Com a industrialização, mudanças ocorreram em diversos setores da sociedade e com elas, impactos também no ambiente. O consumo desenfreado e, consequentemente, a criação de novos produtos com curto ciclo de vida geraram um acúmulo de resíduos e uma  escassez de recursos naturais.

Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o brasileiro gera, em média, 1,062 Kg de lixo por dia. O IBGE aponta que são coletadas 188,8 toneladas de resíduos sólidos por dia no Brasil. Ainda de acordo com o levantamento divulgado pela Abrelpe, a geração de lixo no país aumentou em 29% de 2003 a 2014, ou seja, o equivalente a cinco vezes a taxa de crescimento populacional desse período, que foi 6%.

Assim, o desenvolvimento sustentável se mostra como alternativa de produção consciente e o ecodesign surge como resposta para o desequilíbrio ambiental gerado na produção de bens.

No ecodesign, a concepção, produção e comercialização dos produtos é pensada e executada com a intenção de reduzir os impactos ambientais de todo ciclo de vida do produto e preocupada com  as fontes de energia, recursos naturais, resíduos, descartes e emissões.

A professora Mariana Piccoli, Mestre em Design e Tecnologia, ministra aulas no curso de Design no Centro Universitário Franciscano e destaca que, na maioria das vezes. as empresas não pensam no impacto ambiental de seus produtos. “ A gente quer fazer produtos bonitos, funcionais, mas não pensa no impacto ambiental daquilo no resto da  cadeia – desde a produção até o uso e descarte” e conclui sobre a principal característica do ecodesign. “É inseri também os fatores ecológicos com tanta ênfase quanto os outros”.

 

Conforme Mariana, o ecodesign pode ser inserido em várias etapas de produção, desde o desenho até na reutilização de materiais e que o pensamento voltado aos sustentável deve estar em toda a fase produtiva.

A professora critica o uso da palavra “sustentável” como jogo de marketing de muitas empresas, com o intuito de atrair mais clientes e vendar mais, além de não oferecer informações consistentes sobre a forma de atuação e criação dos produtos . “Os fabricantes não dão muitos dados, como eu vou descobrir qual material é mais ecológico? Se tu vai ver no site deles, eles vão falar ‘Nós nos preocupamos com sustentabilidade’, umas coisas muito vagas”, destaca Mariana.

Segundo Mariana o Rio Grande do Sul se encontra ainda em um fase inicial no que diz respeito a pensamento e educação sustentável. “a gente deveria estar em outro nível de pensamento e consciência ambiental. Mas a gente ainda tem que fazer campanha ‘Coloque lixo no lixo. Não jogue na rua. Vai entupir bueiro’. São coisas que deveriam ser muito básicas na população”.

Outro fator que contribui para a falta de conscientização  é o trabalho da mídia, que oferece informações desencontradas e erradas. A propaganda acaba aplicando ao sustentável um apelo para compra e tornando a palavra algo banal. “Não deveria ser apelo de venda, mas deveria estar na essência da marca, que realmente se preocupe”, enfatiza Mariana.

Além disso, o fator preço também pesa no momento de consumo de produtos sustentáveis. “Por ser em baixa escala, acaba ficando mais caro e aí entramos em um problema”, esclarece Mariana.

 

Espaço para o ecodesign no mercado

Ainda que muitas marcas utilizem o rótulo de sustentabilidade como marketing verde, o ecodesign é uma tendência visível nas mais diversas áreas de produtos, com  projetos de viés sustentável.

A maioria dos designers que se destacam nessa área são de fora do Brasil, mas algumas iniciativas desenvolvidas pontuais no país podem  ser destacadas, como é o caso da Coleção Rendeiras. Criada em Pelotas, o grupo faz joias com escamas de peixe e com redes, já que se encontram em uma região pesqueira.

De acordo com Mariana, a maior parte dos projetos aqui estão ligados ao artesanato, roupas ecológicas e veganas , e que é difícil ainda ver o ecodesign aplicado em grandes indústrias. Entretanto, alguns produtos em larga escala já são fabricados. O Insecta Shoes é um desses exemplos, pois fabrica sapatos veganos e ecológicos, com borracha reciclada.

Reaproveitamento como alternativa

Em Santa Maria, José Beltran realiza pesquisas voltadas a utilização de material orgânico como matéria prima para aplicação em diferentes produtos, principalmente, na área da saúde.

Inicialmente, Beltran cursava Veterinária, mas ao desenvolver um filtro para  curativo. utilizou a casca da manga para a produção. “Foi a veterinária que me deu subsídios para desenvolver para a área da saúde” explica.

José Beltran desenvolve pesquisas para gerar materiais que podem contribuir para o ecodesign. Foto: Larissa da Rosa

Já na especialização de educação ambiental, Beltran sentiu a necessidade de trabalhar com a reutilização. “Comecei a ver que havia um excedente muito grande de material sendo colocado no lixo. E aí eu pensei que não tinha porquê esse material não virar matéria prima”, relembra.

A partir de cascas, sementes e talos, Beltran obtém membranas, pó e fibras, que podem ter diferentes aplicações. Entre elas,  absorvente, palmilhas, algodão, esfoliante, lápis . Conforme Beltran o trabalho utiliza apenas fontes renováveis e não trabalha com nenhum outro tipo de resíduo que não seja vegetal.

Beltran recolhe o material, higieniza, e a partir de um processo se obtém uma biomassa. Após, ela é moldada e secada – gerando o material bruto. Segundo ele, se essa intervenção não ocorrer, há o aumento de lixo e, consequentemente, as chances de doenças causadas pelo acúmulo de resíduos. “E aí tu tem um problema de saúde pública, porque vem barata, rato, mosquito da dengue. Se tu não entra aqui, isso vai para o lixo e causa também o problema de poluição visual”, enfatiza.

 

Para Beltran, o pensamento em relação ao reaproveitamento deveria mudar e isso começa com a educação ambiental, mas no Brasil isso ainda é uma realidade distante. “Se tu for para os EUA e Europa, eles não têm onde colocar o lixo, então há uma atenção, um apoio do governo, das instituições de pesquisa”, argumenta.

No Brasil, pesquisas acontecem em torno do ecodesign há pelo menos 40 anos, conforme Mariana. Contudo, na prática, as iniciativas ainda se mostram tímidas e uma das alternativas para mudar esse cenário está na mudança de pensamento e, consequentemente, de atitudes.

O ambiente se tornou um aspecto relevante a se considerar para as empresas, gerando abordagens estratégicas e inovação. Porém, a transformação no ambiente começa no modo de pensar, no qual deve ser considerado que ações individuais têm impactos coletivos. Na concepção de um produto, essa ideia precisa ser contemplada cotidianamente e os princípios que fundamentam o ecodesign serem naturalizados durante todo o processo, a ponto que esse conceito deixe de ser um diferencial e se torne um aspecto básico do item.

 

Reportagem: Paola Saldanha e Larissa da Rosa

Infografias: Larissa da Rosa

Edição: professora Carla Torres

Disciplina:Jornalismo Especializado

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