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No ônibus 499, violação aos direitos humanos das mulheres

Para Yara Margarete Steinbach (28 anos), de Florianópolis, Margarete Altino de Jesus (20 anos), Rozelita Santos da Silva (34 anos), Márcia Marins Mascarenhas (31 anos), Vanessa Tomaz da Silva (20 anos), Ana Márcia Rodrigues (37 anos), Marilene Gonçalves da Costa (30 anos), todas do Distrito Federal, e para todas as mulheres brasileiras que, no século XXI, tiveram suas vidas brutalmente interrompidas pelo sexismo.

Às vésperas do Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres, o país inteiro testemunhou, em 10 de novembro, um dramático caso de violência contra a mulher. Naquela sexta-feira, um homem entrou cedo em um ônibus humilhando sua ex-mulher, puxando seus cabelos, batendo nela. Durante mais de dez horas, ele a manteve dominada sob a mira de uma arma, xingando-a e agredindo-a. O relacionamento havia acabado. O que não  acabou foi seu poder machista de vida e morte sobre ela. 

No comportamento desse ex-marido, a dominação masculina foi exposta, sem qualquer mediação, para a sociedade brasileira inteira. Ainda assim, transmissões ao vivo e em tempo real repetiram a velha polarização sexista com a qual a vítima é deslocada para a condição de ré — ela seria o “pivô” do caso, ela o teria “traído” —, e ele estaria agindo sob “forte emoção”. Para alguns setores da mídia, ele passou a ser a vítima. 

Ora, os homens precisam ser respeitados pela dignidade que detêm, significando isso não infantilizá-los, não cair na armadilha de vitimizá-los e transformá-los em coitados, dominados pelas paixões e, com isso, torná-los seres não responsabilizáveis por seus atos. Se a argumentação masculinista defende, por um lado, interesses dos homens para a preservação da ordem sociossexual vigente e inverte a real hierarquia da dominação sexista, por outro lado, atenta contra os próprios homens, ao apresentá-los como seres imaturos, a quem só deveríamos compreender e desculpar. Até quando vamos aceitar essa argumentação atentatória à dignidade dos homens, que não precisam ser privilegiadamente protegidos? Temos que romper com essa percepção masculinista que nada “inocentemente” se dissemina, pretendendo transformar o homem em “coitadinho.” Os homens precisam ser respeitados e fortemente convidados a avançarmos para outro nível civilizatório.

Enfim, homens ainda dão tratamento cruéis e desumanos a mulheres. Agridem, violentam e assassinam suas mulheres, porque são mais protegidos e mais empoderados do que elas, porque sabem da solidariedade masculina, garantindo a continuidade de práticas sexistas, minimizando a gravidade dessas violências, considerando-as infrações simples, “de menor potencial ofensivo”. Ora, está mais do que na hora de a violência contra a mulher — das “simples” humilhações, desqualificações, tratamentos degradantes, agressões verbais ou físicas, aos espancamentos e assassinatos — ser considerada o que efetivamente é: uma  gravíssima violação aos direitos humanos.

Uma guerra de baixa intensidade mutila e mata mulheres brasileiras

Visível nacionalmente, Cristina Ribeiro foi protagonista no ônibus 499 de uma guerra particular deflagrada cotidianamente contra as mulheres por maridos,  companheiros, ex-maridos, ex-companheiros. Nessa guerra sem trégua, muitas mulheres continuam sendo assassinadas, como ocorreu em 13 de novembro, em Florianópolis, em que um engenheiro eletricista usou o carro como arma para matar a esposa, alegando ter “perdido a razão.”

Profissionais de áreas como saúde, direito e comunicação social ainda têm interpretado ser o ciúme o motivador desses crimes. No cerne desses crimes, entretanto, não está nem o ciúme, nem “a perda da razão”, mas o sexismo que transversaliza e atinge todos os domínios da sociedade. Para erradicar o sexismo que tem sido arma letal, torna-se necessário combater a iníqua divisão sexual do trabalho e do poder, que tem garantido e perpetuado um desigual empoderamento de homens e mulheres. Combatermos essa desigualdade-chave para manter o desrespeito de tantos homens em relação a suas mulheres e ex-mulheres é um grande desafio para o desenvolvimento de uma sociedade igualitária e republicana.

 

 

Ana Liési Thurler, mestre em Filosofia e doutora em Sociologia,
é pesquisadora associada ao Departamento de Sociologia
da Universidade de Brasília.   
                                                          

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Para Yara Margarete Steinbach (28 anos), de Florianópolis, Margarete Altino de Jesus (20 anos), Rozelita Santos da Silva (34 anos), Márcia Marins Mascarenhas (31 anos), Vanessa Tomaz da Silva (20 anos), Ana Márcia Rodrigues (37 anos), Marilene Gonçalves da Costa (30 anos), todas do Distrito Federal, e para todas as mulheres brasileiras que, no século XXI, tiveram suas vidas brutalmente interrompidas pelo sexismo.

Às vésperas do Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres, o país inteiro testemunhou, em 10 de novembro, um dramático caso de violência contra a mulher. Naquela sexta-feira, um homem entrou cedo em um ônibus humilhando sua ex-mulher, puxando seus cabelos, batendo nela. Durante mais de dez horas, ele a manteve dominada sob a mira de uma arma, xingando-a e agredindo-a. O relacionamento havia acabado. O que não  acabou foi seu poder machista de vida e morte sobre ela. 

No comportamento desse ex-marido, a dominação masculina foi exposta, sem qualquer mediação, para a sociedade brasileira inteira. Ainda assim, transmissões ao vivo e em tempo real repetiram a velha polarização sexista com a qual a vítima é deslocada para a condição de ré — ela seria o “pivô” do caso, ela o teria “traído” —, e ele estaria agindo sob “forte emoção”. Para alguns setores da mídia, ele passou a ser a vítima. 

Ora, os homens precisam ser respeitados pela dignidade que detêm, significando isso não infantilizá-los, não cair na armadilha de vitimizá-los e transformá-los em coitados, dominados pelas paixões e, com isso, torná-los seres não responsabilizáveis por seus atos. Se a argumentação masculinista defende, por um lado, interesses dos homens para a preservação da ordem sociossexual vigente e inverte a real hierarquia da dominação sexista, por outro lado, atenta contra os próprios homens, ao apresentá-los como seres imaturos, a quem só deveríamos compreender e desculpar. Até quando vamos aceitar essa argumentação atentatória à dignidade dos homens, que não precisam ser privilegiadamente protegidos? Temos que romper com essa percepção masculinista que nada “inocentemente” se dissemina, pretendendo transformar o homem em “coitadinho.” Os homens precisam ser respeitados e fortemente convidados a avançarmos para outro nível civilizatório.

Enfim, homens ainda dão tratamento cruéis e desumanos a mulheres. Agridem, violentam e assassinam suas mulheres, porque são mais protegidos e mais empoderados do que elas, porque sabem da solidariedade masculina, garantindo a continuidade de práticas sexistas, minimizando a gravidade dessas violências, considerando-as infrações simples, “de menor potencial ofensivo”. Ora, está mais do que na hora de a violência contra a mulher — das “simples” humilhações, desqualificações, tratamentos degradantes, agressões verbais ou físicas, aos espancamentos e assassinatos — ser considerada o que efetivamente é: uma  gravíssima violação aos direitos humanos.

Uma guerra de baixa intensidade mutila e mata mulheres brasileiras

Visível nacionalmente, Cristina Ribeiro foi protagonista no ônibus 499 de uma guerra particular deflagrada cotidianamente contra as mulheres por maridos,  companheiros, ex-maridos, ex-companheiros. Nessa guerra sem trégua, muitas mulheres continuam sendo assassinadas, como ocorreu em 13 de novembro, em Florianópolis, em que um engenheiro eletricista usou o carro como arma para matar a esposa, alegando ter “perdido a razão.”

Profissionais de áreas como saúde, direito e comunicação social ainda têm interpretado ser o ciúme o motivador desses crimes. No cerne desses crimes, entretanto, não está nem o ciúme, nem “a perda da razão”, mas o sexismo que transversaliza e atinge todos os domínios da sociedade. Para erradicar o sexismo que tem sido arma letal, torna-se necessário combater a iníqua divisão sexual do trabalho e do poder, que tem garantido e perpetuado um desigual empoderamento de homens e mulheres. Combatermos essa desigualdade-chave para manter o desrespeito de tantos homens em relação a suas mulheres e ex-mulheres é um grande desafio para o desenvolvimento de uma sociedade igualitária e republicana.

 

 

Ana Liési Thurler, mestre em Filosofia e doutora em Sociologia,
é pesquisadora associada ao Departamento de Sociologia
da Universidade de Brasília.