Mais questionamentos do que conclusões – de filosofia até Bettina


Por Arcéli Ramos

 

Desacelerar provavelmente é uma das coisas mais difíceis hoje. E não estou falando de correr contra as 24h do dia. Pisar o pé no acelerador para chegar na hora no trabalho ou acelerar ainda mais para chegar o quanto antes em casa. A questão aqui é mudar a velocidade da produção mental, do pensamento e, por que não, da prisão do Novo. Desacelerar é respeitar os processos naturais.

Como uma pessoa mentalmente acelerada, prazer, me cobro muito a necessidade de estar sempre criando. Já entrei em alguns processos desagradáveis de produção frenética. E é esperado que eu entre em parafuso quando naturalmente não consigo produzir, mesmo que minha cabeça continue à mil. Passei os últimos vinte dias surtada pela estagnação. Me desesperei pois não teria pauta para essa coluna e para outros textos que deveria entregar. A situação só se resolveu quando percebi que o problema não estava na falta, mas no excesso. Eram muitas pautas, textos e reflexões desorganizadas. Isso já aconteceu antes e com certeza vai acontecer de novo no futuro – aguarde cenas dos próximos vinte dias. Momentos assim fazem parte do meu processo, mas também são reflexo da quantia absurda de informações que recebo todos os dias. Uma realidade que não é só minha. Todos estamos sendo bombardeados com informação o tempo todo.

Demorei um tempo para compreender que o que parecia um problema localizado e privado, na verdade, é coletivo. Um trecho do livro “No enxame”, do filósofo Byung-Chul Han, diz que “hoje não somos mais destinatários e consumidores passivos de informação, mas sim remetentes e produtores ativos”. Ou seja, além de recebermos informação nova constantemente, não nos basta ser apenas o destino da mensagem. Sentimos necessidade de comunicar nós mesmo. (E não é o que estou fazendo aqui?). O autor conclui o pensamento dizendo que esse comportamento, o “duplo papel”, aumenta enormemente a quantidade de informação.

Não basta estar atualizado sobre as notícias locais e do mundo. Não basta acompanhar as peripécias políticas que tomaram conta do país. Até por que, vamos combinar, isso ninguém consegue. Se você não está confuso, ouso dizer que você não entendeu nada. No fim ninguém entende mesmo. Mas vamos lá. Além de todas as notícias, tem aquele artigo i-n-c-r-í-v-e-l que você precisa ler. Uma música que todos estão ouvindo. Aquela série importantíssima lançada há duas semanas por aquela famosa plataforma de streaming – assistam “Coisa mais linda”. Deu conta de tudo? Na verdade, não. Enquanto você assistia a um episódio da série mais um Ministro foi demitido. Outro artigo viralizou. Mais um meme está bombando no Twitter. O Laranja vendeu mais dois carros. E a Bettina está trilhardaria.

Queria poder trazer soluções para lidar com a sensação de atraso, o peso e o desgaste gerados por essa enxurrada de informação que nos caça e consume durante os dias. Mas acredito que ainda vá levar algum tempo para que a gente encontre meios e rotinas mais saudáveis de consumir informação. Um primeiro passo talvez seja aceitar que não vai dar para saber de tudo o tempo todo. Já começou difícil – mais para alguns do que para outros. Vamos conversar sobre FoMO (Fear of Missing Out – medo de estar por fora, perdendo algo) nos próximos meses.

O método que eu tenho encontrado para desacelerar a produção é escrever a mão. Não é sempre que funciona, mas tem dado certo nos momentos mais críticos do último ano. Foi assim que eu escrevi boa parte do trabalho final de graduação – mais de sessenta páginas (risos nervosos). O processo de transportar ideias para o papel ao invés de uma tela ajuda meu pensamento a desacelerar. É como se minhas mãos falassem diretamente com meu cérebro. “Colega, você vai ter que desacelerar aí, senão a gente vai perder um monte de coisa boa. Vai com calma!”. Funcionou com esse texto.

Mas como trabalhar com informação, querer comunicar sobre tudo, gerar conteúdo o tempo todo e não colaborar com o esgotamento mental de outras pessoas? Perenidade, permanência, durabilidade. Optar por produzir textos que permanecerão relevantes daqui dois dias, três meses e até anos. E consumir conteúdo de datas passadas. Nessa cultura do “pra ontem”, esquecemos que existem coisas importantes no hoje da semana passada.

Provavelmente vou precisar reler esse texto nos próximos vinte dias.

 

 

Arcéli Ramos é jornalista egressa da UFN. Repórter da Agência Central Sul em 2015. Com pesquisas na área jornalismo literário e linguagem, hoje também estuda “Pesquisa de tendências”. É colaboradora na New Order, revista digital na plataforma Medium, e produz uma newsletter mensal.

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