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Santa Maria, RS, Brazil

Kaingang, o índio em Santa Maria

Por Carina Carvalho,  Joana Günther, Karin Spezia, Lucas Amorim e Yuri Weber

“Álvaro fitou no índio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendera a poesia simples, mas graciosa; onde bebera a delicadeza de sensibilidade que dificilmente se encontra num coração gasto pelo atrito da sociedade? A cena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brasileira, tão rica e brilhante, era a imagem que produzia aquele espírito virgem, como o espelho das águas reflete o azul do céu”.

O Guarani, José de Alencar

Antes mesmo do índio estar presente na literatura brasileira, já estava nas páginas dos relatos de navegantes e viajantes que levavam para o mundo histórias dos povos indígenas. E um deles, Pedro Álvares Cabral, não descobriu o Brasil, descobriu uma terra habitada por diferentes tribos indígenas, descobriu uma infinidade de costumes, crenças, línguas, ora lembradas, ora esquecidas por um país que foi dominado por culturas exteriores, predominando, com o tempo, a “cultura do branco”.

Mas será que com o longo passar dos anos, a imagem do índio herói ligado à natureza está ficando no tempo e nas leituras obrigatórias das obras de literatura?

Segundo dados do censo demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 817 mil brasileiros se classificaram como indígenas. Comparando com pesquisas anteriores, o último levantamento revelou um aumento considerável da população nas áreas urbanas do país, sendo a comunidade indígena Kaingang uma das cinco mais populosas do território brasileiro.

Três Soitas

Uma parte desta população encontra-se em Santa Maria, mais especificamente na rua Pedro Santini, bairro Nossa Senhora de Lourdes. A aldeia denomina-se Três Soitas e é comandada há quatro anos pelo cacique Natanael Claudino, 44 anos.

Para saber de que forma a comunidade Kaingang está inserida na sociedade santa-mariense, nossa equipe de reportagem acompanhou por alguns dias a rotina das famílias da Aldeia Três Soitas. Entre uma conversa e outra, foi possível mergulhar na cultura indígena local e compreender um pouco da língua, do trabalho e dos costumes preservados por cada geração.

Desde 2012, para cultivar os ensinamentos dos antepassados, a Três Soitas conta com a Escola Estadual de Ensino Fundamental Augusto Opê da Silva, homenageando um importante líder indígena da região sul do Brasil. A Escola, que iniciou 2013 em greve pelas condições precárias de funcionamento, hoje recebe alunos do ensino básico na parte da manhã e turmas do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) à noite. A tarefa de ensinar a língua portuguesa e a Kaingang (que faz parte da família linguística Jê), é dividida entre três professores, o cacique Natanael Claudino Sidnei, Gabriel Cristão e Miriam Moresco. A educadora Mirian conta que admira o esforço e a vontade de aprender dos indígenas.

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=rdUlHoCJ4W0″]

Conheça o alfabeto Kaingang:

Vogais: A Á Ã E É Ẽ I Ĩ O Ó U Ũ Y Ỹ

Consoantes: F G H J K M N NH P R S T V

Além da Escola, a comunidade conta com uma horta comunitária, galinheiro, campo de futebol de areia e uma  área verde de onde é tirada a matéria-prima para a confecção do artesanato, arte passada com orgulho por gerações da tribo Kaingang e que ajuda a sustentar aqueles moradores que não têm outra fonte de renda.

Os “gritos” desta e das demais comunidades de Santa Maria ganharam mais força com a criação, há sete anos, do Grupo de Apoio aos Povos Indígenas (GAPIN), uma organização de apoio, militância e articulação das questões indígenas. Uma das lutas encabeçadas pelo Gapin está atrelada à busca pela demarcação de terras indígenas (ouça a entrevista com Matias Rempel no quadro ao lado).

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=UbwwPsYQT-0″]

Além de manter a cultura, outra preocupação dos indígenas é com a preservação genética de seu povo. Segundo o cacique Natanael Claudino, há um grande cuidado com a identificação tribal de cada membro da aldeia no momento do casamento. Essa distinção é feita por pinturas circulares ou verticais pelo corpo por distinções hierárquicas para que indígenas descendentes de Kamé casem sempre com indígenas descendentes de Kairu, não havendo reprodução de pessoas do mesmo sangue e consequentemente o nascimento de uma criança com doenças genéticas. Estes elementos, circulares e verticais, são chamados de “marcas tribais”, percebidas também no artesanato elaborado pelos Kaingang.

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=NJi6B6SvEWw”]

A matéria prima utilizada para a fabricação dos artesanatos é cedida, nas palavras do cacique, pela “Mãe Terra”. Para os indígenas a terra não tem valor comercial, já que para eles trata-se de uma herança de seus ancestrais. Denominar a terra como mãe é considerá-la como o maior bem para os índios. Sem a terra não há vida indígena, não há como perpetuar as tribos.

No dia 26 de setembro de 2013, foi lançada a revista em quadrinhos “As aventuras do indiozinho Bretã”. A obra foi produzida a partir de histórias contadas pelas próprias crianças da aldeia Três Soitas. A revista, que é bilíngue – em português e kaingang- disponibiliza para os leitores um instrumento de aprendizagem, pois as histórias mostram a interação dos valores de uma criança indígena com o dia a dia de uma sociedade em que o índio, muitas vezes, é vítima de olhares preconceituosos.

No segundo semestre de 2013, a tribo enfrenta momentos decisivos referentes à moradia. Mesmo fixada há mais de 20 anos no mesmo local, a aldeia Três Soitas encontra dificuldade para provar a posse da terra.Ouça no quadro abaixo o áudio com a explicação de Matias Rempel referente ao terreno da tribo.

Para mais informações sobre as tribos Kaingang brasileiras, além de visitá-los na rua Pedro Santini, bairro Nossa Senhora de Lourdes, em Santa Maria, você pode acessar o site www.portalkaingang.org

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Por Carina Carvalho,  Joana Günther, Karin Spezia, Lucas Amorim e Yuri Weber

“Álvaro fitou no índio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendera a poesia simples, mas graciosa; onde bebera a delicadeza de sensibilidade que dificilmente se encontra num coração gasto pelo atrito da sociedade? A cena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brasileira, tão rica e brilhante, era a imagem que produzia aquele espírito virgem, como o espelho das águas reflete o azul do céu”.

O Guarani, José de Alencar

Antes mesmo do índio estar presente na literatura brasileira, já estava nas páginas dos relatos de navegantes e viajantes que levavam para o mundo histórias dos povos indígenas. E um deles, Pedro Álvares Cabral, não descobriu o Brasil, descobriu uma terra habitada por diferentes tribos indígenas, descobriu uma infinidade de costumes, crenças, línguas, ora lembradas, ora esquecidas por um país que foi dominado por culturas exteriores, predominando, com o tempo, a “cultura do branco”.

Mas será que com o longo passar dos anos, a imagem do índio herói ligado à natureza está ficando no tempo e nas leituras obrigatórias das obras de literatura?

Segundo dados do censo demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 817 mil brasileiros se classificaram como indígenas. Comparando com pesquisas anteriores, o último levantamento revelou um aumento considerável da população nas áreas urbanas do país, sendo a comunidade indígena Kaingang uma das cinco mais populosas do território brasileiro.

Três Soitas

Uma parte desta população encontra-se em Santa Maria, mais especificamente na rua Pedro Santini, bairro Nossa Senhora de Lourdes. A aldeia denomina-se Três Soitas e é comandada há quatro anos pelo cacique Natanael Claudino, 44 anos.

Para saber de que forma a comunidade Kaingang está inserida na sociedade santa-mariense, nossa equipe de reportagem acompanhou por alguns dias a rotina das famílias da Aldeia Três Soitas. Entre uma conversa e outra, foi possível mergulhar na cultura indígena local e compreender um pouco da língua, do trabalho e dos costumes preservados por cada geração.

Desde 2012, para cultivar os ensinamentos dos antepassados, a Três Soitas conta com a Escola Estadual de Ensino Fundamental Augusto Opê da Silva, homenageando um importante líder indígena da região sul do Brasil. A Escola, que iniciou 2013 em greve pelas condições precárias de funcionamento, hoje recebe alunos do ensino básico na parte da manhã e turmas do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) à noite. A tarefa de ensinar a língua portuguesa e a Kaingang (que faz parte da família linguística Jê), é dividida entre três professores, o cacique Natanael Claudino Sidnei, Gabriel Cristão e Miriam Moresco. A educadora Mirian conta que admira o esforço e a vontade de aprender dos indígenas.

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=rdUlHoCJ4W0″]

Conheça o alfabeto Kaingang:

Vogais: A Á Ã E É Ẽ I Ĩ O Ó U Ũ Y Ỹ

Consoantes: F G H J K M N NH P R S T V

Além da Escola, a comunidade conta com uma horta comunitária, galinheiro, campo de futebol de areia e uma  área verde de onde é tirada a matéria-prima para a confecção do artesanato, arte passada com orgulho por gerações da tribo Kaingang e que ajuda a sustentar aqueles moradores que não têm outra fonte de renda.

Os “gritos” desta e das demais comunidades de Santa Maria ganharam mais força com a criação, há sete anos, do Grupo de Apoio aos Povos Indígenas (GAPIN), uma organização de apoio, militância e articulação das questões indígenas. Uma das lutas encabeçadas pelo Gapin está atrelada à busca pela demarcação de terras indígenas (ouça a entrevista com Matias Rempel no quadro ao lado).

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=UbwwPsYQT-0″]

Além de manter a cultura, outra preocupação dos indígenas é com a preservação genética de seu povo. Segundo o cacique Natanael Claudino, há um grande cuidado com a identificação tribal de cada membro da aldeia no momento do casamento. Essa distinção é feita por pinturas circulares ou verticais pelo corpo por distinções hierárquicas para que indígenas descendentes de Kamé casem sempre com indígenas descendentes de Kairu, não havendo reprodução de pessoas do mesmo sangue e consequentemente o nascimento de uma criança com doenças genéticas. Estes elementos, circulares e verticais, são chamados de “marcas tribais”, percebidas também no artesanato elaborado pelos Kaingang.

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=NJi6B6SvEWw”]

A matéria prima utilizada para a fabricação dos artesanatos é cedida, nas palavras do cacique, pela “Mãe Terra”. Para os indígenas a terra não tem valor comercial, já que para eles trata-se de uma herança de seus ancestrais. Denominar a terra como mãe é considerá-la como o maior bem para os índios. Sem a terra não há vida indígena, não há como perpetuar as tribos.

No dia 26 de setembro de 2013, foi lançada a revista em quadrinhos “As aventuras do indiozinho Bretã”. A obra foi produzida a partir de histórias contadas pelas próprias crianças da aldeia Três Soitas. A revista, que é bilíngue – em português e kaingang- disponibiliza para os leitores um instrumento de aprendizagem, pois as histórias mostram a interação dos valores de uma criança indígena com o dia a dia de uma sociedade em que o índio, muitas vezes, é vítima de olhares preconceituosos.

No segundo semestre de 2013, a tribo enfrenta momentos decisivos referentes à moradia. Mesmo fixada há mais de 20 anos no mesmo local, a aldeia Três Soitas encontra dificuldade para provar a posse da terra.Ouça no quadro abaixo o áudio com a explicação de Matias Rempel referente ao terreno da tribo.

Para mais informações sobre as tribos Kaingang brasileiras, além de visitá-los na rua Pedro Santini, bairro Nossa Senhora de Lourdes, em Santa Maria, você pode acessar o site www.portalkaingang.org