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Santa Maria, RS, Brazil

Alcoolismo: as mulheres se integram às estatísticas

Cláudia* tem 45 anos, é mãe de três filhos, divorciada do "grande amor da sua vida" e ganha o pão de cada dia, fazendo pequenos "bicos". Dona de uma voz rouca, conquistada pelos anos de cigarro, ela conta que os principais objetivos da sua vida são pagar as inúmeras dívidas em seu nome, recuperar o marido e manter a família unida.

A história dela não seria diferente das tantas mães brasileiras que precisam superar as adiversidades financeiras e psicológicas para manter a família em ordem se ela não tivesse colocado fogo na sua casa com os filhos dentro.

Na noite de 26 de julho de 2010 Cláudia foi levada ao Hospital Universitário de Santa Maria em estado catatônico. Depois de decidir que a vida dela não tinha mais sentido, decidiu cometer suicídio. Porém, não quis deixar os filhos "sozinhos no mundo" e resolveu colocar fogo na casa onde eles moravam. Após as crianças terem dormido Cláudia colocou fogo no sofá da sala e foi para o quarto deitar junto com elas. A história só não é totalmente trágica porque a filha mais velha acordou e viu a casa incendiando. Saiu por uma janela e gritou para os vizinhos que ajudaram a retirar seus outros irmãos e mãe, totalmente alcoolizada, de dentro da casa em chamas.

Cláudia faz parte das estatísticas do crescente número de mulheres alcoólatras no Brasil.

Um estudo feito pela Universidade de São Paulo (USP) aponta que a emancipação feminina trouxe, além de uma parcial liberdade dentimagescanm6ofw.jpgro de uma sociedade machista, uma série de patologias ligadas a este novo papel feminino. Doenças do coração, acidente vascular cerebral e outras, mais frequentes no sexo masculino (devido à pressão das responsabilidades, a competitividade e ao nível de stress), estão agora também incidindo mais sobre as mulheres. O uso de drogas lícitas, como o cigarro, o álcool, os antidepressivos e os ansiolíticos, quanto as ilícitas, como maconha e cocaína e o crack vem crescendo muito entre as mulheres.

Santa Maria não está fora dos padrões nacionais. Aqui o número de internações por uso de álcool cresceu consideravelmente nos últimos anos. Segundo Ricardo Lied, diretor do Serviço de Recuperação de Dependentes Químicos (SERDEQUIM) até 2006 o número de mulheres era quase nulo. Atualmente num grupo de 20 pacientes, três são mulheres e dezessete são homens.

Para a enfermeira Cleonita Aguiar, coordenadora dos grupos do SERDEQUIM as mulheres dependentes de álcool têm um perfil padrão: faixa etária entre 35 a 45 anos, histórico de abuso na infância e maridos violentos.

Cláudia, membro do SERDEQUIM, disse que não se enquadra neste perfil. Ela conta que seu pai é a pessoa que mais tem dado apoio nesta fase de recuperação e que o marido só foi embora porque não aguentava mais ver ela beber. Cláudia hoje vive um dia de cada vez: "preciso recuperar a minha confiança e dos meus filhos. Quero muito ter minha família de novo sentada na mesa num domingo comendo churrasco. A única coisa que vai faltar é a cerveja", afirma a esperançosa mãe de família.

*O nome da entrevistada foi preservado.

 

Rita Barchet é acadêmica do curso de Jornalismo da Unifra

Foto: divulgação SEDERQUIM

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Cláudia* tem 45 anos, é mãe de três filhos, divorciada do "grande amor da sua vida" e ganha o pão de cada dia, fazendo pequenos "bicos". Dona de uma voz rouca, conquistada pelos anos de cigarro, ela conta que os principais objetivos da sua vida são pagar as inúmeras dívidas em seu nome, recuperar o marido e manter a família unida.

A história dela não seria diferente das tantas mães brasileiras que precisam superar as adiversidades financeiras e psicológicas para manter a família em ordem se ela não tivesse colocado fogo na sua casa com os filhos dentro.

Na noite de 26 de julho de 2010 Cláudia foi levada ao Hospital Universitário de Santa Maria em estado catatônico. Depois de decidir que a vida dela não tinha mais sentido, decidiu cometer suicídio. Porém, não quis deixar os filhos "sozinhos no mundo" e resolveu colocar fogo na casa onde eles moravam. Após as crianças terem dormido Cláudia colocou fogo no sofá da sala e foi para o quarto deitar junto com elas. A história só não é totalmente trágica porque a filha mais velha acordou e viu a casa incendiando. Saiu por uma janela e gritou para os vizinhos que ajudaram a retirar seus outros irmãos e mãe, totalmente alcoolizada, de dentro da casa em chamas.

Cláudia faz parte das estatísticas do crescente número de mulheres alcoólatras no Brasil.

Um estudo feito pela Universidade de São Paulo (USP) aponta que a emancipação feminina trouxe, além de uma parcial liberdade dentimagescanm6ofw.jpgro de uma sociedade machista, uma série de patologias ligadas a este novo papel feminino. Doenças do coração, acidente vascular cerebral e outras, mais frequentes no sexo masculino (devido à pressão das responsabilidades, a competitividade e ao nível de stress), estão agora também incidindo mais sobre as mulheres. O uso de drogas lícitas, como o cigarro, o álcool, os antidepressivos e os ansiolíticos, quanto as ilícitas, como maconha e cocaína e o crack vem crescendo muito entre as mulheres.

Santa Maria não está fora dos padrões nacionais. Aqui o número de internações por uso de álcool cresceu consideravelmente nos últimos anos. Segundo Ricardo Lied, diretor do Serviço de Recuperação de Dependentes Químicos (SERDEQUIM) até 2006 o número de mulheres era quase nulo. Atualmente num grupo de 20 pacientes, três são mulheres e dezessete são homens.

Para a enfermeira Cleonita Aguiar, coordenadora dos grupos do SERDEQUIM as mulheres dependentes de álcool têm um perfil padrão: faixa etária entre 35 a 45 anos, histórico de abuso na infância e maridos violentos.

Cláudia, membro do SERDEQUIM, disse que não se enquadra neste perfil. Ela conta que seu pai é a pessoa que mais tem dado apoio nesta fase de recuperação e que o marido só foi embora porque não aguentava mais ver ela beber. Cláudia hoje vive um dia de cada vez: "preciso recuperar a minha confiança e dos meus filhos. Quero muito ter minha família de novo sentada na mesa num domingo comendo churrasco. A única coisa que vai faltar é a cerveja", afirma a esperançosa mãe de família.

*O nome da entrevistada foi preservado.

 

Rita Barchet é acadêmica do curso de Jornalismo da Unifra

Foto: divulgação SEDERQUIM