Olhos e ouvidos para todos nós


Por Paola Saldanha

 

 

Foto: Registro de uma das ações do Marmita Amiga, desenvolvido pelo projeto Vozes das Ruas SM | Dartanhan Baldez Figueiredo

Segunda-feira. A rotina recomeça. Emprego, faculdade, colégio, compras no mercado, idas ao banco, farmácia, shopping. Ao longo dos diferentes trajetos diários, muitos caminhos se cruzam. Com quantas pessoas você interage? Quantas você vê? E quantas você realmente enxerga?  Uma parcela da população, ainda que presente no cenário urbano, sofre com a invisibilidade e a marginalização. As pessoas em situação de rua recebem olhares tortos ou, simplesmente, não são vistas por aqueles que são guiados pelos olhos da indiferença.

A estigmatização tira a identidade, o nome, a história e a complexidade da realidade de quem encontrou na rua o seu abrigo. A reprodução de rótulos de geração para geração naturaliza um olhar sem humanidade e sensibilidade. Parte da população que atravessa as ruas da cidade se acostumou a não enxergar os rostos de quem tem sua morada em todos os endereços, convergindo em uma prática que exclui, marginaliza e oprime.

Além das relações cotidianas, a invisibilidade se mostra em outras esferas. Inicialmente, não há números oficiais sobre a população em situação de rua, o que já denota uma falta de interesse por parte dos três níveis de governo. Os dados mais atualizados são de 2015, estimados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Como base para o levantamento, foram utilizadas as informações disponibilizadas via Censo do Sistema Único de Assistência Social (Censo Suas) de 1.924 cidades. A partir desse levantamento, o IPEA divulgou a estimativa de que o Brasil tem mais de 100 mil pessoas em situação de rua. É possível concluir que esse número representa, apenas, uma parcela de uma realidade muito maior.

Sem quantificar a fração dessa população, conhecer suas demandas, condições e peculiaridades, não há suporte para a implementação de políticas públicas voltadas para quem vive nas alamedas. Se de um lado há dificuldades no desenvolvimento de diretrizes voltadas para pessoas em situação de rua, por outro, há o risco do desmantelamento do que já foi adquirido. Nos primeiros dias do atual governo, uma medida provisória extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). O Consea foi criado em 1994, mas desativado logo depois. Em 2003 foi reelaborado e passou a integrar o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan). Composto por dois terços da sociedade civil e um terço por representantes da presidência, cabia ao conselho propor os regulamentos e as prioridades da Política e do Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Conforme as descrições fixadas na página do Governo Federal na internet, o objetivo do Consea era de “promover a realização progressiva do Direito Humano à Alimentação Adequada, em regime de colaboração com as demais instâncias do Sisan”.

Com a assinatura da medida provisória, o Consea perde o poder de propor diretivas para a Política e para o Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Outra revogação diz respeito à composição e organização da equipe. O comando e a responsabilidade dessas questões foram direcionados, exclusivamente, ao Ministério da Cidadania, afastando ainda mais o poder das mãos da população. As consequências da extinção podem afetar uma realidade muito próxima, a do Restaurante Popular Dom Ivo.

O mês de março marcou o terceiro ano da entidade com as portas fechadas. Em média, 400 refeições eram servidas diariamente. Criado por meio do Programa Restaurante Comunitário, os restaurantes populares fazem parte do Sisan e visam atender “grupos populacionais específicos em situação de insegurança alimentar e nutricional e/ou vulnerabilidade social”. A reivindicação pela reabertura do Restaurante Popular Dom Ivo perdeu um importante apoio, pois o Consea-SM cobrava ações da Prefeitura Municipal de Santa Maria para agilizar o funcionamento de um serviço essencial.

Os dados mais atualizados são de 2015, estimados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Como base para o levantamento, foram utilizadas as informações disponibilizadas via Censo do Sistema Único de Assistência Social (Censo Suas) de 1.924 cidades. A partir desse levantamento, o IPEA divulgou a estimativa de que o Brasil tem mais de 100 mil pessoas em situação de rua. É possível concluir que esse número representa, apenas, uma parcela de uma realidade muito maior.

Em contrapartida a esse cenário, grupos se mobilizam em intervenções que alimentam não apenas o corpo, mas a esperança de que algo ainda pode ser feito para transformar. Anteriormente, destaquei como parte da população é indiferente a realidade de que vive em situação de rua, entretanto, há também uma parcela participativa, que percebe, ouve e atua. Na cidade há diferentes iniciativas que promovem a distribuição de alimento a pessoas em situação de rua, entre elas, o Vozes das Ruas SM.

Projetado por Márcia Yane Ribeiro e Lidiane Loureiro, o projeto é recente, nascido em janeiro deste ano. Ambas fazem parte de outra organização, pela qual se conheceram, o Força Tricolor Feminina SM, que realizou uma ação de Natal em 2018. Motivada pela promoção da atividade, Márcia procurou por Lidiane que havia coordenado o ato. Dias depois, o Vozes das Ruas SM já trazia no nome a intenção do projeto. A principal ação da organização, atualmente, é o Marmita Amiga, que distribui duas vezes por semana refeições às pessoas em situação de rua, na região central da cidade. “Sempre me identifiquei com essa parte da segurança alimentar. Eu tenho uma amiga, que é ativista, que já havia me proposto algo parecido em função do fechamento do restaurante popular. Quando a gente conversa com as pessoas,  sente que todo mundo tem vontade de fazer”, relata Márcia, que é nutricionista.

Segundo Cristiele Amaral da Silva, que também faz parte do projeto, em pouco tempo, muitas pessoas já se engajaram nas ações. Apesar de não terem um número fixo de participantes, o fluxo de voluntários é considerado grande. Apenas no grupo da organização, cerca de 40 pessoas participam. Em cada atividade, novos voluntários ingressam.

Os alimentos arrecadados são preparados nas casas de voluntários e partilhado duas vezes na semana, nas sextas-feiras à noite, e nos sábados ao meio dia. Acompanhei uma das ações do mês de março. Quase com unanimidade, todas as interações passavam por três fases. Desconfiança, surpresa e gratidão. Inicialmente, assim que abordadas, as pessoas pareciam não acreditar,. Ficavam em silêncio, com olhar um pouco incrédulo. Quando compreendiam que o grupo estava sim se direcionamento a elas, que não foi um engano, se surpreendiam. Não foram apenas vistos, mas olhados – no sentido de serem observados, cuidados. Os olhares não foram desviados, mas estavam fixos nelas, esperando pela resposta do “Oi! Tudo bem?”.  Após, retribuíam, ainda que um pouco surpresas e encabuladas, com sorrisos. Algumas se utilizam de poucas palavras, enquanto outras se abrem, conversam, riem, brincam.

Entretanto, há quem não aceite. Márcia e Cristiele explicaram que já ouviram um não, que logo foi compreendido. “Achavam que tinham que pagar. É o que geralmente acontece. Já ocorreram casos em que não aceitaram por medo que estivesse estragado”, conta Márcia. O ato pode dizer muito sobre o que já passaram e o escudo protetor que criaram. Para além da entrega das marmitas, está a troca, o reconhecimento, a atenção. “Não é só entregar o alimento, mas abraçar, perguntar como estão, se importar. É uma forma de empatia, de se colocar no lugar do outro, sair da bolha”, diz Cristiele.

Um olhar para o outro, para outra realidade. Reconhecer nossos privilégios e refletir sobre o nosso papel. O Vozes das Ruas SM é uma organização que se mobiliza a partir da ideia de que para além da cobrança por ações públicas, também podemos agir, pois fazemos parte desse contexto, dessa sociedade, desse sistema. Durante o dia em que acompanhei as ações e nas conversas que tive, ouvi a frase “se eles (governo) não fazem nada, então, vamos fazer nós por nós”. Fiquei pensando sobre essa frase. Quando ouvi pela primeira vez, compreendi que se referia ao ato de fazer por conta própria. Talvez, ela também tenha sido dita nesse sentido. Porém, também diz sobre a forma como enxergamos o outro. Interpretei que “fazer nós por nós” também significava fazer nós que estamos deste lado, por nós que estamos do outro. O nós de que entrega para o nós de quem recebe, porque somos os mesmos sujeitos.

 

 

 Paola Saldanha é egressa do curso de Jornalismo da UFN. Acredita em uma narrativa com protagonismo de diferentes vozes e espaços, uma leitura plural de vidas plurais

 

 

 

 

 

 

 

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