Quarto de Despejo é um dos livros indicados ao vestibular da Unifra


Por Fernando Cezar

 

Foto: imagem da internet

Pão, café e sabão. Três palavras chave da obra Quarto de Despejo de Maria Carolina de Jesus. O livro foi publicado em 1960, após uma descoberta de Audálio Dantas, repórter da Folha de São Paulo na época, que foi mandado para uma favela da capital paulista para conhecer aquele povoado que a cada dia crescia mais. Durante a sua reportagem, ele ouviu falar de uma mulher escritora que vivia naquele lugar. Era Maria Carolina.

Maria vivia no interior, foi presa injustamente por ter sido acusada de roubar cerca de 20 cruzeiros de um padre, e que depois de provar sua inocência, disse para si mesma que aquilo não era vida para ela, então mudou-se para São Paulo em busca de uma vida melhor. Ela engravida e é “jogada” em uma favela, vira catadora e recomeça a sua nova vida ali.

Mulher, negra, mãe de três filhos e solteira. Esses quatro fatores em uma época como os anos 1950 e 1960, já bastavam para existir preconceito, ignorância sobre ela, inclusive das próprias mulheres que viviam na favela. Mas Maria era sonhadora, batalhadora e mesmo com a dificuldade em que se encontrava, conseguia sobreviver a pobreza, ao esquecimento e principalmente a fome.

Mesmo com toda a dor, tristeza e sofrimento que passava, a autora ainda tirava um tempo para ler os livros encontrados em meio ao lixos que catava, e com os papéis e cadernos os quais se deparava, guardava e criava diários onde ela podia relatar toda a sua vida, escrever sobre sua luta, medo, dor e fome, principalmente a fome.

Assim nasceu Quarto de Despejo, livro que nada mais é do que a história de Maria Carolina de Jesus retratada em um diário. A obra rendeu cerca de 100 mil cópias e foi vendido em 14 línguas diferentes, tremendo sucesso este que provocou desconfiança da população na época, por que uma mulher pobre, da favela, negra, jamais poderia escrever algo tão incrível e comovente. O grande Manuel Bandeira, inclusive, fez uma reportagem no então Diário da Manhã, defendendo a autora, dizendo que “é impossível uma literatura tão sincera partir de alguém que não viveu aquilo”.

Na obra, a autora relata sobre violência doméstica, alcoolismo, ela como mulher, como é viver na favela, como as outras mulheres a xingam por ser solteira, o drama e superação que ela enfrenta e principalmente a fome, a qual é uma luta diária onde ela houve dos próprios filhos a fome que eles sentem e não ter como ajudar com aquilo. Na época ela conseguia juntar cerca de 15, 20 centavos por dia, o que naquele tempo era muito dinheiro, era o que Maria Carolina conseguia juntar por dia e com isso alimentar os seus filhos.

O livro tem muito dessa questão, uma repetição diária de toda a luta que esta mulher vivia e que compartilhava consigo mesma toda a frustração, a fome e a crítica social daquela época, onde os políticos iam até a comunidade em busca de votos nas eleições prometendo várias melhorias, mas que nunca cumpriam, só ficavam na conversa.

Isso tudo faz o leitor se comover, ficar corroído com uma realidade, com a vida sem dinheiro, com uma fome gigante a qual só quem viveu algo parecido consegue sentir.

A autora acabou caindo no esquecimento com o tempo, voltou para sua cidade, adquiriu um sítio e passou o resto dos seus dias, mas sua obra ainda marca, trás a tona e mostra o quão viva Maria Carolina de Jesus ainda está na Literatura Brasileira e Mundial.

Confira o vídeo especial feito pelo LaProa mostrando um pouco mais sobre essa obra prima da Literatura.

 

 

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