O sertanejo também é poc


Por Deivid Pazatto

 

“‘Vamô assumir o nosso amor rural, sai desse armário e vem pro meu curral” .(Foto: Divulgação/Instagram).

Se você não é um fã de sertanejo, certamente já deve ter ouvido ou conhece algum clássico desse estilo musical. Com o crescimento desse mercado nos últimos anos, surgiram diversas vertentes nesse meio. Do sertanejo universitário ao feminejo, os cantores e cantoras desse estilo dominam as paradas musicais do país. Mas você já ouviu falar do Pocnejo? A expressão desse novo estilo foi lançada pelo cantor Gabeu, há pouco mais de um mês, com a música “Amor rural”, escrita por ele e seu namorado, Well Bruno. Fugindo dos padrões heteronormativos do sertanejo, o artista de 21 anos canta sobre o amor não assumido entre dois homens.

Mas o que é o Pocnejo? A referência vem do termo “poc”, usado na comunidade LGBTQ+ para denominar gays. Muito mais que isso, o pocnejo lançado por Gabriel Felizardo, nome de batismo do cantor, surge para romper com o machismo na cultura da música sertaneja. O cantor lança uma nova perspectiva sobre abordagem dos relacionamentos nas canções desse estilo que é composto, em grande parte, por homens heterossexuais. Afinal, LGBTQ+ também sofrem por amor!

 A  música de Gabeu se assemelha muito ao sertanejo raiz cantado pelo seu pai, o Solimões, da dupla Rio Negro & Solimões. Com mais de 750 mil visualizações, o videoclipe de “Amor Rural”  foi lançado há dois meses no YouTube. Com direito a brincos e unhas pintadas, Gabeu rompe com a estética masculina, quebrando padrões heteronormativos da música sertaneja. Além disso, o cantor proporciona um novo olhar sobre o amores homoafetivos: a dificuldades de dois homens viverem um amor no campo. Confere aí!

A música sertaneja teve início na década de 1910 e trazia em suas letras a vida difícil no campo. Conhecida como música caipira, esse sertanejo raiz que explorava o cotidiano difícil de quem morava no interior, passou por diversas transições, mas sem nunca perder a sua essência. De lá pra cá, já tivemos o sertanejo romântico, com a influência do country; o sertanejo universitário, com elemento mais pop’s; e o feminejo, com a grande e forte presença das mulheres nesse estilo.

Com o passar do tempo, o sertanejo renovou a sua linguagem, mas ainda assim carrega em suas letras frases machista e homofóbicas. O pocnejo surge como uma possibilidade de expandir a discussão sobre as problemáticas que permeiam o sertanejo e, para além disso, discutir temas da comunidade LGBTQ+ e as dificuldades de quem vive no interior.

Gabeu e o pai Solimões. (Foto: Instagram)

Acompanho o trabalho do Gabeu há algum tempo nas redes sociais, antes mesmo de “Amor Rural”. Por e-mail, ele me respondeu algumas perguntas:

Deivid: O sertanejo também é um espaço para as poc?

Gabeu: O sertanejo é um meio predominantemente hétero e masculino, e isso faz com que a gente não gere uma identificação com as figuras do sertanejo e com as narrativas apresentadas, sabe? Só agora que estamos vendo mulheres com uma força bem grande no dentro desse meio. Existe também uma ideia de que o homem deve ser bruto, rústico e sistemático que não dialoga com a vivência de pessoas LGBTQ+. Mas eu acredito que apresentando outros tipos de narrativas, outras histórias dentro da música sertaneja, ela possa sim ser um espaço para nós pocs.

D: Como você percebe a recepção do pocnejo? O mercado do sertanejo está aberto a essa nova proposta, já que esse é um meio heteronormativo?

G: Então, eu mesmo nunca esperei que o mercado sertanejo fosse se abrir para essa proposta, e não aconteceu de fato. Tudo bem que esse ainda é o meu primeiro trabalho, primeira música, vamos ver como as coisas se desenrolam ao longo da minha carreira. Mas eu também não tenho essa pretensão de adentrar esse mercado, a minha proposta é justamente dialogar com um público que não se enxerga no sertanejo tradicional, não acho que o meu público seja o mesmo, por exemplo, do meu pai. Acho que o negócio é fazer sertanejo fora do meio sertanejo, pra conseguir atingir outras pessoas.

D: Qual a sua visão em relação a músicas sertanejas (antigas e atuais) que trazem em suas letras temáticas machistas e homofóbicas?

 G: Eu acho que existem tantas possibilidades pra um compositor, tantos caminhos a percorrer na criação de uma música, que eu realmente não vejo o porquê de se usar o preconceito pra isso, ainda mais hoje que existe a informação sabe? Antigamente não existia todas essas discussões a respeito de sexualidade e gênero, mas hoje elas estão aí, por isso eu acho muito mais grave uma música ser preconceituosa hoje do que há 50 anos atrás.

D: A falta de cantores e cantoras assumidamente LGBTQ+ no sertanejo é um fator para o distanciamento entre a comunidade LGBTQ+ e o estilo musical? Por quê?

 G: Com certeza, como eu disse anteriormente, nós LGBTQ+ não nos enxergamos nas figuras do sertanejo, nos grandes nomes de duplas (que eu adoro inclusive), não gera identificação. Pensando nisso eu comecei a me questionar se a comunidade não gosta de sertanejo simplesmente porque não gosta mesmo, por causa do ritmo, dos timbres, ou se o buraco era mais em baixo, e é. Essa ausência de cantores e cantoras assumidos, que falam sobre sexualidade e gênero dentro do sertanejo faz com que muitos de nós pensemos coisas do tipo “não é pra mim“, “sertanejo é coisa de hétero“, “gay não ouve sertanejo”, entre outros. Eu percebo que com esse boom das mulheres no sertanejo o público LGBTQ+ cresceu, porque é comum também que a gente se identifique mais com essas mulheres que passam uma imagem de mulher forte e independente.

D: Com um trecho da sua música, lhe pergunto: por quanto tempo mais vamos amar no escuro?

 G: Eu queria dizer que por pouco tempo, mas nós temos muitos passos para dar ainda, muitas coisas pra conquistar, tanto no âmbito pessoal quanto no político. No pessoal porque cada um tem as suas questões internas, cada um tem uma família diferente, vive em um contexto diferente e almeja coisas diferentes. No político, porque eu acredito que não só no sertanejo, não só na música, não só nas artes, nós precisamos de representatividade LGBTQ+ em todos os lugares, inclusive dentro da política, pra que nós tenhamos pessoas que realmente entendam todas as nossas questões e pra que precisemos cada vez menos amar no escuro.

Antes mesmo de Gabeu, em fevereiro deste ano, a drag queen Reddy Allor lançou música “Tira o Olho”. Com uma proposta que se assemelha ao sertanejo universitário, a artista denominou o som como dragnejo. Assim como Gabeu, Reddy abre espaço para a comunidade LGBTQ+ no meio sertanejo. Esse sertanejo queer surge com a extrema necessidade de, mais uma vez, rompermos com as dicotomias de gênero e explorarmos os diferentes campos das artes.

Seja o pocnejo ou o dragnejo, o importante é ocuparmos esses espaços. A cultura LGBTQ+ está muito atrelada ao pop e as grandes divas e, por diversas vezes, esquecemos que existem LGBTQ+ em outros lugares e vivendo diferentes realidades. Precisamos apoiar essas novas vozes e através delas resistirmos. Os heterossexuais também precisam ouvir sobre amores LGBTQ+. Vamos cantar o nosso amor rural, urbano ou em qualquer lugar.

 

 

Deivid Pazatto é jornalista egresso da UFN. Foi repórter da Agência Central Sul e monitor do Laboratório de Produção Audiovisual (Laproa) durante a graduação. É militante do movimento LGBTQ+, aborda questões pertinentes sobre essa temática em seus textos.

 

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