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Os entraves da linguagem

 O que você tem falado, lido ou interpretado? De 9 a 12 de setembro, o curso de Letras da Unifra promove o VIII Seminário Internacional em Letras. A atividade que pretende refletir linguagem, sujeito e representações, teve inicio na noite desta terça-feira. Depois da solenidade inicial, a conferência sobre ‘A alfabetização como um processo científico’ foi ministrada pelo professor Dr. Luiz Carlos Cagliari, da UNESP de São Paulo.

 Uma das responsáveis pela organização do Seminário, professora Inara Rodrigues, mencionou a proporção da atividade e salientou os objetivos do encontro. O tema proposto para esta edição do evento direciona-se não apenas a um estudo da linguagem, mas há  aspectos onde ela está presente. “A linguagem constitui as várias formas de ver o mundo, e dessa forma é quem norteia os nossos compromissos, nossas relações e as emoções”, ressaltou Inara.

 

“Quem inventou o alfabeto, era analfabeto”. Foi assim, com a citação de Millôr Fernandes, que o professor Luiz Carlos Cagliari deu início à sua explanação. Durante sua descontraída palestra, Cagliari relacionou as evoluções da linguagem e os métodos pedagógicos ao longo do tempo. O professor comentou que o surgimento da escola foi quem prolongou o ensino da língua portuguesa.  O palestrante analisou as alterações que linguagem sofreu devido a isso.

 

 Cagliari falou também das dificuldades encontradas nos primeiros anos de aquisição da linguagem e contrariou a criação dos manuais e das cartilhas didáticas para professores. De acordo com o palestrante, as experiências bem sucedidas, frente à classe, são variáveis conforme os alunos e o professor, portanto não há modelo que possa ser seguido para se dar boas aulas. “É uma coisa meio absurda que alguém tenha que dizer como que você vai ensinar, isso depende de cada um. Não há um molde!” alertou.

 

Entre dados históricos e análises acentuadas, o professor criticou a existência de portarias que regulamentem a língua portuguesa. “Nós temos uma nomenclatura gramatical oficial, reconhecida em lei. Ou seja, se o indivíduo não cumprir a lei, se ele não se enquadrar nestas regras previstas no judiciário, chamem o delegado, pois é um infrator, tem que mandar prender”, disparou. Ele ainda se contrapôs  à unificação da língua portuguesa do Brasil e língua portuguesa de Portugal. “Se você for olhar no corretor ortográfico de programas para texto, existe lá 20 versões de inglês, mais umas 10 para o francês, e outras línguas, então por que é que a nossa tem que unificar?” refletiu.

 

Para o professor, outro fator a ser revisto é a forma de reflexão interpretativa dos textos desenvolvidos nas séries iniciais. Conforme Cagliari, as questões sugeridas geralmente são pobres e condicionadas. Dessa forma acabam inibindo o processo argumentativo dos alunos. “Olhem o caso das novelas, ninguém precisa ficar explicando no final o que houve. Todo mundo entende. No texto é a mesma coisa, se eu disser que Pedro chutou a bola, eu não preciso perguntar quem chutou a bola, a criança já entendeu isso”, afirmou. Ele também criticou a afirmação de que grande parte dos alunos não sabe interpretar texto. “O problema não está na interpretação do texto pelos alunos, está na construção das perguntas”, apontou.

 

A discussão ainda exaltou pontos como a variação lingüística regional, a estruturação  da ortografia e  as falhas cometidas no ensino da linguagem. Antes de disponibilizar o microfone para dúvidas da platéia, o professor ainda fez graça. “Na vida há duas coisas que são mais difíceis: uma é se alfabetizar pela linguagem, e outra é fazer a tese de doutorado”, considerou.

 

 Participantes do seminário ainda puderam receber autógrafos dos livros de autoria do professor Cagliari: Origem das Letras do Alfabeto,  Análise Fonológica: Introdução à Teoria e à Pratica, Alfabetizando sem o Bá-Bé-Bi-Bó .  A primeira noite do Seminário Internacional em Letras ainda teve o lançamento do terceiro número da Revista Novas Letras, publicada pelo curso de Letras da Unifra.

 

Estiveram presentes à abertura do evento, o secretário de Cultura de Santa Maria, José Zanella; o pró-reitor de Pós-graduação da Unifra, prof. Laurindo Dalpian; a coordenadora da área de Letras, Artes e Comunicação, profª Sibila Rocha; e a coordenadora do curso de Letras, professora Adriana Macedo. A professora Valéria Bortoluzzi mediou o diálogo com o professor  Luiz Carlos Cagliari. 

 O VIII Seminário Internacional de Letras vai até sexta-feira,12 de setembro. A programação da atividade pode ser consultada no site www.unifra.br/eventos/interletras

 

 

 

Fotos: Cecilia Carvalho e Daniele Pires

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 O que você tem falado, lido ou interpretado? De 9 a 12 de setembro, o curso de Letras da Unifra promove o VIII Seminário Internacional em Letras. A atividade que pretende refletir linguagem, sujeito e representações, teve inicio na noite desta terça-feira. Depois da solenidade inicial, a conferência sobre ‘A alfabetização como um processo científico’ foi ministrada pelo professor Dr. Luiz Carlos Cagliari, da UNESP de São Paulo.

 Uma das responsáveis pela organização do Seminário, professora Inara Rodrigues, mencionou a proporção da atividade e salientou os objetivos do encontro. O tema proposto para esta edição do evento direciona-se não apenas a um estudo da linguagem, mas há  aspectos onde ela está presente. “A linguagem constitui as várias formas de ver o mundo, e dessa forma é quem norteia os nossos compromissos, nossas relações e as emoções”, ressaltou Inara.

 

“Quem inventou o alfabeto, era analfabeto”. Foi assim, com a citação de Millôr Fernandes, que o professor Luiz Carlos Cagliari deu início à sua explanação. Durante sua descontraída palestra, Cagliari relacionou as evoluções da linguagem e os métodos pedagógicos ao longo do tempo. O professor comentou que o surgimento da escola foi quem prolongou o ensino da língua portuguesa.  O palestrante analisou as alterações que linguagem sofreu devido a isso.

 

 Cagliari falou também das dificuldades encontradas nos primeiros anos de aquisição da linguagem e contrariou a criação dos manuais e das cartilhas didáticas para professores. De acordo com o palestrante, as experiências bem sucedidas, frente à classe, são variáveis conforme os alunos e o professor, portanto não há modelo que possa ser seguido para se dar boas aulas. “É uma coisa meio absurda que alguém tenha que dizer como que você vai ensinar, isso depende de cada um. Não há um molde!” alertou.

 

Entre dados históricos e análises acentuadas, o professor criticou a existência de portarias que regulamentem a língua portuguesa. “Nós temos uma nomenclatura gramatical oficial, reconhecida em lei. Ou seja, se o indivíduo não cumprir a lei, se ele não se enquadrar nestas regras previstas no judiciário, chamem o delegado, pois é um infrator, tem que mandar prender”, disparou. Ele ainda se contrapôs  à unificação da língua portuguesa do Brasil e língua portuguesa de Portugal. “Se você for olhar no corretor ortográfico de programas para texto, existe lá 20 versões de inglês, mais umas 10 para o francês, e outras línguas, então por que é que a nossa tem que unificar?” refletiu.

 

Para o professor, outro fator a ser revisto é a forma de reflexão interpretativa dos textos desenvolvidos nas séries iniciais. Conforme Cagliari, as questões sugeridas geralmente são pobres e condicionadas. Dessa forma acabam inibindo o processo argumentativo dos alunos. “Olhem o caso das novelas, ninguém precisa ficar explicando no final o que houve. Todo mundo entende. No texto é a mesma coisa, se eu disser que Pedro chutou a bola, eu não preciso perguntar quem chutou a bola, a criança já entendeu isso”, afirmou. Ele também criticou a afirmação de que grande parte dos alunos não sabe interpretar texto. “O problema não está na interpretação do texto pelos alunos, está na construção das perguntas”, apontou.

 

A discussão ainda exaltou pontos como a variação lingüística regional, a estruturação  da ortografia e  as falhas cometidas no ensino da linguagem. Antes de disponibilizar o microfone para dúvidas da platéia, o professor ainda fez graça. “Na vida há duas coisas que são mais difíceis: uma é se alfabetizar pela linguagem, e outra é fazer a tese de doutorado”, considerou.

 

 Participantes do seminário ainda puderam receber autógrafos dos livros de autoria do professor Cagliari: Origem das Letras do Alfabeto,  Análise Fonológica: Introdução à Teoria e à Pratica, Alfabetizando sem o Bá-Bé-Bi-Bó .  A primeira noite do Seminário Internacional em Letras ainda teve o lançamento do terceiro número da Revista Novas Letras, publicada pelo curso de Letras da Unifra.

 

Estiveram presentes à abertura do evento, o secretário de Cultura de Santa Maria, José Zanella; o pró-reitor de Pós-graduação da Unifra, prof. Laurindo Dalpian; a coordenadora da área de Letras, Artes e Comunicação, profª Sibila Rocha; e a coordenadora do curso de Letras, professora Adriana Macedo. A professora Valéria Bortoluzzi mediou o diálogo com o professor  Luiz Carlos Cagliari. 

 O VIII Seminário Internacional de Letras vai até sexta-feira,12 de setembro. A programação da atividade pode ser consultada no site www.unifra.br/eventos/interletras

 

 

 

Fotos: Cecilia Carvalho e Daniele Pires