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Debate esquenta último dia de Fórum

      Lá fora a temperatura marcava 10°C. O jogo do grêmio estava rolando na televisão. No salão de atos da Unifra, campus II, acontecia o último e, talvez, mais polêmico debate do V Fórum de Comunicação Social. O painel TV Digital trouxe a tona duas posições antagônicas de profissionais da comunicação. De um lado, o engenheiro Fernando Ferreira, diretor técnico da RBSTV, mostrou a tecnologia advinda da TV Digital e todos seus benefícios. De outro lado, o jornalista e professor doutor da Universidade Federal de Santa Maria, Rondon Castro fez uma crítica a TV Digital que, segundo ele, foi criada em prol do lucro de grandes empresários da comunicação e não para benefício da sociedade. A temperatura do Fórum aumentou e os participantes, entre alunos, jornalistas e publicitários, permaneceram até o fim do painel, por volta de 22h50. Confira!

“A era analógica já era!”

                                                          Fernando Ferreira esteve há duas semanas em uma feira de tecnologia nos EUA, a NAB, em Las Vegas, e trouxe as projeções do que será a TV Digital e quando será instituída no Brasil. Segundo o engenheiro, cada canal de televisão ganhará um novo sinal e irá coexistir de forma analógica e digital até 2016, quando todos os canais serão 100% digitais. O formato de transmissão para a tela aumentará, a qualidade da imagem será superior, pois os números de pixels aumentarão, deixando assim o telespectador mais envolvido com a imagem. A qualidade do áudio passa de analógico ou estéreo para Sunround. Resumindo, a partir dessas características a imagem e o som da televisão ficarão melhor do que a do cinema.

     Outras peculiaridades apresentadas por Ferreira sobre a TV Digital são a mobilidade, a portabilidade e a interatividade de que os usuários poderão usufruir. A televisão poderá ser assistida em ônibus, carros e celulares, por exemplo. Enquanto o usuário assiste a um programa, ele poderá obter mais detalhes sobre o que está vendo, no caso de um jogo de futebol, poderá rever os gols e ainda terá a sua disposição a possibilidade de comprar produtos relativos à programação.

     A expectativa, segundo Ferreira, é de que em São Paulo, até dezembro desse ano a TV Digital esteja em funcionamento. Já em Porto Alegre, a HDTV (High Definition Television) iniciará até o fim do 1° semestre do ano que vem. Para receber o sinal digital não será preciso trocar de televisor, mas apenas usar um conversor, que passará o sinal de analógico pra digital. No entanto, uma das desvantagens em não trocar o aparelho televisivo para um digital será o fato de que nem todas as mudanças poderão ser percebidas, como, por exemplo, o tamanho da imagem.

         
O importante é a discussão social

      Após a exposição de Fernando Ferreira, foi a vez de Rondon Castro dar continuidade ao painel. Jornalista desde 1980, viveu a época da modernização das redações e disse que assistiu horrorizado as mudanças tecnológicas sofridas naquele período.  Acredita que as tecnologias complicaram a vida dos jornalistas e tornaram a profissão do jornalista estressante e menos remunerada. Segundo o jornalista, “enquanto a discussão for uma questão técnica e não uma discussão social isso não irá mudar”.

     Rondon diz que as grandes empresas estão investindo na tecnologia digital para obtenção de lucro e que o que deveria estar em discussão é o conteúdo dos programas e não os formatos, as mudanças advindas da digitalização da televisão. “Olho com deslumbramento essa tecnologia digital e as possibilidades dela, mas infelizmente ela não está nas mãos do Estado. O Estado que tem que tomar providências contra o analfabetismo e com a programação, mas não acontece porque não se discutem concessões públicas. Não se discute que no Brasil 16 famílias tomam conta dos meios de comunicação. O conteúdo informativo apresentado na TV aberta é praticamente igual”, relata.

     Ele afirma que a TV Digital está longe da realidade brasileira e que, por conseqüência disso, não será acessível a todos. “É uma boa tecnologia? Sem dúvida. Eu adoraria ter na minha casa uma televisão de LCD, mas é irreal para a maioria da população. A América Latina e a África, por exemplo, são compostas de países pobres. São países que tem muitas necessidades. A discussão sobre a TV digital e sua capacidade social dentro dos padrões que existem agora decididamente é uma discussão fútil.”, expõe.

Repercussão

     Com o debate aberto, Ferreira respondeu dizendo que o que estava havendo era uma apologia à estatização e lembrou que quando a telefonia fixa estava na mão do Estado poucas pessoas tinham acesso ao telefone residencial.  Ainda relatou que a TV Digital será livre, aberta e gratuita.

     Rondou acredita que o Estado tem que interferir, pois, independente de concessão, quem é responsável para gerir o que é bom para o povo são os governantes, afinal as empresas têm por finalidade obter lucro. Disse que o objetivo do poder público é o bem estar do cidadão, ele tem que garantir o direito à informação, que não é uma mercadoria.

     O acadêmico de jornalismo do 5º semestre, Guilherme Saydelles, pensa que os dois profissionais de áreas específicas distintas contribuíram para que a visão sobre o tema fosse mais ampla. “Os debatedores deixaram de lado as cordialidades e não ficaram receosos em atingir ao outro o que tornou o debate franco e justo”, ressalta.

     Anderson Puiatti, estudante do 5° semestre do jornalismo, é gremista e ficou até o fim do painel mesmo com seu time do coração disputando uma vaga para as quartas-de-final da Libertadores da América. Anderson considera que os palestrantes deram abordagens diferentes sobre a TV Digital, no caso, a técnica e o lado humano, o que gerou mais polêmica e tornou-a mais instigante. O estudante acredita que o painel foi interessante porque gerou discussão sobre um tema novo, no qual ainda existem muitas incertezas. “Foi a melhor palestra do Fórum devido à repercussão entre os alunos”, relata.

Fotos: Núcleo de Fotografia e Memória (Douglas Menezes e Rodrigo Simões)

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      Lá fora a temperatura marcava 10°C. O jogo do grêmio estava rolando na televisão. No salão de atos da Unifra, campus II, acontecia o último e, talvez, mais polêmico debate do V Fórum de Comunicação Social. O painel TV Digital trouxe a tona duas posições antagônicas de profissionais da comunicação. De um lado, o engenheiro Fernando Ferreira, diretor técnico da RBSTV, mostrou a tecnologia advinda da TV Digital e todos seus benefícios. De outro lado, o jornalista e professor doutor da Universidade Federal de Santa Maria, Rondon Castro fez uma crítica a TV Digital que, segundo ele, foi criada em prol do lucro de grandes empresários da comunicação e não para benefício da sociedade. A temperatura do Fórum aumentou e os participantes, entre alunos, jornalistas e publicitários, permaneceram até o fim do painel, por volta de 22h50. Confira!

“A era analógica já era!”

                                                          Fernando Ferreira esteve há duas semanas em uma feira de tecnologia nos EUA, a NAB, em Las Vegas, e trouxe as projeções do que será a TV Digital e quando será instituída no Brasil. Segundo o engenheiro, cada canal de televisão ganhará um novo sinal e irá coexistir de forma analógica e digital até 2016, quando todos os canais serão 100% digitais. O formato de transmissão para a tela aumentará, a qualidade da imagem será superior, pois os números de pixels aumentarão, deixando assim o telespectador mais envolvido com a imagem. A qualidade do áudio passa de analógico ou estéreo para Sunround. Resumindo, a partir dessas características a imagem e o som da televisão ficarão melhor do que a do cinema.

     Outras peculiaridades apresentadas por Ferreira sobre a TV Digital são a mobilidade, a portabilidade e a interatividade de que os usuários poderão usufruir. A televisão poderá ser assistida em ônibus, carros e celulares, por exemplo. Enquanto o usuário assiste a um programa, ele poderá obter mais detalhes sobre o que está vendo, no caso de um jogo de futebol, poderá rever os gols e ainda terá a sua disposição a possibilidade de comprar produtos relativos à programação.

     A expectativa, segundo Ferreira, é de que em São Paulo, até dezembro desse ano a TV Digital esteja em funcionamento. Já em Porto Alegre, a HDTV (High Definition Television) iniciará até o fim do 1° semestre do ano que vem. Para receber o sinal digital não será preciso trocar de televisor, mas apenas usar um conversor, que passará o sinal de analógico pra digital. No entanto, uma das desvantagens em não trocar o aparelho televisivo para um digital será o fato de que nem todas as mudanças poderão ser percebidas, como, por exemplo, o tamanho da imagem.

         
O importante é a discussão social

      Após a exposição de Fernando Ferreira, foi a vez de Rondon Castro dar continuidade ao painel. Jornalista desde 1980, viveu a época da modernização das redações e disse que assistiu horrorizado as mudanças tecnológicas sofridas naquele período.  Acredita que as tecnologias complicaram a vida dos jornalistas e tornaram a profissão do jornalista estressante e menos remunerada. Segundo o jornalista, “enquanto a discussão for uma questão técnica e não uma discussão social isso não irá mudar”.

     Rondon diz que as grandes empresas estão investindo na tecnologia digital para obtenção de lucro e que o que deveria estar em discussão é o conteúdo dos programas e não os formatos, as mudanças advindas da digitalização da televisão. “Olho com deslumbramento essa tecnologia digital e as possibilidades dela, mas infelizmente ela não está nas mãos do Estado. O Estado que tem que tomar providências contra o analfabetismo e com a programação, mas não acontece porque não se discutem concessões públicas. Não se discute que no Brasil 16 famílias tomam conta dos meios de comunicação. O conteúdo informativo apresentado na TV aberta é praticamente igual”, relata.

     Ele afirma que a TV Digital está longe da realidade brasileira e que, por conseqüência disso, não será acessível a todos. “É uma boa tecnologia? Sem dúvida. Eu adoraria ter na minha casa uma televisão de LCD, mas é irreal para a maioria da população. A América Latina e a África, por exemplo, são compostas de países pobres. São países que tem muitas necessidades. A discussão sobre a TV digital e sua capacidade social dentro dos padrões que existem agora decididamente é uma discussão fútil.”, expõe.

Repercussão

     Com o debate aberto, Ferreira respondeu dizendo que o que estava havendo era uma apologia à estatização e lembrou que quando a telefonia fixa estava na mão do Estado poucas pessoas tinham acesso ao telefone residencial.  Ainda relatou que a TV Digital será livre, aberta e gratuita.

     Rondou acredita que o Estado tem que interferir, pois, independente de concessão, quem é responsável para gerir o que é bom para o povo são os governantes, afinal as empresas têm por finalidade obter lucro. Disse que o objetivo do poder público é o bem estar do cidadão, ele tem que garantir o direito à informação, que não é uma mercadoria.

     O acadêmico de jornalismo do 5º semestre, Guilherme Saydelles, pensa que os dois profissionais de áreas específicas distintas contribuíram para que a visão sobre o tema fosse mais ampla. “Os debatedores deixaram de lado as cordialidades e não ficaram receosos em atingir ao outro o que tornou o debate franco e justo”, ressalta.

     Anderson Puiatti, estudante do 5° semestre do jornalismo, é gremista e ficou até o fim do painel mesmo com seu time do coração disputando uma vaga para as quartas-de-final da Libertadores da América. Anderson considera que os palestrantes deram abordagens diferentes sobre a TV Digital, no caso, a técnica e o lado humano, o que gerou mais polêmica e tornou-a mais instigante. O estudante acredita que o painel foi interessante porque gerou discussão sobre um tema novo, no qual ainda existem muitas incertezas. “Foi a melhor palestra do Fórum devido à repercussão entre os alunos”, relata.

Fotos: Núcleo de Fotografia e Memória (Douglas Menezes e Rodrigo Simões)