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Santa Maria, RS, Brazil

Opinião

Memória de uma Avó: Dona Mariza

“Mãe, como eu sei como são essas casas por dentro?” digo para minha mãe. Ela responde que provavelmente era coisa da minha vó, porque ela era amiga de toda a vizinhança e vivia visitando as amigas.

A rua que prometeu nunca dormir

Da euforia da Rua 24 Horas ao abandono da Alberto Pasqualini, a história de um projeto que prometia transformar o centro de Santa Maria e acabou se tornando símbolo do esquecimento urbano.

O futebol ocupa um espaço importante na vida de milhões de pessoas, seja pela paixão por um clube, pela admiração por um jogador ou pela emoção de acompanhar uma competição. Mas a influência do esporte nem sempre termina quando o árbitro apita o fim da partida. Em diferentes momentos da história, jogadores utilizaram a visibilidade conquistada dentro de campo para participar de debates sobre política, desigualdade social, racismo e direitos humanos.

Em uma geração conectada às redes sociais, na qual atletas podem alcançar milhões de seguidores diretamente, suas manifestações também podem despertar o interesse por assuntos que ultrapassam o mundo esportivo. Uma declaração sobre uma eleição, uma campanha contra a desigualdade ou até mesmo a recomendação de um livro pode levar torcedores a pesquisar temas que antes pareciam distantes de sua realidade.

Camping World Stadium lotado para o amistoso entre Estados Unidos e Brasil antes da Copa América de 2024. Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Essa relação, entretanto, levanta uma questão: quando um jovem passa a admirar um jogador pelo que ele faz com a bola, essa admiração também pode despertar nele a vontade de compreender melhor o mundo fora do campo?

A resposta não é necessariamente simples. A admiração por um atleta não significa que o torcedor adotará suas opiniões, mas pode funcionar como um ponto de partida para novas perguntas, pesquisas e conversas. Para compreender como isso acontece, é preciso olhar tanto para a história do futebol quanto para as diferentes formas de influência exercidas pelos jogadores da atualidade.

Sócrates e a política dentro de campo

No Brasil, um dos exemplos mais emblemáticos da relação entre futebol e participação política é Sócrates. No início da década de 1980, o ex-jogador se destacou por sua atuação na Democracia Corinthiana, movimento que defendia a participação coletiva nas decisões do clube em um período marcado pela ditadura militar e pela luta pela redemocratização do país.

Sócrates comemorando gol pela seleção brasileira, em 1985. Foto:  Anibal Philot / Agência O Globo

Além de sua atuação no esporte, Sócrates tornou-se uma figura associada à defesa da democracia e da participação cidadã. Sua trajetória demonstra que o futebol já funcionava como espaço de debate público muito antes do surgimento das redes sociais.

Décadas depois, os meios de comunicação mudaram, mas permanece uma questão semelhante: qual é o papel de um jogador quando sua popularidade permite que ele alcance pessoas que talvez não acompanhem habitualmente o debate político?

Da política francesa à mobilização social: os jogadores de hoje

Em junho de 2024, durante a Eurocopa, os franceses Kylian Mbappé e Marcus Thuram utilizaram sua visibilidade para se manifestar sobre o cenário político do país, às vésperas das eleições legislativas. Ambos demonstraram preocupação com o avanço do Reunião Nacional, partido de direita radical, e incentivaram a participação dos eleitores, principalmente dos jovens.

Marcus Thuram e Kylian Mbappe no treino da seleção Francesa. Foto: AFP

As manifestações evidenciaram como jogadores de futebol podem levar debates políticos a públicos que nem sempre acompanham o noticiário. Mais do que expressar opiniões, atletas com grande alcance nas mídias podem despertar a curiosidade dos torcedores sobre questões que ultrapassam o esporte.

Entretanto, o posicionamento de um ídolo não significa necessariamente uma mudança de opinião entre seus seguidores. O que se evidencia é a busca pelo conhecimento, de ir atrás e pesquisar acerca de assuntos importantes, refletir e construir suas próprias perspectivas e opiniões.

Outra forma de participação aparece na trajetória de Marcus Rashford. Na Inglaterra, o atacante ganhou destaque por sua campanha em defesa de refeições gratuitas para crianças em situação de vulnerabilidade durante as férias escolares. Sua mobilização ajudou a pressionar o governo britânico a rever sua política sobre o tema.

Marcus Rashford recebendo título do Império Britânico em campanha de alimentação para crianças. Foto: Andrew Matthews/Pool via REUTERS

Diferentemente dos posicionamentos eleitorais de Mbappé e Thuram, a iniciativa de Rashford concentrou-se na defesa de uma questão social e na cobrança por uma resposta das autoridades. Seu exemplo demonstra que a atuação pública de um jogador também pode envolver campanhas de mobilização e a defesa de políticas públicas.

Já Lamine Yamal, jovem estrela da seleção espanhola e do Barcelona, ajuda a ampliar a discussão para questões de identidade, diversidade e pertencimento. Filho de pai marroquino e mãe de origem guinéu-equatorial, o atacante tornou-se uma figura de grande visibilidade para jovens de diferentes origens.

Lamine Yamal durante partida contra Portugal pelas oitavas de final de Copa do Mundo de 2026. Foto: Stefan Koops/NurPhoto via AFP

Sua trajetória ganhou significado social em um contexto no qual o racismo e a xenofobia continuam presentes no futebol e na sociedade europeia. A própria representatividade de um atleta pode, entretanto, estimular conversas sobre preconceito, inclusão e convivência entre diferentes culturas.

Embora atuem de maneiras distintas, esses jogadores mostram como a presença pública de um atleta pode ultrapassar os resultados esportivos. Seja por meio de manifestações eleitorais, campanhas sociais ou questões relacionadas à identidade, suas trajetórias ajudam a compreender como o futebol pode se conectar a debates que fazem parte da vida dos torcedores.

De volta ao Brasil: quando a influência passa pela leitura

No cenário brasileiro, a influência de um jogador sobre o público pode assumir uma forma diferente do ativismo eleitoral ou da mobilização por políticas sociais. O caso de Gustavo Scarpa ajuda a discutir como o interesse de um atleta por atividades extracampo também pode aproximar os torcedores de assuntos que vão além do esporte.

O jogador chamou atenção ao compartilhar seu interesse por literatura e comentar obras em vídeos nas mídias digitais, aproximando livros e discussões literárias de um público que acompanha seu trabalho principalmente dentro de campo. Após a divulgação do livro A morte Ivan Ilitch de Lev Tolstói, a obra alcançou o topo dos livros mais vendidos da Amazon Brasil.

Gustavo Scarpa segurando um exemplar da obra A morte de Ivan Ilitch de Lev Tolstói. Foto: Reprodução/Youtube

A iniciativa se diferencia dos posicionamentos eleitorais de Mbappé e Thuram, assim como da mobilização social de Rashford. Sua relevância para esta discussão está no potencial de uma figura pública despertar curiosidade por atividades que nem sempre estão associadas ao universo esportivo.

A leitura pode ampliar o contato com diferentes perspectivas, estimular o pensamento crítico e incentivar o questionamento de ideias estabelecidas. Nesse sentido, o interesse de um atleta por livros pode contribuir para colocar a literatura em evidência entre seus seguidores, inclusive entre aqueles que não têm o hábito de procurar esse tipo de conteúdo.

Se um jogador pode despertar o interesse por uma obra literária, também pode levar seus seguidores a pesquisar sobre um autor, conhecer um contexto histórico ou entrar em contato com ideias diferentes das que já conheciam. A relação entre futebol e formação cidadã, portanto, não precisa se limitar às manifestações políticas explícitas. Ela também pode passar por iniciativas culturais e pela curiosidade intelectual, desde que não se presuma que a visibilidade de um atleta produza automaticamente mudanças duradouras no comportamento do público.

O que fica para quem assiste?

Entre a atuação democrática de Sócrates, os posicionamentos eleitorais de Mbappé e Thuram, a mobilização social de Rashford, a representatividade de Yamal e o interesse pela literatura associado a Scarpa, existem diferentes formas de um atleta ultrapassar os limites do campo.

Essas trajetórias mostram que o futebol pode se relacionar com questões muito mais amplas do que os resultados de uma partida. Entretanto, compreender o impacto dessa relação exige ouvir também quem está do outro lado: os torcedores, especialmente os jovens que acompanham esses jogadores e constroem suas próprias opiniões em meio a uma grande quantidade de informações.

Será que um jovem que acompanha futebol diariamente passa a prestar mais atenção à política quando seu ídolo se manifesta? Uma declaração pode levá-lo a pesquisar sobre uma eleição, compreender melhor uma questão social ou procurar um livro que nunca havia considerado ler? E até que ponto essa influência estimula a autonomia de pensamento, em vez de simplesmente transferir a opinião de uma celebridade para seu público?

Mais do que defender que jogadores devem ou não se posicionar, essas perguntas convidam a refletir sobre a dimensão social do esporte e sobre a responsabilidade que acompanha a visibilidade pública.

O futebol não precisa se transformar em um palanque partidário para contribuir com a formação cidadã. Quando estimula perguntas, aproxima pessoas de diferentes realidades e desperta o interesse por assuntos que ultrapassam as quatro linhas, ele também pode abrir caminhos para o conhecimento e a participação social.

Afinal, talvez a influência mais importante de um ídolo não esteja em convencer um torcedor a pensar como ele, mas em despertar nesse torcedor a vontade de adquirir um pensamento crítico por conta própria.

“Mãe, como eu sei como são essas casas por dentro?” digo para minha mãe. Ela responde que provavelmente era coisa da minha vó, porque ela era amiga de toda a vizinhança e vivia visitando as amigas. Como eu fui criada com ela, acabava indo junto. Minha vó Mariza faleceu dia 24 de maio de 2025, mas isso com certeza não é a primeira coisa que eu lembro quando penso nela.

Foto: Arquivo próprio

Primeiro eu lembro do seu sorriso, ela sempre estava sorrindo, mesmo quando estava apavorada com alguma situação. Sim, ela era bem dramática, então qualquer situação mais diferente já era motivo para um “Ai, minha Nossa Senhora Aparecida” bem alto. A vó sempre foi muito católica e sempre acabava rezando para os seus santos.

  Quando eu era pequena, morávamos todos no bairro Capelinha, na casa da minha avó Mariza e do meu avô Hamilton. O bairro tinha esse nome por conta de uma capela pequena que tinha lá, onde todos os vizinhos ajudavam a manter e faziam ações sociais. É claro que a Mariza sempre estava em todos os eventos e me levava junto). A vó sempre amou ajudar as pessoas e abrir suas portas para todos que fossem. 

Com o tempo ela virou a dona Mariza, todos chamavam ela assim. Ela com certeza foi a pessoa mais bondosa que conheci, sempre alegre, risonha e a fim de ajudar os outros. Lembro de uma vez que uma amiga da casa ao lado pediu para ela um certo produto de limpeza emprestado, ela disse que iria emprestar sem problemas, então ela foi até o mercado, comprou e depois emprestou para a amiga. Esse era o tipo de coisa que ela fazia para agradar quem fosse. 

Quando se fala em Dona Mariza uma coisa que é indispensável era sua comida, e nossa que comida boa! Por um tempo ela vendia comidas caseiras que ela fazia. O estrogonofe, na minha opinião, é o melhor. Por conta de ter mãos de ouro para a cozinha, acabava que a casa sempre cheirava a tempero, ela também, porém seu cheiro de creme da natura ressaltava, ela sempre foi muito vaidosa. Sempre usava roupas confortáveis e ao mesmo tempo elegantes. Ela tinha cabelos loiros, que pintava mensalmente, olhos castanhos que acolhiam e um sorriso largo que mostrava todos os dentes. Quando ela ria muito, a dentadura dela caia, o que virava motivo de mais riso. A vó amava se maquiar e ia sempre na manicure pintar tanto as unhas da mão quanto do pé, mesmo no frio.

         Mariza se casou com Hamilton com 16 anos, em uma bela cerimônia. Desse amor nasceram dois filhos, James Iure, meu tio, e Oraides Acris, minha mãe. Depois de um tempo, eu nasci, e foi aí que ela encontrou um dos papéis que mais gostava de desempenhar, o de vó. Ela fazia questão de manter a família sempre por perto, reunida ao redor da mesa, com muita conversa, comida boa e risadas.

         Se tem uma característica muito forte da Dona Mariza é o quanto ela gostava de limpeza. A casa estava sempre impecável, o chão brilhava, tudo tinha o seu lugar e o cheiro de limpeza fazia parte da casa tanto quanto o cheiro da comida. Ela limpava cantinhos que ninguém nem lembrava que existiam e dizia que casa limpa trazia paz. Acho que foi convivendo com ela que eu aprendi a gostar de organizar tudo. Hoje, quando me pego limpando a casa ou incomodada com alguma bagunça, percebo que puxei exatamente esse lado dela.

        Como meus pais precisavam trabalhar, foi a vó quem me criou durante boa parte da minha infância. Eu passava praticamente todos os dias com ela. Era ela quem fazia minha comida, quem me levava para passear, quem me ensinava pequenas coisas da vida e quem estava presente em quase todas as minhas lembranças de criança. Cresci segurando na mão dela, acompanhando sua rotina e aprendendo com o exemplo, muito mais do que com palavras. Por isso, quando penso na minha infância, penso nela.

        A casa da vó também era um ponto de encontro. Era comum ver as vizinhas chegando sem avisar, cada uma puxando uma cadeira, colocando a cuia para rodar e começando uma boa conversa. Entre um mate e outro, aparecia um café recém-passado e algum bolinho que ela tinha feito, porque visita nenhuma saía dali sem comer alguma coisa. As tardes aconteciam por risadas, histórias da vizinhança e, claro, uma boa fofoca. Eu ficava por perto, ouvindo tudo sem entender muita coisa, mas gostando da sensação de ver a casa sempre cheia de gente.

        Talvez seja por isso que até hoje eu associe acolhimento à casa da minha vó. As portas estavam sempre abertas, a chaleira quase sempre no fogo e havia espaço para mais um na mesa. Dona Mariza tinha esse dom de fazer qualquer pessoa se sentir em casa. Ela cuidava dos outros de um jeito tão natural que parecia nem perceber o quanto fazia diferença na vida de quem passava por ali.

        Senti isso quando a vó faleceu de câncer de pâncreas. Recém tínhamos perdido meu avô, que passava por momentos difíceis desde que teve um AVC, há oito anos. Ver os dois partindo em tão pouco tempo foi como perder um pedaço da minha infância e da casa onde cresci. Mesmo assim, tanto no velório dela quanto no do vô, eu senti amor, senti gratidão e senti esperança. Parecia que toda a vida que eles construíram estava ali, reunida em forma de abraço, de oração e de lembrança.

        Havia muitas pessoas. Vizinhos que eu não via fazia anos, amigos contando histórias antigas, parentes que vieram de longe e pessoas que fizeram parte da minha criação. Apesar de ter sido o momento mais triste da minha vida, também foi um momento cheio de carinho. Entre lágrimas, eu consegui dar risadas lembrando das manias da vó, das piadas do vô e das histórias que cada um tinha para contar. Foi ali que eu percebi o tamanho do amor que eles deixaram pelo caminho. Dona Mariza e seu Hamilton partiram, mas continuam vivos em cada lembrança, em cada receita, em cada conversa na calçada e em cada gesto de cuidado e amor que aprendi com eles.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Antiga Rua 24 Horas – Santa Maria
Foto original | Carlos Blaya Pérez
Imagem ajustada a qualidade por IA
@impressionante_santa_maria

Da euforia da Rua 24 Horas ao abandono da Alberto Pasqualini, a história de um projeto que prometia transformar o centro de Santa Maria e acabou se tornando símbolo do esquecimento urbano.

Há ruas que envelhecem com dignidade, como quem vai cedendo ao peso dos anos sem perder a postura. A Alberto Pasqualini, no coração de Santa Maria, envelheceu de outro jeito — com as marcas abertas de quem não teve essa sorte, de quem foi prometido ao brilho e acabou entregue à sombra.

Ela leva o nome de um homem que também conheceu a contradição entre promessa e realidade. Alberto Pasqualini, filho de imigrantes italianos do interior gaúcho, advogado, senador, duas vezes derrotado nas urnas para o governo do estado, defendeu por toda a vida a ideia de que o progresso social só se sustenta quando tem raízes. A rua que leva seu nome, num paradoxo que a cidade talvez não tenha percebido, foi construída sobre areia.

Em março de 1994, ela acordou com um outro nome — Rua 24 Horas — e com a promessa de nunca mais dormir. A cidade acompanhava a onda da capital da moda à época, Curitiba, que havia implementado um projeto semelhante anos antes. Era a época dos planos urbanos ambiciosos, do otimismo dos anos pós-Plano Real, de uma Santa Maria que queria se sentir metrópole mesmo sem o ser. Construída na rua Alberto Pasqualini, espaço central da cidade, próximo ao Calçadão, o projeto teria o diferencial de permanecer aberto durante as noites e as madrugadas, em domingos e feriados.

O local abrigou nos primeiros anos o comércio de jornais e revistas, bomboniére e pizzaria, confecção, presentes, multicoisas e flores, loja de importados, promoção de eventos e loterias, café, sorveteria e tabacaria, artigos esportivos, artesanato e armarinho — e até um módulo com showroom de imóveis. Treze boxes, treze apostas no movimento que a noite prometia trazer. Por um momento, Santa Maria teve uma rua que piscava luzes quando o resto da cidade já havia apagado as suas. Quem passou por ali naqueles primeiros meses guarda a imagem da estrutura metálica em vermelho e amarelo recortando o céu do centro, um clarão de novidade num lugar acostumado ao ritmo lento do interior.

Mas cidades do interior têm seu próprio pulso, e ele não é fácil de dobrar. A publicidade feita em função do lançamento e a ótima localização rendiam aos treze módulos boas vendas durante o dia. À noite, no entanto, a freguesia rareava, ainda que nos primeiros meses houvesse boas condições de policiamento e iluminação. As calçadas, que de dia formigavam com o movimento do centro, ficavam largas demais para o fluxo que aparecia depois das dez da noite. Inicialmente, como constava no regulamento da Rua 24 Horas, era obrigatório manter a loja em funcionamento em tempo integral. Mas regulamento não paga conta de luz, e conta de luz não espera a freguesia aparecer. 

Passados poucos meses da inauguração, já não eram todas as lojas que mantinham as portas abertas durante a noite. Não compensava o investimento e a Rua 24 Horas, ao contrário do que alguns pensaram, não alterou o comportamento dos moradores. Os lojistas foram, um a um, cedendo ao cansaço de manter portas abertas para o vazio. Ainda na mesma década, surgiram os primeiros shoppings da cidade, acirrando a competição entre os lojistas. O que a Rua 24 Horas tinha de novidade foi ficando pequeno diante do que eles ofereciam — estacionamento, segurança, ar-condicionado, a promessa de um mundo completo dentro de quatro paredes. Em outubro de 2003, após meses de indecisões, a armação foi removida, a estrutura inteiramente desmontada e a 24 Horas deixou de fazer parte da Rua Alberto Pasqualini. 

Hoje quase ninguém sabe onde foi parar a estrutura de metal, tampouco o que foi feito dela. Virou história mal contada, uma daquelas memórias coletivas que a cidade guarda sem saber muito bem onde guardar. O engraçado — e talvez o revelador — é que muita gente ainda pensa na rua como “a Rua 24 Horas”, e a imagem da estrutura vermelha com amarelo ainda vem à mente quando o nome Alberto Pasqualini é pronunciado. O apelido durou mais que a promessa. 

O que veio depois é o que o tempo costuma deixar quando ninguém cuida: prédios de fachadas descascadas, paredes cobertas de pichações que são, a seu modo, a única escrita que sobrou do lugar. Onde havia módulos iluminados e vitrines arrumadas, hoje há sombra e concreto partido. Nos últimos anos, a rua chegou a ser interditada por causa de uma marquise que estava prestes a ceder — e cedeu, na noite de um sábado, enquanto engenheiros da Prefeitura monitoravam a situação. O prédio envelheceu mais rápido que a cidade ao redor. Não é o único. Especialistas em urbanismo já apontaram que a omissão administrativa na fiscalização e manutenção, somada à ausência de um planejamento democrático, contribuíram para o abandono de áreas como essa no centro de Santa Maria, abrindo espaço para atos de vandalismo e depredação deflagrados justamente pela falta de identidade e apego da comunidade para com esses espaços. 

Nas frestas desse abandono se instalaram as pessoas que a cidade também abandonou — homens e mulheres em situação de rua que encontraram ali, na carcaça de um projeto que prometia não ter hora para fechar, o único abrigo disponível.

Há uma ironia cruel nisso. A Rua 24 Horas nasceu para nunca dormir. Quem dorme nela agora são os que não têm outro lugar.

Mas ainda há um lugar que permanece com aparências da época de ouro, uma loja que abriga em seu interior um pouco do velho e do novo, misturados em harmonia. A loja Ônix é uma das mais antigas da rua e que ainda se mantém funcionando, mesmo diante das adversidades:

“Essa loja, hoje, às vezes parece ser o único ponto brilhante da rua. O único lugar que ainda tem algum tipo de vida. O resto tá aqui, jogado ao acaso. As pessoas passam rápido, pois é uma rua deserta e ninguém quer correr perigo, principalmente agora, no inverno, quando escurece mais cedo. Foi preciso se adaptar.”, conta uma pessoa que vive diariamente no sonho que deveria ser a rua 24 horas.

Por anos, o local permaneceu inalterado e nada foi resolvido em relação às queixas da vizinhança. Uma reforma recente melhorou as condições do ponto, que segue utilizado pelo comércio durante o dia, ainda que em menor número e de forma descentralizada. Certeza de modernidade em uma época já distante, a Rua 24 Horas hoje pouco é lembrada pelos habitantes, ainda que o vazio no local possa remeter àqueles tempos.

Hoje, a Rua Alberto Pasqualini é um retrato de uma Santa Maria que nunca mais existiu — e talvez nunca tenha existido de verdade, ao menos não da forma em que foi imaginada. Ela nasceu de um sonho de metrópole numa cidade de interior, e foi perdendo sua chama ao longo dos anos à medida que a realidade foi mostrando seu custo. Assim como vários outros pontos do centro histórico, que abrigam histórias e memórias milenares mas que cedem ao tempo e ao esquecimento de seus tempos áureos, a rua que prometeu nunca dormir tornou-se, ela mesma, um lugar que a cidade prefere não ver de perto.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Foto: Leo Piva

O Grêmio vive uma crise há anos e parece que ninguém consegue encontrar uma solução. Depois dos anos de glória, com a conquista da Copa do Brasil em 2016 e da Libertadores em 2017, o clube nunca mais foi o mesmo.

Em 2021, começou o declínio de uma geração tão vitoriosa. Com um elenco problemático e uma série de erros dentro e fora de campo, o Grêmio foi rebaixado pela terceira vez em sua história e, em 2022, precisou disputar a Série B do Campeonato Brasileiro.

No ano seguinte, em 2023 veio o ano da ilusão. O Tricolor terminou o Brasileirão como vice-campeão, impulsionado pelo desempenho de Luís Suárez, um dos melhores centroavantes do futebol mundial. Mas depois disso o que parecia ser o início de uma retomada acabou se transformando em mais uma sequência de frustrações.

Ano após ano o Grêmio parece repetir os mesmos erros. Muda o treinador, chegam novos jogadores, surgem novas promessas, mas os problemas continuam. São dois anos sem disputar a Libertadores, a principal competição de clubes da América do Sul, e uma dificuldade cada vez maior de voltar a ser protagonista no futebol brasileiro. O torcedor acompanha as mudanças, cria expectativas e no fim nada se concretiza.

A temporada de 2026 começou com uma nova direção e a contratação de um técnico estrangeiro. A expectativa era de mudança, de um novo planejamento e de um Grêmio capaz de recuperar a competitividade. Mas não demorou muito para perceber que o caminho seria difícil. A montagem do elenco gerou questionamentos, as dificuldades de comunicação entre os jogadores estrangeiros chamaram a atenção e dentro de campo, o time não conseguia apresentar um futebol convincente. Foram derrotas frustrantes, empates inexplicáveis e poucas vitórias.

A torcida apoiou, teve paciência, mas também cobrou respostas que nunca chegaram. Nove meses depois, faltando apenas 11 jogos para o fim da temporada, a direção decidiu demitir o treinador e apostar em Renato Portaluppi, um dos maiores ídolos da história do clube, na tentativa de encontrar uma solução para uma crise que já vinha de muito antes. Porém, trocar o treinador não significa resolver todos os problemas. Até agora o Grêmio continua apresentando um futebol difícil de assistir.

O que resta ao Grêmio em 2026 é tentar sobreviver a uma temporada que se tornou muito mais difícil do que deveria. Com poucas partidas pela frente, evitar o rebaixamento é a prioridade. Mas a crise envolve planejamento, escolhas e a falta de um futebol que represente a grandeza do clube. Para uma torcida que já viveu tantas glórias é difícil aceitar que neste momento, a principal preocupação seja simplesmente conseguir terminar o ano na primeira divisão.

Há ruas que apenas conduzem pessoas de um ponto ao outro, a Rua XV de Novembro faz muito mais do que isso, ela conduz histórias. É nela que São Pedro do Sul, no RS, parece respirar com mais intensidade. Cada passo revela um pedaço da identidade do município, como se o tempo tivesse escolhido aquele caminho para guardar as memórias de quem nasceu, cresceu ou simplesmente aprendeu a chamar esta cidade de lar.

A caminhada começa logo após a rotatória da avenida da cidade, ali que a Rua XV de Novembro se apresenta, discreta para quem chega pela primeira vez, mas grandiosa para quem conhece sua importância. Nos primeiros metros está um de seus símbolos mais curiosos e emblemáticos, a Ponte Seca. Hoje, sob ela, já não passa o trem que um dia ajudou a movimentar a região. Restou apenas a estrutura, firme e silenciosa. A velha ponte parece guardar lembranças que apenas ela e moradores antigos testemunharam.

O asfalto segue adiante carregando as marcas do tempo. Em alguns trechos, os buracos denunciam décadas de movimento, como se a própria rua exibisse, sem vergonha, as cicatrizes de quem nunca deixou de cumprir seu papel. Todos os dias, trabalhadores cruzam seu caminho antes mesmo do amanhecer, comerciantes levantam as portas de seus estabelecimentos, estudantes caminham em grupos para a escola e moradores seguem cumprimentando conhecidos, preservando um costume que ainda resiste nas cidades do interior.

Ao longo da caminhada, dois velhos conhecidos dos são-pedrenses dividem a paisagem: o  supermercado Spode e o supermercado Bom Preço, que fazem parte da rotina de praticamente toda a cidade. Mais adiante, a rua encontra outro de seus grandes marcos, a Escola Estadual de Educação Básica Tito Ferrari, a única instituição da cidade que oferece o Ensino Médio. Ali, gerações inteiras descobriram amizades, viveram  e construíram lembranças que atravessaram o tempo. Nos findares das aulas, as calçadas se enchem de risadas, conversas e Coca-Cola dividida entre colegas. E entre os estudantes, permanece viva a antiga lenda de que a escola teria sido construída sobre um cemitério. Verdade ou não, ela faz parte das histórias contadas de turma em turma e ajuda a manter viva a identidade daquele lugar.

Seguindo, o caminho leva naturalmente à Praça Crescêncio Pereira, um dos espaços que ajudam a explicar a importância da própria rua. Foi a partir da doação daquele terreno que o centro de São Pedro do Sul começou a ganhar forma. Hoje, a praça continua dando vida à rua. O riso das crianças nos brinquedos mistura-se às conversas de famílias reunidas em torno de uma cuia de chimarrão. Jovens passam de bicicleta, moradores caminham com seus cachorros e idosos observam o movimento com a tranquilidade de quem já viu muitas gerações passarem por ali. 

Ponto de encontro

F

Bem em frente está outro detalhe que, para quem mora em São Pedro do Sul, é quase um símbolo. A única sinaleira da cidade também está na Rua XV de Novembro. Para quem vem de fora, ela pode parecer apenas um semáforo. Para os moradores, tornou-se ponto de referência, local de encontros e parte da memória cotidiana. Basta combinar um horário “na sinaleira” para que todos saibam exatamente onde ir.

Mas é quando chegam as datas mais importantes do calendário que a Rua XV de Novembro revela toda a sua grandeza. Ao longo do ano, ela deixa de ser apenas uma via para transformar-se no principal palco da cidade. No desfile de Sete de Setembro, estudantes, escolas e instituições ocupam seu espaço celebrando o civismo. E no tradicional desfile do Dia do Gaúcho, o asfalto recebe prendas, peões, cavalarianos e entidades tradicionalistas. As calçadas ficam repletas de famílias. Os avós apontam para os netos, pais revivem lembranças da infância e crianças assistem encantadas, construindo memórias que um dia também farão parte da história da cidade.

Além dos desfiles, é na Rua XV de Novembro que acontecem muitas das principais solenidades e celebrações do município. Sempre que São Pedro do Sul precisa se reunir para comemorar, homenagear e celebrar um momento importante, é para essa rua que os olhares se voltam. Mais do que um espaço de passagem, ela transforma-se em um lugar de convivência, onde a cidade demonstra seu verdadeiro espírito comunitário.

Talvez seja justamente isso que torna a Rua XV de Novembro tão especial, ela não é a mais importante de São Pedro do Sul apenas porque concentra escolas, comércio, serviços e espaços públicos. Sua importância está nas pessoas que passam por ela todos os dias. Crianças dão ali os primeiros passos rumo à escola, jovens constroem amizades, adultos seguem sua rotina de trabalho e idosos encontram lembranças a cada caminhada.

No fim das contas, ela não é apenas a principal via de São Pedro do Sul, ela é o lugar onde diferentes gerações se cruzam diariamente. Entre a velha Ponte Seca, os mercados, a Escola Tito Ferrari, a Praça Crescente Pereira e a única sinaleira da cidade, ela reúne lembranças, encontros e histórias que ajudam a explicar o porquê, para tantos são-pedrenses, falar da XV de Novembro é, inevitavelmente, falar de casa.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Imagens: Cristhian Braga

(Foto: Lucas Uebel / Grêmio)

A temporada de 2026 do Grêmio vem sendo marcada por muitas decepções dentro e fora do campo. A equipe conta com dificuldades na construção de um bom futebol sob o comando do técnico Luís Castro. Após 9 meses de trabalho, o técnico português deixa o comando do time gaúcho, para a chegada do maior ídolo do clube, Renato Portaluppi. A escolha representa uma tentativa do Tricolor de reagir no Campeonato Brasileiro e mudar o cenário vivido pelo time. Conhecido pela forte identificação com o clube, Renato terá pela frente a missão de reorganizar a equipe e recuperar os resultados. O desafio já inicia na quarta feira, 16 de setembro, quando o Botafogo recebe o Grêmio no estádio Nilton Santos, Rio de Janeiro.

Esta será a quinta passagem de Renato como treinador do Grêmio. A primeira ocorreu em 2010, quando o clube também atravessava uma situação complicada. Naquele momento, o Tricolor ocupava a 18ª colocação do Campeonato Brasileiro, dentro da zona de rebaixamento. A estreia foi no dia 12 de agosto, com um empate em 0 a 0 contra o Goiás, no Estádio Olímpico.

Em 2013, o Grêmio ocupava a quinta posição do Brasileirão quando Portaluppi voltou ao comando da equipe. Na reestreia, empatou em 1 a 1 com o Atlético-PR, em Curitiba.

Três anos depois, em 2016, ele retornou ao clube em meio a um período de instabilidade. O clube vinha de uma sequência de sete partidas sem vencer no Campeonato Brasileiro. A estreia foi pela Copa do Brasil, contra o Atlético-PR e, apesar da derrota por 1 a 0, o Tricolor conseguiu avançar após vencer a disputa nos pênaltis por 4 a 3.

Em 2022, Renato voltou ao Grêmio pela quarta vez. O clube disputava a Série B e estava na terceira colocação, na briga pelo acesso. A estreia foi uma vitória por 2 a 1 sobre o Vasco, na Arena.

Agora, em 2026, Renato reencontra o Grêmio em mais um momento de pressão. Se nas passagens anteriores o treinador chegou para outros desafios, desta vez a missão é ajudar o clube a reagir e afastar a equipe da zona de rebaixamento no Campeonato Brasileiro.

A história entre Renato e Grêmio ganha mais um capítulo. Desta vez, com o treinador retornando não apenas como ídolo, mas como uma das principais apostas do clube para tentar mudar o rumo da temporada.

Da teocracia de Gilead ao discurso contra o voto feminino em 2026: a tática silenciosa do extremismo. 

Aias na ficcional Gilead. Imagem: Reprodução

É estranho e profundamente assustador pensar que, em pleno século XXI, 2026, os direitos fundamentais das mulheres continuem sendo abertamente questionados. Nos Estados Unidos, influenciadores de comunidades focadas em masculinidade e antifeminismo e pastores de correntes ultraconservadoras passaram a defender abertamente que a concessão do voto às mulheres prejudicou a estrutura familiar e os valores “tradicionais”. O argumento recorrente é o de que homens e mulheres possuem papéis divinos distintos e que a tomada de decisão política caberia ao “chefe da família”.

No Brasil, esse tipo de discurso também ganha força, impulsionado pelo apoio de influenciadores e lideranças religiosas com falas de que escolhas femininas seriam pautadas “pela emoção e não pela razão”. Conforme analisam cientistas políticos e historiadores, tais falas, mesmo parecendo absurdas para a maioria, funcionam como teste de limites. Ao pautar o tema nas redes, o extremismo busca normalizar a dúvida sobre direitos que antes eram considerados intocáveis.

Em entrevista ao portal Brasil de Fato, a historiadora Joana Maria Pedro, professora emérita da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), adverte que a maior ameaça ao voto e à autonomia feminina não virá necessariamente de uma canetada autoritária repentina, mas de um processo de convencimento moral por meio do fundamentalismo religioso:

“O risco seria através da religião. Eu acho que é a coisa mais eficiente que existe. Se eles conseguirem, de fato, convencer a maioria das pessoas de que o voto das mulheres é uma coisa imoral perante Deus, que isso destrói a família sagrada, a gente perde o direito ao voto, assim como perde outros direitos.”

Isso parece familiar?

Em Gilead, a república totalitária e teocrática retratada na série ficcional The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), conhecemos a história de uma democracia que ruiu, a taxa de natalidade lá em baixo, bebês não nascem mais devido a crise global de fertilidade causada pela poluição e radiação do país. Uma das primeiras medidas do novo regime foi a retirada sistemática de todos os direitos femininos. Mas não se enganem, não foi algo que aconteceu do dia para a noite. Foi um plano pensado, arquitetado e executado em etapas para não levantar suspeitas imediatas.

Primeiro veio a demissão em massa, obviamente apenas das mulheres. Em seguida, o bloqueio das contas bancárias, transferindo a gestão financeira exclusivamente para os homens da família. Uma sucessão de medidas calculadas até que as mulheres fossem reduzidas a meros “úteros férteis”. Sem direitos, sem voz e sem opiniões, obrigadas apenas a obedecer, procriar e demonstrar submissão aos Comandantes.

Aquelas que quebram as regras são brutalmente mutiladas: olhos arrancados, dedos cortados, corpos queimados, bocas seladas. O “destino biológico” passa a ser o único objetivo de vida aceitável. Durante a “Cerimônia”, o ritual de estupro ocorrido no período fértil da mulher, o Comandante após orar abusa da Aia sob o pretexto de cumprir os planos divinos, tudo com a Esposa assistindo e sendo conivente com a violência.

Uma das cenas mais marcantes da série reflete com precisão o absurdo desse fanatismo: quando um dos poucos bebês saudáveis de Gilead adoece, nenhum dos médicos presentes (todos homens, obviamente) sabe como salvá-lo. Preocupada, Serena Joy, esposa do importante Comandante Fred Waterford, lembra que uma das maiores especialistas em neonatologia do país está ali, mas que é uma mulher que foi rebaixada ao posto de empregada. Diante disso, ele recusa o atendimento e decreta que, se o bebê morrer, “será a vontade de Deus”. Preferindo a morte de um recém-nascido a permitir que uma mulher exerça sua profissão e conhecimento.

Personagem Serena Joy, interpretada pela atriz Yvonne Strahovski / Imagem: Reprodução

As Esposas de Gilead e a Ilusão da Proteção

Falando em Serena Joy, ela protagoniza o núcleo das Esposas dos Comandantes. Bonita, obediente e devota, Serena era uma escritora de sucesso antes do colapso da democracia, famosa por defender publicamente a submissão e o papel doméstico da mulher. Ela ajudou a erguer as bases ideológicas de Gilead e ajudou a redigir as próprias leis que proíbem as mulheres de ler e escrever, as mesmas leis que mais tarde a puniriam. Em determinado momento da história, Serena tem um dedo amputado a mando do próprio marido apenas por ler um trecho da Bíblia em público.

As Esposas dos Comandantes são figuras extremamente complexas. São mulheres que fecham os olhos para as atrocidades cometidas contra as Aias, mas que acabam caindo nas engrenagens da própria armadilha que ajudaram a criar. Serena agride e tortura a protagonista June Osborn/Offred, mas simultaneamente tenta se impor em um sistema que não a reconhece mais como cidadã. É uma dinâmica que nos desperta raiva e julgamento, mas também uma inevitável empatia.

Essa dinâmica não é exclusiva da ficção. Vemos hoje influenciadoras e figuras públicas femininas utilizando a liberdade de expressão e a tecnologia moderna para pregar o desmantelamento dos direitos de seu próprio gênero. Elas ignoram a lição mais básica da história: regimes extremistas nunca fazem exceções para as mulheres que ajudaram a construí-los. Como canta Olivia Rodrigo na faixa inspirada na personagem Serena Joy: “Se eles fazem isso com elas, eles vão fazer com você”.

O Corpo Feminino como Propriedade

A crise de fertilidade mundial foi a desculpa perfeita em Gilead para assumir o controle total sobre o corpo feminino, e isso não está longe da nossa realidade. A obsessão pelo controle reprodutivo continua sendo o pilar central de qualquer projeto autoritário. Além das restrições severas ao aborto em diversos estados norte-americanos, grupos conservadores avançam em propostas e ações judiciais para restringir o acesso a métodos contraceptivos, classificando pílulas e métodos de emergência como “destrutivos para a natalidade”. A isso somam-se a demonização da educação sexual nas escolas, os retrocessos no direito ao aborto legal — mesmo em casos de estupro —, o avanço do movimento red pill e a imposição de padrões inalcançáveis para que a mulher sirva unicamente ao desejo alheio. 

Não podemos nos esquecer de que os direitos femininos podem ser revogados com uma facilidade assustadora. No Afeganistão, Irã e Paquistão, mulheres sofrem diariamente por não possuírem direito à voz, à educação ou ao livre arbítrio, esse cenário de apagamento é o modelo ideal para certos grupos fundamentalistas.

Nada do que foi escrito por Margaret Atwood no livro original foi tirado do zero. As torturas, as vestimentas, as leis e as opressões retratadas em Gilead já aconteceram em algum momento da história humana.

Se falarem em momentos que não são permitidos, as Aias de Gilead podem sofrer consequênciaa. Imagem: Reprodução

Gilead não é um pesadelo distante, é um alerta sobre a fragilidade das nossas conquistas. Nenhum direito é permanente, a vigilância precisa ser constante e o voto consciente.

Vale ressaltar, por fim, a fala atemporal da poeta Audre Lorde:

“Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas.”

Imagem: Ducker Grêmio

Se pararmos para refletir sobre o futebol atual do Grêmio, é impossível não perceber a falta de consistência, de identidade e até mesmo de raça dentro de campo. O clube que há poucos anos conquistava a América hoje vive uma realididade completamente diferente. Mas afinal, quando tudo começou?

Depois de 15 anos sem conquistar um título de expressão, o Grêmio voltou a elite em 2016, quando venceu a Copa do Brasil pela 5ª vez. Sob o comando do técnico Renato Portaluppi a conquista marcou o início de uma das fases mais vitoriosas da história do tricolor. Em 2017, o ápice do time gaúcho foi a conquista do tricampeonato da Libertadores da América, com um futebol que chamava atenção pela organização, intensidade e identidade. Era uma equipe que jogava junto, sabia o que fazia dentro de campo e passava confiança ao torcedor.

No ano seguinte, tudo indicava que o clube brigaria novamente por títulos expressivos. O Grêmio chegou à semifinal da Libertadores e venceu o River Plate por 1 a 0 no Monumental de Núñez, em Buenos Aires. A classificação épica parecia encaminhada. Mas a partida de volta na Arena mudou completamente a história. O tricolor começou ganhando, mas sofreu a virada nos minutos finais. O pênalti cometido por Bressan, após a revisão do VAR, eliminou o Grêmio e colocou o adversário na final da competição. Até hoje, muitos torcedores lembram daquela partida como um dos jogos mais dolorosos da história do clube e, por isso, talvez ali tenha começado a mudança.

Nos anos seguintes, o Grêmio ainda chegou longe em algumas competições mas já não apresentava o mesmo futebol envolvente dos anos anteriores. A equipe perdeu jogadores, perdeu força e a identidade construída entre 2016 e 2017 começou, aos poucos, a desaparecer.

Depois de uma sequência de más decisões, trocas de treinadores e um desempenho muito abaixo do esperado, o Grêmio foi rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro pela terceira vez. Para um clube que poucos anos antes era campeão da América, era difícil imaginar uma queda em um período de tempo tão curto.

Após conquistar o acesso em 2022, o Grêmio presenteou sua torcida na temporada seguinte com a chegada de Luis Suárez. O uruguaio foi o grande destaque de 2023 e recolocou o clube entre os protagonistas do futebol brasileiro. Apesar da boa campanha, o clube não conquistou nenhum título.

Nas últimas temporadas a instabilidade voltou a fazer parte da rotina da equipe. Talvez seja impossível apontar um único jogo ou uma única temporada como o início da queda. O que se percebe é que, ao longo dos últimos anos, o Grêmio foi perdendo a identidade. Hoje o clube vive um momento de instabilidade, marcado por mudanças constantes, resultados abaixo das expectativas e um cenário de incertezas. A eliminação na Copa Sul-Americana apenas reforçou a crise da equipe.

Mas agora, mais do que conquistar novos títulos, o maior desafio do Grêmio parece ser reencontar sua identidade e reconstruir um projeto capaz de recolocar o clube entre os protagonistas do futebol brasileiro.

A decisão de boicotar a premiação escancara a estratégia do Grammy de lucrar com o engajamento de artistas globais sem dar a eles igualdade de competição.

Grupo lançou o 6º álbum de estúdio ARIRANG, após um hiato de 6 anos. Imagem: Divulgação

Nesta quarta-feira (29), o BTS, maior grupo de K-pop da atualidade, tomou uma posição firme contra a principal premiação da indústria musical. A tensão entre o grupo sul-coreano e o Grammy se acentuou após a criação da categoria Best Asian Pop Music Performance, uma adição que, na prática, isola artistas asiáticos e os afasta das categorias principais (General Field), como Álbum do Ano e Gravação do Ano.

Em nota publicada nas redes sociais, os sete integrantes (Jin, Suga, J-Hope, RM, Jimin, V e Jungkook) pontuaram que a arte não deve ser confinada a recortes geográficos:

“Decidimos não inscrever nossa música no Grammy este ano. Esperamos que a música possa ser ouvida e amada pelo que é, em vez de ser categorizada por região ou idioma. Agradecemos aos ARMYs e a todos que estão sempre conosco.”

Postagem do grupo no Instagram comunicando a desistência de participar do Grammy. Imagem: Screenshot

Além da adição da categoria voltada ao pop asiático, a 69ª edição do Grammy Awards anunciou a inclusão de quatro novas categorias:

  • Melhor Música Latina
  • Melhor Colaboração de R&B
  • Melhor Performance Vocal Pop Tradicional
  • Melhor Álbum de Música Folclórica Tradicional

E aqui percebemos como o problema é maior: sob o pretexto de celebrar a diversidade, a premiação historicamente confina músicos latinos, asiáticos e negros a subcategorias, sempre arrumando recortes e pretextos para deixá-los fora das grandes categorias. Grande parte desses prêmios sequer é transmitida na cerimônia principal da TV, sendo descartada na pré-cerimônia, que não é televisionada.

O que vemos é uma grande manipulação da academia para manter premiando apenas artistas brancos norte-americanos e europeus nas categorias principais. Eles vendem a criação de subcategorias regionais como “reconhecimento da diversidade”, mas a realidade segue sendo de exclusão. Ao invés de colocar grandes artistas asiáticos como o BTS ou Rosé — que concorreu com o fenômeno APT. na última edição — ou a sul-africana Tyla para disputarem em igualdade com grandes nomes do mercado ocidental, como Taylor Swift ou Beyoncé, nas categorias gerais a premiação cria nichos e condena esses artistas a concorrerem apenas entre si.

Sul-africana Tyla aceitando prêmio de Best African Music Performance por Water no 66º Grammy Awards. Imagem: Robert Gauthier / Los Angeles Times via Getty Images

Há pelo menos uma década a música coreana vem ganhando espaço e dominando as paradas globais. O último lançamento do grupo, o 6° álbum de estúdio, intitulado Arirang, vendeu 641 mil cópias no total em sua primeira semana de lançamento — o maior número para um grupo desde que a Billboard começou a contabilizar dados em 2014 — incluindo 532 mil em vendas puras de álbuns. Além disso, estreou direto no nº 1 da Billboard 200 e permaneceu no topo por semanas consecutivas. Esses números provam que Arirang não é apenas um “sucesso asiático”, mas um dos maiores lançamentos mundiais do ano. Se um álbum com essas estatísticas não entra na disputa do prêmio principal, a limitação é da academia, não do artista.

Estudos da Universidade Lusófona de Portugal indicam que o K-pop acumula mais de 600 bilhões de visualizações/streams globais, somando plataformas como TikTok, YouTube e Spotify. O gênero se popularizou tanto ao ponto de quebrar a barreira linguística e provar que o idioma não limita a dominância das paradas mundiais. Em plataformas globais, o consumo de músicas coreanas rivaliza de igual para igual com grandes lançamentos em inglês e espanhol.

E por falar em lançamentos espanhóis, os latinos também são um grupo historicamente excluído pela academia, inclusive com a própria criação do “Grammy Latino”, que exclui esses artistas da premiação tradicional. Grandes nomes como Rosalía que acumula Grammys Latinos, mas na premiação norte-americana apenas ganhou na categoria específica de Melhor Álbum Latino de Rock, Urbano ou Alternativo. Já o gigante Bad Bunny fez história ao se tornar o primeiro artista de língua espanhola a competir simultaneamente nas três principais categorias gerais do Grammy (Álbum do Ano, Gravação do Ano e Música do Ano) e se consagrou ao vencer a principal categoria da noite com o álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS. Foi a primeira vez em 68 anos de premiação que um álbum cantado inteiramente em espanhol conquistou o maior prêmio da noite.

Bad Bunny com os prêmios de Album of the Year, Best Música Urbana Album e Best Global Music Performance. Imagem: Matt Winkelmeyer/Getty Images for The Recording Academy

Historicamente, artistas negros dominam as paradas globais, mas ficam restritos a categorias como Urban/R&B, sendo sempre esnobados em Álbum do Ano, situação escancarada pelo boicote histórico de The Weeknd em 2021. Apesar de viver um dos melhores momentos da carreira em 2020, com o enorme sucesso global do disco After Hours e do megahit “Blinding Lights”, o cantor não recebeu nenhuma indicação, levando-o a chamar a premiação de “corrupta” nas redes sociais. Após o desprezo em 2021, o canadense declarou que não submeteria mais suas músicas para avaliação da academia.

Com todos esses casos, é impossível não notar o descaso da premiação com esses artistas e a segregação feita pela indústria ao tentar nichá-los e excluí-los de concorrer nas principais categorias da música mundial, usando-os apenas por sua relevância e audiência — o próprio BTS já performou na cerimônia, mas acabam sempre indo embora de mãos vazias. Isso nos faz questionar a relevância da premiação: por que um hit cantado em coreano ou espanhol precisa de um carimbo regional para ser julgado, enquanto uma música em inglês é automaticamente tratada como “música universal”? O Grammy ainda é o padrão ouro da indústria da música ou tornou-se um prêmio centrado nos EUA que se recusa a aceitar a globalização?

O Grammy tentou criar a categoria Best Asian Pop Music Performance sob o pretexto de “dar espaço”. Contudo, quando o grupo que lidera esse movimento vende mais de 5 milhões de álbuns globais no mesmo ano, lota 85 datas em estádios pelo mundo e supera em números de streaming a grande maioria dos indicados anglófonos nas categorias principais, a mensagem é clara: o pop cantado em coreano não faz dele menos pop. O Grammy usa o K-pop para bater recordes de audiência na TV e nas redes sociais, mas nega a ele a única coisa que importa em uma premiação séria: a igualdade de competição no palco principal.

Foto: Nicolas Economou/NurPhoto via Getty Images

Quem acompanha minimamente a Fórmula 1, com certeza já ouviu falar de Lando Norris, o jovem piloto da McLaren que se tornou campeão mundial em 2025. Lando entrou na F1 aos 19 anos, sendo um dos pilotos mais jovem do grid naquela época. Norris sempre teve um estilo autêntico que ia além das roupas modernas. Sempre chamou atenção por sua personalidade espontânea e cheia de humor, conhecido por ser o mais “baladeiro” entre todos. 

Na Fórmula 1, tudo acontece muito rápido e a pressão é extrema. Os pilotos têm desde cedo suas vidas expostas, os erros que cometem são capturados por câmeras e vistos por todo o mundo. Não é só um esporte comum. As equipes têm contratos milionários e muita expectativa em quem vai pilotar. Além disso, as comparações entre colegas de equipe acontecem o tempo todo. 

Lando demonstrava vulnerabilidade de forma humana. O “problema” é que essa forma de ser contrasta muito com o jeito sério e frio que muitos pilotos aprenderam a ter, tanto dentro quanto fora das pistas. Ele fugia do esperado. O atleta sempre comentava publicamente sobre a pressão que sentia, e demorou até conquistar seu lugar e seus títulos. Mas esse é um esporte de resultados, se você não traz bons resultados não pode continuar. 

Lando via seus adversários e companheiros vencendo, pontuando, subindo ao pódio… e ele? Sendo esmagado por críticas e cobranças. Ele não era um piloto ruim, mas tinha seu próprio tempo. Só que o ambiente do automobilismo é altamente competitivo, cheio de questionamentos por parte da mídia e dos fãs. Norris se viu submerso em estresse constante, medo e ansiedade.  

Soa familiar? 

Foto: Rudy Carezzevoli/Getty Images

Essa situação aconteceu com Norris, mas não está tão longe quanto a gente imagina. Esse cenário conversa com a realidade de muitos jovens brasileiros de 17 a 30 anos, que sofrem com a famosa sensação de estarem sempre atrasados. O receio de não ser bom o suficiente, de ter que entregar resultados perfeitos de forma constante, de não poder errar em hipótese alguma, e ao mesmo tempo, ser o que todos esperam que você seja.  

Esse tema virou assunto nas redes sociais, por tantos jovens descreverem o mesmo sentimento recorrente. As pesquisas feitas por uma empresa bancária canadense mostram que 53% da geração Z se sentem atrasados em suas próprias vidas. 

Para Lando, assim como para muitas pessoas, a pressão passou a não vir apenas do adversário, mas de si mesmo. Podemos não ser pilotos de Fórmula 1, mas temos responsabilidades que para nós podem ser pesadas. Escola, vestibular, faculdade, estágio, trabalho, família, vida social… tudo pesa, tudo nos faz sentir atrasados. Como se a vida tivesse um timing exato para cada coisa: aos 19 começar a faculdade – aos 24 se formar – aos 25 ter um bom emprego – comprar uma casa e um carro – se casar aos 26 – ter filhos aos 28 e aos 30 estar com tudo estável, resolvido e perfeito. 

Quando isso não sai exatamente como planejamos, a sensação de fracasso chega imediatamente. Lando via seus colegas conquistando títulos enquanto ele se dedicava e falhava. Em comparação, no cotidiano, vemos nosso primo da mesma idade se formando, outro amigo próximo se casando, a nossa amiga de infância tendo um filho… enquanto sentimos que estamos ficando para trás.  

Mas…ficando para trás do que? Como podemos estar atrasados em nossa própria trajetória? Nosso jovem astro da McLaren nos mostra que vida não é linear e não segue um padrão. Assim como a carreira de Lando não foi perfeita. Houve derrotas, incertezas, erros… O desenvolvimento leva tempo.  

No fim, depois de tantos altos e baixos, quem foi o Campeão Mundial da Fórmula 1 de 2025? Isso mesmo, Lando Norris! Mostrando a todos que a vitória não chega quando nós queremos, mas sim quando estamos prontos. A vitória vem no nosso próprio tempo, vem com dedicação. Não desistir já garante 50% das nossas chances. 

Clive Mason/Getty Images

Lando comentou diversas vezes sobre como lidou com a pressão, ansiedade e medo de que o afligiam:  “Entrando na Fórmula 1 aos 19 anos há muitos olhos voltados para você. Lidar com todo esse tipo de coisa me afetou bastante: ‘Se isso der errado, se eu sair na próxima sessão e não tiver um bom desempenho, o que vai acontecer? Qual será o resultado de tudo isso? Estarei na Fórmula 1 no ano que vem? O que farei, já que não sou muito bom em muitas outras coisas na vida?'” 

Segundo uma pesquisa feita pelo Estadão, 90% dos jovens da geração Z se sentem inseguros e ansiosos em relação ao seu futuro profissional. Aqui vemos que o que sentimos e pensamos não são experiências individuais, mas sim coletivas, e que ninguém está a frente ou atrás em sua própria vida. Sobre o assunto, Lando ainda complementou dizendo: “Além disso, me sentia deprimido a maior parte do tempo achando que, se tivesse um fim de semana ruim, não era bom o suficiente”. 

No final das contas, seja um piloto na maior categoria do mundo, um estudante de medicina, um lojista, um vestibulando…  todos enfrentamos desafios emocionais em nossa carreira e vida pessoal. Mas assim como Lando nos ensinou, não há nada errado em ser vulnerável, isso só nos torna humanos. Aliás, buscar ajuda psicológica auxilia nessa jornada e ajuda a carregar o peso invisível de nos sentirmos sempre atrasados.