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Santa Maria, RS, Brazil

ENTREVISTA-Tadeu Menezes

Na última entrevista da série sobre o time inesquecível do Internacional de Santa Maria, em 1981, o entrevistado é Tadeu Menezes. Técnico da campanha vitoriosa do Inter-SM no Campeonato Gaúcho daquele ano, Tadeu também foi jogador do clube entre os anos 70 e 80. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Quando falam 1981 o que tu lembras? O que representou aquela época para ti e para o Internacional de Santa Maria?

A lembrança é das mais positivas. A história do Internacional teve alguns períodos marcantes. Faltava ao Internacional um reconhecimento estadual e a campanha de 1981, que levou o Internacional ao campeonato brasileiro fez com que isso acontecesse. Foi um período muito bom, a confirmação de um time que já jogava junto há quase três anos e que teve aí o reconhecimento pelo trabalho de todo mundo.

 

Como foi ser jogador e, depois, técnico do Inter-SM?

Quase a totalidade (dos jogadores de 1981) eram ex-companheiros de time. A transição foi muito fácil por tudo que aconteceu nas nossas vidas. Havia o respeito mútuo e o cargo diferente não fez com que eu mudasse minha personalidade e maneira de agir. Claro que as responsabilidades eram diferentes. Pois dirigir pessoas é uma coisa muito difícil, tem que ter muito cuidado. Eles sabiam o que fazer e isso facilitava e muito o meu trabalho.

 

O teu trabalho foi uma surpresa para ti?

Não houve um time no Rio Grande do Sul, no país ou até fora dele que não quizesse me contratar como técnico. É uma coisa tu ter capacidade e outra gostar do que faz. No início eu não tinha qualquer tipo de vocação ou desejo maior de ser técnico de futebol. Mas com o decorrer do tempo fazendo as coisas eu fui tomando gosto e vendo que tinha capacidade de ser técnico. Então as coisas aconteceram normalmente e sem forçar barra nenhuma. E acho que isso já aconteceu com outros técnicos dentro do Internacional.

 

Como era ter jogadores de fora da cidade que se identificavam com o clube? Alguma diferença para hoje, isto é, os atletas que vêm de fora ainda se identificam com o clube?

A totalidade daqueles jogadores era de fora de Santa Maria, mas se identificaram com o clube. O que havia antigamente era que os jogadores ficavam mais tempo nas equipes, independente da origem. Como, por exemplo, o Donga, que veio de Livramento e ficou 12 anos jogando no Internacional como titular. Então havia essa identificação. Mas hoje o modo de operação do futebol mudou e muito. Os contratos são diferentes, já não existe mais vínculo com os clubes. Não que mudem o gosto e o prazer de jogar em determinadas equipes, mas o lado profissional que obriga o jogador a essas mutações dentro dos clubes. O que havia era que o Internacional conseguiu manter um time que começou com base em 78 e 79 e foi até 1982.

 

O trabalho de categoria de base. Até que ponto ele foi fundamental naquela época e, hoje, ele é deficiente?

Antes existia. O que Internacional precisa ter é um centro de treinamento onde pudesse ter quatro ou cinco campos de futebol que aí, sim, formasse jogadores do infanto-juvenil até o profissional. Hoje, essa distância é muito pequena, jogadores com 17 ou 18 anos já são profissionalizados.

 

Naquela época, o torcedor comparecia mais ao estádio; as médias de públicos eram altas. E, atualmente, não é o que se vê.

O ingresso era pago, como devia ser. Hoje se fazem promoções, dão ingressos e, às vezes, não se tem uma resposta. A grande maioria assiste jogos, não torce pelo time. Então naquela época até por essa cobrança que havia e pela identificação, já que muitos jogadores eram criados no Internacional, ia o tio, o pai, o vizinho, o pessoal do bairro, todos para torcer. O Internacional foi perdendo um pouco da sua identidade com a cidade e com as suas próprias cores. Tanto é verdade que houve gestos de pessoas que queriam em determinado momento mudar uma história de quase 80 anos do clube trocando suas cores e seu nome. Isso contribuiu um pouco para que o Internacional ficasse na situação que está nesse momento.

 

O que significava ser respeitado pela dupla gre-nal mesmo quando os jogos eram em Porto Alegre?

Significava respeito por aquilo que nós procuramos inspirar nos nossos jogadores quanto ao medo de enfrentar uma equipe grande. Eu sei porque até fui vítima disso como jogador. Já se tem os limites impostos pela grandeza do outro lado e, ainda, jogar no campo adversário. Eu dizia a eles (jogadores) que se tivessemos cinco por cento de chances que nós se agarrásemos aos cinco por cento. Lembro uma vez que o Lauro Quadros (ex-comentarista de futebol que atualmente apresenta o programa ‘Polêmica’ na Rádio Gaúcha) disse que o time do Internacional era muito ruim e íamos tomar não sei quantos gols em tantos minutos, o que divindo por noventa minutos daria 14 gols. E nós acabamos perdendo o jogo para o Grêmio por 2 a 1 no Olímpico (estádio do Grêmio) com um gol ilícito.

 

É possível uma época como aquela de 1981, um time como aquele?

É possível. E hoje muito mais fácil ainda devido aos modelos de campeonato.

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Na última entrevista da série sobre o time inesquecível do Internacional de Santa Maria, em 1981, o entrevistado é Tadeu Menezes. Técnico da campanha vitoriosa do Inter-SM no Campeonato Gaúcho daquele ano, Tadeu também foi jogador do clube entre os anos 70 e 80. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Quando falam 1981 o que tu lembras? O que representou aquela época para ti e para o Internacional de Santa Maria?

A lembrança é das mais positivas. A história do Internacional teve alguns períodos marcantes. Faltava ao Internacional um reconhecimento estadual e a campanha de 1981, que levou o Internacional ao campeonato brasileiro fez com que isso acontecesse. Foi um período muito bom, a confirmação de um time que já jogava junto há quase três anos e que teve aí o reconhecimento pelo trabalho de todo mundo.

 

Como foi ser jogador e, depois, técnico do Inter-SM?

Quase a totalidade (dos jogadores de 1981) eram ex-companheiros de time. A transição foi muito fácil por tudo que aconteceu nas nossas vidas. Havia o respeito mútuo e o cargo diferente não fez com que eu mudasse minha personalidade e maneira de agir. Claro que as responsabilidades eram diferentes. Pois dirigir pessoas é uma coisa muito difícil, tem que ter muito cuidado. Eles sabiam o que fazer e isso facilitava e muito o meu trabalho.

 

O teu trabalho foi uma surpresa para ti?

Não houve um time no Rio Grande do Sul, no país ou até fora dele que não quizesse me contratar como técnico. É uma coisa tu ter capacidade e outra gostar do que faz. No início eu não tinha qualquer tipo de vocação ou desejo maior de ser técnico de futebol. Mas com o decorrer do tempo fazendo as coisas eu fui tomando gosto e vendo que tinha capacidade de ser técnico. Então as coisas aconteceram normalmente e sem forçar barra nenhuma. E acho que isso já aconteceu com outros técnicos dentro do Internacional.

 

Como era ter jogadores de fora da cidade que se identificavam com o clube? Alguma diferença para hoje, isto é, os atletas que vêm de fora ainda se identificam com o clube?

A totalidade daqueles jogadores era de fora de Santa Maria, mas se identificaram com o clube. O que havia antigamente era que os jogadores ficavam mais tempo nas equipes, independente da origem. Como, por exemplo, o Donga, que veio de Livramento e ficou 12 anos jogando no Internacional como titular. Então havia essa identificação. Mas hoje o modo de operação do futebol mudou e muito. Os contratos são diferentes, já não existe mais vínculo com os clubes. Não que mudem o gosto e o prazer de jogar em determinadas equipes, mas o lado profissional que obriga o jogador a essas mutações dentro dos clubes. O que havia era que o Internacional conseguiu manter um time que começou com base em 78 e 79 e foi até 1982.

 

O trabalho de categoria de base. Até que ponto ele foi fundamental naquela época e, hoje, ele é deficiente?

Antes existia. O que Internacional precisa ter é um centro de treinamento onde pudesse ter quatro ou cinco campos de futebol que aí, sim, formasse jogadores do infanto-juvenil até o profissional. Hoje, essa distância é muito pequena, jogadores com 17 ou 18 anos já são profissionalizados.

 

Naquela época, o torcedor comparecia mais ao estádio; as médias de públicos eram altas. E, atualmente, não é o que se vê.

O ingresso era pago, como devia ser. Hoje se fazem promoções, dão ingressos e, às vezes, não se tem uma resposta. A grande maioria assiste jogos, não torce pelo time. Então naquela época até por essa cobrança que havia e pela identificação, já que muitos jogadores eram criados no Internacional, ia o tio, o pai, o vizinho, o pessoal do bairro, todos para torcer. O Internacional foi perdendo um pouco da sua identidade com a cidade e com as suas próprias cores. Tanto é verdade que houve gestos de pessoas que queriam em determinado momento mudar uma história de quase 80 anos do clube trocando suas cores e seu nome. Isso contribuiu um pouco para que o Internacional ficasse na situação que está nesse momento.

 

O que significava ser respeitado pela dupla gre-nal mesmo quando os jogos eram em Porto Alegre?

Significava respeito por aquilo que nós procuramos inspirar nos nossos jogadores quanto ao medo de enfrentar uma equipe grande. Eu sei porque até fui vítima disso como jogador. Já se tem os limites impostos pela grandeza do outro lado e, ainda, jogar no campo adversário. Eu dizia a eles (jogadores) que se tivessemos cinco por cento de chances que nós se agarrásemos aos cinco por cento. Lembro uma vez que o Lauro Quadros (ex-comentarista de futebol que atualmente apresenta o programa ‘Polêmica’ na Rádio Gaúcha) disse que o time do Internacional era muito ruim e íamos tomar não sei quantos gols em tantos minutos, o que divindo por noventa minutos daria 14 gols. E nós acabamos perdendo o jogo para o Grêmio por 2 a 1 no Olímpico (estádio do Grêmio) com um gol ilícito.

 

É possível uma época como aquela de 1981, um time como aquele?

É possível. E hoje muito mais fácil ainda devido aos modelos de campeonato.