Uma vida em cena


Por Paola Saldanha

 

O relato de quando as cortinas se fecham, as alegrias, tristezas e o amor pela profissão de um artista de teatro. Foto: Breno Surreaux Fixman

Quando entramos em um teatro para assistirmos um espetáculo, deixamos despertar sentimentos muitas vezes escondidos, lembranças vem à tona, pessoas, fragmentos das nossas vidas são resgatados naquela troca com os artistas em cima do palco. Para o ator esse momento não é diferente, talvez aquela atuação a qual ele nos está entregando, seja a mais marcante da vida dele. Um trabalho de meses, anos, uma preparação, mental, física, para chegar ali e mexer em algo dentro de nós.

Para Laédio José Martins o teatro é exatamente isso, uma vida. ”O teatro estava em mim desde criança. Sempre insisti em jogos de representação e na escola os professores comentam que eu sempre queria fazer teatro, escrevendo, organizava apresentações em datas comemorativas. da escola. Na adolescência, aos 14 anos, fui convidado para participar de uma montagem de espetáculo na cidade, por uma oficina de teatro. Entrei para substituir uma pessoa que havia desistido. Entre e nunca mais abandonei”, relembra ele.

“Como o teatro é algo que não é tão certo, a gente tem que estar sempre jogando para todos os lados”, declara o artista. Foto: Arquivo pessoal

Martins fez Mestrado em Teatro na Instituição de Ensino Udesc (2008). Anos antes, ao final da década de 90, se formou em Direção e Interpretação Teatral. Em 1999, aos 26 anos, ingressou na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para cursar artes cênicas. O que levou Martins a universidade foi a necessidade de possuir um diploma específico, pois já trabalhava na área há alguns anos. “Já não via outra possibilidade para mim. Não queria me sujeitar a um outro tipo de profissão. Já tinha me dado bem com aquilo, era algo que me dava prazer. Eu estava conseguindo sobreviver a partir daquilo. Eu não estava mais conseguindo ter um trabalho formal, pois não podiam mais registrar minha carteira como professor de teatro porque eu não tinha formação”, explicou ele.

“O teatro estava em mim desde criança”

Conheceu sua esposa no curso de Artes Cênicas. Ela se formou no mesmo ano em que ele encerrava suas atividades como professor substituto. Os dois, então, viajaram para a cidade natal de Laédio onde seguiram atuando na área. Após, dez meses, sua esposa foi selecionada para mestrado em Florianópolis. No ano seguinte, Laédio também ingressou no mestrado. Ficaram na capital catarinense até 2012, quando Raquel foi selecionada para ministrar aulas de teatro.

Quando voltou a Santa Maria, reativou  o Coletivo Teatral – Ateliê do Comediante, iniciado em 2005, quando moravam na cidade. A partir da formação desse grupo, que na época era formado por Martins, sua esposa e duas colegas, partiram para o oeste de Santa Catarina fazer oficinas de teatro, em nove municípios. Nesse período, o estado de Santa Catarina havia descentralizado a administração estadual, então cada região tinha uma administração. As coisas começaram a acontecer de forma mais fluída, havia mais verba.

Laédio (ao centro) durante o espetáculo Varieté. Foto: Guilherme Senna

 Em Florianópolis ministrou aulas em um curso profissionalizante e no ensino fundamental (aula de artes) no mesmo período em estudava mestrado. Participou da montagem de duas apresentações na escola de teatro que deu aulas – um como diretor e outro como colaborador.  Nesta época também montaram dois espetáculos com o Ateliê do Comediante: Guarda circo, que pode voltar ainda esse ano ou em 2019.  Pernas pra que te quero, que os trouxeram de volta para o Rio Grande do Sul, entre 2010 e 2011. Neste dois espetáculos, experimentaram as práticas circenses. Ao voltarem para Santa Maria, em 2012, se envolveu na montagem de quatro espetáculos: No país das maravilhas (espetáculo de graduação), À venda (D. Copetti Produções e Cia de Teatro Saca-Rolhas), Mágico de Oz e Branca de Neve (juntamente com a Cia de Teatro Saca-Rolhas).

Laédio também atua na recreação de festas, junto com a Saca-Rolhas e outras companhias de teatro. “Como o teatro é algo que não é tão certo, a gente tem que estar sempre jogando para todos os lados. Eu dou aula, eu dirijo, atuo, faço cenografia, figurino. Participo de todas as etapas de produção”, enfatiza ele. Em 2015, participou da montagem do espetáculo de graduação, Carícias, com cerca de 10 apresentações na cidade. Atualmente, Martins dirige o espetáculo teatral A Venda, que teve início em 2014, e compõe o espetáculo circense Varieté (concepção geral e direção).

A vida do artista de teatro, circense não é fácil, infelizmente o brasileiro não tem a cultura de ir ao teatro, a cultura na maioria das vezes fica em segundo plano e em Santa Maria esse cenário não é diferente. “É sofrido como viver de qualquer outra profissão, com a diferença de que não há um salário fixo mensal, salvo quem trabalha como contratado de uma escola. Quando você tem que correr atrás e produzir seu próprio trabalho fica mais complicado. Mas há mercado na cidade. Porém, em períodos de crise, como a que estamos passando agora, a cultura é a primeira a ser cortada. As pessoas deixam de ir ao cinema, ao teatro. O lazer fica em segundo plano e a gente sente a diferença”, explana ele. Martins comenta que para os ensaios dos espetáculos, conseguem espaços emprestados, não há espaço fixo para ensaios.

“O poder de passar uma mensagem de uma maneira não autoritária, arbitrária, tira as pessoas do lugar comum. Faz refletir.”

O teatro não nos faz apenas rir, chorar ou nos emocionar, também nos faz pensar sobre o mundo em que vivemos e nosso cenário atual. Para Laédio o teatro é político em sua natureza. “Isso é o que me move no teatro, é esse agenciamento político – não a política partidária, mas a política que envolve a gente, nas relações cotidianas. O poder de passar uma mensagem de maneira não autoritária, arbitrária, tira as pessoas do lugar comum, faz refletir”, ressalta ele.

“Quando vemos uma reação positiva do público é um combustível para continuarmos”, afirma Martins. Foto: Rodrigo Ricordi

Quando o espetáculo termina, as cortinas se fecham e as luzes se apagam, a missão do artista está cumprida, tocar nossa alma, transformar as pessoas de alguma forma. Quando o artista remove a maquiagem, ele sabe que também removeu junto as tristezas de quem embarcou no mundo mágico do teatro. “É fantástico. Os números a gente já sabe, como a gente sai nas fotos a gente já sabe. A gente fica tentando buscar a reação do público nas fotos. É gratificante ver, é intraduzível. Nos motiva. Quando vemos uma reação positiva do público é um combustível, para continuarmos”,finaliza.

Por Fabian Lisboa e Paola SaldanhaReportagem produzida na disciplina de Jornalismo Cultural

 

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