Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

Procurando o fio da meada

 Desde 2003, a polícia de Santa Maria vem investigando e prendendo pessoas suspeitas de roubo e receptação de fios de cobre e cabos telefônicos. Apesar da repressão, eles continuam.

Em março deste ano, um ex-presidiário morreu na tentativa de retirar os fios da rede elétrica na estrada dos Pains, distrito de Santa Maria. O homem recebeu uma descarga de 7,5 mil kilowatts ao cortar o fio errado.  Recentemente, a lombada eletrônica da BR-392 voltou a funcionar depois de 20 dias parada. Dela foram levados 450 metros dos fios de cobre.

A ousadia dos bandidos vai mais longe. Em setembro de 2007, no posto de saúde da Cohab Santa Marta foram perdidas 1300 doses de diversos tipos de vacina, quando a rede elétrica foi alvo de ladrões. Entre os prejuízos, a prefeitura divulgou: 300 metros de fios roubados, cerca de 30 quilos de cobre, e um “lucro” em torno de 300 reais aos ladrões. E os furtos não se limitam aos fios.

 O chefe de manutenção da CORSAN, Ivo Bertoldo, conta que mais de 600 metros de fios de estações de bombeamento da companhia foram furtados nos últimos seis meses. Além deles, 22 tampas de caixas de inspeção de ramais localizadas em calçadas, e sete tampas de 600mm que cobrem os bueiros em redes coletoras de esgoto no leito da rua também foram furtadas. A freqüência desse tipo de crime levou a companhia a tomar medidas preventivas. Uma delas é a fabricação de tampas com materiais que não têm muito mercado para reciclagem. Outra é tentar esconder a rede elétrica nas estações de bombeamento, com tubulações plásticas. Bertoldo lamenta os prejuízos que afetam a companhia e diz que, no final das contas, é a população que paga por estes danos, seja com a falta de água ou de luz, ou com o aumento da tarifa, devido aos serviços de reposição.

DIFICULDADES NA REPRESSÃO

A escrivã e chefe de investigações da 4ª Delegacia de Policia, Fátima, que preferiu não revelar seu sobrenome, disse à reportagem que a incidência de roubo de fios de cobre no mês passado chegou a 600 quilos. Desde o início de junho já foram registradas mais três ocorrências na 4ª DP, com cada uma beirando 300 quilos de cobre derretido. Ela relata que a maioria das ocorrências chega à delegacia pelo fato dela cobrir varias regiões pouco populosas, como o bairro Passo das Tropas e o distrito de Arroio Grande.

A chefe de polícia declara que: “Nós não temos como pegar o ladrão. As empresas também tinham que ter fiscalização. Aqui na policia falta efetivo. A gente tenta fiscalizar, mas também falta viatura. O problema está nos receptadores. Cumprimos mandato de busca nas sucatas, o que já deu resultado. Tem que proibir o receptador. É a único coisa que pode parar esse processo. Quando aquele moço morreu eletrocutado na estrada de Pains, diminuíram as ocorrências, mas agora já está aumentando, infelizmente”.

COMÉRCIO FÁCIL, ESQUEMA GARANTIDO

Em uma visita a vários depósitos, comprovamos o comércio fácil. A reportagem conseguiu contato com um ex-catador de materiais recicláveis, hoje com emprego fixo. João* já esteve envolvido com o furto e receptação de fios de cobre. Conhecedor da rotina de muitos catadores, afirma que há honestos e outros nem tanto. Segundo ele, muitos aproveitam o mercado de materiais recicláveis para fazerem pequenos furtos. Outros ainda, utilizam-se do descuido das empresas e se apossam de restos de materiais, que têm pouco valor empresarial, mas que se revendidos de forma ilegal, podem render um bom dinheiro.

Em fevereiro de 2004, Alessandro Oliveira Bottega e Maria Oliveira foram presos em flagrante pela policia civil, com mais de 200 quilos de cobre na caçamba de uma camioneta. O material foi desviado de uma empresa de telefonia da cidade.

Segundo João, o esquema funcionava da seguinte maneira: os fios eram levados para um local afastado da cidade para ser queimado e derretido – o processo separa o cobre do plástico-, depois, o material vai para o depósito. Dali, ele é revendido para um intermediário que o repassa para uma fábrica para virar matéria-prima novamente. O valor pago pelo cobre pode variar conforme a maneira como ele é vendido. Se entregue como matéria-prima custa de oito a 10 reais o quilo. Se entregue como fio, os valores variam conforme a quantidade, e a negociação é entre vendedor e comprador. Facilitado pela venda fácil no mercado informal, fecha-se o ciclo: há furto porque há receptação.

Se alguém for pego furtando cobre pode ser preso em flagrante, a pena pode chegar a quatro anos. Se houver mais pessoas envolvidas, gera formação de quadrilha com a pena subindo para oito anos. Já os compradores respondem por receptação, com pena de três a oito anos de prisão. Além desse fator a outra circunstância que vem contribuindo para a elevação desse tipo de delito. “O bom preço oferecido, vem atraindo dependentes, que em muitos casos acabam praticando o crime para suprir o vício: “Tem gente que sobe em poste, corta fio, rouba contador das casas, até para usar drogas, (…) o pessoal normalmente não tem dinheiro pra usar drogas e todo mundo sai na rua pra arrumar alguma coisa. É pelo dinheiro”, fala o catador.

Para João a falta de emprego em Santa Maria, pode ser outro grande indício deste problema, pode ser a única chance de quem não tem condições financeiras. “É uma coisa que dá trabalho, mas dá lucro também. O pessoal tem que arrumar dinheiro, sobreviver”.

A reportagem conferiu os valores dos materiais recicláveis comercializados em depósitos de Santa Maria, que não informaram os valores do cobre,  alegando que não estão comercializando este tipo de material. A média está abaixo.

 

Papel branco Jornal Papelão Papel misto Alumínio Panela Cobre Ferro bateria
x 0,35 0,12 0,15 0,10 3,00 3,00   – 0,15 0,60
y 0,30 0,08 0,15 0,08 2,50 2,50   – 0,12 0,15

 

* Nome fictício.

LEIA TAMBÉM

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

 Desde 2003, a polícia de Santa Maria vem investigando e prendendo pessoas suspeitas de roubo e receptação de fios de cobre e cabos telefônicos. Apesar da repressão, eles continuam.

Em março deste ano, um ex-presidiário morreu na tentativa de retirar os fios da rede elétrica na estrada dos Pains, distrito de Santa Maria. O homem recebeu uma descarga de 7,5 mil kilowatts ao cortar o fio errado.  Recentemente, a lombada eletrônica da BR-392 voltou a funcionar depois de 20 dias parada. Dela foram levados 450 metros dos fios de cobre.

A ousadia dos bandidos vai mais longe. Em setembro de 2007, no posto de saúde da Cohab Santa Marta foram perdidas 1300 doses de diversos tipos de vacina, quando a rede elétrica foi alvo de ladrões. Entre os prejuízos, a prefeitura divulgou: 300 metros de fios roubados, cerca de 30 quilos de cobre, e um “lucro” em torno de 300 reais aos ladrões. E os furtos não se limitam aos fios.

 O chefe de manutenção da CORSAN, Ivo Bertoldo, conta que mais de 600 metros de fios de estações de bombeamento da companhia foram furtados nos últimos seis meses. Além deles, 22 tampas de caixas de inspeção de ramais localizadas em calçadas, e sete tampas de 600mm que cobrem os bueiros em redes coletoras de esgoto no leito da rua também foram furtadas. A freqüência desse tipo de crime levou a companhia a tomar medidas preventivas. Uma delas é a fabricação de tampas com materiais que não têm muito mercado para reciclagem. Outra é tentar esconder a rede elétrica nas estações de bombeamento, com tubulações plásticas. Bertoldo lamenta os prejuízos que afetam a companhia e diz que, no final das contas, é a população que paga por estes danos, seja com a falta de água ou de luz, ou com o aumento da tarifa, devido aos serviços de reposição.

DIFICULDADES NA REPRESSÃO

A escrivã e chefe de investigações da 4ª Delegacia de Policia, Fátima, que preferiu não revelar seu sobrenome, disse à reportagem que a incidência de roubo de fios de cobre no mês passado chegou a 600 quilos. Desde o início de junho já foram registradas mais três ocorrências na 4ª DP, com cada uma beirando 300 quilos de cobre derretido. Ela relata que a maioria das ocorrências chega à delegacia pelo fato dela cobrir varias regiões pouco populosas, como o bairro Passo das Tropas e o distrito de Arroio Grande.

A chefe de polícia declara que: “Nós não temos como pegar o ladrão. As empresas também tinham que ter fiscalização. Aqui na policia falta efetivo. A gente tenta fiscalizar, mas também falta viatura. O problema está nos receptadores. Cumprimos mandato de busca nas sucatas, o que já deu resultado. Tem que proibir o receptador. É a único coisa que pode parar esse processo. Quando aquele moço morreu eletrocutado na estrada de Pains, diminuíram as ocorrências, mas agora já está aumentando, infelizmente”.

COMÉRCIO FÁCIL, ESQUEMA GARANTIDO

Em uma visita a vários depósitos, comprovamos o comércio fácil. A reportagem conseguiu contato com um ex-catador de materiais recicláveis, hoje com emprego fixo. João* já esteve envolvido com o furto e receptação de fios de cobre. Conhecedor da rotina de muitos catadores, afirma que há honestos e outros nem tanto. Segundo ele, muitos aproveitam o mercado de materiais recicláveis para fazerem pequenos furtos. Outros ainda, utilizam-se do descuido das empresas e se apossam de restos de materiais, que têm pouco valor empresarial, mas que se revendidos de forma ilegal, podem render um bom dinheiro.

Em fevereiro de 2004, Alessandro Oliveira Bottega e Maria Oliveira foram presos em flagrante pela policia civil, com mais de 200 quilos de cobre na caçamba de uma camioneta. O material foi desviado de uma empresa de telefonia da cidade.

Segundo João, o esquema funcionava da seguinte maneira: os fios eram levados para um local afastado da cidade para ser queimado e derretido – o processo separa o cobre do plástico-, depois, o material vai para o depósito. Dali, ele é revendido para um intermediário que o repassa para uma fábrica para virar matéria-prima novamente. O valor pago pelo cobre pode variar conforme a maneira como ele é vendido. Se entregue como matéria-prima custa de oito a 10 reais o quilo. Se entregue como fio, os valores variam conforme a quantidade, e a negociação é entre vendedor e comprador. Facilitado pela venda fácil no mercado informal, fecha-se o ciclo: há furto porque há receptação.

Se alguém for pego furtando cobre pode ser preso em flagrante, a pena pode chegar a quatro anos. Se houver mais pessoas envolvidas, gera formação de quadrilha com a pena subindo para oito anos. Já os compradores respondem por receptação, com pena de três a oito anos de prisão. Além desse fator a outra circunstância que vem contribuindo para a elevação desse tipo de delito. “O bom preço oferecido, vem atraindo dependentes, que em muitos casos acabam praticando o crime para suprir o vício: “Tem gente que sobe em poste, corta fio, rouba contador das casas, até para usar drogas, (…) o pessoal normalmente não tem dinheiro pra usar drogas e todo mundo sai na rua pra arrumar alguma coisa. É pelo dinheiro”, fala o catador.

Para João a falta de emprego em Santa Maria, pode ser outro grande indício deste problema, pode ser a única chance de quem não tem condições financeiras. “É uma coisa que dá trabalho, mas dá lucro também. O pessoal tem que arrumar dinheiro, sobreviver”.

A reportagem conferiu os valores dos materiais recicláveis comercializados em depósitos de Santa Maria, que não informaram os valores do cobre,  alegando que não estão comercializando este tipo de material. A média está abaixo.

 

Papel branco Jornal Papelão Papel misto Alumínio Panela Cobre Ferro bateria
x 0,35 0,12 0,15 0,10 3,00 3,00   – 0,15 0,60
y 0,30 0,08 0,15 0,08 2,50 2,50   – 0,12 0,15

 

* Nome fictício.