosidade, imaginação, impulso criativo. Sem isso, ele diz, “nenhuma máquina anda sozinha”. E mesmo que sistemas se tornem mais complexos no futuro, a expectativa não é que ultrapassem o humano, mas que o provoquem, como uma espécie de lembrete constante de que é preciso seguir em movimento para não ser deixado para trás enquanto o mundo avança.
Ao final de sua fala, Mirkos chama atenção para um ponto incontornável: não existe retorno quando se trata de tecnologia. “Depois que uma tecnologia aparece, ela não some. Ou é superada por outra melhor, ou amadurece até se tornar parte da nossa vida”, explica. E com a inteligência artificial não será diferente. Ela já se infiltrou no cotidiano e tende a crescer ainda mais. Por isso, diz ele, que “o esforço não deveria mirar o medo ou o bloqueio, mas o fortalecimento de quem a utiliza. Formar pessoas capazes de avaliar criticamente o que é útil, o que é raso, o que é ético e o que não deveria ser repetido”. Em resumo: preparar indivíduos para que a IA seja ferramenta, não muleta; aliada e não substituta.
O professor Mirkos Martins explica que a tecnologia trabalha ao lado da humanidade e não como uma substituta. Foto: Nelson Bofill/LABFEM
A experiência de quem usa a inteligência artificial como suporte emocional também ajuda a desenhar esse novo cenário. Luiza Lopes*, de 24 anos, conta que começou a conversar com chatbots no fim do ano passado, durante um período de forte ansiedade. “Eu não conseguia marcar psicóloga logo, então usei a IA como um quebra-galho”, relembra. O que seria temporário acabou virando hábito. A razão? A disponibilidade absoluta. “É três da manhã, bate uma crise e tu consegue desabafar na hora. Não tem julgamento. E às vezes ela faz umas perguntas que me ajudam a organizar a cabeça.”
Para ela, conversar com a IA ocupa um território ambíguo: está longe de ser humano, mas também não é vazio. A fluidez das respostas cria, por alguns minutos, a sensação de presença. “Eu sei que é uma máquina, mas às vezes eu esqueço por uns minutos. É acolhedor, sabe? Uma resposta que te dá um norte.” Em certos momentos, a conversa digital parece até mais confortável do que a presencial. “Na terapia eu tinha vergonha de falar algumas coisas. Com a IA, não. Parece mais seguro. Mas, claro, tem coisas profundas que ela não pega.”
Hoje, ela vê a IA como um recurso complementar, e não como substituto da terapia. Ajudou a atravessar crises rápidas, estruturar pensamentos e diminuir o peso do silêncio. Mas os nós mais antigos, diz, continuam sendo trabalhados no consultório. “A IA é suporte. Quando preciso entender a raiz das coisas, é com a psicóloga. Eu não trocaria uma pela outra.” Ainda assim, ela recomenda o uso, desde que com consciência. “Funciona como ferramenta, principalmente pra quem não consegue atendimento imediato ou tem dificuldade de se expressar.”
Vitória Ferrão, de 23 anos, relata a experiência que teve ao jogar tarot com o Chat GPT: “Fiz duas vezes somente depois de assistir a um vídeo no TikTok [..] Não é algo que eu faço rotineiramente, é mais uma curiosidade do que um hábito fixo.”. Ela complementa dizendo que não confia 100% na ferramenta, apenas a vê como uma forma de reflexão, para organizar pensamentos e não como uma verdade absoluta.
No fim, o que emerge dessas vozes, dos especialistas aos usuários, é um retrato menos apocalíptico e mais humano da inteligência artificial. Longe de um inimigo silencioso prestes a tomar o nosso lugar, ela aparece como um espelho, que devolve tanto nossas potencialidades quanto nossas faltas. Para alguns, é ferramenta de estudo e trabalho; para outros, é apoio emocional em momentos de sombra. E, para todos, é um convite a repensar o que fazemos com o tempo que temos e com as capacidades que nos definem.
A tecnologia avança, isso é fato. Mas o modo como ela nos atravessa ainda depende de escolhas profundamente humanas. Continuaremos sendo movidos pela curiosidade? Vamos cultivar o senso crítico? Seremos capazes de usar a IA para ampliar, e não acabar com aquilo que torna quem somos?
Enquanto essas perguntas seguem abertas, uma certeza se consolida: não é a inteligência artificial que define o futuro, são as pessoas, nas decisões que tomam diante dela.
Confira abaixo o podcast sobre Inteligência Artificial com os professores Felipe Schroeder e Mirkos Martins.
Texto em parceria com a acadêmicao de Jornalismo: Andressa Rodrigues.
Reportagem produzida na disciplina de Narrativa Multimídia, sob orientação da professora Glaíse Palma, no 2º semestre de 2025.
Você se considera um “homem de verdade”? Você é o provedor da sua casa? Você chora? Você lava as suas roupas ou faz a sua própria comida? Algumas características marcam o que as pessoas consideram ser homem: bancar a sua casa sozinho, não chorar, proteger a família e se vestir de uma maneira propriamente masculina. No entanto, segundo os especialistas, o que realmente marca a masculinidade dos dias de hoje são outros fatores: a fragilidade emocional, a incapacidade de participar dos trabalhos da casa e a reação às mudanças dos papéis de gênero.
Ainda hoje, há jovens que não tiveram a abertura para falar com os pais sobre os seus sentimentos. Mathias Chassot, poeta de 21 anos e estudante de letras nunca teve essa experiência e relata sobre como era fechado na sua adolescência. “Eu não gostava de ser como eu era, eu era frio e sentia que conseguia fingir que eu não sentia coisas.” Ele explica que por causa disso frequentemente se sentia sozinho. “Meu pai sempre cresceu distante de mim, assim, a gente se via nas férias,[…] Mas nunca tive esse laço de eu vou me expressar, era sempre essa questão de querer se provar e de competir”, relata.
Fotos:Enzo Martins/Labfem
Mathias diz que começou a escrever para falar sobre o que sentia, se expressar. De maneira parecida, ele começou a pintar o seu cabelo e as suas unhas na pandemia como uma forma de externalizar o seu estado emocional. Hoje em dia, ele pinta porque gosta e já se acostumou com isso. “Pintar a unha é um traço feminino, socialmente falando, mas só é assim porque a gente deixou que fosse, sabe? Não necessariamente porque realmente é.” Ele define. “Acho que ‘não ser homem' é algo muito subjetivo, sempre tem essa questão da figura física rígida, mas não é necessariamente isso”, complementa.
A compreensão sobre o que é Masculinidade sempre esteve em movimento de acordo com as diferentes épocas da sociedade. Atualmente, as definições sobre a figura do homem estão cada vez mais em disputa. A imagem clássica do chefe de família, provedor da casa, frio e que demonstrava seu afeto através da rigidez e disciplina está cada vez mais distante da realidade, seja pela insustentabilidade de uma família se manter financeiramente apenas com um provedor ou pelos traumas que essa rigidez excessiva gerou nos homens durante décadas. Para Mathias, ser forte e frio não é o que define ser homem, são apenas as coisas que nós aprendemos que é ser homem.
Se as percepções estéticas sobre um gênero já são capazes de se tornarem debates na sociedade atual, elas tampouco são a totalidade de questões que formam a Crise da Masculinidade. Elas, sobretudo, se relacionam aos diferentes papéis de gênero. A antropóloga e pesquisadora em Divisão Sexual do Trabalho, Jurema Gorski Brites, observa que 30 anos atrás no Rio Grande do Sul era difícil ver um pai passeando com o seu filho no colo na pracinha em pleno sábado. Ela explica que a paternidade foi uma função reinterpretada de maneira generalizada pela sociedade, mas que nem todos os papéis foram repensados da mesma maneira.
A antropóloga responsabiliza o início das mudanças nos papéis de gênero ao movimento feminista, mas enfatiza que a ideia da mulher que adentra ao mercado de trabalho para garantir autonomia e participação igualitária na casa iniciou com as mulheres brancas de classe média/alta. Isso porque no Brasil as mulheres pobres (negras ou pardas em sua maioria) sempre participaram do mercado de trabalho e em profissões precarizadas. Essa questão exemplifica como a redefinição dos papéis de gênero da sociedade depende de diversas condições como: classe social, religião, escolaridade, raça. Para Jurema, a mulher de maneira geral não quer mais ficar em casa, mas as condições sociais e as mudanças de valores necessárias para que essa paridade de papéis aconteça não chegam em todos os locais.
A especialista identifica que essa preocupação sobre uma divisão de papéis mais igualitária entre os gêneros gera uma disputa política diferente da típica oposição do progressismo contra o conservadorismo. Para ela, a Crise da Masculinidade gera comportamentos reacionários. Essa definição se refere a movimentos de homens que acreditam que a divisão mais igualitária entre os gêneros é prejudicial à sociedade e se recusam a ocupar espaços que antes eram das mulheres buscando impedir que elas realizem funções que eles acreditam serem designadas para o homem como forma de reação às mudanças sociais.
Outro fator que molda o que a sociedade pensa sobre os homens é a religião. Segundo os dados do último Censo do IBGE de 2022 (divulgados em 2025) 26,9% dos brasileiros se consideram evangélicos, o que significa um crescimento de 5% em comparação a 2010. A antropóloga explica que há vertentes da igreja evangélica que são progressistas, mas que atualmente existem setores que pautam a divisão sexual do trabalho de forma moralista.
O pastor Rodrigo de Freitas Vieira faz parte da Jesus Church, uma igreja evangélica neopentecostal de Santa Maria e explica que na visão da sua comunidade: “O papel do Homem é aquele que protege, ampara e guarda a família em todas as esferas seja financeira, emocional, espiritual e material, ele é o cerne da família”. Ele ressalta que para a visão religiosa que ele defende o empoderamento feminino é de extrema importância e que apesar de se colocar como aquele que provê na sociedade, o homem não tira essa oportunidade da mulher. Além disso, ele entende que uma compreensão mais completa da Bíblia reconhece que a provisão do homem para a família não é só financeira, mas também é emocional.
O pastor Rodrigo de Freitas Vieira faz parte da Jesus Church. (Enzo Martins / Labfem)
“Afogar as mágoas” é uma expressão que se refere ao ato de tentar aliviar a tensão, tristeza ou dor na bebida alcoólica. Essa frase é um dizer comum no Brasil que já pertence a inúmeras letras de músicas sobre homens com o coração partido. Mas, o que as mulheres fazem quando precisam desabafar? Em um filme de comédia romântica americano, a protagonista come um pote de sorvete enquanto chora e conversa com as amigas. Essas são imagens bem comuns no nosso imaginário e fazem parte de uma construção social que impacta o modo como homens e mulheres agem no cotidiano. É isso que o psicólogo clínico e professor da UFN (Universidade Franciscana), Félix Guazina, explica.
“O jeito que a gente usa a barba, a gente usa uma camisa, uma calça jeans, isso é uma performance de gênero. E essa performance vem colada a esses modelos”. (Nelson Bofill/Labfem)
Durante décadas, homens compreenderam que a forma socialmente aceita de “ser homem” era esconder seus sentimentos. Félix diz que a cultura do patriarcado vai criando modelos de “ser homem” que influenciam essa educação de que homens devem omitir seus sentimentos. A cultura da qual o psicólogo se refere é a definição de uma cultura na qual os homens têm posições de poder sobre as mulheres, o que acarreta na necessidade de os homens se afastarem de tudo que possa ser interpretado como uma manifestação de feminilidade. No período de 2015 a 2022 (dados mais recentes do DATASUS) 78% dos casos de suicídio no país foram de homens. Por outro lado, o número de diagnósticos de depressão no Brasil são três vezes maiores em mulheres quando comparado aos homens (Dados da COVITEL 2023). O psicólogo afirma que os homens falam menos sobre saúde mental porque compartilhar sentimentos com outros homens é visto como fragilidade e argumenta que esse ato poderia ser um fator de prevenção e promoção de saúde mental.
A professora de História da UFN e pesquisadora sobre relações de gênero e família , Carla Barbosa, explica que essa crise da masculinidade é antiga. Para ela, o auge desse modelo de homem viril, provedor da casa e reprimido se deu pós Segunda Guerra Mundial. Os homens voltaram para suas casas traumatizados, as mulheres que haviam se inserido no mercado de trabalho voltaram a cuidar das tarefas domésticas e os seus maridos não eram capazes de expressar o horror que eles haviam presenciado. A partir das décadas seguintes esse modelo foi sendo quebrado, a precarização do trabalho tornava impossível uma família ser sustentada por um único membro, os movimentos feministas dos anos 60 e 70 questionavam os papéis de gênero e reclamavam a capacidade da mulher participar de forma igualitária ao homem na sociedade e a família.
“Eu acho que a gente pode pensar toda a nossa conversa a partir de uma frase da escritora Margaret Atwood do livro O conto da Aia, Os homens têm medo que as mulheres riam deles. As mulheres têm medo que os homens as matem.” (Vitória Oliveira/Labfem)
Se os homens não são os provedores da casa, os chefes das famílias, ou não ocupam um papel na sociedade distinto das mulheres, então o que faz deles homens? A professora utiliza esse questionamento para exemplificar o que para ela é um fator que explica diversas questões da crise da masculinidade como a violência. Ela explica que o ciúme é um dos motivos que sempre motivaram a violência dos homens contra as mulheres. É o entendimento masculino de que se a namorada ou mulher larga o marido, é porque ele não correspondeu às expectativas de ser homem e isso tem como consequência a ideia da mulher ou da família como uma posse. Se ele não a tem, ele não é tão homem quanto deveria. O último Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou o maior número de feminicídios desde a sua tipificação em 2015 com 1.492 ocorrências. A professora argumenta que esse tipo de violência sempre existiu, mas não eram notificados, o que vem acontecendo nos últimos anos.
Esse modelo clássico de homem viril, que omite seus sentimentos, e que nos piores casos performa essa masculinidade na violência, não é o modelo que as novas gerações buscam corresponder na visão de Félix. Ele relata que vê uma mudança nos jovens, que tanto os seus alunos quanto os seus pacientes são mais abertos em falar sobre os seus sentimentos. Que antigamente o seu consultório atendia majoritariamente mulheres, e hoje isso mudou. Apesar disso, ele entende que ainda existe um ideal a ser seguido constituído por uma identidade frágil. Essa insistência em perseguir esse ideal pode ser exemplificada pelos movimentos Red Pill. Para o professor, quando a reação a essas mudanças acontece sob a forma de ataque, evidencia uma fragilidade emocional desses homens que entendem que perseguir esse modelo é a única forma de serem homens.
Foto: Enzo Martins / Labfem
A dificuldade de lidar com sentimentos e a desconexão com a realidade, pode criar homens com crenças distorcidas sobre seu papel na sociedade. Em reação aos direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas, desenvolveram-se grupos extremistas quando tratamos da figura do homem, os chamados Grupos Masculinistas. Os “Red Pill”, no português “pílula vermelha”, são um deles. Nesses grupos “tomar a pílula vermelha” (referenciando ao filme Matrix), significa um resgate à virilidade, um pensamento patriarcal exagerado no qual mulheres devem ser submissas e seus direitos conquistados tratam-se na verdade de privilégios.
A Jornalista e Mestra em Política Social e Direitos humanos, Julia Marques pesquisa a atuação desses grupos nas redes e comenta sobre a visão do masculino que eles possuem. “Eles entendem que a masculinidade é uma qualidade, quanto mais masculino você é mais qualidades possui[…] se a mulher tem que ser delicada, se a mulher tem que ser submissa, o homem tem que ser ativo, ele tem que ser dominador, ele tem que ser musculoso”. Ela também cita que os Red Pill consideram a riqueza como parte desse ideal masculino.
Julia defende o uso do termo “Neomachismo” para caracterizar a atuação desses grupos. Ela explica que o discurso neomachista é a adaptação do machismo aos novos contextos da sociedade e as redes sociais. Por causa da falta de regularização e da capacidade de se expressar em anonimato, as plataformas digitais oferecem o cenário para que falas misóginas e reacionárias se proliferem e alcancem mais pessoas. Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Observatório da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, identificou 137 canais com conteúdo misógino no YouTube. Destes, cerca de 80% possuem alguma geração de receita com o conteúdo produzido.
De acordo com Julia, a cooptação de integrantes para esses movimentos, ocorre desde a adolescência, a partir dos influenciadores que disseminam a distorção sobre o papel das mulheres, e a ilusão de que elas estão em vantagem sobre os homens. Na sua pesquisa, a jornalista observou que a utilização de postagens humorísticas é uma ferramenta constante desses grupos para atrair jovens com piadas politicamente incorretas e temáticas identificáveis para adolescentes como a “solidão masculina”. Em relação ao público adulto, Julia cita que um perfil mais suscetível a integrar esses grupos são os homens em situação de vulnerabilidade emocional. Um homem recém divorciado é um exemplo de alvo mais suscetível a se tornar membro de grupos masculinistas e simpatizar com o discurso de superioridade do homem em relação à mulher.
A jornalista também percebe uma conexão destes grupos com o neoliberalismo. “Muitos desses influenciadores, vendem consultoria, cursos e livros. Eles estão fazendo o Red Pill ser rentável. […] É uma ideia de neoliberalismo de que eles têm que acumular, quanto mais capital eles têm, mais masculinos eles são.” A valorização da riqueza para esses grupos também se relaciona ao ideal de mulher que eles cultuam. Eles consideram que uma mulher que “serve pra casar” é uma mulher feminina, delicada, cristã e principalmente submissa. Assim, eles acreditam que essa mulher precisa e busca alguém que a sustente. Essa cultuação do homem bem sucedido também é expressada nas postagens humorísticas que representam essa figura ideal como uma motivação para a vida de muitos dos integrantes.
A religião é outro fator presente no discurso do movimento masculinista. A sua influência é percebida na concepção do homem e da mulher ideal que eles propagam. Julia Marques considera que o “Legendários” é um exemplo de movimento que utiliza a religião sob uma ótica similar à visão dos grupos masculinistas. Ela observa que a exaltação da riqueza, a valorização do exercício físico e do corpo definido se aproxima do que ela chama de “masculinidade exacerbada”, frequentemente associada aos grupos masculinistas. Essa “masculinidade exacerbada” é percebida no conceito do grupo: a venda da ideia de que após pagar caro para ingressar nos retiros em montanhas que incluem desafios físicos intensos como trilhas e exercícios, eles se tornarão homens melhores.
Foto: Inácio Boelter/ Labfem
“Eu vou estudar anos e não vou ter uma profissão de prestígio, eu vou continuar sendo pedreiro, vou continuar sendo caixa de supermercado.” A antropóloga Jurema Gorski Brites, descreve dessa forma a perspectiva de um menino de classe baixa quanto ao mercado de trabalho. Atualmente, os homens representam apenas 40% das matrículas nas faculdades brasileiras segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). Ela salienta que as mulheres também completam mais o segundo grau do que os homens e que esses dados podem ser explicados por fatores como classe e as expectativas da sociedade em relação aos gêneros. Os meninos, principalmente em famílias mais pobres, logo são impelidos a trabalhar, o que não acontece com a mesma frequência com as mulheres. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, 53% dos homens de 15 a 29 anos que largaram ou nunca frequentaram a escola alegaram a necessidade de trabalhar como o principal motivo. Já entre as mulheres, esse número é reduzido para 25%.
No entanto, a maior escolaridade das mulheres, tanto no ensino básico quanto no ensino superior, não garante uma maior paridade entre os gêneros quanto a divisão do trabalho. Jurema cita o fenômeno da existência de profissões feminilizadas e masculinizadas. Áreas como Enfermagem, Psicologia e Pedagogia contam com um contingente de mais de 80% de mulheres aproximadamente, segundo o Ministério da Educação (MEC). A antropóloga explica que todas as profissões que necessitam de atenção, cuidado, delicadeza, foram feminilizadas e enfatiza que essas ideias estão arraigadas no patriarcado, nas nossas representações e nos valores da sociedade. Essa construção social que define quais trabalhos são masculinos ou femininos também afeta a divisão das tarefas dentro de casa. A última pesquisa do IBGE sobre trabalhos de cuidado ocorreu em 2022 e relatou que mulheres empregadas se dedicaram 6,8 horas a mais na semana aos afazeres domésticos do que homens na mesma condição. Para Jurema, a divisão igualitária do trabalho entre homens e mulheres não foi alcançada com a inserção feminina no mercado e a solução para esse problema é questão de educação.
“Cientificamente, a mulher não tem um gene para lavar roupa, cuidar de criança, de velho, lavar louça e cozinhar. A gente não vem com esse gene. O que a gente vem é pronta para parir, mas não pronta para cuidar. A gente é educada para cuidar.” Jurema reitera que a designação dos papéis de gênero na sociedade é uma questão de socialização, valores que foram ensinados ao longo da história.
Quando surge uma mulher que diz: eu não quero lavar louça sozinha, eu não quero que você mande na minha roupa, eu não quero que tu determine o meu rosto, eu não quero porque agora eu ganho a mesma coisa que tu, uma grande parte dos homens não sabe participar das tarefas de casa e é aí que existe a “Crise da Masculinidade”. Por isso, a antropóloga defende que a pauta da igualdade no mercado de trabalho deve andar junto à pauta da escolarização e da educação da nova geração de homens.
A discussão sobre a divisão sexual do trabalho igualitária ainda é pauta de um nicho muito pequeno da sociedade, como define a antropóloga. É preciso fazer parte de um setor da sociedade que seja intelectualizado de alguma forma e permita uma maior entrada do feminismo, e mesmo dentro de um recorte de classe, gênero, faixa etária, não é possível generalizar completamente os valores aos quais os indivíduos são expostos. Jurema expõe que a necessidade de uma divisão mais igualitária do trabalho ainda não compõe os valores de grande parte da população. Por isso, ser homem na sociedade de hoje ainda é faltar nos trabalhos domésticos, ser incapaz de cuidar emocionalmente de si e de seus relacionamentos e expressar a sua masculinidade da maneira mais exacerbada possível. Mas também pode significar ser um pai que cuida integralmente dos seus filhos, que sabe falar sobre os seus sentimentos e que participa tanto quanto a mulher na casa se houver uma educação da nova geração de homens.
Texto em parceria com o acadêmico de Jornalismo: Cristhian Braga
Reportagem produzida na disciplina de Narrativa Multimídia, sob orientação da professor Glaíse Palma, no 2º semestre de 2025.

Ao passar pela frente de uma espécie de foguete estacionando no palco da Praça Saldanha Marinho, uma menina de cerca de 5 anos disse a seu pai: “eu não trouxe meu capacete de astronauta”. Ela se referia à Nave de Histórias, um projeto de extensão da Universidade Franciscana, dos cursos de Jornalismo, Design, Letras e Pedagogia. Desde 2024, a Nave apresenta uma série de podcasts criada a partir de livros infanto-juvenis de autores locais. Este ano, os produtos sonoros foram inspirados em histórias das autoras santa-marienses Onilse Noal Pozzobon, Vera Campos, Maria Rita e Maria das Graças Py.
Durante os 16 dias da 52ª Feira do Livro de Santa Maria, a Nave de Histórias recebeu diferentes tipos de tripulantes que viajaram por diferentes áudios no formato de contação de histórias. As crianças, com suas percepções e ideais distintas, escutavam atentamente e até respondiam às perguntas feitas pelas histórias, numa grande interação entre a infância e uma nave espacial.
O ambiente proporcionava uma atmosfera ideal para uma viagem leve e descontraída. O banco laranja oferecia o conforto necessário para ouvir as histórias, que chegavam pelo fone de ouvido e por um tablet, onde era possível escolher o conto desejado. Algumas crianças, ao escutar, eram mais eufóricas, como se de alguma forma, estivessem se sentindo em casa. Gabriel Silva, por exemplo, aos 4 anos de idade, foi o primeiro a pilotar a nave de maneira aventurada, quando disse:“Vou voar pra longe, tchau papai”. Já outras, mais contidas, como se fossem acostumadas com essa aventura, respondiam de maneira equilibrada e sincera, apenas com “Sim”. A similaridade desses dessas reações? O mesmo brilho nos olhos e incentivo à imaginação.
O projeto atendia os astronautas de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h30, e aos sábados e domingos, das 10h às 18h30. Para o acadêmico de Jornalismo, Nicolas Morales, “é muito especial ver a reação das crianças. Trazer elas para o mundo narrativo do podcast, áudio e imaginação se torna muito impactante”.
Ao todo, a Nave de Histórias tem 12 episódios disponibilizados no Spotify que são: O fantasma Pluminha; A bola no campo rola; A bruxa Bruxilica; O tatu amigo; O menino e o livro; Brincadeira de criança; Minha rua; Cabrito Agabito; Cada bicho com cada uma; Likinha; A tartaruga e Celular, seu lular.
Matéria produzida na disciplina de Produção da Notícia do curso de Jornalismo, sob orientação da professora Neli Mombelli.
A época escolar é uma etapa de formação individual que, para muitos, está repleta de memórias marcantes. E o mais interessante é que esse processo ocorre dentro de um meio coletivo, que permite realizar trocas com outros indivíduos, estabelecer laços e, ao mesmo tempo, ter contato com outras mentalidades e estilos de vida. Muitas vezes, é nesses ambientes onde afloram as primeiras amizades, se formam os primeiros grupos e até se descobrem as primeiras paixões. Essas lembranças são frequentemente associadas a uma memória afetiva que caminha em sintonia com o processo de aprendizagem e aquisição de conhecimento. No entanto, ao explorarmos o papel da educação pública nesse cenário, emergem questões que vão além das recordações pessoais e tocam temas sociais e estruturais. A escola é um ambiente que zela pela preparação cognitiva e intelectual das pessoas que integram uma sociedade. Porém, quando se trata das escolas estaduais, muitas vezes não retrata o que se espera para um sistema educacional eficaz.
Em primeira análise, é preciso partir do princípio de que o acesso à educação pública é um direito de todos, garantido pela Constituição. Esse direito é um valor e um objetivo a unir toda a população e que deve ser sustentado pelos formuladores de políticas públicas em todos os níveis geográficos.
Em Santa Maria, as escolas Manoel Ribas (Maneco), Cilon Rosa e Maria Rocha, da rede estadual de ensino da região, passaram por transformações significativas ao longo das últimas décadas. Ao explorar essas histórias de transformação, busca-se entender como essas escolas não apenas se adaptaram às novas demandas educacionais, mas também como impactam a vida de alunos e educadores.
Segundo o IBGE, em 2023, cerca de 80% dos estudantes brasileiros do ensino básico estavam matriculados em escolas públicas, fator que reflete a dependência de um sistema educacional acessível por uma grande parcela da população. Para Celma Pietczak, professora e coordenadora na escola Maria Rocha, o maior impacto positivo, com o passar dos anos, foi a formação profissionalizante. Ela exalta os cursos profissionalizantes disponibilizados pela escola, e com isso, a demanda de profissionais que acaba crescendo e impactando a sociedade. Um ponto de fragilidade destacado por Pietczak é a questão estrutural. Para ela as verbas destinadas para a escola não dão conta da demanda que se tem e, por muitas vezes, acaba-se gerindo o colégio com menos dinheiro do que seria o necessário.

Segurança em Risco: O Desafio da Proteção nas Escolas
De acordo com o resultado da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), de 2019, conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e publicada em 2022, 17,3% dos estudantes consultados relataram que faltaram a alguma aula devido a problemas com segurança. O quadro é alarmante: em 2009, quando teve início a pesquisa, esse número era de apenas 8,6%. O estudo, que tem o apoio do Ministério da Educação, conta com a participação de adolescentes na faixa etária de 13 a 17 anos.
Durante a apuração foi possível observar que a problemática da precariedade da segurança é um ponto em comum que afeta as três escolas. Para Celma, a segurança é um fator preocupante. “Até um determinado horário tem gente na portaria, no entanto, tem horários que a gente não tem ninguém. Se o responsável sai, a gente tem que controlar o portão lá na direção, nós não temos ninguém que possa garantir a integridade desse processo. O entorno da nossa escola também tem complicações com relação a isso. A gente tem a situação de um aluno nosso que saiu e apanhou na quadra. Pessoas que não eram daqui, que eram de outra escola, vieram por causa de um conflito particular e bateram nele no entorno da escola.”, comenta a vice-diretora.
O cenário não é diferente na escola Cilon Rosa. Para a diretora Maribel da Costa Dal Bem, não existe nenhuma segurança nas escolas públicas hoje em dia: “Constantemente envio ofícios para a coordenadoria da escola solicitando melhorias no que diz respeito à questão da segurança pública. É muito difícil. […] O Cilon, como é uma escola com um alto número de alunos, a saída é sempre uma aglomeração, independente do horário. […] Nós precisaríamos de um policiamento aqui. Hoje, nós enquanto escola não conseguimos lidar com isso. […] O governo deveria pensar nessa segurança.”
Já na escola Manoel Ribas (Maneco), o estudante Ernesto Corrêa relata que nunca viu nenhuma briga, mas já ouviu diversos relatos de amigos e colegas. Ele também pontua que é muito raro ver policiamento fazendo a segurança da escola, só em ocasiões mais sérias. Apesar disso, ele diz sentir-se seguro para voltar para casa.
No estado do Rio Grande do Sul como um todo, a segurança nas escolas estaduais tem sido um tema de preocupação crescente. O estado enfrenta desafios específicos relacionados à violência escolar, como agressões físicas entre alunos, furtos e até situações mais graves, como ameaças envolvendo armas. Segundo dados da Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul (SEDUC), em 2022, cerca de 10% das escolas estaduais relataram incidentes violentos.
Desafios da Estrutura Escolar: Necessidades e Melhorias para um Ambiente Adequado
Questões estruturais acabam virando o centro de discussões quando se fala em escola pública e em Santa Maria acontece o mesmo. As três escolas já mencionadas tem suas deficiências estruturais. Recentemente, a escola Manoel Ribas (Maneco) juntamente com uma parceria entre a Secretaria da Educação (Seduc) e o Movimento União BR, com fiscalização da Secretaria de Obras Públicas (SOP), concluíram a reforma do telhado. O investimento foi avaliado em mais de 647 mil reais.

Infográfico sobre as infraestruturas das escolas de Santa Maria em 2023. Fonte: QEDU
O vice-diretor da escola, Helder Luiz Santini, ressalta que algumas pequenas reformas acabam demorando pelo fato do prédio ser um patrimônio do estado, no qual existem regras que impossibilita algumas mudanças sem passar por uma avaliação antes. Sobre a reforma no telhado, o vice-diretor afirma que foi uma “briga” conseguir a autorização para a reforma. Briga essa que se tornou de extrema importância, tendo em vista que a escola alagava quando chovia, e com as fortes chuvas que assolaram o estado do Rio Grande do Sul em maio, a reforma se tornou necessária. Para o estudante Ernesto Corrêa, a escola tem bastante pontos a serem melhorados, salas com vidros e janelas quebradas, e o telhado esburacado. Ele também conclui que por ser um patrimônio histórico, entende as obras demorarem para serem concluídas.

Hélder Santini é vice-diretor da escola Manoel Ribas, o Maneco. Imagens: Vitória Oliveira/LABFEM
Esse problema também pode ser observado nas escolas Maria Rocha e Cilon Rosa quando aconteceram as chuvas torrenciais de maio. “Realmente alagaram os corredores, laboratórios de informática, teve banheiro que parecia uma cachoeira. Teve gente que subiu no telhado do prédio da escola, que possui 4 andares, para fazer uma limpeza. Não temos verbas para chamar profissionais especializados para exercer essas funções. Então, de fato, em termos de estrutura, na minha opinião, nos sobressaímos em relação às demais escolas da rede estadual, porém, ainda estamos em uma situação bastante deficitária.” diz Celma Pietczak, professora e coordenadora na escola Maria Rocha.
Segundo a diretora do Cilon Rosa, Maribel da Costa Dal Bem, desde os anos 2000 ela pode perceber um processo de degradação na infraestrutura do colégio. Ela explica que, ao ingressar na instituição no início daquela década, a estrutura já enfrentava problemas frequentes com pichações e com as fortes chuvas, que ocasionaram o alagamento das dependências internas. Com o passar dos anos foram efetuadas melhorias através de reparos nos espaços internos e externos da instituição, como no pátio, nos corredores e nas salas de aula.

Evasão Escolar: Causas, Impactos e Caminhos para a Retenção dos Estudantes
O censo escolar 2023, divulgado no final de fevereiro de 2024 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), apresenta uma tendência de redução do papel da educação pública, enquanto escolas particulares ganham terreno. Isso ocorre também a nível estadual, onde é ainda mais forte o recuo do papel do Estado frente à iniciativa privada.

Taxas de rendimento por etapa escolar nas instituições estaduais de ensino de Santa Maria – RS
Celma destaca que, apesar do aumento no número de alunos no primeiro ano do ensino médio de 2023 para 2024, se observarmos um recorte mais amplo, englobando a última década, realmente houve uma diminuição drástica no número de estudantes que frequentam a escola. Ela relata que no ano de 2012, quando ingressou na instituição, a escola contava com doze turmas de primeiro ano, sendo possível notar uma nítida retenção em relação aos últimos anos. Celma ainda argumenta que a reforma do ensino médio contribuiu de maneira significativa para a disparidade em relação às instituições de ensino privadas: “A alteração que teve na matriz do ensino médio deixou tudo muito incerto, com isso muitas disciplinas novas foram adicionadas à grade curricular, e a percepção que eu tenho é que não há uma formação profissional adequada para isso, o educador precisa ir se moldando, dependendo muito do esforço dele.” Além disso, ela acredita que o fato dos estudantes vislumbrarem uma preparação mais direcionada aos vestibulares e ao ENEM, contribuiu para esse movimento no contexto educacional, afinal, as escolas privadas possuem mais autonomia no que tange a esse processo do que as escolas públicas, que necessitam seguir a risca o protocolo imposto pelo governo do estado.
No país, a quantidade de matrículas na educação básica da rede pública em 2023 reduziu para 37,9 milhões, frente a 38,4 milhões em 2022 – uma queda de 1,34%. Ao mesmo tempo, as matrículas na rede privada passaram de 9 milhões em 2022, para 9,4 milhões, em 2023.
Essa realidade pôde também ser observada na escola Manoel Ribas. Helder explica que ocorreu uma queda no número de alunos por turma. Ele ainda ressalta que, por muito tempo, as salas estavam completamente lotadas, com mais de 30 alunos, realidade que hoje não existe mais. Ele completou alegando que muitos jovens preferem trabalhar e acabam saindo do ambiente escolar. Outro ponto destacado pelo vice-diretor é de que a evasão escolar não se dá somente pela troca da educação pelo trabalho. Santini alega que cada vez mais no Brasil a taxa de natalidade vai diminuindo, fator esse que acaba justificando a baixa de alunos nas escolas. Dados de 2021 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou um recorde de mortes, o maior desde 1974, e queda de nascimentos, a maior desde 2003.
Maneco faz parte da história da cidade desde 1930
O Colégio Manoel Ribas, popularmente conhecido como Maneco, foi fundado em 1930 e tem uma longa história de contribuição para a educação pública em Santa Maria. Como uma escola estadual, o Maneco foi responsável por formar muitas gerações de estudantes, com destaque para o ensino médio e técnico, focando em uma educação de qualidade e acessível. Com o passar do tempo, o colégio se destacou por sua tradição acadêmica e por sua participação em eventos culturais e esportivos da cidade.
Atualmente a escola conta com aproximadamente, 2.600 alunos, 140 professores e 36 funcionários, divididos em três turnos.

Maneco foi inaugurado em 1930. Foto: Labfem
A Banda Marcial Manoel Ribas foi fundada em 20 de outubro de 1956, a mais antiga em atividade no Rio Grande do Sul. Para participar da banda naquela época, era exigido que os alunos tivessem boas notas. A banda se tornou referência no Rio Grande do Sul e era convidada para viajar por diversas cidades do estado. Em Santa Maria, era presença confirmada em qualquer festividade. Os anos passaram e a tradicional Banda do Maneco não parou no tempo. Após viver seus tempos áureos com grandes apresentações, começou a participar de campeonatos de bandas marciais e de fanfarras, onde fez, e ainda faz bonito. Referência no Rio Grande do Sul, o grupo vem colecionando premiações em diferentes concursos disputados pelo estado, brigando sempre pelas primeiras colocações.
Colégio Cilon Rosa contava com aulas de corte, costura, rendas e bordados em 1946
Fundado em 1946, o Colégio Estadual Cilon Rosa também faz parte do cenário educacional de Santa Maria. Em 26 de agosto foi criada a Escola Artesanal Dr. Cilon Rosa, de Santa Maria, onde eram oferecidos cursos de corte e costura, rendas e bordados, com duração de dois anos. A escola não tinha sede própria e funcionou no prédio do Colégio Manuel Ribas, com total de 36 alunas. Em 1957 a escola passou a ser denominada Escola Industrial Cilon Rosa, quando foi instalado o curso de Aprendizagem Industrial Cilon Rosa. De 1963 a 1967 o número de matriculados chegou a 713 alunos, passando a denominar-se Colégio Industrial Cilon Rosa.
Em 1966 a escola passou a ocupar um pavilhão do prédio da nova sede à Avenida Presidente Vargas. Em 1971, com a conclusão do 2º pavilhão, a escola passou ocupar sua sede própria.
O Cilon Rosa se destacou ao longo dos anos por promover um ambiente de inclusão e uma educação voltada para o desenvolvimento integral dos alunos, com ênfase no fortalecimento da cidadania e nos valores sociais.

Colégio Maria Rocha começou como escola ginasial anexada à escola Olavo Bilac
O Colégio Maria Rocha recebeu esse nome em homenagem à Maria Manuela Rocha, filha de Manoel Marques da Rocha e Bertholina Junqueira Rocha, que era professora. A história da escola tem muitos capítulos que podem ser acompanhados aqui.
Também pertencente à rede pública estadual, o Maria Rocha focou-se no atendimento à comunidade local e na promoção de uma educação de qualidade para crianças e adolescentes. Ao longo de sua história, o Maria Rocha desenvolveu atividades que integravam a escola com a comunidade, promovendo eventos culturais, esportivos e cívicos. Atualmente a escola conta com, aproximadamente, 1200 alunos e cerca de 100 professores e funcionários, divididos em três turnos.
Perspectiva Histórica
Esses colégios são testemunhas da evolução do ensino público em Santa Maria, refletindo as transformações sociais e educacionais da cidade ao longo do século XX. Com a crescente urbanização, as instituições educacionais assumiram um papel central no desenvolvimento das comunidades locais, sendo espaços não apenas de ensino, mas também de formação cidadã e cultural.
Além disso, a história dessas escolas está ligada às políticas educacionais do estado do Rio Grande do Sul e às necessidades emergentes da população em diferentes momentos históricos, como a expansão do ensino médio e técnico, e a busca por uma educação mais inclusiva e de qualidade.
Reportagem produzida por Isaac Brum, Gabriel Deon e Thomás Ortiz na disciplina de Narrativa Multimídia, no 2º semestre de 2024, sob orientação da professora Glaíse Bohrer Palma.

Em um dos anos mais críticos para incêndios no Brasil, Santa Maria enfrentou as consequências de uma onda de queimadas recordes que já devastou uma área maior que o Japão e afetou a qualidade do ar, saúde pública e o bem-estar dos moradores.
2024 foium ano alarmante para o Brasil no que diz respeito a incêndios florestais. Com mais de 208 mil focos registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) até outubro, os incêndios ultrapassaram os números totais de 2023, afetando a Amazônia e o Pantanal. Segundo o Serviço de Monitoramento Atmosférico Copernicus, os incêndios liberaram 180 megatoneladas de carbono na atmosfera apenas entre janeiro e setembro. Esta onda de queimadas não se restringiu às regiões Norte e Centro-Oeste do país, pois sua fumaça densa foi transportada por correntes de ar até o Sul, atingindo cidades como Santa Maria, onde seus efeitos se tornaram evidentes.
Fumaça nos céus de Santa Maria

Entre agosto e setembro, o estado chegou a ser classificado como “insalubre” pela agência IQAir. Para muitos moradores de Santa Maria, os efeitos das queimadas foram sentidos na própria respiração. A estudante de odontologia Maria Fernanda, 21 anos, relata o impacto direto em sua rotina. “Nos dias de fumaça intensa, evitei abrir as janelas do apartamento. Minha respiração ficou prejudicada, e, com rinite, foi ainda mais difícil. Tivemos semanas complicadas em que a fumaça encobriu o sol e tornou o ar quase insuportável,” conta. Ela reflete que os impactos atuais são reflexo da destruição causada pelo homem ao meio ambiente. “Precisamos agir com práticas mais sustentáveis; nossa intervenção na natureza precisa ser de cuidado, não de destruição,” completa.
Efeitos na Saúde Pública

A situação em Santa Maria também se reflete nas estatísticas de saúde. De acordo com a secretária adjunta de Saúde, Ana Paula Seerig, setembro registrou um aumento significativo de atendimentos relacionados a problemas respiratórios, especialmente entre crianças. “Observamos uma procura maior por atendimento para sintomas como falta de ar, tosse e irritação nos olhos, embora não possamos associar diretamente as queixas à fumaça devido às mudanças climáticas sazonais,” explica. Ela destaca que, durante os dias mais críticos, a população foi orientada a evitar atividades ao ar livre, manter janelas fechadas e redobrar cuidados com hidratação e sintomas respiratórios, especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias preexistentes.
O meteorologista Gustavo Verardo, da BaroClima Meteorologia, explica que as correntes de vento conhecidas como Jato de Baixos Níveis foram responsáveis por transportar a fumaça das queimadas até o Sul do Brasil. “Esses ventos fortes de Norte a Sul trazem consigo grandes quantidades de fumaça. Quanto maior a área devastada, maior a concentração de partículas no ar,” ressalta. Verardo comenta que a presença de fuligem e outros materiais particulados na atmosfera agrava a qualidade do ar e gera uma “cobertura” que bloqueia a radiação solar direta, mantendo o céu escurecido em diversas cidades da região.
“Esse fogo é criminoso”, diz Lula sobre incêndios pelo país
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que as queimadas que atingiram o Brasil são resultado de ações criminosas. “Esse fogo é criminoso. É gente que está tentando colocar fogo para destruir esse país”, afirmou, ao citar que em um mesmo dia foram registrados incêndios em 45 cidades do estado de São Paulo. Lula também apontou que 85% das propriedades afetadas no Pantanal são particulares. O que, segundo ele, reforça a necessidade de uma resposta mais rigorosa às queimadas ilegais. As declarações foram dadas durante visita a municípios do Amazonas que sofrem com os efeitos da estiagem. Na ocasião, representantes do governo federal assinaram o edital para obras de dragagens de manutenção nos rios Amazonas e Solimões.
O Governo disponibilizou R$514 milhões em crédito extra para combate às queimadas na Amazônia, o BNDES ( Banco Nacional do Desenvolvimento) reforçou as medidas de contenção com mais de R$400 milhões. O montante foi utilizado para apoio aos Corpos de Bombeiros dos estados da Amazônia Legal para compra de equipamentos, materiais e viaturas.
Algumas medidas tomadas pelo Governo Federal foram punições mais rigorosas (o governo revisará os valores das multas para infrações ambientais e introduziu novas modalidades de sanções). Penas mais duras para incêndio ambiental ( o ministro Rui Costa afirmou que o governo estuda equiparar a pena para incêndios florestais à de incêndios em áreas urbanas). Novo fundo para biomas e proteção às populações indígenas.
Além de Lula, a ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e o chefe da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, também destacaram a possibilidade de ação criminosa para explicar as queimadas em todo Brasil. “Tem uma situação atípica. Você começa a ter, em uma semana, praticamente em dois dias, vários municípios queimando ao mesmo tempo, e isso não faz parte da nossa curva de experiência na nossa trajetória de tantos anos de abordagem do fogo. No caso do Pantanal, a gente estava tendo ali a abertura de dez frentes de incêndios por semana. No caso da Amazônia, nós identificamos o mesmo fenômeno. E em São Paulo não é natural, em hipótese alguma, que em poucos dias você tenha tantas frentes de incêndio envolvendo concomitantemente vários municípios”, declarou Marina Silva em uma reunião com o presidente Lula, na sede do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Orientações de Saúde e Prevenção
Para mitigar os efeitos da poluição decorrente das queimadas, o Conselho Federal de Química (CFQ) e especialistas em saúde recomendam medidas de proteção, como o uso de máscaras PFF2, especialmente eficazes para filtrar partículas finas e tóxicas. O CFQ também aconselha a instalação de purificadores de ar em ambientes fechados e a manutenção dos filtros do ar-condicionado. “Em áreas próximas às queimadas, a fumaça aumenta drasticamente a concentração de poluentes, o que impacta diretamente a saúde respiratória”, alerta o conselho no podcast “ QuinCast”, enviado à reportagem.
A professora de Enfermagem Liliane Alves Pereira reforça a importância dos cuidados com a saúde durante os períodos de alta poluição: “Evitar exposição ao ar livre, beber bastante água e manter ambientes fechados são atitudes cruciais para minimizar o impacto das queimadas na saúde.” Ela ainda alerta sobre o risco de asfixia e de agravamento de doenças respiratórias em indivíduos que já apresentam condições crônicas, como asma ou bronquite.
Confira dicas no infográfico

Dados do MapBiomas indicam que 70% da área queimada em 2024 era de vegetação nativa. Apenas em agosto, quase metade das queimadas do ano foi registrada, atingindo especialmente o cerrado e áreas de pastagens. Os incêndios, além de liberarem carbono na atmosfera, ameaçam ecossistemas inteiros e afetam a biodiversidade. Como muitos em Santa Maria podem observar, as queimadas deixaram de ser um problema apenas das regiões afetadas e se tornaram uma questão de saúde e de conscientização coletiva.
Loidemar Luiz Bressan, professor de Filosofia na Universidade Franciscana (UFN), analisa as queimadas como uma responsabilidade coletiva e uma crise ética sobre como tratamos o meio ambiente. “O antropocentrismo e o desejo de domínio sobre a natureza têm provocado um desequilíbrio com consequências graves. Este impacto é sentido por todos os brasileiros e afeta todas as formas de vida, não apenas no presente, mas também nas gerações futuras,” comenta. O professor sugere que cada pessoa pode e deve contribuir para reverter este cenário, adotando um estilo de vida mais sustentável e incentivando outros a fazer o mesmo.
Veja a seguir o debate sobre o impacto das queimadas na saúde no brasileiro.
Reportagem produzida por Laura Pedroso, Rian Lacerda, Luiza Fantinel e Karina Fontes na disciplina de Narrativa Multimídia, no 2º semestre de 2024, sob orientação da professora Glaíse Bohrer Palma.
De tempos em tempos, o mercado imobiliário se transforma, a depender da situação econômica e política do país.
Segundo a professora do curso de Economia da UFN, Taíze Lopes, o público trabalhador depende dos bancos públicos na hora de comprar um imóvel na cidade e, caso as condições de financiamento sejam altas e restritas, as chances de ocorrer uma compra e venda ficam mais difíceis. “Períodos de recessão, alta taxa de juros ou alta taxa de desemprego levam este público a ter dificuldades de financiamento.”, frisa a professora.
Em 2015, uma pesquisa realizada pela consultoria Prospecta Inteligência Imobiliária mostrou que na lista de 100 melhores cidades do Brasil para investir em imóveis , o município de Santa Maria estava na 79ª posição. A pesquisa indicou à época que a cidade tinha um déficit habitacional de 28,17%, enquanto outras acima do ranking estavam acima de 30%.
Taize pontua que “Santa Maria tem passado por um boom imobiliário, pois há investidores que desejam colocar seu dinheiro em um bem, que quase sempre só se valoriza.” Além disso, a professora destaca que as taxas de juros são definidas pelos próprios bancos.
Taxa de juros de cada banco do mês de Outubro/2024 extraídas do site do Banco Central do Brasil

“Há um grupo de trabalhadores que financiam seus únicos imóveis com entrada usando o FGTS. Este público financia em torno de 30 anos, mas consegue pagar antes dos 30 anos, justamente por causa do FGTS acumulado a cada ano” , pontua a professora.
Segundo o proprietário da Cancian Imóveis, Giuliano Cancian, que atua no ramo imobiliário há 20 anos, em 2019 o mercado estava em crescimento na cidade. Neste período, a empresa se reinventou e Giuliano dividiu a equipe em presencial e home office. “A empresa deu todo suporte para os moradores ao invés de proporcionar um atendimento frio, como outras imobiliárias fizeram. E funcionou, pois a empresa cresceu em todos os aspectos”, relata o dono da imobiliária.

Segundo Cancian, o lucro aumentou durante os anos de 2020 e 2021. “Na pandemia, nunca as pessoas utilizaram tanto os seus imóveis. Como elas ficaram em casa, deram mais valor para o seu lar. Naquela época, também a taxa selic estava muito baixa, então o crédito estava barato, o juro estava baixo para você financiar”, comenta o empresário.
No ano de 2023, o empresário ressalta que foi um ótimo ano para a empresa devido a volta total das faculdades. “Em 2022 ainda tava naquele misto um pouco home office e presencial. Então, neste período alguns estudantes acabaram entregando o imóvel, e voltando para a sua terra natal, pois eles não quiseram deixar o apartamento fechado.“, frisa o empresário.

Por outro lado, há também as dificuldades dos pequenos empresários. Este é o caso do proprietário da Douglas Maia Imóveis, envolvido no mercado imobiliário desde 2014 quando entrou no ramo por meio da empresa Casarão Imóveis. O empresário abriu a sua própria empresa em 2023, e ressalta que o maior aprendizado que se tira de momentos como a pandemia e as enchentes é o de possuir um capital de giro que será utilizado caso for necessário para sustentar a empresa. “O mercado é um ramo competitivo e sendo menor em tamanho, nem sempre teremos um capital disponível para enfrentar crises”, pontua Douglas Maia.
O mercado imobiliário de Santa Maria passou por transformações significativas nos últimos anos, impulsionadas pela pandemia e pelas condições econômicas. Para os próximos anos, a cidade necessita de uma melhor infraestrutura para a segurança de atuais e futuros moradores, o que irá atrair novos investimentos dentro do ramo imobiliário.
Veja a seguir o debate sobre Mercado Imobiliário.
Reportagem produzida por Nicolas Krawczyk na disciplina de Narrativa Multímidia no 2ª semestre de 2024, sob a supervisão da professora Glaise Palma.