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Ética em tempos de turbulência

Na semana passada, os acadêmicos do curso de Comunicação Social – Jornalismo do Centro Universitário Franciscano (Unifra) receberam a visita ilustre do professor Luiz Alberto Sanz, Doutor Notório Saber e aposentado como professor titular da UFF – Universidade Federal Fluminense. De 26 a 31 de março, Sanz ministrou as oficinas de Radiodramaturgia e de Introdução à grande reportagem audiovisual – o documentário, e proferiu a aula inaugural do curso "Ética, aparências e servidão: o jornalista frente à barbárie", no dia 26.

 Atualmente, Sanz tem dedicado seu tempo a duas pesquisas: sobre o realismo no cinema, abrangendo a realidade em que vivemos abordada em filmes e documentários e sobre a vida e obra de sua mãe, já falecida, a atriz, jornalista e educadora, Luiza Azevedo Barreto Leite, que no ano de 2009 completaria 100 anos. Esta pesquisa visa publicar obras de quando Luiza era jornalista e serão disponibilizadas no site da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

 Com muito bom humor, antes de conceder a entrevista, o professor complementa que também são suas atividades ajudar nas tarefas da casa, cortar a grama e podar árvores, além de, eventualmente, orientar alunos da graduação em seus trabalhos de conclusão de curso, dar palestras e cursos. A seguir, confira a entrevista com o professor Luiz Alberto Sanz. 

ACS Dentro do contexto de falta de ética e solidariedade em que vivemos hoje, há esperança que as coisas melhorem?

Sanz – Se eu disser para vocês que não há esperança, eu não deveria nem ter vindo dar a aula inaugural. Esperança, diz o povo, é a última que morre. Eu acho extremamente difícil a saída, porque ela depende de cada um de nós tomarmos a decisão de levá-la à prática, de despir-nos dos nossos preconceitos e das nossas falsas conveniências. Há pessoas que usam o automóvel, por exemplo, porque acham uma necessidade absoluta, acham que não podem caminhar nem para ir à farmácia da esquina, que vão perder tempo. Há pessoas que acham que é de sua conveniência ter grandes piscinas em casa, tomar longos banhos, eu mesmo já fiz muito isso, achando que era de minha necessidade, mas não sabem que um segundo a mais com o dedo na caixa de descarga poderia abastecer uma quantidade enorme de pessoas que sofrem com a seca. E não sabem que estamos destruindo o futuro. Achávamos que estaríamos destruindo o futuro de nossos netos, bisnetos e eles que se virassem. Mas estamos destruindo o nosso presente. E isso é uma herança da minha geração. Eu acho que, na verdade, essa atitude das pessoas que dizem: "Isso é da minha conveniência", não é da conveniência própria. Nossa conveniência é viver melhor, todos juntos. Então, por isso, eu digo que é difícil, mas que há esperança, há. Mas eu não creio que essa esperança venha dos partidos políticos, dos governos. Ninguém vai fazer nada no nosso lugar, nós temos que fazer, nós temos de mudar. Nós temos de trazer o nível de decisão para nossa vizinhança, organizar as comunidades, organizar-nos nas comunidades e elas organizarem as federações e não estabelecer um governo central forte, nosso "pai" ao qual nós ficamos esperando que resolva os nossos problemas. Na minha opinião, o Estado nem tem que existir. Não há necessidade de uma organização forte que nos imponha como devemos viver. Nós temos de ter um entendimento entre nós, eu com vocês, vocês com os pais, amigos, vizinhos e assim por diante. Isso sim, leva o conceito de comunidade ao seu irmão, o conceito de comunhão, a comunhão entre os homens.

ACS – Na aula inaugural, o senhor falou que para alcançar um resultado correto, o meio para chegar a ele precisa ser correto. O senhor acha que hoje em dia as pessoas, especialmente os jornalistas, fazem isso?

Sanz – Não. Acho que uma ou outra faz. Acho que a moral da sociedade em que vivemos continua a ser que "os fins justificam os meios". E em geral esses fins tampouco são bons. Por que, qual é o fim? É alcançar o poder, seja ele econômico, para enriquecer, seja o poder de estado, para você submeter os outros e estar acima dos outros. Então eu acho que não.

ACSE o senhor acha que um dia será possível que as pessoas façam isso?

Sanz – Sim, acho. Mas é um longo caminho individual. Acho que o diálogo e a comunhão só são possíveis entre iguais. E ela começa por nós admitirmos que somos iguais. Há um filósofo, já morto, que se chama Martin Bubber, que era um filósofo judeu, religioso, mas também era um libertário e voltou da Europa para viver na Palestina antes de ser constituído o Estado de Israel. A posição dele, que era combatida por outros assírios, que hoje são os ortodoxos mais radicais e alguns deles pregam a extinção dos palestinos, era que houvesse um Estado comum a palestinos e judeus, com igualdade, condições, diálogo, e com cristãos também. Porque, na verdade, isso a imprensa também oculta, grande parte dos palestinos que brigam hoje contra o governo de Israel e lutam pela autonomia da Palestina são cristãos, não muçulmanos. No Líbano, havia cristãos do lado de Israel e do lado da Palestina e Martin Bubber sonhava com um país onde vivessem em comunhão todos os povos de todas essas religiões. Sua filosofia, que era a do diálogo, se baseia no conceito EU-TU, TU-EU, que não existe TU sem que exista EU e não existe EU sem que exista TU, simplificando. Ou seja, essa comunhão entre nós forma a condição para que a humanidade se desenvolva e esse dialogo entre nós pode acontecer sem nos falarmos. Exemplo é que eu vivo lá em Niterói, não conheço vocês e quando nos encontramos parecia que muita coisa pensávamos da mesma forma, com vários de vocês estabeleceu-se de imediato uma conexão..

ACSO senhor colocou a idéia de que a dúvida é um conceito fundamental. Isso para os jornalistas ou para as pessoas em geral?

Sanz – Pessoas em geral, jornalistas em particular e cientistas sobretudo. Sem a dúvida você não vai a lugar nenhum. Não há a possibilidade de encontrar caminhos sem ter dúvida, sem você questionar o que está ali, senão você fica estagnado. Se você recebe uma informação enquanto jornalista, você tem que verificar o caráter dela, ela é verdadeira? Pode até não ser verdadeira, mas qual é o significado? Não é verdade para mim, mas pode ser para você. Não existe uma única verdade. Até na questão religiosa há vários povos que são monoteístas e há vários filósofos religiosos que dizem que é o mesmo deus.

ACSO senhor falou sobre os jornalistas que já saem das redações esperando determinada resposta, que já criaram essa resposta antes de lançarem a pergunta ao entrevistado. Como fazemos para restaurar a dúvida da resposta?

Sanz – Eu não sei se é uma questão de orgulho, mas de reafirmação do seu ponto de vista, ou o do seu patrão, ou da sociedade em que você vive. Então você sai, por exemplo, vai para uma favela, ouvir de uma pessoa que traficantes são malvados, são bandidos, ou ouvir o contrário, como um menino diz no filme "Falcão", do MV Bill e do Celso Athaíde, que é bandido. Aí você já cria uma matéria em cima disso, porque você já queria essa resposta, para possibilitar a construção de um quadro que beneficie uma determinada política. Você trabalha todo o processo da pergunta para o "cara" chegar e te dizer aquilo, para admitir aquilo. É comum vermos em textos jornalísticos: "Fulano admitiu", mas para admitir é preciso que alguém pressione a pessoa até que ela admitisse, pois admitir é totalmente diferente de afirmar, ou confessar. Eu acho que a atitude deve ser: "De que maneira eu vou dialogar com essa pessoa, para que eu obtenha a versão dele dos fatos e não o fazendo confirmar a minha versão dos fatos?". Quem faz as pessoas confirmarem a sua versão dos fatos é a polícia! É a questão científica: você tem uma hipótese, você vai levar a ela a realidade que quer confirmar, mas vai trabalhar para confirmá-la de uma maneira verdadeira.

ACSQual é o principal papel de documentários como "Falcão" e "Soldado do Morro"?

Sanz – É sobretudo mostrar o outro como o outro, não como um inimigo. Mesmo que o outro seja inimigo. Mas o outro tem seus valores, o outro tem razões para fazer as coisas que faz. É a questão do realismo picassiano, a aparência não é bidimensional, é tridimensional. Te mostra o nariz, os olhos, as orelhas e a nuca. A realidade é cubista. Não é uma folha de papel desenhada em perspectiva. A realidade tem várias faces, o que é verdade para mim pode não ser para outro. Temos de respeitar o ponto de vista e entender o mundo entendendo suas várias faces.

ACSO senhor comentou na aula inaugural sobre o documentário "Violência S.A.". Como é possível viver numa sociedade onde as pessoas têm de se proteger tanto com cercas elétricas, carros blindados, etc?

Sanz – Eu acho que, cada vez mais, hoje, a gente vive em um estado policial. Que os mais abonados buscam forçar cada vez mais vigilância, cada vez mais proteção e estão num processo de substituição do estado. Não é a policia do estado, é a policia deles. Eles contratam e pagam uma miséria a seus guarda-costas, vigilantes e muitas vezes são assassinados por eles. Por quê? Porque se a minha vida não vale nada, porque a vida do milionário vai valer? O que faz ele ter mais valor que eu? Por que eu ganhando pouquíssimo tenho que dar valor à vida dele? Por que meus filhos tem que morrer de fome? Eu vou dizer uma coisa aqui radical, talvez descontentar muita gente, mas eu acho que não tem que se defender, não tem que viver o pânico de estar nessa sociedade de violência, porque essa sociedade sempre foi de violência. Ele tem que agir para mudar a sociedade. Tem que agir para que não seja ampliado o conceito de caridade e sim de solidariedade. Porque caridade é oferecer a outro uma coisa que te é cara ou é cara, de cima para baixo você doa algo e espera que a pessoa esteja agradecida. Solidariedade é quando você torna sólida uma relação pela fusão de interesses, você não pode fazer solidariedade a alguém que você considere inferior e inimigo, é entre humanos. Você não vai resolver esse problema aumentando a repressão, colocando câmeras na esquina, acabando com a privacidade das pessoas, você resolve o problema aumentando a possibilidade das pessoas estudarem, se alimentarem, terem condições de saúde. Não resolve aumentar o número de hospitais, tem de fazer com que as pessoas não cheguem ao hospital. Não adianta substituir a cultura alimentar pela produção de biodiesel, porque o povo precisa de alimento, ou vão aumentar os problemas, aumentar a guerra. Muita gente vai ficar danada de eu dizer isso, mas é o discurso da inclusão social. Porque inclusão significa incluir em alguma coisa, incluir em quê? Nessa sociedade que está aí? Isso significa tirar a pessoa no estado marginal que está e incluir na escravidão, na exploração coletiva.

ACSGostaríamos que o senhor deixasse um recado, um conselho para os acadêmicos do curso de jornalismo da Unifra.

Sanz – Eu começo agradecendo a vocês a recepção, o carinho que vocês tiveram por mim. Mas, estudem, dialoguem, troquem idéias e tentem sempre lembrar que há muitas maneiras de ver uma coisa e que todas podem ser corretas. Vocês vão escolher uma, que é aquela que a ética de vocês indica, mas devem respeitar as outras, a não ser que ela seja completamente contrária a sua ética. Eu, por exemplo, não admito a discriminação de qualquer tipo e a violência como forma de dominação, até admito como forma de libertação. Mas, para isso, é preciso questionar-se e questionar, duvidar da sua certeza. Muito obrigado a vocês.

Fotos: Núcleo de Fotografia e Memória (Rodrigo Simões)

 

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Na semana passada, os acadêmicos do curso de Comunicação Social – Jornalismo do Centro Universitário Franciscano (Unifra) receberam a visita ilustre do professor Luiz Alberto Sanz, Doutor Notório Saber e aposentado como professor titular da UFF – Universidade Federal Fluminense. De 26 a 31 de março, Sanz ministrou as oficinas de Radiodramaturgia e de Introdução à grande reportagem audiovisual – o documentário, e proferiu a aula inaugural do curso "Ética, aparências e servidão: o jornalista frente à barbárie", no dia 26.

 Atualmente, Sanz tem dedicado seu tempo a duas pesquisas: sobre o realismo no cinema, abrangendo a realidade em que vivemos abordada em filmes e documentários e sobre a vida e obra de sua mãe, já falecida, a atriz, jornalista e educadora, Luiza Azevedo Barreto Leite, que no ano de 2009 completaria 100 anos. Esta pesquisa visa publicar obras de quando Luiza era jornalista e serão disponibilizadas no site da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

 Com muito bom humor, antes de conceder a entrevista, o professor complementa que também são suas atividades ajudar nas tarefas da casa, cortar a grama e podar árvores, além de, eventualmente, orientar alunos da graduação em seus trabalhos de conclusão de curso, dar palestras e cursos. A seguir, confira a entrevista com o professor Luiz Alberto Sanz. 

ACS Dentro do contexto de falta de ética e solidariedade em que vivemos hoje, há esperança que as coisas melhorem?

Sanz – Se eu disser para vocês que não há esperança, eu não deveria nem ter vindo dar a aula inaugural. Esperança, diz o povo, é a última que morre. Eu acho extremamente difícil a saída, porque ela depende de cada um de nós tomarmos a decisão de levá-la à prática, de despir-nos dos nossos preconceitos e das nossas falsas conveniências. Há pessoas que usam o automóvel, por exemplo, porque acham uma necessidade absoluta, acham que não podem caminhar nem para ir à farmácia da esquina, que vão perder tempo. Há pessoas que acham que é de sua conveniência ter grandes piscinas em casa, tomar longos banhos, eu mesmo já fiz muito isso, achando que era de minha necessidade, mas não sabem que um segundo a mais com o dedo na caixa de descarga poderia abastecer uma quantidade enorme de pessoas que sofrem com a seca. E não sabem que estamos destruindo o futuro. Achávamos que estaríamos destruindo o futuro de nossos netos, bisnetos e eles que se virassem. Mas estamos destruindo o nosso presente. E isso é uma herança da minha geração. Eu acho que, na verdade, essa atitude das pessoas que dizem: "Isso é da minha conveniência", não é da conveniência própria. Nossa conveniência é viver melhor, todos juntos. Então, por isso, eu digo que é difícil, mas que há esperança, há. Mas eu não creio que essa esperança venha dos partidos políticos, dos governos. Ninguém vai fazer nada no nosso lugar, nós temos que fazer, nós temos de mudar. Nós temos de trazer o nível de decisão para nossa vizinhança, organizar as comunidades, organizar-nos nas comunidades e elas organizarem as federações e não estabelecer um governo central forte, nosso "pai" ao qual nós ficamos esperando que resolva os nossos problemas. Na minha opinião, o Estado nem tem que existir. Não há necessidade de uma organização forte que nos imponha como devemos viver. Nós temos de ter um entendimento entre nós, eu com vocês, vocês com os pais, amigos, vizinhos e assim por diante. Isso sim, leva o conceito de comunidade ao seu irmão, o conceito de comunhão, a comunhão entre os homens.

ACS – Na aula inaugural, o senhor falou que para alcançar um resultado correto, o meio para chegar a ele precisa ser correto. O senhor acha que hoje em dia as pessoas, especialmente os jornalistas, fazem isso?

Sanz – Não. Acho que uma ou outra faz. Acho que a moral da sociedade em que vivemos continua a ser que "os fins justificam os meios". E em geral esses fins tampouco são bons. Por que, qual é o fim? É alcançar o poder, seja ele econômico, para enriquecer, seja o poder de estado, para você submeter os outros e estar acima dos outros. Então eu acho que não.

ACSE o senhor acha que um dia será possível que as pessoas façam isso?

Sanz – Sim, acho. Mas é um longo caminho individual. Acho que o diálogo e a comunhão só são possíveis entre iguais. E ela começa por nós admitirmos que somos iguais. Há um filósofo, já morto, que se chama Martin Bubber, que era um filósofo judeu, religioso, mas também era um libertário e voltou da Europa para viver na Palestina antes de ser constituído o Estado de Israel. A posição dele, que era combatida por outros assírios, que hoje são os ortodoxos mais radicais e alguns deles pregam a extinção dos palestinos, era que houvesse um Estado comum a palestinos e judeus, com igualdade, condições, diálogo, e com cristãos também. Porque, na verdade, isso a imprensa também oculta, grande parte dos palestinos que brigam hoje contra o governo de Israel e lutam pela autonomia da Palestina são cristãos, não muçulmanos. No Líbano, havia cristãos do lado de Israel e do lado da Palestina e Martin Bubber sonhava com um país onde vivessem em comunhão todos os povos de todas essas religiões. Sua filosofia, que era a do diálogo, se baseia no conceito EU-TU, TU-EU, que não existe TU sem que exista EU e não existe EU sem que exista TU, simplificando. Ou seja, essa comunhão entre nós forma a condição para que a humanidade se desenvolva e esse dialogo entre nós pode acontecer sem nos falarmos. Exemplo é que eu vivo lá em Niterói, não conheço vocês e quando nos encontramos parecia que muita coisa pensávamos da mesma forma, com vários de vocês estabeleceu-se de imediato uma conexão..

ACSO senhor colocou a idéia de que a dúvida é um conceito fundamental. Isso para os jornalistas ou para as pessoas em geral?

Sanz – Pessoas em geral, jornalistas em particular e cientistas sobretudo. Sem a dúvida você não vai a lugar nenhum. Não há a possibilidade de encontrar caminhos sem ter dúvida, sem você questionar o que está ali, senão você fica estagnado. Se você recebe uma informação enquanto jornalista, você tem que verificar o caráter dela, ela é verdadeira? Pode até não ser verdadeira, mas qual é o significado? Não é verdade para mim, mas pode ser para você. Não existe uma única verdade. Até na questão religiosa há vários povos que são monoteístas e há vários filósofos religiosos que dizem que é o mesmo deus.

ACSO senhor falou sobre os jornalistas que já saem das redações esperando determinada resposta, que já criaram essa resposta antes de lançarem a pergunta ao entrevistado. Como fazemos para restaurar a dúvida da resposta?

Sanz – Eu não sei se é uma questão de orgulho, mas de reafirmação do seu ponto de vista, ou o do seu patrão, ou da sociedade em que você vive. Então você sai, por exemplo, vai para uma favela, ouvir de uma pessoa que traficantes são malvados, são bandidos, ou ouvir o contrário, como um menino diz no filme "Falcão", do MV Bill e do Celso Athaíde, que é bandido. Aí você já cria uma matéria em cima disso, porque você já queria essa resposta, para possibilitar a construção de um quadro que beneficie uma determinada política. Você trabalha todo o processo da pergunta para o "cara" chegar e te dizer aquilo, para admitir aquilo. É comum vermos em textos jornalísticos: "Fulano admitiu", mas para admitir é preciso que alguém pressione a pessoa até que ela admitisse, pois admitir é totalmente diferente de afirmar, ou confessar. Eu acho que a atitude deve ser: "De que maneira eu vou dialogar com essa pessoa, para que eu obtenha a versão dele dos fatos e não o fazendo confirmar a minha versão dos fatos?". Quem faz as pessoas confirmarem a sua versão dos fatos é a polícia! É a questão científica: você tem uma hipótese, você vai levar a ela a realidade que quer confirmar, mas vai trabalhar para confirmá-la de uma maneira verdadeira.

ACSQual é o principal papel de documentários como "Falcão" e "Soldado do Morro"?

Sanz – É sobretudo mostrar o outro como o outro, não como um inimigo. Mesmo que o outro seja inimigo. Mas o outro tem seus valores, o outro tem razões para fazer as coisas que faz. É a questão do realismo picassiano, a aparência não é bidimensional, é tridimensional. Te mostra o nariz, os olhos, as orelhas e a nuca. A realidade é cubista. Não é uma folha de papel desenhada em perspectiva. A realidade tem várias faces, o que é verdade para mim pode não ser para outro. Temos de respeitar o ponto de vista e entender o mundo entendendo suas várias faces.

ACSO senhor comentou na aula inaugural sobre o documentário "Violência S.A.". Como é possível viver numa sociedade onde as pessoas têm de se proteger tanto com cercas elétricas, carros blindados, etc?

Sanz – Eu acho que, cada vez mais, hoje, a gente vive em um estado policial. Que os mais abonados buscam forçar cada vez mais vigilância, cada vez mais proteção e estão num processo de substituição do estado. Não é a policia do estado, é a policia deles. Eles contratam e pagam uma miséria a seus guarda-costas, vigilantes e muitas vezes são assassinados por eles. Por quê? Porque se a minha vida não vale nada, porque a vida do milionário vai valer? O que faz ele ter mais valor que eu? Por que eu ganhando pouquíssimo tenho que dar valor à vida dele? Por que meus filhos tem que morrer de fome? Eu vou dizer uma coisa aqui radical, talvez descontentar muita gente, mas eu acho que não tem que se defender, não tem que viver o pânico de estar nessa sociedade de violência, porque essa sociedade sempre foi de violência. Ele tem que agir para mudar a sociedade. Tem que agir para que não seja ampliado o conceito de caridade e sim de solidariedade. Porque caridade é oferecer a outro uma coisa que te é cara ou é cara, de cima para baixo você doa algo e espera que a pessoa esteja agradecida. Solidariedade é quando você torna sólida uma relação pela fusão de interesses, você não pode fazer solidariedade a alguém que você considere inferior e inimigo, é entre humanos. Você não vai resolver esse problema aumentando a repressão, colocando câmeras na esquina, acabando com a privacidade das pessoas, você resolve o problema aumentando a possibilidade das pessoas estudarem, se alimentarem, terem condições de saúde. Não resolve aumentar o número de hospitais, tem de fazer com que as pessoas não cheguem ao hospital. Não adianta substituir a cultura alimentar pela produção de biodiesel, porque o povo precisa de alimento, ou vão aumentar os problemas, aumentar a guerra. Muita gente vai ficar danada de eu dizer isso, mas é o discurso da inclusão social. Porque inclusão significa incluir em alguma coisa, incluir em quê? Nessa sociedade que está aí? Isso significa tirar a pessoa no estado marginal que está e incluir na escravidão, na exploração coletiva.

ACSGostaríamos que o senhor deixasse um recado, um conselho para os acadêmicos do curso de jornalismo da Unifra.

Sanz – Eu começo agradecendo a vocês a recepção, o carinho que vocês tiveram por mim. Mas, estudem, dialoguem, troquem idéias e tentem sempre lembrar que há muitas maneiras de ver uma coisa e que todas podem ser corretas. Vocês vão escolher uma, que é aquela que a ética de vocês indica, mas devem respeitar as outras, a não ser que ela seja completamente contrária a sua ética. Eu, por exemplo, não admito a discriminação de qualquer tipo e a violência como forma de dominação, até admito como forma de libertação. Mas, para isso, é preciso questionar-se e questionar, duvidar da sua certeza. Muito obrigado a vocês.

Fotos: Núcleo de Fotografia e Memória (Rodrigo Simões)