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Crise financeira origina debate no Pentálogo

 A Agência CentralSul entrevistou os professores Antônio Fausto Neto, presidente do Centro Internacional de Semiótica e Comunicação (Ciseco),  e Liliane Brignol, professora do Curso de Jornalismo da Unifra, que  participaram da  segunda edição do Pentálogo em Alagoas.

" O Ciseco se organiza de um  modo não burocratico, através de um
encontro anual,  aberto as pessoas que queiram refletir sobre os temas
que são propostos. Um ponto muito positivo foi mostrar que é possivel
fazer isso em ambiente simples  em que o grande capital é o nosso
cérebro", diz o pesquisador Fausto Neto, que também é professor do
Centro Universitário Franciscano.

O Centro Internacional de Semiótica e Comunicação promoveu a segunda edição do Pentálogo, de 20 e 24 de setembro de 2010,  em  Alagoas. O tema dessa edição foi "Economia e Discursividades Sociais – Explorações da Semiose Economica". A novidade da programação foi o acréscimo de duas mesas de comunicação, o que possibilitou a pesquisadores participarem com trabalhos voltados para a semiose econômca.

Agência: Quais os pontos mais relevantes levantados nesse encontro que colaboram para uma melhor compreensão e elucidação dessa relação dos meios de comunicação com a economia?

Fausto Neto: Ocorreu a  tentativa de se construir uma relação entre a crise econômica de 2008, como um  acontecimento complexo, e as possibilidades da sua interpretação do ponto de vista de modelos analíticos e referí-los ao campo dos estudos de comunicação.  Não focamos a crise econômica só a partir dos viéses da teoria econômica, pois um acontecimento desse porte só pode ser inteligível na medida em que entram em ação operações de comunicação, operações simbólicas, que são tecidas pelos meios, pelos analistas, pelos especialistas que, via discurso, procuram construir processo interpretativo acerca dela. Foram positivos, também,  os relatos de situações. Muitos dos presentes procuraram trazer com seus realatos situações concretas, em torno das quais essa crise se manifestou comunicacionalmente, por exemplo, estudo específico sobre o rumor da bolsa, a repercursão da crise econômica sobre o mercado de artes, as estratégias governamentais para atacar a crise do ponto de vista comunicacional, politicas de comunicação. Assim, houve um certo foco  em situações que pudessem relatar  como, a partir de difrentes experiências, trataram  essa questão do ponto de vista da comunicação.

Agência: A economia tem feito uso da mídia no sentido de deixar o cidadão informado dos fatos reais ou passa uma imagem distorcida do nosso panorama econômico que sugere um "milagra brasileiro"?

Fausto Neto: Todos os campos sociais, inclusive o econômico, se valem do espaço midiático como a possibilidade mais vital de tornar público, publicizado e visível, aquilo que ocorre em suas fronteiras.  A exemplo de outros campos  como o religioso, o político, o campo econômico também lida com uma atividade, que reúne os seus consumidores, os cidadãos. Então a economia gera uma informação de ordem útil, que somente pode ser expressada, revelada numa velocidade possível nos meios de comunicação, que estão aí para traduzir uma linguagem de opinião pública, aquilo que se passa em ambientes técnicos como a bolsa.  Destaca-se o papel que a mídia tem nisso, já que esta não é apenas veiculadora de fatos, mas também tem um papel interpretativo dos fatos. Ou seja, ela não tem um papel só de transmitir acontecimentos sem que ela se misture a eles. Cada vez mais as mídias estão tecendo acontecimentos e participando como protagonistas no modo de falar desse acontecimentos.

Liliane Brigol participou  da mesa "Discursividades associativas" com o trabalho "Narrativas migrantes sobre a crise: as construções na mídia especializada e nos relatos de migrantes latino-americanos em Barcelona.

 Agência: Qual a conexão do seu trabalho com o tema central dessa segunda edição do Pentálogo?

Liliane: Analisei a repercussão da crise econômica nas narrativas migrantes construídas em duas perspectivas: nas mídias especializadas para o coletivo migrante e nos relatos de migrantes latino-americanos residentes em Barcelona, Catalunha, Espanha, durante o ano de 2008. O objetivo era entender como as mídias de migração produzidas por migrantes ou voltadas a esse público específico trataram o tema, construindo um sentido de crise, e a repercussão de tal construção para as experiências de migrantes. Com a crise, também percebemos uma tematização mais ampla das migrações pela mídia em função de fatores como o aumento das taxas de desemprego e preocupação em relação aos sistemas de previdência social. Ênfase para as políticas migratórias. Com isso, os migrantes encontram-se no setor da população que mais sofre com os efeitos da crise econômica, pela redução da oferta de empregos, mas também pelo reforço de estereótipos xenofóbicos que sempre se revitalizam em tempos de crise.

Agência:  Foi possivel tirar algumas conclusões a partir dos debates sobre  esta relação da mídia com a economia no nosso contexto atual?

Liliane: A mídia tem um papel central no modo como organizamos o mundo e vivemos nossas experiências. Isso se dá também em uma relação à economia. Discutimos durante o evento, através de diferentes abordagens e estudos de caso, como a crise é um fenômeno econômico global com forte construção midiática. Por isso a importância de pensarmos as conexões entre decisões econômicas e o modo como são tematizadas, representadas e, mesmo, experimentadas a partir da mídia.

A economia no contexto acadêmico

 Agência: A mídia tem uma relação muito próxima com a econômia, contudo no curso de Jornalismo não há preparo  que introduza o futuro jornalista nesse mundo e  o ajude a compreendê-lo e analisá-lo. Como você acredita que isso influencie na relação destes jornalistas, mais adiante, com a economia, quando tiverem que realizar reportagens, analisar o contexto e ajudar os cidadãos a compreenderem esse contexto?

Fausto Neto: Um curso de comunicaçao não pode formar jornalistas tentando dar todos os registros das diferentes especialidades.Não haveria curriculo capaz de  comportar tudo isso. Por isso o importante do curso  de Jornalismo é ensinar fundamentos básicos de alguns conhecimentos. Ao lado dos conhecimentos técnicos do Jornalismo deveriam ser ensinados conhecimentos sobre o mundo. Se isso fosse  feito não seria preciso especializar o jornalista em economia. As profissões hoje podem ser especializadas, mas o mundo é complexo por isso o profissional pode ter a caracteristica do seu campo, mas ao mesmo tempo tem que estar envolto numa malha de conhecimento que não pertence, necessariamente, ao seu campo. Para isso não precisa ter no diploma "especialista em economia, em esportes", precisa de fundamentos, porque até a vida trata de nos especializar pelos nossos interesses.

Liliane: Temos uma optativa no curso de Jornalismo sobre economia, além de disciplinas da área de ciências sociais e humanas, como Realidade Socioeconômica e Política Brasileira. É fundamental que os alunos tenham uma visão contextual  e aprofundada sobre o momento histórico em que vivemos, com suas complexidades ao longo do curso, em todas as cadeiras e como uma preocupação dos alunos em estabelecer vínculos com leituras e experiências de mundo ao longo de sua formação. Como pensar em pautas para nossos jornais experimentais, por exemplo, sem considerarmos também as questões econômicas implicadas? âmbito social, cultural e econômico. Isso deve se dar de modo mais amplo.

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 A Agência CentralSul entrevistou os professores Antônio Fausto Neto, presidente do Centro Internacional de Semiótica e Comunicação (Ciseco),  e Liliane Brignol, professora do Curso de Jornalismo da Unifra, que  participaram da  segunda edição do Pentálogo em Alagoas.

" O Ciseco se organiza de um  modo não burocratico, através de um
encontro anual,  aberto as pessoas que queiram refletir sobre os temas
que são propostos. Um ponto muito positivo foi mostrar que é possivel
fazer isso em ambiente simples  em que o grande capital é o nosso
cérebro", diz o pesquisador Fausto Neto, que também é professor do
Centro Universitário Franciscano.

O Centro Internacional de Semiótica e Comunicação promoveu a segunda edição do Pentálogo, de 20 e 24 de setembro de 2010,  em  Alagoas. O tema dessa edição foi "Economia e Discursividades Sociais – Explorações da Semiose Economica". A novidade da programação foi o acréscimo de duas mesas de comunicação, o que possibilitou a pesquisadores participarem com trabalhos voltados para a semiose econômca.

Agência: Quais os pontos mais relevantes levantados nesse encontro que colaboram para uma melhor compreensão e elucidação dessa relação dos meios de comunicação com a economia?

Fausto Neto: Ocorreu a  tentativa de se construir uma relação entre a crise econômica de 2008, como um  acontecimento complexo, e as possibilidades da sua interpretação do ponto de vista de modelos analíticos e referí-los ao campo dos estudos de comunicação.  Não focamos a crise econômica só a partir dos viéses da teoria econômica, pois um acontecimento desse porte só pode ser inteligível na medida em que entram em ação operações de comunicação, operações simbólicas, que são tecidas pelos meios, pelos analistas, pelos especialistas que, via discurso, procuram construir processo interpretativo acerca dela. Foram positivos, também,  os relatos de situações. Muitos dos presentes procuraram trazer com seus realatos situações concretas, em torno das quais essa crise se manifestou comunicacionalmente, por exemplo, estudo específico sobre o rumor da bolsa, a repercursão da crise econômica sobre o mercado de artes, as estratégias governamentais para atacar a crise do ponto de vista comunicacional, politicas de comunicação. Assim, houve um certo foco  em situações que pudessem relatar  como, a partir de difrentes experiências, trataram  essa questão do ponto de vista da comunicação.

Agência: A economia tem feito uso da mídia no sentido de deixar o cidadão informado dos fatos reais ou passa uma imagem distorcida do nosso panorama econômico que sugere um "milagra brasileiro"?

Fausto Neto: Todos os campos sociais, inclusive o econômico, se valem do espaço midiático como a possibilidade mais vital de tornar público, publicizado e visível, aquilo que ocorre em suas fronteiras.  A exemplo de outros campos  como o religioso, o político, o campo econômico também lida com uma atividade, que reúne os seus consumidores, os cidadãos. Então a economia gera uma informação de ordem útil, que somente pode ser expressada, revelada numa velocidade possível nos meios de comunicação, que estão aí para traduzir uma linguagem de opinião pública, aquilo que se passa em ambientes técnicos como a bolsa.  Destaca-se o papel que a mídia tem nisso, já que esta não é apenas veiculadora de fatos, mas também tem um papel interpretativo dos fatos. Ou seja, ela não tem um papel só de transmitir acontecimentos sem que ela se misture a eles. Cada vez mais as mídias estão tecendo acontecimentos e participando como protagonistas no modo de falar desse acontecimentos.

Liliane Brigol participou  da mesa "Discursividades associativas" com o trabalho "Narrativas migrantes sobre a crise: as construções na mídia especializada e nos relatos de migrantes latino-americanos em Barcelona.

 Agência: Qual a conexão do seu trabalho com o tema central dessa segunda edição do Pentálogo?

Liliane: Analisei a repercussão da crise econômica nas narrativas migrantes construídas em duas perspectivas: nas mídias especializadas para o coletivo migrante e nos relatos de migrantes latino-americanos residentes em Barcelona, Catalunha, Espanha, durante o ano de 2008. O objetivo era entender como as mídias de migração produzidas por migrantes ou voltadas a esse público específico trataram o tema, construindo um sentido de crise, e a repercussão de tal construção para as experiências de migrantes. Com a crise, também percebemos uma tematização mais ampla das migrações pela mídia em função de fatores como o aumento das taxas de desemprego e preocupação em relação aos sistemas de previdência social. Ênfase para as políticas migratórias. Com isso, os migrantes encontram-se no setor da população que mais sofre com os efeitos da crise econômica, pela redução da oferta de empregos, mas também pelo reforço de estereótipos xenofóbicos que sempre se revitalizam em tempos de crise.

Agência:  Foi possivel tirar algumas conclusões a partir dos debates sobre  esta relação da mídia com a economia no nosso contexto atual?

Liliane: A mídia tem um papel central no modo como organizamos o mundo e vivemos nossas experiências. Isso se dá também em uma relação à economia. Discutimos durante o evento, através de diferentes abordagens e estudos de caso, como a crise é um fenômeno econômico global com forte construção midiática. Por isso a importância de pensarmos as conexões entre decisões econômicas e o modo como são tematizadas, representadas e, mesmo, experimentadas a partir da mídia.

A economia no contexto acadêmico

 Agência: A mídia tem uma relação muito próxima com a econômia, contudo no curso de Jornalismo não há preparo  que introduza o futuro jornalista nesse mundo e  o ajude a compreendê-lo e analisá-lo. Como você acredita que isso influencie na relação destes jornalistas, mais adiante, com a economia, quando tiverem que realizar reportagens, analisar o contexto e ajudar os cidadãos a compreenderem esse contexto?

Fausto Neto: Um curso de comunicaçao não pode formar jornalistas tentando dar todos os registros das diferentes especialidades.Não haveria curriculo capaz de  comportar tudo isso. Por isso o importante do curso  de Jornalismo é ensinar fundamentos básicos de alguns conhecimentos. Ao lado dos conhecimentos técnicos do Jornalismo deveriam ser ensinados conhecimentos sobre o mundo. Se isso fosse  feito não seria preciso especializar o jornalista em economia. As profissões hoje podem ser especializadas, mas o mundo é complexo por isso o profissional pode ter a caracteristica do seu campo, mas ao mesmo tempo tem que estar envolto numa malha de conhecimento que não pertence, necessariamente, ao seu campo. Para isso não precisa ter no diploma "especialista em economia, em esportes", precisa de fundamentos, porque até a vida trata de nos especializar pelos nossos interesses.

Liliane: Temos uma optativa no curso de Jornalismo sobre economia, além de disciplinas da área de ciências sociais e humanas, como Realidade Socioeconômica e Política Brasileira. É fundamental que os alunos tenham uma visão contextual  e aprofundada sobre o momento histórico em que vivemos, com suas complexidades ao longo do curso, em todas as cadeiras e como uma preocupação dos alunos em estabelecer vínculos com leituras e experiências de mundo ao longo de sua formação. Como pensar em pautas para nossos jornais experimentais, por exemplo, sem considerarmos também as questões econômicas implicadas? âmbito social, cultural e econômico. Isso deve se dar de modo mais amplo.