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Jornalista é jornalista só com formação

Foi esta a tônica da assembléia geral do curso de Jornalismo, nesta quinta à noite, que reuniu estudantes, jornalistas e professores em torno da mesma causa: a indignação pelo término da exigência do diploma para o exercício da profissão.

 “Não acredito que se abra mão da formação. O movimento estudantil estava acomodado e agora tem uma causa. Não temos como saber como o mercado vai reagir. Mobilizem-se! Organizem-se!” A fala da coordenadora do curso, profª Rosana Zucolo, abriu uma série de depoimentos, alguns emocionados, nessa quinta-feira, no Salão Azul do Campus I da Unifra.

Não só o grupo de Jornalismo da Unifra estava reunido para avaliar as consequências da decisão do Supremo Tribunal Federal, que na quarta-feira, dia 17, havia retirado da categoria a sua regulamentação profissional. Alunos da Universidade Federal de Santa Maria também se juntaram à luta e conclamaram a participação de todos nos próximos atos públicos que vão marcar a luta pelo diploma.

“É o momento de fazermos valer o diferencial entre quem tem e quem não tem formação – a formação evita os erros de informação”, lembrava a profª Carla Torres. “Não é hora de esmorecer, mas de valorizar a formação profissional, reforçou a profª Glaíse Palma. Gilson Piber lamentou que “o direito à informação de qualidade está ferido” e chamou todos os alunos à reflexão: “o diploma é uma conquista que ninguém vai tirar de vocês e isto faz a diferença no mercado de trabalho, faz a diferença na pesquisa”. Kytta Tonetto também fez uma provocação: “a nossa categoria estava acomodada e esta decisão mexeu com ela. Falta aos jornalistas se posicionarem mais, irem à luta”.

O prof. Maicon Kroth incentivou os alunos lembrando a recente experiência da aluna recém-formada pela Unifra, Caroline Kleinubing, selecionada entre centenas de candidatos para o programa Profissão Repórter, da Rede Globo. Na manhã de quinta-feira, Caroline, que estava em Santa Maria, participou da caminhada de protesto organizada pelos colegas nas ruas da cidade e declarou: “eu só estou onde eu estou porque eu me formei, porque eu passei pela academia”.

Iuri Lammel, o professor mais jovem do curso de Jornalismo, chamou a atenção para o fato de que não foi o diploma que acabou, foi a obrigatoriedade do diploma. E lembrou que em outras profissões, como Publicidade e Desenho Industrial, também não se exige diploma, mas a qualificação dos profissionais é que os diferencia no mercado. Citou outros países onde o diploma de Jornalismo não é obrigatório e cujos cursos de Comunicação estão lotados.

O depoimento mais emocionado foi do prof. Bebeto Badke: “o dia de hoje foi um dos mais tristes da minha vida, mas eu não saberia viver sem ser jornalista. Quando eu decidi ser jornalista, eu fiz uma opção de vida, não uma opção de curso. Não vai ser uma decisão arbitrária que vai nos abater”.

Mesmo sem ser jornalista, o professor de História Carlos Roberto Rangel, levantou-se a favor da causa do diploma e destacou o talento, a afetividade e o entusiasmo dos alunos do curso de Jornalismo. “Os alunos de Jornalismo têm identidade, são diferentes.”

Laura Fabrício, professora de Fotografia, destacou que “ser jornalista de fato é ter opinião e para ter opinião é preciso “se meter” em tudo com muita responsabilidade e com conhecimento, ir atrás da informação”.

 

E agora?

A profª Viviane Borelli chamou a atenção para a decorrência da não obrigatoriedade do diploma e
lembrou que a área de Comunicação tem pesquisadores e organizações que estão discutindo alternativas e estratégias visando regular a profissão de jornalista – a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (que se reuniu recentemente em Belo Horizonte e do qual participou a profª Sione Gomes), a SBPjor (Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo), a Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação). Uma destas alternativas é a implantação das diretrizes curiculares. “Até agora estamos trabalhando com fatos que nos apontam que a qualificação vai continuar sendo exigida pelas empresas. Nosso curso é reconhecido e é assim que vamos  continuar trabalhando”, enfatizou Viviane.

A exemplo de outras profissões, uma das alternativas é a formação de um conselho profissional, que foi lembrado pelas professoras Rosana e Viviane. A Constituição prevê um conselho que ainda não está regulamentado.

Outra alternativa, destacada pela profª Rosana e pelo acadêmico Daniel Isaía, da UFSM, é a proposta do deputado federal Paulo Pimenta, também jornalista, de encaminhamento de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), tentando reverter os efeitos da decisão do STF. Paulo Pimenta já foi contatado pela coordenação do curso de Jornalismo e deverá ter um encontro com a comunidade acadêmica nos próximos dias.

A profª Rosana Zucolo ainda destacou a solidariedade da Reitoria da Unifra ao curso de Jornalismo e adiantou que a instituição vai posicionar-se publicamente na imprensa neste final de semana sobre o assunto.

Várias manifestações dos estudantes também marcaram a assembléia de ontem: uma das lideranças estudantis do curso, a aluna Flávia Alli falou que “agora é a hora da gente se mexer de verdade. Tá na hora da gente fazer parte da história. É irreversível? Mas temos que amenizar esta situação”. Foi seguida pelo jornalista Maurício Barbosa, formado há seis meses, que chamou os colegas para o protesto do próximo sábado pela manhã, no Calçadão de Santa Maria. Bernardo Berttoloto e Fellipe Foletto também conclamaram a participação dos colegas. Márcia Marinho enfatizou que além de querer ser uma “contadora de estórias”, quer “escrever a própria estória”. E, de público, integrou-se ao grupo de mobilização que está organizando as próximas ações públicas: o manifesto do próximo sábado, no Calçadão; e a Marcha dos Estudantes, em Porto Alegre, na próxima quarta-feira.

 

Mesmo lamentando por uma trajetória que foi desvalorizada pelo Judiciário, a profª Liliane Brignol sintetizou o sentimento geral no curso de Jornalismo: “Lamentamos a falta de reconhecimento de uma categoria profissional que foi tida como  sem importância pelo desconhecimento e desqualificação do judiciário. Mas o que a gente tem que fazer? Tem que se posicionar agora. Eu tendo a pensar que esta situação vai ficar em mudanças que, a médio e longo prazo, podem, sim, ser positivas para o jornalismo, se os cursos, se os acadêmicos, se os jornalistas profissionais souberem atuar neste momento de transformação inevitável. As coisas não serão como elas eram até ontem, mas agora precisamos partir daí para tomar atitudes e posicionamentos pela qualidade profissional, valorizando o sentido que tem o diploma de jornalismo e a importância da atividade jornalística na nossa sociedade. Esta agora tem que ser a prática do aluno, do professor e do profissional. Qual a diferença entre os trabalhadores da mídia e os bons jornalistas? Quem serão os bons jornalistas? Serão os melhores qualificados, aqueles profissionais que conservam a preocupação e que sabem que o jornalismo é muito complexo, que lida diretamente com as pessoas, com a sociedade. E que exige conhecimento, formação humanística, formação ética, formação técnica e teórica. E é isto que a gente está fazendo aqui. A gente acredita que esta formação está sendo construída no nosso curso. E os melhores cursos e os melhores profissionais se manterão."

 

Leia mais sobre o assunto:

Ministro quer lei para diplomaJornal Estado de Minas

 

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Foi esta a tônica da assembléia geral do curso de Jornalismo, nesta quinta à noite, que reuniu estudantes, jornalistas e professores em torno da mesma causa: a indignação pelo término da exigência do diploma para o exercício da profissão.

 “Não acredito que se abra mão da formação. O movimento estudantil estava acomodado e agora tem uma causa. Não temos como saber como o mercado vai reagir. Mobilizem-se! Organizem-se!” A fala da coordenadora do curso, profª Rosana Zucolo, abriu uma série de depoimentos, alguns emocionados, nessa quinta-feira, no Salão Azul do Campus I da Unifra.

Não só o grupo de Jornalismo da Unifra estava reunido para avaliar as consequências da decisão do Supremo Tribunal Federal, que na quarta-feira, dia 17, havia retirado da categoria a sua regulamentação profissional. Alunos da Universidade Federal de Santa Maria também se juntaram à luta e conclamaram a participação de todos nos próximos atos públicos que vão marcar a luta pelo diploma.

“É o momento de fazermos valer o diferencial entre quem tem e quem não tem formação – a formação evita os erros de informação”, lembrava a profª Carla Torres. “Não é hora de esmorecer, mas de valorizar a formação profissional, reforçou a profª Glaíse Palma. Gilson Piber lamentou que “o direito à informação de qualidade está ferido” e chamou todos os alunos à reflexão: “o diploma é uma conquista que ninguém vai tirar de vocês e isto faz a diferença no mercado de trabalho, faz a diferença na pesquisa”. Kytta Tonetto também fez uma provocação: “a nossa categoria estava acomodada e esta decisão mexeu com ela. Falta aos jornalistas se posicionarem mais, irem à luta”.

O prof. Maicon Kroth incentivou os alunos lembrando a recente experiência da aluna recém-formada pela Unifra, Caroline Kleinubing, selecionada entre centenas de candidatos para o programa Profissão Repórter, da Rede Globo. Na manhã de quinta-feira, Caroline, que estava em Santa Maria, participou da caminhada de protesto organizada pelos colegas nas ruas da cidade e declarou: “eu só estou onde eu estou porque eu me formei, porque eu passei pela academia”.

Iuri Lammel, o professor mais jovem do curso de Jornalismo, chamou a atenção para o fato de que não foi o diploma que acabou, foi a obrigatoriedade do diploma. E lembrou que em outras profissões, como Publicidade e Desenho Industrial, também não se exige diploma, mas a qualificação dos profissionais é que os diferencia no mercado. Citou outros países onde o diploma de Jornalismo não é obrigatório e cujos cursos de Comunicação estão lotados.

O depoimento mais emocionado foi do prof. Bebeto Badke: “o dia de hoje foi um dos mais tristes da minha vida, mas eu não saberia viver sem ser jornalista. Quando eu decidi ser jornalista, eu fiz uma opção de vida, não uma opção de curso. Não vai ser uma decisão arbitrária que vai nos abater”.

Mesmo sem ser jornalista, o professor de História Carlos Roberto Rangel, levantou-se a favor da causa do diploma e destacou o talento, a afetividade e o entusiasmo dos alunos do curso de Jornalismo. “Os alunos de Jornalismo têm identidade, são diferentes.”

Laura Fabrício, professora de Fotografia, destacou que “ser jornalista de fato é ter opinião e para ter opinião é preciso “se meter” em tudo com muita responsabilidade e com conhecimento, ir atrás da informação”.

 

E agora?

A profª Viviane Borelli chamou a atenção para a decorrência da não obrigatoriedade do diploma e
lembrou que a área de Comunicação tem pesquisadores e organizações que estão discutindo alternativas e estratégias visando regular a profissão de jornalista – a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (que se reuniu recentemente em Belo Horizonte e do qual participou a profª Sione Gomes), a SBPjor (Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo), a Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação). Uma destas alternativas é a implantação das diretrizes curiculares. “Até agora estamos trabalhando com fatos que nos apontam que a qualificação vai continuar sendo exigida pelas empresas. Nosso curso é reconhecido e é assim que vamos  continuar trabalhando”, enfatizou Viviane.

A exemplo de outras profissões, uma das alternativas é a formação de um conselho profissional, que foi lembrado pelas professoras Rosana e Viviane. A Constituição prevê um conselho que ainda não está regulamentado.

Outra alternativa, destacada pela profª Rosana e pelo acadêmico Daniel Isaía, da UFSM, é a proposta do deputado federal Paulo Pimenta, também jornalista, de encaminhamento de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), tentando reverter os efeitos da decisão do STF. Paulo Pimenta já foi contatado pela coordenação do curso de Jornalismo e deverá ter um encontro com a comunidade acadêmica nos próximos dias.

A profª Rosana Zucolo ainda destacou a solidariedade da Reitoria da Unifra ao curso de Jornalismo e adiantou que a instituição vai posicionar-se publicamente na imprensa neste final de semana sobre o assunto.

Várias manifestações dos estudantes também marcaram a assembléia de ontem: uma das lideranças estudantis do curso, a aluna Flávia Alli falou que “agora é a hora da gente se mexer de verdade. Tá na hora da gente fazer parte da história. É irreversível? Mas temos que amenizar esta situação”. Foi seguida pelo jornalista Maurício Barbosa, formado há seis meses, que chamou os colegas para o protesto do próximo sábado pela manhã, no Calçadão de Santa Maria. Bernardo Berttoloto e Fellipe Foletto também conclamaram a participação dos colegas. Márcia Marinho enfatizou que além de querer ser uma “contadora de estórias”, quer “escrever a própria estória”. E, de público, integrou-se ao grupo de mobilização que está organizando as próximas ações públicas: o manifesto do próximo sábado, no Calçadão; e a Marcha dos Estudantes, em Porto Alegre, na próxima quarta-feira.

 

Mesmo lamentando por uma trajetória que foi desvalorizada pelo Judiciário, a profª Liliane Brignol sintetizou o sentimento geral no curso de Jornalismo: “Lamentamos a falta de reconhecimento de uma categoria profissional que foi tida como  sem importância pelo desconhecimento e desqualificação do judiciário. Mas o que a gente tem que fazer? Tem que se posicionar agora. Eu tendo a pensar que esta situação vai ficar em mudanças que, a médio e longo prazo, podem, sim, ser positivas para o jornalismo, se os cursos, se os acadêmicos, se os jornalistas profissionais souberem atuar neste momento de transformação inevitável. As coisas não serão como elas eram até ontem, mas agora precisamos partir daí para tomar atitudes e posicionamentos pela qualidade profissional, valorizando o sentido que tem o diploma de jornalismo e a importância da atividade jornalística na nossa sociedade. Esta agora tem que ser a prática do aluno, do professor e do profissional. Qual a diferença entre os trabalhadores da mídia e os bons jornalistas? Quem serão os bons jornalistas? Serão os melhores qualificados, aqueles profissionais que conservam a preocupação e que sabem que o jornalismo é muito complexo, que lida diretamente com as pessoas, com a sociedade. E que exige conhecimento, formação humanística, formação ética, formação técnica e teórica. E é isto que a gente está fazendo aqui. A gente acredita que esta formação está sendo construída no nosso curso. E os melhores cursos e os melhores profissionais se manterão."

 

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