Re · a· pro · vei · tar – (re- + aproveitar)

  1. Aproveitar ou usar novamente.
  2. Voltar a aproveitar.

 

No dicionário, são poucos os significados para esta ação, mas na prática, existem muitas formas de reaproveitar uma peça de roupa. Que fique claro: não é só o lixo que pode ser reutilizado para tornar-se outra coisa, assim como a atitude de reaproveitar algo só possa ser feita com coisas que serão descartadas. Você já parou para pensar sobre a quantidade de roupas que utilizou até aqui? Que destino teve a roupa que você usou em seu primeiro aniversário? E quanto as peças quentes dos invernos, que em um ano lhe cabiam, e no outro precisavam ser passadas adiante, pois você tinha espichado, que fim elas tiveram?

A moda é um conjunto de costumes e valores de uma sociedade, que podem ser representados através do seu jeito de vestir. O conceito de beleza é influenciado por diversos fatores, como o estilo das atrizes dos filmes de sucesso no momento, ou dos cantores de  músicas que viram hits instantâneos. Tudo isso são tendências, que mudam constantemente. Esse processo faz com que a indústria têxtil produza em larga escala, para suprir as necessidades de uma sociedade que busca seguir os padrões do que vestir e como agir para estar na moda. E para que isso aconteça, é preciso ter a consciência de que o que hoje é considerado bonito, daqui a cinco anos pode ser uma peça de roupa que vai lhe assustar, ao ser encontrada no fundo do armário.

Isso acontece porque, como tudo na vida, as tendências vão se adaptando conforme vamos evoluindo. Nossas tecnologias nos permitem, hoje, a produção em massa de várias peças de roupa por segundo. Essa conquista aposentou a maioria das costureiras, que trabalhavam incansavelmente nas fábricas.

 

O reaproveitamento na prática

 

Com isso, um dos assuntos mais abordados atualmente é a sustentabilidade. Um estudo da mestranda em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local pelo Centro Universitário UNA, Bacharel em Moda pelo UNA e graduada em Administração de Empresas pela Faculdade Senac Minas, Poliana Gomes Silveira Machado, diz que as práticas de reciclagem no setor têxtil são adotadas desde o início do século XX, mas que, mesmo assim, a maior parte dos resíduos não tem um descarte correto, sendo colocados em aterros sanitários.

Pensando no volume dos descartes de seu laboratório, um projeto do curso de Tecnologia em Design de Moda, do Centro Universitário Franciscano, implementou um sistema de lixeiras para seus alunos descartarem com consciência os resíduos utilizados em aula. Mas também é preciso pensar no descarte correto. Esses resíduos, por enquanto, estão guardados em um depósito da faculdade. A ideia é reaproveitar o algodão cru para fazer tapetes e acessórios infantis. Um grupo já está reunido para isso. Esse projeto deve começar em fevereiro de 2018, com a separação de todo o material acumulado no depósito.

 

 

O professor Felipe Luz, formado em Engenharia de Materiais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) ajuda a coordenar o projeto de reciclagem de materiais produzidos no laboratório 512, dos alunos de Moda da Unifra. O projeto de extensão, que começou com duas lixeiras – uma de lixo seco e outra de lixo orgânico –, posteriormente ganhou mais três. Essas, para papéis, retalhos de tecidos e restos de fios. A iniciativa surgiu quando o professor observou que sempre sobrava muito material. Conforme Felipe, “ eles usam muito papel para fazer modelagens, e quando fazem a peça, jogam fora o papel, que tem uma vida útil muito pequena, em torno de 20 a 30 minutos”. Postas as lixeiras, os alunos e professores passaram por um processo de reeducação, para aprender a utilizá-las de forma correta. Após esse processo, as lixeiras foram pesadas a cada duas semanas, durante o último semestre.

Os resultados mostram que, em 5 meses, gerou-se em torno de 25kg de resíduos. A média de volume de lixo por aluno, por semana, foi de 1,1kg. Fonte: Projeto Residuos Lab 512.

 

O público contemplado por esse projeto foram os alunos, e os melhores resultados vieram das reflexões junto aos professores, ao visualizar o impacto da indústria em que trabalham. O professor Felipe, que ministra disciplinas de processos têxteis, sustentabilidade e novos materiais têxteis, conta que a preocupação em relação ao reaproveitamento é mais utópica, e existem várias maneiras de abordar a redução dos danos causados pela indústria da moda. Uma delas é o reaproveitamento de material, com a criação de um material a partir de fonte renovável, o algodão orgânico, e processos com corantes naturais. “O mais simples e imediato é a conscientização, saber que o retalho também é matéria prima para criar um produto”, ressalta. O professor conta também que a ideia para o ano que vem é incentivar o uso de novos tipos de tecidos para a fabricação de roupas, sem perder nenhum centímetro de material. Também vem como solução a fabricação de peças com o que foi recolhido durante o projeto, incitando a criatividade do aluno.

Uma ideia para além das salas de aula

 

A acadêmica de Tecnologia em Design de Moda e monitora do laboratório 512, Letícia Osório, é formada também em engenharia ambiental, especialista em perícia, auditoria e gestão ambiental. Mesmo trabalhando com gestão ambiental, Letícia sempre gostou muito de moda e de costurar. Não se sentindo completa em sua área de atuação, ela decidiu voltar para a sala de aula, onde acabou colocando a primeira formação em prática, no desenvolvendo diversos projetos. Foi ela quem percebeu que os resíduos não eram separados, e já que possuía o hábito de separar o lixo em casa, decidiu trazer a ideia para a sala de aula.

O foco do projeto de extensão foi a gestão ambiental e o gerenciamento de resíduos no laboratório de corte e costura e de aulas práticas da moda. Colhidos os resultados, a segunda parte do projeto levou em conta o tamanho e os tipos dos tecidos acumulados. Letícia explica que “é gerado um monte de algodão cru, que é mais barato e tem uma boa estrutura, já que fazem a modelagem da pessoa primeiro. Depois eles testam no algodão, para ver se ficar bom, e só aí se corta no tecido em que vai ser produzida a peça, então passa por todo um processo antes de gerar uma roupa. A nossa ideia é reaproveitar o algodão para fazer tapetes e acessórios infantis”.

 

A Logística Reversa trata-se de um processo de reutilização de produtos, embalagens e resíduos. Conforme a Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) deveria ter sido implantada em até quatro anos, após a data de publicação da lei. Esta, é uma das estratégias que deve ser adotada no gerenciamento dos resíduos sólidos domiciliares, e desempenha um papel fundamental na destinação adequada dos resíduos sólidos. O objetivo principal da logística reversa é cuidar do produto após a sua utilização, fazendo com que ele seja reutilizado, diminuindo custos e impactos ambientais, como contaminação do solo. Os principais produtos que fazem parte da logística reversa são: as lâmpadas, pilhas, baterias, eletrodomésticos, eletrônicos e embalagens de agrotóxicos. Porém, como grande parte da população não a conhece e junto com o desinteresse dos poderes públicos, essas ações só dificultam sua implantação.

“A lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos obriga os comerciantes e vendedores a separar e arrumar seus resíduos e dar um destino final correto para o descarte das peças, porque quem está gerando resíduos é quem deve dar o destino final correto aos mesmos”, considera Letícia.

De acordo com a engenheira também, os resíduos têxteis são considerados resíduos perigosos, os laboratórios da moda são industriais com máquinas e afins e esse tipo de resíduo deve ser colocado em um aterro industrial. Mas, Santa Maria não tem isso, e para destinar o material para o aterro correto o custo é muito elevado. “O problema do aterro sanitário é que ele recebe peças de roupas, algo em torno de 5 bilhões de peças que poderiam ser reaproveitadas e recicladas. O objetivo do nosso projeto é que os alunos visualizem o quanto de resíduo produzem para uma peça e que aqueles resíduos podem se transformar em matéria prima e que pode prolongar a vida útil do material” relata.

 

          

Alternativa para quem deseja exclusividade

O Garimpo da Moda é um evento de venda de roupas usadas, aberto à comunidade, que acontece duas vezes por ano, no hall do prédio 15, localizado no Conjunto III da Unifra, e tem como objetivo, aumentar a vida útil de uma roupa ou acessório. A responsável pelo evento é a professora Rubiana Sandri, bacharel em Moda, com habilitação em Estilismo.

Conforme Rubiana, até então, a moda sempre foi vista como um “bicho” em relação à sustentabilidade. “O interessante do Garimpo é que ele atinge um público-alvo dos mais diferentes possíveis. As pessoas de classes sociais mais baixas têm interesse no Garimpo justamente pelo preço baixo das peças. Em contrapartida a isso, têm aquelas pessoas que buscam, de certa forma uma exclusividade, no sentido de que são peças que há muito tempo passaram pelas lojas – de coleções passadas, que não se vêem mais nas vitrines. Então, de certa forma, ela pode ser considerada exclusiva. E também, o terceiro grande público do Garimpo: são aqueles mais engajados nas causas ambientais, que defendem o sustentável, o reaproveitamento”, relata a professora.

O foco do Garimpo são as roupas que não são mais usadas. As peças podem ser doadas, e a grande maioria são de alunos que querem participar, doando roupas que estavam paradas em seus armários. “Com isso, a gente monta o Garimpo, para venda ao público em geral. Nós colocamos um preço acessível, e uma porcentagem desse valor fica para a Teciteca; o restante é dos participantes. Pretendemos fazer no semestre que vem um Garimpo com mais divulgação, fora da Unifra, para atrair mais o pessoal e expandir essa conscientização de moda, sustentabilidade, a vida útil de produto, de não descartar”, ressalta Rubiana. A última edição ocorreu por dois dias, durante a semana acadêmica.

A intenção, também, é de – nos próximos Garimpos – utilizar os tecidos e retalhos doados para poder fabricar, no próprio ateliê, roupas com o material, dando uma nova vida a peças usadas.  “Às vezes, são peças de roupa que você não usa mais, ou enjoou, ou não servem. Aí, o que acontece? As pessoas deixam aquilo de lado, ou até descartam de forma inadequada. Então, a preocupação da moda com o Garimpo é o descarte do produto, e é essa vida útil prolongada que a gente consegue aumentar, passando de uma pessoa para a outra”, finaliza a professora.

 

REAPROVEITAR É DESAPEGAR, E GARIMPAR TAMBÉM

A professora de geografia, Clarice Zuliani, conta que a ideia de abrir um brechó surgiu por ela ter muita roupa da mãe e da irmã, juntas elas começaram em uma garagem localizada na Avenida Paulo Lauda, na Tancredo neves, bem caseira. O brechó começou a dar lucro, e ela se mudou de local. Hoje o estabelecimento é sua principal atividade. Ela desabafa que considera o trabalho mais leve e prazeroso do que lecionar.

O processo de seleção das peças é muito bem trabalhado. A professora conta que sai garimpando por aí, até encontrar peças que condizem com a cara do Brechó da Vó Adelaide. E que esse padrão está fidelizando clientes, que visitam o espaço toda semana. “O brechó está se popularizando, e as pessoas têm cada vez mais consciência ecológica, mas também procuram a gente pelo preço. Elas quase não se preocupam mais com a questão das roupas usadas, está se criando um novo tipo de cultura e comportamento diante dos brechós: agora somos cult!”, observa Clarice.

AS DEFINIÇÕES DO QUE É MODA SE REDEFINEM O TEMPO TODO

Por isso, é importante lembrar sempre que: o que é tendência hoje, pode se tornar ultrapassado no início do ano seguinte. Mas isso não significa que essa peça de roupa não tem mais utilidade. Vivemos em uma sociedade tão avançada tecnologicamente, temos celulares inteligentes, muitos dos trabalhos manuais vêm sendo substituídos por máquinas, e o que nos sobra, nessa nova era, é criar o hábito de reaproveitar tudo o que for cabível de se prolongar a vida. Brechós, customização e até mesmo o ato de doar peças que não são mais usadas devem se tornar opções a serem utilizadas sempre que possível. Afinal, se não lhe serve mais, que tal repassar para alguém que ainda pode viver muitas outras aventuras com aquele seu casaco, que está guardado no armário há anos? A moda se reinventa o tempo todo, sim, e muitas vezes ela se repete também. Mas é um desperdício manter tantas peças bonitas guardadas, pelo capricho de algum dia serem usadas novamente, quando elas poderiam estar sendo utilizadas o tempo todo.

Reportagem: Natália Venturini Zuliani, Thayane Rodrigues, Caroline Comassetto

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