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Santa Maria, RS, Brazil

A partida silenciosa ou como dizer da violência obstétrica

Fonte: Google
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Depois da descoberta, a preparação. O corpo da mulher não é o único a sofrer mudanças, o espaço da casa também muda e se adapta aos poucos. É um processo nem sempre rotineiro  com fraldas, roupinhas (e lavagem das peças), idas ao obstetra e na hora do descanso, leituras e conversas sobre puerpério com amigas que já passaram por isso ou estão na mesma fase são quase tão obrigatórias quanto o pré-natal. Algumas pessoas já entenderam que, graças à oscilação hormonal, grávidas são verdadeiras esponjas humanas e absorvem tudo o que é repassado a elas. Com todos os estudos que apontaram que os bebês partilham dos sentimentos de suas progenitoras, o que as pessoas não entenderam foi que de nada adianta se esmerar para que a grávida seja poupada, deixando de abordar determinados assuntos ou tentando desviar a atenção para que planejem o parto perfeito.

Mulheres são violentadas silenciosamente em centros obstétricos todos os dias por conta da falta de informação. Não foi para “inventar mais uma moda” para quem opta por levar um estilo de vida mais natural e sem tantas intervenções externas que o parto humanizado entrou em evidência, foi uma forma mais amena de, além de apresentar soluções, tratar de um assunto sério que resulta em uma série de problemas. Afinal de contas, nenhum parto ou bebê vem com manual de instruções e quanto mais preparada a mulher estiver, melhor. Acontece que gestante nenhuma percebe essa violência no momento exato. Sabe que algo está fora do planejado para o parto dos sonhos, nada além disso. Por vezes é tratada como se fosse apenas um meio para dar vida a outro ser humano. Eu mesma não busquei saber sobre o assunto. Não acreditava que poderia acontecer comigo. Quem olha de fora e ouve os relatos, lança olhares de reprovação por eu reclamar “de barriga cheia”.

Não exageraram nos exames de toque, me colocaram no soro imediatamente depois de dar baixa na maternidade, enfermeiros apareciam de hora em hora para checar o bem-estar do meu filho, fui levada e buscada de cadeira de rodas no ultrassom para que eu não ficasse muito tempo em pé, fizeram a assepsia genital e sugeriram que eu tomasse um banho antes da cesariana. E eu pude tocar no meu filho logo depois de seu nascimento! Em seguida, na sala de recuperação, continuaram monitorando minha pressão arterial e meu filho ficou comigo até que fôssemos levados ao quarto. Que sorte a minha não ter tempo de sentir as dores das contrações!

Durante as 20 horas que antecederam a cesariana, foi feito apenas um exame de toque ainda na triagem. Passei fome por mais de 15h, já que me colocaram no soro normal em vez do soro glicosado não uma, mas duas vezes (sem contar todos os momentos que a enfermeira me mandou ficar quieta e parar de pedir comida e água, pois ela não queria que eu defecasse ou urinasse na hora do parto). Pedi diversas vezes que alguém caminhasse comigo pelo corredor para tentar diminuir as dores na lombar, mas me mandaram ficar deitada e “bem quietinha”. Esperei uma hora pelo ultrassom sem ter onde sentar, e mais 45 minutos na mesma situação até me buscarem de novo depois de ouvir de uma estudante apavorada que estava sem quase nada líquido amniótico.

Quatro pessoas me seguraram, uma em cada extremidade do corpo, enquanto uma enfermeira colocava a sonda e outra depilava a região, em meio a súplicas para que eu pudesse tentar arranjar uma posição melhor para deitar. Quando falei que queria parto normal, fui tolhida imediatamente pois, além de estar sem líquido amniótico, o exame de toque feito às 22h do dia anterior alegava que eu não tinha dilatação suficiente, por isso optaram por uma cesariana. Assim que meu filho nasceu, o vi de relance e demoraram mais de 10 minutos para que pudesse encostar nele… Por segundos. Disseram que estava tudo bem. Na sala de recuperação, quatro horas depois do parto, meu filho foi levado até mim. Outra enfermeira me xingava por ele ter tomado complemento em pó e não querer mamar – claro que a culpa por isso era minha, que eu já era uma mãe inútil e que mulheres como eu não deveriam procriar.

Passei por tudo isso quase sozinha, já que não permitiram acompanhantes. A pediatra, que deveria ter ido falar comigo no dia seguinte ao parto, foi aparecer dois dias depois pouco antes de recebermos alta. O leite desceu apenas 3 dias depois, então meu filho precisou do suplemento no primeiro momento. Mesmo sabendo que a solução em pó deve ser consumida dentro de meia hora, as enfermeiras ou se negavam a preparar um novo e mandavam tomar o que estava na mamadeira há duas horas ou faziam na extrema má vontade, me xingando e dizendo que eu estava louca, que “leite empedrado não existe”. Apenas no segundo dia de internação que me disseram que ele havia nascido com taquipnéia transitória, resultante da cesariana eletiva antes da hora. Já faz quase cinco anos.

Fico muito feliz que meu filho esteja bem – mesmo sofrendo de asma, consequência do problema ao nascer -, de poder acompanhar seu crescimento e expandir as leituras para títulos que dão alternativas para momentos de birra e brincadeiras diversas. Outras mães já não tem a mesma sorte. Outros filhos já não tem a mesma sorte. As dores físicas passam, mas é traumatizante passar por uma situação dessas. Ninguém deve se acostumar com isso, é inadmissível o “dane-se a mãe, é só a criança que importa” das entrelinhas. As duas vidas ali importam igualmente e os cuidados com as mães na fase do puerpério deveria ser naturalmente maior, não uma alternativa melhor.

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Depois da descoberta, a preparação. O corpo da mulher não é o único a sofrer mudanças, o espaço da casa também muda e se adapta aos poucos. É um processo nem sempre rotineiro  com fraldas, roupinhas (e lavagem das peças), idas ao obstetra e na hora do descanso, leituras e conversas sobre puerpério com amigas que já passaram por isso ou estão na mesma fase são quase tão obrigatórias quanto o pré-natal. Algumas pessoas já entenderam que, graças à oscilação hormonal, grávidas são verdadeiras esponjas humanas e absorvem tudo o que é repassado a elas. Com todos os estudos que apontaram que os bebês partilham dos sentimentos de suas progenitoras, o que as pessoas não entenderam foi que de nada adianta se esmerar para que a grávida seja poupada, deixando de abordar determinados assuntos ou tentando desviar a atenção para que planejem o parto perfeito.

Mulheres são violentadas silenciosamente em centros obstétricos todos os dias por conta da falta de informação. Não foi para “inventar mais uma moda” para quem opta por levar um estilo de vida mais natural e sem tantas intervenções externas que o parto humanizado entrou em evidência, foi uma forma mais amena de, além de apresentar soluções, tratar de um assunto sério que resulta em uma série de problemas. Afinal de contas, nenhum parto ou bebê vem com manual de instruções e quanto mais preparada a mulher estiver, melhor. Acontece que gestante nenhuma percebe essa violência no momento exato. Sabe que algo está fora do planejado para o parto dos sonhos, nada além disso. Por vezes é tratada como se fosse apenas um meio para dar vida a outro ser humano. Eu mesma não busquei saber sobre o assunto. Não acreditava que poderia acontecer comigo. Quem olha de fora e ouve os relatos, lança olhares de reprovação por eu reclamar “de barriga cheia”.

Não exageraram nos exames de toque, me colocaram no soro imediatamente depois de dar baixa na maternidade, enfermeiros apareciam de hora em hora para checar o bem-estar do meu filho, fui levada e buscada de cadeira de rodas no ultrassom para que eu não ficasse muito tempo em pé, fizeram a assepsia genital e sugeriram que eu tomasse um banho antes da cesariana. E eu pude tocar no meu filho logo depois de seu nascimento! Em seguida, na sala de recuperação, continuaram monitorando minha pressão arterial e meu filho ficou comigo até que fôssemos levados ao quarto. Que sorte a minha não ter tempo de sentir as dores das contrações!

Durante as 20 horas que antecederam a cesariana, foi feito apenas um exame de toque ainda na triagem. Passei fome por mais de 15h, já que me colocaram no soro normal em vez do soro glicosado não uma, mas duas vezes (sem contar todos os momentos que a enfermeira me mandou ficar quieta e parar de pedir comida e água, pois ela não queria que eu defecasse ou urinasse na hora do parto). Pedi diversas vezes que alguém caminhasse comigo pelo corredor para tentar diminuir as dores na lombar, mas me mandaram ficar deitada e “bem quietinha”. Esperei uma hora pelo ultrassom sem ter onde sentar, e mais 45 minutos na mesma situação até me buscarem de novo depois de ouvir de uma estudante apavorada que estava sem quase nada líquido amniótico.

Quatro pessoas me seguraram, uma em cada extremidade do corpo, enquanto uma enfermeira colocava a sonda e outra depilava a região, em meio a súplicas para que eu pudesse tentar arranjar uma posição melhor para deitar. Quando falei que queria parto normal, fui tolhida imediatamente pois, além de estar sem líquido amniótico, o exame de toque feito às 22h do dia anterior alegava que eu não tinha dilatação suficiente, por isso optaram por uma cesariana. Assim que meu filho nasceu, o vi de relance e demoraram mais de 10 minutos para que pudesse encostar nele… Por segundos. Disseram que estava tudo bem. Na sala de recuperação, quatro horas depois do parto, meu filho foi levado até mim. Outra enfermeira me xingava por ele ter tomado complemento em pó e não querer mamar – claro que a culpa por isso era minha, que eu já era uma mãe inútil e que mulheres como eu não deveriam procriar.

Passei por tudo isso quase sozinha, já que não permitiram acompanhantes. A pediatra, que deveria ter ido falar comigo no dia seguinte ao parto, foi aparecer dois dias depois pouco antes de recebermos alta. O leite desceu apenas 3 dias depois, então meu filho precisou do suplemento no primeiro momento. Mesmo sabendo que a solução em pó deve ser consumida dentro de meia hora, as enfermeiras ou se negavam a preparar um novo e mandavam tomar o que estava na mamadeira há duas horas ou faziam na extrema má vontade, me xingando e dizendo que eu estava louca, que “leite empedrado não existe”. Apenas no segundo dia de internação que me disseram que ele havia nascido com taquipnéia transitória, resultante da cesariana eletiva antes da hora. Já faz quase cinco anos.

Fico muito feliz que meu filho esteja bem – mesmo sofrendo de asma, consequência do problema ao nascer -, de poder acompanhar seu crescimento e expandir as leituras para títulos que dão alternativas para momentos de birra e brincadeiras diversas. Outras mães já não tem a mesma sorte. Outros filhos já não tem a mesma sorte. As dores físicas passam, mas é traumatizante passar por uma situação dessas. Ninguém deve se acostumar com isso, é inadmissível o “dane-se a mãe, é só a criança que importa” das entrelinhas. As duas vidas ali importam igualmente e os cuidados com as mães na fase do puerpério deveria ser naturalmente maior, não uma alternativa melhor.