Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

Terra de ninguém

InvestigativoTodo mundo já perdeu alguma coisa na vida, seja ela insignificante, valiosa, pequena ou grande. Mas você já viu alguém perder um terreno? Porém, Maria* não perdeu por descuido ou desleixo, perdeu porque simplesmente nunca achou.

Em 1979, Maria recebeu de seu pai um terreno localizado na Vila Elwanger, na cidade de Santa Maria. Ela foi representada por sua mãe, por ser menor de idade. Seu pai faleceu pouco tempo depois. Passados cerca de oito anos, Maria, que residia em Porto Alegre, foi até a prefeitura de Santa Maria para localizar o terreno, que até então não conhecia, para pagar o seu IPTU – Imposto Sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana.

Mas ao chegar lá, não foi possível localizar seu terreno, apenas chegar a uma aproximação. Ele estaria situado no Bairro Nossa Senhora de Lourdes, próximo da rodoviária da cidade hoje. Na época, ela conseguiu encontrar a família de um dos lindeiros de seu terreno. No entanto, o patriarca, Seu João*, já havia falecido e a família não soube dar mais informações. Apenas confirmaram que sabiam que o pai de Maria possuía um terreno naquela região.

Em busca do “tesouro perdido”

Ao sabermos da história, entramos em contato com Maria. Munidos da escritura do terreno, iniciamos a busca por ele. O primeiro passo foi entrar em contato com a prefeitura de Santa Maria para acessar um mapa antigo da cidade e localizar a Vila Elwanger. Uma das referências que tínhamos é que um dos limites da área era a Travessa Segunda da Vila Elwanger, ao Leste. Depois de passarmos pelo Escritório da Cidade, pelo cadastro mobiliário, fomos parar no setor de IPTU.

Por meio da matrícula do imóvel, tentamos verificar quem paga o seu imposto. Contudo, o terreno nem sequer existia no banco de dados da prefeitura (o banco de dados foi digitalizado por volta da década de 1990). O que descobrimos é que o pai de Maria, falecido há 30 anos, está na dívida ativa do município em 2009, e que constam 13 terrenos em seu nome. Maria não fazia ideia de tal existência, já que a única escritura que ela e seus dois irmãos possuem é a do terreno que sumiu.

O próximo passo foi ir até o Registro de Imóveis de Santa Maria para solicitar uma atualização da matrícula. Tal atualização permite que seja identificado no nome de quem o terreno está, caso ele seja vendido ou haja o processo de usucapião, pois a sua matrícula é integrada a de outro terreno, originando uma matrícula nova. Após sete dias de espera, buscamos o documento no Registro de Imóveis e, para nossa surpresa, os dados contidos nele eram os mesmos da escritura, ou seja, nada mudou em 30 anos. O funcionário que nos atendeu disse que nunca conseguiríamos localizar o terreno.

Mais uma vez voltamos até o setor de IPTU da prefeitura e procuramos por mapas da região. Entre os documentos amarelados, desenhados à caneta e à lápis, encontramos um que fazia referência a localização da Vila Elwanger. Ela abrangia a região onde se situa a estação rodoviária de Santa Maria hoje, a partir da Rua Pedro Pereira ao leste (rua que dá acesso à Faixa Nova – RST 287), a sul até a BR 158. Porém, os seus limites do lado oeste e norte não foram possíveis de definir.

Clique nas imagens abaixo para expandi-las:

Mapa
Mapa situando a Vila Elwanger
Fotografia: Neli Mombelli

 

Mapa
Imagem por satélite que situa a Vila Elwanger hoje.
Fonte: Google Earth

A rua denominada Travessa Dois da Vila Elwanger, citada como limítrofe do terreno na escritura, ao que indicam as evidências, seria a atual Rua Geraldo Aronis. A referência para isso é um mapa antigo, encontrado na prefeitura, onde está escrito Antiga Travessa Dois junto à Aronis.

Travessa
Possível localização da Segunda Travessa
Fotografia: Neli Mombelli

Vizinhos: será que sabem de algo?

Fomos em busca de fontes, numa pesquisa de campo, para tentar encontrar os possíveis vizinhos do terreno lindeiro. Começamos pelas redondezas, perguntando nos barzinhos da localidade. A vizinhança não é formada somente de moradores novos, alguém no bairro teria que saber, pelo menos, alguma pista do paradeiro do terreno desaparecido. Primeira parada: barzinho local. Entretanto, não conseguimos nenhuma dica. Já na segunda parada, outro barzinho, conseguimos nossa primeira pista: nome e endereço de uma possível antiga moradora. Nos dirigimos até a casa e falamos com Ana*, moradora do local há 21 anos, que não sabia da história, mas tentou nos ajudar indicando outra moradora, que estava por ali há mais tempo. Fomos rapidamente para a casa indicada, em busca de uma nova pista, depois de várias batidas percebemos movimento e, finalmente, conversamos com Dona Jurema*, residente ali há 49 anos.  Ela conhecia o antigo lindeiro, e nos esclareceu algumas coisas, estávamos na pista certa.

O terreno onde ela mora hoje foi comprado de Seu João, lindeiro do terreno de Maria. O lote comprado fazia parte de uma área maior, que compreendia desde a BR 158, fazendo divisa com o terreno da rodoviária. As demais limitações não foram passíveis de definição. Porém, Dona Jurema comentou não conhecer Maria, nem o paradeiro da área desaparecida. Voltamos à estaca zero. Saindo do local nos encontramos novamente com Ana, que interessada em saber mais sobre o terreno nos indicou Seu Antônio*, também morador antigo, proprietários de terrenos próximos à rodoviária.

Seguimos para o endereço indicado e encontramos lá um senhor simpático, muito falante, que se dizia o morador mais antigo das redondezas. Esse era Seu Antônio. Desde 1959, ele habitava os terrenos em frente à rodoviária e afirmou conhecer Seu João, contudo também não tinha pistas sobre o terreno de Maria. Um dado importante levantado por ele é que o pai da Maria foi dono de muitas terras na cidade. Entre elas estava uma área nas proximidades da rodoviária. Mas, ele não sabia nos informar a respeito do terreno de Maria.

Hipóteses

Conforme os dados levantados junto à prefeitura e aos moradores antigos da Vila Elwanger, não há como inferir a possível localização do terreno. Mas podemos imaginar o que aconteceu com ele. Entre as hipóteses estão a de que o terreno foi anexado a outro (usucapião) sem o devido registro ou, até mesmo, “engolido” pelo lindeiro, já que as confrontações eram ao norte e sul, o que leva a supor que o terreno estava no meio de outros dois de posse de um mesmo proprietário, no caso, Seu João (lindeiro citado na escritura).

Documentos amarelados

Outro aspecto a ser levantado nessa investigação é a desatualização dos dados cadastrados na prefeitura. Seja por eles serem antigos – estarem, por exemplo, no nome de pessoas já falecidas, como o pai de Maria; seja por sequer existirem, como no caso de Maria. Ainda, olhando os mapas arquivados, parece necessário o seu arquivamento digital. Eles estão se deteriorando com o tempo, e as escritas, feitas à caneta e lápis, estão se apagando. Sem falar na inexistência de alguns mapas, pois não havia um para continuarmos a investigação.

Terra do nunca

Mesmo que localizado o terreno, Maria não conseguiria reavê-lo caso estivesse de posse de outra pessoa, em função de terem se passados 30 anos, uma vez que o prazo de requerimento de propriedade caduca. O que pretendíamos com essa investigação era saber o que realmente aconteceu com o terreno, pois se trata de uma situação extraordinária, mas da qual ninguém está livre.

* Nomes fictício

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InvestigativoTodo mundo já perdeu alguma coisa na vida, seja ela insignificante, valiosa, pequena ou grande. Mas você já viu alguém perder um terreno? Porém, Maria* não perdeu por descuido ou desleixo, perdeu porque simplesmente nunca achou.

Em 1979, Maria recebeu de seu pai um terreno localizado na Vila Elwanger, na cidade de Santa Maria. Ela foi representada por sua mãe, por ser menor de idade. Seu pai faleceu pouco tempo depois. Passados cerca de oito anos, Maria, que residia em Porto Alegre, foi até a prefeitura de Santa Maria para localizar o terreno, que até então não conhecia, para pagar o seu IPTU – Imposto Sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana.

Mas ao chegar lá, não foi possível localizar seu terreno, apenas chegar a uma aproximação. Ele estaria situado no Bairro Nossa Senhora de Lourdes, próximo da rodoviária da cidade hoje. Na época, ela conseguiu encontrar a família de um dos lindeiros de seu terreno. No entanto, o patriarca, Seu João*, já havia falecido e a família não soube dar mais informações. Apenas confirmaram que sabiam que o pai de Maria possuía um terreno naquela região.

Em busca do “tesouro perdido”

Ao sabermos da história, entramos em contato com Maria. Munidos da escritura do terreno, iniciamos a busca por ele. O primeiro passo foi entrar em contato com a prefeitura de Santa Maria para acessar um mapa antigo da cidade e localizar a Vila Elwanger. Uma das referências que tínhamos é que um dos limites da área era a Travessa Segunda da Vila Elwanger, ao Leste. Depois de passarmos pelo Escritório da Cidade, pelo cadastro mobiliário, fomos parar no setor de IPTU.

Por meio da matrícula do imóvel, tentamos verificar quem paga o seu imposto. Contudo, o terreno nem sequer existia no banco de dados da prefeitura (o banco de dados foi digitalizado por volta da década de 1990). O que descobrimos é que o pai de Maria, falecido há 30 anos, está na dívida ativa do município em 2009, e que constam 13 terrenos em seu nome. Maria não fazia ideia de tal existência, já que a única escritura que ela e seus dois irmãos possuem é a do terreno que sumiu.

O próximo passo foi ir até o Registro de Imóveis de Santa Maria para solicitar uma atualização da matrícula. Tal atualização permite que seja identificado no nome de quem o terreno está, caso ele seja vendido ou haja o processo de usucapião, pois a sua matrícula é integrada a de outro terreno, originando uma matrícula nova. Após sete dias de espera, buscamos o documento no Registro de Imóveis e, para nossa surpresa, os dados contidos nele eram os mesmos da escritura, ou seja, nada mudou em 30 anos. O funcionário que nos atendeu disse que nunca conseguiríamos localizar o terreno.

Mais uma vez voltamos até o setor de IPTU da prefeitura e procuramos por mapas da região. Entre os documentos amarelados, desenhados à caneta e à lápis, encontramos um que fazia referência a localização da Vila Elwanger. Ela abrangia a região onde se situa a estação rodoviária de Santa Maria hoje, a partir da Rua Pedro Pereira ao leste (rua que dá acesso à Faixa Nova – RST 287), a sul até a BR 158. Porém, os seus limites do lado oeste e norte não foram possíveis de definir.

Clique nas imagens abaixo para expandi-las:

Mapa
Mapa situando a Vila Elwanger
Fotografia: Neli Mombelli

 

Mapa
Imagem por satélite que situa a Vila Elwanger hoje.
Fonte: Google Earth

A rua denominada Travessa Dois da Vila Elwanger, citada como limítrofe do terreno na escritura, ao que indicam as evidências, seria a atual Rua Geraldo Aronis. A referência para isso é um mapa antigo, encontrado na prefeitura, onde está escrito Antiga Travessa Dois junto à Aronis.

Travessa
Possível localização da Segunda Travessa
Fotografia: Neli Mombelli

Vizinhos: será que sabem de algo?

Fomos em busca de fontes, numa pesquisa de campo, para tentar encontrar os possíveis vizinhos do terreno lindeiro. Começamos pelas redondezas, perguntando nos barzinhos da localidade. A vizinhança não é formada somente de moradores novos, alguém no bairro teria que saber, pelo menos, alguma pista do paradeiro do terreno desaparecido. Primeira parada: barzinho local. Entretanto, não conseguimos nenhuma dica. Já na segunda parada, outro barzinho, conseguimos nossa primeira pista: nome e endereço de uma possível antiga moradora. Nos dirigimos até a casa e falamos com Ana*, moradora do local há 21 anos, que não sabia da história, mas tentou nos ajudar indicando outra moradora, que estava por ali há mais tempo. Fomos rapidamente para a casa indicada, em busca de uma nova pista, depois de várias batidas percebemos movimento e, finalmente, conversamos com Dona Jurema*, residente ali há 49 anos.  Ela conhecia o antigo lindeiro, e nos esclareceu algumas coisas, estávamos na pista certa.

O terreno onde ela mora hoje foi comprado de Seu João, lindeiro do terreno de Maria. O lote comprado fazia parte de uma área maior, que compreendia desde a BR 158, fazendo divisa com o terreno da rodoviária. As demais limitações não foram passíveis de definição. Porém, Dona Jurema comentou não conhecer Maria, nem o paradeiro da área desaparecida. Voltamos à estaca zero. Saindo do local nos encontramos novamente com Ana, que interessada em saber mais sobre o terreno nos indicou Seu Antônio*, também morador antigo, proprietários de terrenos próximos à rodoviária.

Seguimos para o endereço indicado e encontramos lá um senhor simpático, muito falante, que se dizia o morador mais antigo das redondezas. Esse era Seu Antônio. Desde 1959, ele habitava os terrenos em frente à rodoviária e afirmou conhecer Seu João, contudo também não tinha pistas sobre o terreno de Maria. Um dado importante levantado por ele é que o pai da Maria foi dono de muitas terras na cidade. Entre elas estava uma área nas proximidades da rodoviária. Mas, ele não sabia nos informar a respeito do terreno de Maria.

Hipóteses

Conforme os dados levantados junto à prefeitura e aos moradores antigos da Vila Elwanger, não há como inferir a possível localização do terreno. Mas podemos imaginar o que aconteceu com ele. Entre as hipóteses estão a de que o terreno foi anexado a outro (usucapião) sem o devido registro ou, até mesmo, “engolido” pelo lindeiro, já que as confrontações eram ao norte e sul, o que leva a supor que o terreno estava no meio de outros dois de posse de um mesmo proprietário, no caso, Seu João (lindeiro citado na escritura).

Documentos amarelados

Outro aspecto a ser levantado nessa investigação é a desatualização dos dados cadastrados na prefeitura. Seja por eles serem antigos – estarem, por exemplo, no nome de pessoas já falecidas, como o pai de Maria; seja por sequer existirem, como no caso de Maria. Ainda, olhando os mapas arquivados, parece necessário o seu arquivamento digital. Eles estão se deteriorando com o tempo, e as escritas, feitas à caneta e lápis, estão se apagando. Sem falar na inexistência de alguns mapas, pois não havia um para continuarmos a investigação.

Terra do nunca

Mesmo que localizado o terreno, Maria não conseguiria reavê-lo caso estivesse de posse de outra pessoa, em função de terem se passados 30 anos, uma vez que o prazo de requerimento de propriedade caduca. O que pretendíamos com essa investigação era saber o que realmente aconteceu com o terreno, pois se trata de uma situação extraordinária, mas da qual ninguém está livre.

* Nomes fictício