A solitude em tempos conectados


Por Paola Saldanha

 

O celular despertou. Você acordou, destravou o alarme, deslizou a tela e começou a rolar o feed. Após alguns minutos, entre ver notificações, responder conversas e ver o que seus amigos fizeram na noite passada, você levanta. Prepara o café, tira uma foto da mesa, publica e, então, faz sua refeição. Ao sair de casa, coloca o celular no bolso. Na parada do ônibus confere as visualizações do seu último post. Durante o trajeto do ônibus, os olhos quase não acompanham o passar das informações que percorrem a tela. Na fila do banco, o sinal cai e uma sensação estranha faz você se sentir angustiado, ansioso. Por alguns minutos você está desconectado, sozinho. Mas será que antes disso você já não estava só?

A solidão é um tema que faz parte das nossas discussões. Seja uma reportagem na televisão, uma matéria de jornal, pesquisas acadêmicas, livros ou até no cerne de um comentário feito por algum amigo ou familiar. Fazemos parte de uma espécie gregária, ou seja, vivemos em grupo, em que é necessário para o nosso desenvolvimento e evolução viver em coletividade. Portanto, discutir nossa relação com os demais e conosco mesmo, nossos movimentos de aproximação e isolamento, fazem parte das nossas reflexões sobre a vida em sociedade.

Antes de nos sentirmos pertencentes a um grupo, é necessário sentirmos pertencentes a nós mesmos (Imagem: Getty Images)

Ao longo do tempo novos fatores e questões retomam esse assunto e nos últimos anos é possível observar que a solidão ganhou uma perspectiva de análise, ligada a uma nova forma de estabelecimento de vínculos, o virtual. Por meio das mídias sociais e dos avanços tecnológicos dos dispositivos móveis, vivemos um momento em que estamos a um toque de distância de qualquer pessoa, podendo ter centenas, milhares de seguidores e criar diversas conexões.

Segundo os dados disponibilizados pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) em 2018, o Brasil já chegou há mais de 42 milhões de domicílios com acesso à internet, totalizando mais de 120 milhões de usuários. O departamento ainda destacou que as principais atividades feitas online estão ligadas à comunicação, correspondendo 90%  a serviços de mensagens e 77% a mídias sociais.

A partir das nossas próprias experiências, somadas aos dados dessa pesquisa, sem dúvidas, podemos afirmar que nunca estivemos tão conectados assim uns com outros. Entretanto, uma das questões emergentes desse cenário é o quanto realmente estamos estabelecendo conexões reais com as outras pessoas e, principalmente, com nós mesmos.

Se você abrir uma nova guia no seu navegador agora e pesquisar “redes sociais+solidão”, irá encontrar inúmeros artigos e reportagens, denotando que institutos e pesquisadores já realizam investigações sobre essa relação. Entre esses nomes está o de  Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia no Massachussets Institut of Technology (MIT) e doutora em Psicologia da Personalidade. Desde a década de 80 ela estuda os impactos subjetivos da tecnologia. Quando Sherry ingressou no MIT propôs um outro olhar sobre a ligação dos indivíduos com a tecnologia. A pesquisadora trouxe uma reflexão sobre como esses dispositivos ultrapassam a ideia de uma simples ferramenta de comunicação, mas alteram a forma de nos relacionar com os outros, conosco mesmo e com o meio em que vivemos.

Durante os mais de 20 anos de estudos, e quatro livros lançados sobre a temática, Sherry vem avançando sua reflexão acerca do nosso comportamento até o universo online, com as mídias sociais. Há uma preocupação não ligada, diretamente, ao avanços dos meios de comunicação, mas a forma como estamos utilizando esses dispositivos. Estamos perdendo nossa habilidade de estarmos sozinhos e de nos sentirmos bem nessa condição, tornando a solidão cada vez mais evidente.

Há alguns anos, o ambiente virtual proporcionava uma interação temporária. Após algum tempo conectados, fazíamos logout e voltávamos a nossa rotina no espaço físico. Atualmente, o real e o online ocupam o mesmo espaço em nosso dia a dia. Há situações em que o cibernético se sobrepõe ao offline. Conforme Sherry, um dos fatores pelos quais as pessoas preferem o contato virtual está ligado ao poder que temos, literalmente, nas nossas mãos de nos apresentarmos aos outros. Estamos no controle do que iremos mostrar, de que forma iremos fazer isso, realizando um recorte de nós mesmos. Trabalhamos como editores, utilizando filtros, escrevendo e reescrevendo textos antes de responder a mensagens. “Podemos acabar nos escondendo uns dos outros, mesmos que estejamos conectados uns dos outros constantemente”, enfatiza a estudiosa.

Imagem de Jose Antonio Alba por Pixabay

Assim, nos tornamos mais vulneráveis no contato real com outras pessoas. No mundo concreto não temos tempo para editar o retorno, tudo ocorre em tempo real, as respostas são instantâneas. E são nesses momentos que realmente conhecemos o outro e nós mesmos, nos momentos em que gaguejamos, ficamos sem respostas, tropeçamos nas palavras. Além disso, o contato físico é vital para nós, seres gregários. Um abraço, um beijo, um aperto de mãos libera hormônios importantes, como a ocitocina – ligada a sensação de segurança e bem estar, estimulada ainda no útero materno. O toque, o afeto são importantes para nossa saúde corporal e mental.

Com isso, cada vez mais isolados dos vínculos físicos, sentimos a necessidade de receber atenção de alguém, e as redes sociais surgem como uma forma de nos mostrarmos a muitas pessoas, de não nos sentirmos sozinhos, de que estamos sendo ouvidos. Assim, a demanda pelo compartilhamento de nossas experiências para serem validadas cresce. Nos pequenos momentos em que nos percebemos sozinhos, sentimos uma sensação desconfortável, de ansiedade, abandono e o celular surge como uma ferramenta que irá nos salvar da terrível companhia de nós mesmos.

O estar sozinho ganhou um peso negativo na sociedade conectada. Estabelecemos nosso próprio isolamento. Os momentos em que estamos sozinhos deveriam ser momentos de autoconhecimento e auto reflexão, de nos conhecermos melhor, desfrutar da nossa companhia. Essa perda de habilidade acaba também respingando na forma como nos relacionamos com os outros, pois buscamos em nossas conexões pessoas, apenas, para suprir nossa sensação de solidão. “Esperamos mais da tecnologia e menos do outro[…]A tecnologia nos atrai mais quando estamos vulneráveis. E nós somos vulneráveis. Estamos sozinhos, mas receamos a intimidade”, disse Sherry Turkle durante uma palestra no TED Talks.

Confesso que conheci o termo solitude há poucos anos, mas o conceito já era familiar. Alegria e prazer em estar sozinho, sem sentimento de falta, mas de realização, plenitude. Desfrutei somente da minha companhia inúmeras vezes. Lembro que há algum tempo isso era incrível, me sentia bem, contemplava dos mais simples momentos até grandes reflexões só. Entretanto, experimentar essa mesma sensação tem sido cada vez mais difícil e percebo que outras pessoas também passam pelo mesmo. Li inúmeros relatos, inclusive, nas mídias sociais, sobre esse sentimento de desconexão, de não se sentir mais pertencente a um grupo ou espaço, ligado ou não ao isolamento físico, mas a sensação de estar deslocado, a solidão.

As mídias sociais podem ser grandes pontes de ligação e estabelecimento de diferentes conexões. O ponto crucial aqui é busca pelo equilíbrio. Inclusive, é possível visualizar um movimento de diálogo entre as pessoas sobre a solidão. Em grupos de conversas, tweets, posts no Facebook e Instagram o questionamento sobre o próprio uso dessas redes vem ganhando espaço. Não será com um toque que uma chave virará e tudo passará a ser diferente, mas precisamos iniciar um processo de percepção, reflexão e ação. Nossa relação com as mídias sociais e dispositivos de comunicação ainda é recente. Não podemos abandonar a solitude, pois os movimentos de interiorização são importantes para nosso autoconhecimento e para uma boa qualidade de nossas conexões com os demais.

 

 

Paola Saldanha é egressa do curso de Jornalismo da UFN. Acredita em uma narrativa com protagonismo de diferentes vozes e espaços, uma leitura plural de vidas plurais

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