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Santa Maria, RS, Brazil

ENTREVISTA – Róbson Centurião

A partir de hoje, a Agência CentralSul de Notícias vai publicar – todas as quartas-feiras-  uma série de entrevistas realizadas com alguns ex-jogadores de futebol que fizeram parte do histórico time do Internacional de Santa Maria no ano de 1981. Equipe que, naquela ocasião, conquistou o título de Campeã do Interior. Os bastidores, os momentos marcantes e a trajetória de uma equipe vencedora podem começar a serem conhecidos a partir de agora, na entrevista realizada com Róbson Centurião, jogador do meio-campo daquele Interzinho de 1981.

Quando se fala em 1981, o que tu lembras daquela época, daquele time que foi um marco no futebol de Santa Maria?

– Foram basicamente três anos, 80, 81 e 82 que Santa Maria teve um time de expressão, capacitado. Em 1981 foi o ano em que houve as conquistas maiores e o time foi muito bem no Campeonato Gaúcho e até mesmo em competições em nível federal. Te diria que as recordações são boas: foi um time que marcou época.

 

Hoje acontece muito de jogadores vindos de fora ficarem pouco tempo na cidade, diferente daquela época em que os atletas ficavam mais tempo. Como esse fato pode influenciar na identificação com o clube?

– Quanto à identificação, com certeza, hoje é diferente. Até pelos próprios campeonatos serem pequenos em termos de tempo e prazo, formam-se times pra disputas de campeonatos e depois são desmanchados. Naquele tempo não, se jogava o ano inteiro, então, basicamente, os moradores da região tinham mais acesso ao clube. Lógico, também que vinham pessoas de fora, mas essas se enraizavam e formavam famílias dentro da própria comunidade. Hoje em dia, é bem distinto como eu te disse, basicamente em torno de duração dos campeonatos.

Naquela época, vocês contavam com um forte trabalho nas categorias de base. De que forma isso ajudou no trabalho desenvolvido e no sucesso da equipe?
– Ajudou muito. Não que o trabalho fosse forte. Mas tinham jogadores da região e da cidade e sempre surgiam atletas que ajudavam na formação da equipe principal. Hoje é diferente, em função dos custos e até mesmo por outros interesses. E te diria que é bem mais difícil hoje em dia formar jogadores num clube em nível do Inter de Santa Maria sem ajuda de alguma empresa ou empresários como era antigamente.

 

Antigamente, havia uma grande mobilização do clube não só dentro de campo como fora dele também, o que acabava atingindo a torcida. A média de público, por exemplo, era muito boa. Então como tu analisa esse fato, sendo que, atualmente, percebe-se que poucos torcedores comparecem ao estádio:

– A identificação era bem importante. Pelo que eu me lembro, Santa Maria era o lugar no interior onde mais pessoas iam aos estádios. Lógico que o time e a organização na época ajudavam, assim como os custos eram menores. Se hoje em dia houvesse uma organização e um trabalho onde se elegessem pessoas para fazer uma atividade e que tivessem uma continuidade no trabalho Santa Maria tem condições de ter um time em um bom nível. Até mesmo para disputar uma Série C ou Série B de um campeonato nacional. Mas para isso precisa, primeiro, formar uma categoria de base e, segundo, fazer um trabalho a médio prazo, no mínimo, para que as coisas surtam efeito. E o torcedor e as pessoas que tiverem dirigindo tenham a paciência e a sabedoria de que a coisa não é imediata. Então, esses já seriam fatores que hoje ajudariam o Inter a voltar a ter uma expressão maior dentro do nosso cenário. Deve-se parar com algumas coisas como mudar ou não de nome. Acho que tem outras coisas mais importantes do que o nome do clube querendo relacionar com o Inter de Porto Alegre ou o Grêmio, porque em Santa Maria e a nível nacional o Inter é conhecido como Interzinho ou por outro nome diminutivo, mas nunca pejorativo.

 

Aquele grupo era muito unido. Como funcionava essa força dentro do vestiário?

– Era um grupo em que não exitia nenhuma espécie de estrelhismo. A própria homogeneidade técnica do grupo fazia com que houvesse o respeito e um companheirismo bastante grande entre os atletas. E de parte do Tadeu (Tadeu Menezes foi o técnico do Inter-SM em 1981 que levou o time ao título de Campeão do Interior) o fundamental que eu sempre tive é que ele era um paizão que sabia colocar no momento certo a parte hierárquica em detrimento do companheirismo. E também havia da nossa parte um respeito grande por ele. Ele nos tratava de uma forma que a doação dentro de campo era pelo atleta e por ele mesmo – por Tadeu Menezes. A própria diretoria também nos respaldava em 90% dos casos naquelas necessidades que havia para o grupo.

 

E como era estar num grupo em que 16 jogadores poderiam ser considerados titulares?

– É como eu te disse que a homogeneidade técnica do grupo era bastante boa e o companheirismo havia muito em função disso, do respeito por aqueles atletas e o bom desenvolvimento do time também se deve a isso porque quem tava jogando dava o máximo para não sair, pois sabia que no momento em que saísse, até mesmo por lesão ou deficiência técnica em determinado jogo, poderia ficar fora do time porque aquele que entrava supria e em determinados momentos até de uma forma melhor do que aquele que estava jogando.

 

O que chama atenção era o fato de vocês serem respeitados, enquanto um time do interior, pela dupla Gre-nal. Como que é isso para um jogador que vem de um clube pequeno e é respeitado lá fora?

– Havia um reconhecimento de uma imprensa de Porto Alegre, dos jogadores e dos próprios diretores dos clubes quanto a essa qualidade que nós tínhamos. Haja vista que no octogonal final dos oito pontos disputados contra a dupla gre-nal nós ganhamos seis e fomos perder o campeonato (gaúcho de 1981) jogando contra equipes do interior. Na época, ficávamos bastante satisfeitos com o reconhecimento. Hoje em dia no interior talvez, com exceção do Juventude (de Caxias do Sul), não exista mais isso. O grande problema é a parte econômica e a forma de disputa do campeonato em dois ou três meses.

 

É possível ainda um time como o de 1981?

– Tecnicamente não querendo vangloriar a mim ou outros atletas daquela época, eu acho difícil. Hoje houve um decréscimo no futebol em função dessa parte física que se dá muito valor ao atleta bem fisicamente e com uma boa capacidade organizacional no campo taticamente em detrimento a parte técnica. Acho que se Santa Maria fizesse um trabalho a médio prazo com calma e até diria sabedoria para fazer as coisas; pegasse as pessoas e colocasse em determinadas funções e com tempo para trabalhar, eu acho que tem condições. Santa Maria é um local que para daqui a cinco anos ter uma estrutura muito boa, mas quem dirige tem que ter sabedoria e paciência. Mas, eu acho que pode ter um time forte de acordo com o futebol atual.

 

 

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A partir de hoje, a Agência CentralSul de Notícias vai publicar – todas as quartas-feiras-  uma série de entrevistas realizadas com alguns ex-jogadores de futebol que fizeram parte do histórico time do Internacional de Santa Maria no ano de 1981. Equipe que, naquela ocasião, conquistou o título de Campeã do Interior. Os bastidores, os momentos marcantes e a trajetória de uma equipe vencedora podem começar a serem conhecidos a partir de agora, na entrevista realizada com Róbson Centurião, jogador do meio-campo daquele Interzinho de 1981.

Quando se fala em 1981, o que tu lembras daquela época, daquele time que foi um marco no futebol de Santa Maria?

– Foram basicamente três anos, 80, 81 e 82 que Santa Maria teve um time de expressão, capacitado. Em 1981 foi o ano em que houve as conquistas maiores e o time foi muito bem no Campeonato Gaúcho e até mesmo em competições em nível federal. Te diria que as recordações são boas: foi um time que marcou época.

 

Hoje acontece muito de jogadores vindos de fora ficarem pouco tempo na cidade, diferente daquela época em que os atletas ficavam mais tempo. Como esse fato pode influenciar na identificação com o clube?

– Quanto à identificação, com certeza, hoje é diferente. Até pelos próprios campeonatos serem pequenos em termos de tempo e prazo, formam-se times pra disputas de campeonatos e depois são desmanchados. Naquele tempo não, se jogava o ano inteiro, então, basicamente, os moradores da região tinham mais acesso ao clube. Lógico, também que vinham pessoas de fora, mas essas se enraizavam e formavam famílias dentro da própria comunidade. Hoje em dia, é bem distinto como eu te disse, basicamente em torno de duração dos campeonatos.

Naquela época, vocês contavam com um forte trabalho nas categorias de base. De que forma isso ajudou no trabalho desenvolvido e no sucesso da equipe?
– Ajudou muito. Não que o trabalho fosse forte. Mas tinham jogadores da região e da cidade e sempre surgiam atletas que ajudavam na formação da equipe principal. Hoje é diferente, em função dos custos e até mesmo por outros interesses. E te diria que é bem mais difícil hoje em dia formar jogadores num clube em nível do Inter de Santa Maria sem ajuda de alguma empresa ou empresários como era antigamente.

 

Antigamente, havia uma grande mobilização do clube não só dentro de campo como fora dele também, o que acabava atingindo a torcida. A média de público, por exemplo, era muito boa. Então como tu analisa esse fato, sendo que, atualmente, percebe-se que poucos torcedores comparecem ao estádio:

– A identificação era bem importante. Pelo que eu me lembro, Santa Maria era o lugar no interior onde mais pessoas iam aos estádios. Lógico que o time e a organização na época ajudavam, assim como os custos eram menores. Se hoje em dia houvesse uma organização e um trabalho onde se elegessem pessoas para fazer uma atividade e que tivessem uma continuidade no trabalho Santa Maria tem condições de ter um time em um bom nível. Até mesmo para disputar uma Série C ou Série B de um campeonato nacional. Mas para isso precisa, primeiro, formar uma categoria de base e, segundo, fazer um trabalho a médio prazo, no mínimo, para que as coisas surtam efeito. E o torcedor e as pessoas que tiverem dirigindo tenham a paciência e a sabedoria de que a coisa não é imediata. Então, esses já seriam fatores que hoje ajudariam o Inter a voltar a ter uma expressão maior dentro do nosso cenário. Deve-se parar com algumas coisas como mudar ou não de nome. Acho que tem outras coisas mais importantes do que o nome do clube querendo relacionar com o Inter de Porto Alegre ou o Grêmio, porque em Santa Maria e a nível nacional o Inter é conhecido como Interzinho ou por outro nome diminutivo, mas nunca pejorativo.

 

Aquele grupo era muito unido. Como funcionava essa força dentro do vestiário?

– Era um grupo em que não exitia nenhuma espécie de estrelhismo. A própria homogeneidade técnica do grupo fazia com que houvesse o respeito e um companheirismo bastante grande entre os atletas. E de parte do Tadeu (Tadeu Menezes foi o técnico do Inter-SM em 1981 que levou o time ao título de Campeão do Interior) o fundamental que eu sempre tive é que ele era um paizão que sabia colocar no momento certo a parte hierárquica em detrimento do companheirismo. E também havia da nossa parte um respeito grande por ele. Ele nos tratava de uma forma que a doação dentro de campo era pelo atleta e por ele mesmo – por Tadeu Menezes. A própria diretoria também nos respaldava em 90% dos casos naquelas necessidades que havia para o grupo.

 

E como era estar num grupo em que 16 jogadores poderiam ser considerados titulares?

– É como eu te disse que a homogeneidade técnica do grupo era bastante boa e o companheirismo havia muito em função disso, do respeito por aqueles atletas e o bom desenvolvimento do time também se deve a isso porque quem tava jogando dava o máximo para não sair, pois sabia que no momento em que saísse, até mesmo por lesão ou deficiência técnica em determinado jogo, poderia ficar fora do time porque aquele que entrava supria e em determinados momentos até de uma forma melhor do que aquele que estava jogando.

 

O que chama atenção era o fato de vocês serem respeitados, enquanto um time do interior, pela dupla Gre-nal. Como que é isso para um jogador que vem de um clube pequeno e é respeitado lá fora?

– Havia um reconhecimento de uma imprensa de Porto Alegre, dos jogadores e dos próprios diretores dos clubes quanto a essa qualidade que nós tínhamos. Haja vista que no octogonal final dos oito pontos disputados contra a dupla gre-nal nós ganhamos seis e fomos perder o campeonato (gaúcho de 1981) jogando contra equipes do interior. Na época, ficávamos bastante satisfeitos com o reconhecimento. Hoje em dia no interior talvez, com exceção do Juventude (de Caxias do Sul), não exista mais isso. O grande problema é a parte econômica e a forma de disputa do campeonato em dois ou três meses.

 

É possível ainda um time como o de 1981?

– Tecnicamente não querendo vangloriar a mim ou outros atletas daquela época, eu acho difícil. Hoje houve um decréscimo no futebol em função dessa parte física que se dá muito valor ao atleta bem fisicamente e com uma boa capacidade organizacional no campo taticamente em detrimento a parte técnica. Acho que se Santa Maria fizesse um trabalho a médio prazo com calma e até diria sabedoria para fazer as coisas; pegasse as pessoas e colocasse em determinadas funções e com tempo para trabalhar, eu acho que tem condições. Santa Maria é um local que para daqui a cinco anos ter uma estrutura muito boa, mas quem dirige tem que ter sabedoria e paciência. Mas, eu acho que pode ter um time forte de acordo com o futebol atual.