Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

Estricnina é vendida ilegalmente em SM

Mesmo com a proibição de venda, a estricnina ainda é comercializada ilegalmente em Santa Maria. O medicamento é altamente tóxico não só para animais, mas também para o homem. O produto já foi muito utilizado como um pesticida, mas é proibido no Brasil e em outros países.

  

Nos anos 90, uma decisão da comunidade européia sobre a conservação dos habitats naturais, da flora e fauna silvestre proíbe a venda da estricnina. Essa deliberação influenciou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a regulamentar a utilização e o comércio da substância no Brasil. A portaria  nº 344 de 12 de  maio de 1998 estabelece diretrizes para o controle do uso da substância, que só pode ser manipulada em laboratórios específicos, desde que sigam prescrições exigidas pela lei.                                                                        

Com o intuito fictício de matar gatos e cachorros de vizinhos que estavam incomodando, a equipe percorreu mais de 20 agropecuárias da cidade para tentar comprar um medicamento letal. Na Cohab Tancredo Neves, onde há grande número de envenenamentos de animais, uma agropecuária vendeu estricnina irregularmente após dizermos que queríamos acabar com cachorros da vizinhança. 

                                                                                                                                        
Sem dizer o nome do produto, o atendente virou-se no balcão, tomou uma seringa e retirou o líquido de uma vasilha que estava escondida. O funcionário da agropecuária vendeu à equipe uma injeção com 20 ml de estricnina por R$ 15,00, dizendo apenas que qualquer pessoa poderia aplicá-la e que o animal alvo de nossas inquietações morreria em seguida.

 Ao pedirmos uma nota fiscal, disse que não poderia emitir nota desse tipo de produto, mas que nos daria um recibo, o que ele mesmo fez, à mão, escrevendo que se tratava da aquisição de um “vermífugo”, colocando um carimbo da Agropecuária, o valor pago, além de sua assinatura.

Os 20 ml de estricnina eram suficientes para matar um cachorro de porte médio a grande, avalia o veterinário e professor assistente em Farmacologia do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), João Regis Miolo. De acordo com o professor, a intoxicação sempre vai depender da quantidade injetada ou ingerida pelo animal. O veterinário informa que a estricnina é comercializada de duas formas: em pó, na forma como é adquirida em outros países vizinhos e trazida irregularmente para o Brasil, ou diluída em cachaça.
 
Na forma injetável, o animal acaba sendo envenenado rapidamente já que o medicamente entra diretamente na circulação sangüínea. Já na ingestão oral, geralmente na forma de iscas colocadas em alimentos, o animal demora mais para morrer porque inicialmente o medicamente age no estômago, depois no intestino e só então vai atingir a circulação.

No Departamento de Fisiologia e Farmacologia, o professor submeteu 12 ratos a doses distintas do medicamento seja por via oral ou injetável. Todos morreram e apresentaram sinais positivos para intoxicação por estricnina ou associação desse produto com outra substância, como o monofluoracetato de sódio (MFAS) ou sal sódico do ácido monofluoroacético, conhecido ainda como 1080, que também é um veneno letal que, no passado, foi muito utilizado como pesticida, mas hoje é proibido devido à sua elevada toxidade.

O professor Miolo explica que essa substância é um potente rodenticida (que mata roedores) e que é extremamente tóxico para todos os vertebrados, incluindo homem e animais domésticos. Para ele, é comum a sua utilização associada à estricnina, o que eleva o potencial letal dessas substâncias. Geralmente, o monofluoracetato de sódio é adicionado a líquidos como água ou cachaça, ou ainda em iscas como carne, lingüiça ou outros petiscos para ingestão de cães e gatos, principalmente.

Todos os camundongos morreram com sinais clínicos característicos de intoxicação por estricnina: agitação, ansiedade, excitação, hiperreflexia (resposta aumentada aos estímulos sonoros e táteis), convulsão, parada respiratória e morte (nesta ordem de aparecimento e evolução). Esses sinais variaram conforme a dose administrada e também no tempo de início e duração (30 segundos a 4 minutos por via intraperitoneal (semelhante a via endovenosa) e 30 segundos a 3 minutos por via oral.

Cães e gatos envenenados na Tancredo Neves

Nos últimos tempos, a Cohab Tancredo Neves serviu de cobaia para a prática de envenenamento de cães e gatos. A equipe foi até o local e registrou cinco casos em oito casas escolhidas de forma aleatória. Segundo os moradores, a maioria dos animais foi envenenada com estricnina.

Maria* teve seu cachorro envenenado. Segundo ela, o animal começou a mostrar sintomas à noite, quando fazia voltas em torno de si mesmo e tremia. No outro dia, o cachorro amanheceu morto. Ela suspeita de alguém que não goste de animais para fazer tamanha crueldade.

Já Vânia* teve vários de seus gatos envenenados. Ela não sabe precisar quantos, mas diz que uma amiga veterinária indicou a ingestão de leite para tentar salvar os animais, o que não deu certo. Ela disse que os animais ficam soltos e quando estão ruins voltam para casa, onde miam desesperadamente até morrer. Tem suspeita de que o remédio que deram foi chumbinho e ela diz que algumas agropecuárias vendem remédios fortes.

A vizinha de Vânia*, Isabel* conta que teve seu cachorro envenenado, mas que conseguiu salvá-lo porque o levou a tempo ao veterinário. Segundo Isabel, o animal começou a babar, os pelos caíram, ele não tinha firmeza nas pernas, batia a cabeça na parede, engasgava e defecava em excesso. Ela relata que quando viu o cachorro passando mal, o levou a uma clínica, onde o veterinário falou que o veneno utilizado tinha semelhanças à estricnina.Segundo o veterinário Clóvis Ames, o cachorro de Isabel* chegou ao consultório com convulsões intensas, taquicardia, febre e vômito, entre outros sintomas. Em um dos episódios, o animal vomitou iscas de salsicha envoltas em uma substância de cor azulada. Segundo ele, os sinais clínicos apresentados eram compatíveis com intoxicação por estricnina.

Outra vítima que perdeu seu animal de estimação é Teresinha*. Ela conta que estava com seu gato na frente de casa à noite quando ele saiu e, meia hora depois, voltou babando e se arrastando. Ela diz que tentou dar leite, mas não adiantou, pois ele estava sem condições de beber. O bicho ficou agonizando e Teresinha* não pôde fazer nada.

Já na casa de Camila*, o envenenamento atingiu as duas cadelinhas que repentinamente começaram a se debater e tremer. Ela as levou ao veterinário, mas uma delas morreu. O veterinário falou à proprietária que o veneno usado foi estricnina.

Outra vítima que perdeu seu animal de estimação é Teresinha*. Ela conta que estava com seu gato na frente de casa à noite quando ele saiu e, meia hora depois, voltou babando e se arrastando. Ela diz que tentou dar leite, mas não adiantou, pois ele estava sem condições de beber. O bicho ficou agonizando e Teresinha* não pôde fazer nada.

Já na casa de Camila*, o envenenamento atingiu as duas cadelinhas que repentinamente começaram a se debater e tremer. Ela as levou ao veterinário, mas uma delas morreu. O veterinário falou à proprietária que o veneno usado foi estricnina.

Marlene Nascimento, veterinária e Presidente do Clube Amigos dos Animais de Santa Maria, diz que provavelmente quem dá veneno para os animais da Tancredo Neves seja uma ou duas pessoas da região. Ela acredita que deve ser alguém que não gosta de animais e que a comunidade local está indignada.

* Nomes fictícios

*Matérias produzidas na disciplina de Jornalismo Especializado III, no segundo semestre de 2007, orientadas pela professora Viviane Borelli. 

LEIA TAMBÉM

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mesmo com a proibição de venda, a estricnina ainda é comercializada ilegalmente em Santa Maria. O medicamento é altamente tóxico não só para animais, mas também para o homem. O produto já foi muito utilizado como um pesticida, mas é proibido no Brasil e em outros países.

  

Nos anos 90, uma decisão da comunidade européia sobre a conservação dos habitats naturais, da flora e fauna silvestre proíbe a venda da estricnina. Essa deliberação influenciou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a regulamentar a utilização e o comércio da substância no Brasil. A portaria  nº 344 de 12 de  maio de 1998 estabelece diretrizes para o controle do uso da substância, que só pode ser manipulada em laboratórios específicos, desde que sigam prescrições exigidas pela lei.                                                                        

Com o intuito fictício de matar gatos e cachorros de vizinhos que estavam incomodando, a equipe percorreu mais de 20 agropecuárias da cidade para tentar comprar um medicamento letal. Na Cohab Tancredo Neves, onde há grande número de envenenamentos de animais, uma agropecuária vendeu estricnina irregularmente após dizermos que queríamos acabar com cachorros da vizinhança. 

                                                                                                                                        
Sem dizer o nome do produto, o atendente virou-se no balcão, tomou uma seringa e retirou o líquido de uma vasilha que estava escondida. O funcionário da agropecuária vendeu à equipe uma injeção com 20 ml de estricnina por R$ 15,00, dizendo apenas que qualquer pessoa poderia aplicá-la e que o animal alvo de nossas inquietações morreria em seguida.

 Ao pedirmos uma nota fiscal, disse que não poderia emitir nota desse tipo de produto, mas que nos daria um recibo, o que ele mesmo fez, à mão, escrevendo que se tratava da aquisição de um “vermífugo”, colocando um carimbo da Agropecuária, o valor pago, além de sua assinatura.

Os 20 ml de estricnina eram suficientes para matar um cachorro de porte médio a grande, avalia o veterinário e professor assistente em Farmacologia do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), João Regis Miolo. De acordo com o professor, a intoxicação sempre vai depender da quantidade injetada ou ingerida pelo animal. O veterinário informa que a estricnina é comercializada de duas formas: em pó, na forma como é adquirida em outros países vizinhos e trazida irregularmente para o Brasil, ou diluída em cachaça.
 
Na forma injetável, o animal acaba sendo envenenado rapidamente já que o medicamente entra diretamente na circulação sangüínea. Já na ingestão oral, geralmente na forma de iscas colocadas em alimentos, o animal demora mais para morrer porque inicialmente o medicamente age no estômago, depois no intestino e só então vai atingir a circulação.

No Departamento de Fisiologia e Farmacologia, o professor submeteu 12 ratos a doses distintas do medicamento seja por via oral ou injetável. Todos morreram e apresentaram sinais positivos para intoxicação por estricnina ou associação desse produto com outra substância, como o monofluoracetato de sódio (MFAS) ou sal sódico do ácido monofluoroacético, conhecido ainda como 1080, que também é um veneno letal que, no passado, foi muito utilizado como pesticida, mas hoje é proibido devido à sua elevada toxidade.

O professor Miolo explica que essa substância é um potente rodenticida (que mata roedores) e que é extremamente tóxico para todos os vertebrados, incluindo homem e animais domésticos. Para ele, é comum a sua utilização associada à estricnina, o que eleva o potencial letal dessas substâncias. Geralmente, o monofluoracetato de sódio é adicionado a líquidos como água ou cachaça, ou ainda em iscas como carne, lingüiça ou outros petiscos para ingestão de cães e gatos, principalmente.

Todos os camundongos morreram com sinais clínicos característicos de intoxicação por estricnina: agitação, ansiedade, excitação, hiperreflexia (resposta aumentada aos estímulos sonoros e táteis), convulsão, parada respiratória e morte (nesta ordem de aparecimento e evolução). Esses sinais variaram conforme a dose administrada e também no tempo de início e duração (30 segundos a 4 minutos por via intraperitoneal (semelhante a via endovenosa) e 30 segundos a 3 minutos por via oral.

Cães e gatos envenenados na Tancredo Neves

Nos últimos tempos, a Cohab Tancredo Neves serviu de cobaia para a prática de envenenamento de cães e gatos. A equipe foi até o local e registrou cinco casos em oito casas escolhidas de forma aleatória. Segundo os moradores, a maioria dos animais foi envenenada com estricnina.

Maria* teve seu cachorro envenenado. Segundo ela, o animal começou a mostrar sintomas à noite, quando fazia voltas em torno de si mesmo e tremia. No outro dia, o cachorro amanheceu morto. Ela suspeita de alguém que não goste de animais para fazer tamanha crueldade.

Já Vânia* teve vários de seus gatos envenenados. Ela não sabe precisar quantos, mas diz que uma amiga veterinária indicou a ingestão de leite para tentar salvar os animais, o que não deu certo. Ela disse que os animais ficam soltos e quando estão ruins voltam para casa, onde miam desesperadamente até morrer. Tem suspeita de que o remédio que deram foi chumbinho e ela diz que algumas agropecuárias vendem remédios fortes.

A vizinha de Vânia*, Isabel* conta que teve seu cachorro envenenado, mas que conseguiu salvá-lo porque o levou a tempo ao veterinário. Segundo Isabel, o animal começou a babar, os pelos caíram, ele não tinha firmeza nas pernas, batia a cabeça na parede, engasgava e defecava em excesso. Ela relata que quando viu o cachorro passando mal, o levou a uma clínica, onde o veterinário falou que o veneno utilizado tinha semelhanças à estricnina.Segundo o veterinário Clóvis Ames, o cachorro de Isabel* chegou ao consultório com convulsões intensas, taquicardia, febre e vômito, entre outros sintomas. Em um dos episódios, o animal vomitou iscas de salsicha envoltas em uma substância de cor azulada. Segundo ele, os sinais clínicos apresentados eram compatíveis com intoxicação por estricnina.

Outra vítima que perdeu seu animal de estimação é Teresinha*. Ela conta que estava com seu gato na frente de casa à noite quando ele saiu e, meia hora depois, voltou babando e se arrastando. Ela diz que tentou dar leite, mas não adiantou, pois ele estava sem condições de beber. O bicho ficou agonizando e Teresinha* não pôde fazer nada.

Já na casa de Camila*, o envenenamento atingiu as duas cadelinhas que repentinamente começaram a se debater e tremer. Ela as levou ao veterinário, mas uma delas morreu. O veterinário falou à proprietária que o veneno usado foi estricnina.

Outra vítima que perdeu seu animal de estimação é Teresinha*. Ela conta que estava com seu gato na frente de casa à noite quando ele saiu e, meia hora depois, voltou babando e se arrastando. Ela diz que tentou dar leite, mas não adiantou, pois ele estava sem condições de beber. O bicho ficou agonizando e Teresinha* não pôde fazer nada.

Já na casa de Camila*, o envenenamento atingiu as duas cadelinhas que repentinamente começaram a se debater e tremer. Ela as levou ao veterinário, mas uma delas morreu. O veterinário falou à proprietária que o veneno usado foi estricnina.

Marlene Nascimento, veterinária e Presidente do Clube Amigos dos Animais de Santa Maria, diz que provavelmente quem dá veneno para os animais da Tancredo Neves seja uma ou duas pessoas da região. Ela acredita que deve ser alguém que não gosta de animais e que a comunidade local está indignada.

* Nomes fictícios

*Matérias produzidas na disciplina de Jornalismo Especializado III, no segundo semestre de 2007, orientadas pela professora Viviane Borelli.