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Quando “ser invisível” dói mais que dormir nas ruas: depoimento de um morador de rua de Santa Maria

O morador de rua José Carlos, em frente a um supermercado da cidade, esperando doações
O morador de rua José Carlos, em frente a um supermercado da cidade, esperando doações. Foto: Thais Hoerlle.

Na correria diária, são poucas as pessoas que conseguem ter a sensibilidade de olhar em volta e notar que existe uma vida paralela nas ruas da cidade. Fragilizadas pelas circunstâncias, as pessoas que têm como único abrigo as marquises de lojas da cidade, além de estarem em situação de desproteção, muitas vezes nem são percebidas por quem circula entre uma via e outra de Santa Maria.

Para entender um pouco mais sobre a realidade de quem vive na rua, conversei com o morador José Carlos Mainardi, 46,  que está nas ruas há 13 anos. Desde a morte de sua esposa, em Porto Alegre, José veio para Santa Maria buscar uma nova vida e até um emprego na construção civil. No entanto, a instabilidade emocional frente à falta de trabalho e o fim do dinjheiro, levaram ao alcoolismo e à depressão.

José já tentou alguns tratamentos para vencer a luta contra a bebida, porém sem sucesso. Ele prefere dormir em bancos de praças do centro da cidade e conta com a generosidade de moradores da região central para sobreviver. Com uma mochila nas costas, José carrega tudo o que tem: roupas, documentos e seu título de eleitor.

Com segundo grau completo, o simpático senhor mostra discernimento e conhecimento sobre a realidade que o cerca, e conta como percebe a indiferença da sociedade em relação aos moradores de rua.

“As pessoas estão ocupadas demais para se preocuparem com o próximo. Julgam que somos vagabundos, que não queremos trabalhar, que não corremos atrás do nosso espaço. Mas só quem vive essa situação sabe como é difícil sair do fundo do poço. Só quem conhece a depressão e entende que alcoolismo é uma doença pode julgar, mas não, preferem atirar a pedra primeiro”, relata José.

O morador faz questão de ressaltar que sempre optou por fugir das drogas e da violência e só busca viver em paz. Quando pergunto sobre seus planos para o futuro, José lamenta, “é difícil criar planos quando não se consegue visualizar nem o próximo amanhecer. Aqui, a gente vale o que tem no bolso, se tiver cinco reais, vai valer só cinco reais”.

Por acreditar que é mais seguro estar distante das demais pessoas na mesma situação, José não procura a ajuda de albergues. “Quando junta mais de dois moradores de rua no mesmo espaço, já é considerado perigo a sociedade.Somos vistos como quadrilha”, acrescenta.

Com a voz embargada, destacou que apesar dos problemas financeiros e a disância da família, o principal drama vivido é ser ignorado e desconsiderado pela  sociedade. “Eu existo, eu ainda existo, e só quero ser visto como um homem, como um cidadão, não sou um saco de lixo que o caminhão esqueceu de levar para o aterro, eu sei que existo, eu sinto que existo, e quero ser visto assim”, finaliza.

  Por Thais Hoerlle, para a disciplina de Jornalismo Online

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O morador de rua José Carlos, em frente a um supermercado da cidade, esperando doações
O morador de rua José Carlos, em frente a um supermercado da cidade, esperando doações. Foto: Thais Hoerlle.

Na correria diária, são poucas as pessoas que conseguem ter a sensibilidade de olhar em volta e notar que existe uma vida paralela nas ruas da cidade. Fragilizadas pelas circunstâncias, as pessoas que têm como único abrigo as marquises de lojas da cidade, além de estarem em situação de desproteção, muitas vezes nem são percebidas por quem circula entre uma via e outra de Santa Maria.

Para entender um pouco mais sobre a realidade de quem vive na rua, conversei com o morador José Carlos Mainardi, 46,  que está nas ruas há 13 anos. Desde a morte de sua esposa, em Porto Alegre, José veio para Santa Maria buscar uma nova vida e até um emprego na construção civil. No entanto, a instabilidade emocional frente à falta de trabalho e o fim do dinjheiro, levaram ao alcoolismo e à depressão.

José já tentou alguns tratamentos para vencer a luta contra a bebida, porém sem sucesso. Ele prefere dormir em bancos de praças do centro da cidade e conta com a generosidade de moradores da região central para sobreviver. Com uma mochila nas costas, José carrega tudo o que tem: roupas, documentos e seu título de eleitor.

Com segundo grau completo, o simpático senhor mostra discernimento e conhecimento sobre a realidade que o cerca, e conta como percebe a indiferença da sociedade em relação aos moradores de rua.

“As pessoas estão ocupadas demais para se preocuparem com o próximo. Julgam que somos vagabundos, que não queremos trabalhar, que não corremos atrás do nosso espaço. Mas só quem vive essa situação sabe como é difícil sair do fundo do poço. Só quem conhece a depressão e entende que alcoolismo é uma doença pode julgar, mas não, preferem atirar a pedra primeiro”, relata José.

O morador faz questão de ressaltar que sempre optou por fugir das drogas e da violência e só busca viver em paz. Quando pergunto sobre seus planos para o futuro, José lamenta, “é difícil criar planos quando não se consegue visualizar nem o próximo amanhecer. Aqui, a gente vale o que tem no bolso, se tiver cinco reais, vai valer só cinco reais”.

Por acreditar que é mais seguro estar distante das demais pessoas na mesma situação, José não procura a ajuda de albergues. “Quando junta mais de dois moradores de rua no mesmo espaço, já é considerado perigo a sociedade.Somos vistos como quadrilha”, acrescenta.

Com a voz embargada, destacou que apesar dos problemas financeiros e a disância da família, o principal drama vivido é ser ignorado e desconsiderado pela  sociedade. “Eu existo, eu ainda existo, e só quero ser visto como um homem, como um cidadão, não sou um saco de lixo que o caminhão esqueceu de levar para o aterro, eu sei que existo, eu sinto que existo, e quero ser visto assim”, finaliza.

  Por Thais Hoerlle, para a disciplina de Jornalismo Online