Copacabana, nenhuma tem o encanto que tu possuis


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Dia ensolarado. Andei na Avenida Rio Branco, pulando os buracos na calçada e observando meu entorno rodeado por prédios que cortam metade do centro de Santa Maria. Essa parte é chamado de “centro velho”. A arquitetura é de influência Art Deco, que contém em fileiras casa coloridas até a Estação Férrea. Isso me traz um certo aconchego de memória, por mais que haja prédios abandonados e negligenciados pelo Município. Chegando na praça Saldanha Marinho, onde estudantes da Universidade Federal de Santa Maria costumavam tomar banho no chafariz após o resultado do vestibular nos anos 80, avistei um homem vestindo uma camiseta verde com um violão na mão. Ele estava parado na esquina do calçadão gritando palavras de ordem para quem passava:

– “Todos ladrões! O povo não enxerga!”.

Olhei para trás com certo receio, e continuei traçando meu destino, cujo final seria a poucos metros dali. Logo depois de passar por cima do viaduto Evandro Behr, enxerguei um homem gaudério vendendo pinturas ao chão. A efemeridade das situações nos afeta, e, para fugir um pouco da realidade, nada melhor do que sentar em algum lugar aconchegante para apreciar uma boa comida e um bom café. Avistei um adesivo colado a uma porta, lembrando uma moldura de espelho antigo, com letras curvas em dourado; estava escrito “Confeitaria Copacabana”. Os vidros eram escuros e não eram tão nítidos para enxergar de dentro para fora, mas a curiosidade falou mais alto.

“A praia de Copacabana, minha mãe, São Paulo, Havana. Quando eu nasci tinha sim, sim senhor, águia, paturi, camelo, condor”

Sem contrariar Itamar Assumpção, quando eu nasci tinha, sim, sim, senhor, uma confeitaria histórica no interior do Rio Grande do Sul. Por mais incrível que pareça, o nome faz jus: ela lembra Copacabana em sua raiz, os seus famosos bistrôs à beira mar. O primeiro nome do estabelecimento foi em homenagem a família – Confeitaria Segala. Após assumir a gerência em 1970, o espanhol José Pena Cabalero renomeou a padaria como ‘’Copacabana’’ gaúcha. No meio tumulto de pessoas andando pelo centro, vendedores de arte expondo seus trabalhos no chão, resolvi imergir no histórico Edifício Segala, onde é produzida a melhor massa folhada da cidade rodeada por morros.

Duas da tarde de uma terça-feira. Foto: Juliana Brittes

Empurrei a porta, e logo fui recebida por uma senhora loira sentada em banco na porta. Ela segurava em suas mãos uma quantidade de papéis. Sorrindo, me entregou um.

– Boa tarde!

– Boa tarde, respondi.

O ambiente é decorado com luzes baixas, luminárias de teto e abajures em cima das bancadas. Aproximei-me do balcão de vidro para apreciar os famosos doces e fui surpreendida por um garçom carismático. Ele usava camiseta e boné brancos.

– Posso lhe ajudar?

– Uma massa folhada rosa, por favor.

– Pode sentar ali na mesa que eu já lhe atendo.

Sentei-me a mesa do fundo ao lado de um dos espelhos gigantes, lugar propício para observar o ambiente e as particularidades de cada indivíduo. Leonel é o atendente mais antigo da confeitaria, onde trabalha há pelo menos 20 anos. Agradeci sua gentileza, e observei a decoração. Além da iluminação sofisticada que lembra um bristô parisense dos anos 50, há 48 quatros espalhados pela parede. Como é um ambiente é administrado de geração a geração, a família estava toda presente estampada em retratos. Além de recortes de jornais e fotografias de Santa Maria nos anos 50. A cada mordida da massa folhada, o som ambiente com jazz e blues me remetia à infância, quando minha mãe resolvia dar uma pausa no dia para pedir no balcão “o de sempre”. Além da música de fundo, prestei atenção às conversas alheias. Ao meu lado, uma mulher de vinte e poucos anos estava sentada com outra mulher, que poderia ser sua mãe. Elas discutiam qual seria o futuro do país nos próximos dias.

Conversei com a atual chef do bistrô, Manuela Segala – filha de Luiz – que trabalha no caixa durante a tarde e de manhã ajuda na produção da cozinha. Ela e sua irmã, Tatiana Segala, encantaram-se pela rotina da cozinha. Desde pequenas, elas se interessavam pelo ambiente e pela confeitaria. Há pouco tempo, fizeram um curso na renomada escola de gastronomia francesa Le Cordon Bleu.

No dia seguinte, voltei à Copacabana. Peguei a comanda branca com a moça loira no caixa, pois tinha ido cedo. Fui atendida outra vez por Leonel, mas resolvi variar o cardápio, pedindo um café e uma torta de frutas vermelhas. Cumprimentei Luiz Segala que estava ao caixa, sempre muito simpático e atencioso. Ele deu a volta no balcão e apontou para a parede para me explicar sobre as fotografias dispostas ao lado dos espelhos.

– Essa foto foi tirada que época?

– É uma montagem. Meu avô está lá atrás. Essa aqui é a foto original – apontou para o lado.

Sentei no corredor e resolvi observar a movimentação daquele dia às 14 horas. Luiz me trouxe um livro chamado “Santa Maria – Memória 1848 – 2008” que explicava a história de sua família. Com as páginas em horizontal, o livro contém imagens de Luiz Casali Segala, seu avô.

Luiz Segala e seu filho Ivan na antiga confeitaria Segala. Foto: Juliana Brittes

De gole em gole, fui desfrutando meu café enquanto Luiz corria de um lado para o outro atendendo os clientes que chegavam aos poucos. Ele veio até a mim e entregou em mãos uma fotografia de seu avô em frente a um carro. O homem vestia terno, gravata, sapatos sociais e uma boina. Aproveitei a ocasião e disse para Luiz que gostaria de fotografá-lo em frente ao balcão de vidro quando não tivesse tanto movimento.

– Vou trocar de roupa.

Fotografia do fundador da Confeitaria. Foto: Juliana Brittes

É muito perceptível seu carisma. Ele subiu o elevador que fica entre dois espelhos ao lado do caixa e, em menos de cinco minutos voltou para o hall vestido como um chef de cozinha. Roupa branca, touca preta e calça jeans. Eu ainda estava comendo a torta de frutas vermelhas, a cada mordida era possível sentir a sua composição ácida e doce. A suavidade do creme de baunilha me despertava um sentimento nostálgico. Luiz voltou a minha mesa e me entregou uma fotografia com a foto de casamento de seu pai, que era dentista e na época não havia assumido a gestão do restaurante. A fotografia de 1950 retratava sua mãe, seu pai Ivan Segala junto com seus avós.

Me concentrei mais para descobrir mais a história do lugar, mas ao mesmo tempo prestava atenção no público que entrava e saia do café através dos espelhos: uma família composta por mulheres que sentava ao meu lado comendo uma massa folhada.

O café esfriou, e o movimento só tende a crescer até as 19h, o horário que fecha a Confeitaria. Café, tortas e a massa folhada são os mais pedidos. Avistei um dos garçons que não havia visto no dia anterior. Ele usava um boné branco do Brasil, calça social, sapato social preto e blusa branca. O nome dele é Adão Cavalheiro.

Casamento do pai de Luiz Segala junto com seus avós. Foto: Juliana Brittes

Adão nasceu em São Pedro do Sul, trabalhava com agricultura familiar. O irmão dele, Pedro, morava em Santa Maria na época e trabalhava na CVC (distribuidora de refrigerante) em Santa Maria. Como fazia as entregas no Copacabana e conhecia Luiz Segala, soube que havia uma vaga de garçom no lugar.

– No começo foi muito difícil se adaptar na cidade, mas pelo menos tinha família aqui.

Stela Maris da Rocha Segala sentou comigo a mesa, ela já havia me atendido algumas outras vezes que tinha ido à Confeitaria. Não sabia que era esposa de Luiz, me surpreendi quando ela contou a história de amor deles. Se conheceram através de suas famílias e cultivaram um relacionamento à distância.

– A vó do meu marido criava ele, eles moravam aqui em cima do prédio. Eram em três irmãos, mas depois que o pai dele faleceu, foram embora para Porto Alegre.

– E quem ficou com a gerência do lugar?

– Era o espanhol José Pena.

– Depois que ele voltou de Porto Alegre pra cá, vocês se reencontraram?

– Sim, ele foi estudar Arquitetura na Unisinos e eu fiquei aqui em Santa Maria estudando Pedagogia. Quando ele se formou, a gente casou.

Luiz trabalhou de funcionário antes de gerenciar para aprender a fazer os doces. Antigamente os salgados só tinha empada de camarão e pastel de carne. Já o folhado de frango e o de calabresa foram invenções recentes, conta Stela.

Luiz Segala, o atual responsável pela confeitaria. Foto: Juliana Brittes

– Manuela fez um curso na Argentina e aprendeu a fazer os quiches e os macarrons.

O diferencial da Copacabana é que eles têm um viés sustentável. Não usam sacolas plásticas, e os doces “para levar” são colocados dentro de uma caixa vermelha florida com o slogan do lugar. E ah! Antes de visitá-los, é melhor sacar dinheiro no banco, pois a Copacabana não aceita cartão de crédito.

 

*Reportagem produzida por Juliana Michel Brittes, para a disciplina de Jornalismo Especializado, do Curso de Jornalismo da Universidade Franciscana. Segundo semestre de 2018. Orientação: professora Carla Torres.

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