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Na busca por emprego, crise financeira pode ser empecilho

A fase turbulenta por que o Brasil passa na política acaba refletindo no setor econômico. Com o atual cenário, mais e mais pessoas são empurradas para o trabalho informal. Em meio a demissões e à menor oferta de vagas, a saída pode estar nos “bicos” ou em um pequeno negócio. Devido ao aumento dos impostos e com a inflação batendo à porta, a carteira assinada permanece como um sonho distante para muitos cidadãos.

Entre os sintomas da mundialização da crise está a taxa de desemprego no Brasil, próxima às de países como França e Portugal.
Entre os sintomas da mundialização da crise está a taxa de desemprego no Brasil, próxima às de países como França e Portugal. No entanto, estamos longe da Espanha, por exemplo, que vive desemprego acima de 20% nos últimos anos.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar Continua (PNADC) do IBGE, desde o primeiro trimestre de 2016, os dados indicam que o aumento do desemprego foi causado majoritariamente pela queda da população ocupada, tendo sido reduzida a contribuição da população economicamente ativa. Por outro lado, o aumento do desemprego não tem sido ainda mais intenso porque muitos trabalhadores têm decidido  tornarem-se autônomos. A taxa de desemprego vem num crescente, e alcançou 11,2%, 3,2 pontos acima do observado no mesmo período de 2015. O setor populacional mais atingido é os jovens entre 14 e 24 anos. Apesar desses números, os pesquisadores explicam que o crescimento do desemprego não está atrelado ao aumento dos desligamentos, mas sim a uma diminuição de contratações.

Para o Coordenador Regional FGTAS/ SINE Carlos Vianna, isso foi um dos motivos que acarretou a onda de desemprego na cidade. “Devido a algumas conversas que tivemos com o empresariado, constatamos que, eles estavam demitindo e optando por reorganizar toda a metodologia de trabalho da empresa, com os funcionários que sobraram, ou seja, eles não estavam repondo aquele funcionário que foi demitido”, ressalta.

Joaquim, de empregado a autônomo. Foto: Róger Haeffner.
Joaquim, de empregado a autônomo. Foto: Róger Haeffner.

Para Joaquim Oliveira, 38 anos, o trabalho informal pode ter suas mazelas, mas, com criatividade e um bom “jogo de cintura”, pode-se ganhar a vida.“Comecei como funcionário em uma empresa de som automotivo. O tempo passou, mas a vontade de construir algo próprio sempre se manteve presente”, relembra. Com cautela e força de vontade as metas foram alcançadas. Hoje, Joaquim vive da realização de suas antigas aspirações. “Como todo o início, não foi fácil, mas, de tijolo em tijolo, fui construindo meu negócio”, ressalta.

Para Medianeira, carteira assinada não é prioridade, o mais importante é a liberdade de horários. Foto: Róger Haeffner.
Para Medianeira, carteira assinada não é prioridade, o mais importante é a liberdade de horários. Foto: Róger Haeffner.

Sempre bem solícita e dona de um sorriso cativante, a diarista Medianeira Silva, 49 anos, não reclama da vida. Com muita disposição, ela encara a correria do dia a dia como um gigante, ainda que tenha 1,63m de altura. Acorda bem cedo para arruma a casa antes de sair, e só retorna ao anoitecer. “Meu crachá é meu sorriso! Há mais de vinte anos estou nesta atividade, comecei com minha mãe, e nunca mais parei”, lembra. Nunca se preocupou com carteira assinada, pois sempre quis ser dona do seu horário. “Sei que acabo perdendo, mas prefiro fazer meu horário”, assegura. Sobre os sonhos para o futuro, a diarista afirma: “Meus filhos estão criados, e as únicas preocupações que ainda tenho são comigo e meu namorado”, completa, numa gargalhada.

A queda do número de trabalhadores formais (e também de empregados sem carteira) está sendo mais forte que a de ocupados, situação que se agravou no primeiro trimestre deste ano. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), entre janeiro e março de 2016, foram encerradas mais de 320 mil vagas formais, contra cerca de 65 mil no mesmo período do ano passado.

O economista e professor do Curso de Economia do Centro Universitário Franciscano, Mateus Frozza, explica que a informalidade tem dois atenuantes. O primeiro deles se dá quando o funcionário é conivente com esta situação. Aqui, há a ilusão de que a ausência de sua contribuição não terá risco futuro, quando, na verdade, terá, não apenas em termos de aposentadoria, mas também no auxílio invalidez, gestão e acidentes no trabalho. O segundo atenuante liga-se ao momento econômico, no qual, com pouca renda ou sem emprego, a única saída para muitos é ser empreendedor por necessidade e, assim, não pagar imposto. Frozza destaca “atividades de vendedores de lanches, sacoleiras, artesanato, doces etc”. Para o professor, este balanço se agrava pelas mudanças na concessão do seguro desemprego, e principalmente pela não abertura de vagas temporárias em datas comemorativas. Tudo acaba contribuindo para o aumento da informalidade – cidadãos que trabalham sem carteira assinada, ou que simplesmente não contribuem com o INSS.

Josué: do trabalho informal à carteira assinada. Foto: Róger Haeffner.
Josué: do trabalho informal à carteira assinada. Foto: Róger Haeffner.

Metódico, perfeccionista — são algumas de suas qualidades. Com paciência, as canaletas são instaladas e os fios vão se interligando, como um passe de mágica a luz se ascende. Assim é a rotina de Josué Vidal, 34 anos, um rapaz que buscou nos seus bicos como eletricista uma profissão, até que a atividade deixasse de ser um trabalho informal. “Comecei a trabalhar cedo, pois sempre quis ganhar meu próprio dinheiro. Entrei nesta profissão devido aos ensinamentos de um amigo, e aos trabalhos esporádicos que fazia”, relata. Mesmo com os trabalhos que sempre apareciam, Vidal era preocupado: “E se um dia me acontece algo? Não terei as garantias legais que uma profissão regularizada ampara! ”. O tempo passou, e o desejo de ter a profissão regularizada se materializou com a carteira finalmente assinada.

Santa Maria também sente o reflexo da crise que se alastra pelo país. Para o Coordenador Regional FGTAS/ SINE Carlos Vianna, isso se dá pelo ano excessivo que passamos. “Foi um ano que apresentou dificuldades econômicas, tanto para o empresariado, quanto para os demais órgãos empregadores de Santa Maria”, relata o Coordenador do SINE. Foi constatada uma recessão de cerca de 450 vagas de emprego em Santa Maria. “Isso, com certeza, acarreta uma demanda muito grande de oferta de mão de obra, fazendo com que as vagas que estão disponíveis com os empregadores tenham uma oferta maior de qualidade”, relata Vianna. O que nos mostra isso? Que as vagas não estão sendo preenchidas por pessoas que não possuem uma experiência no mercado de trabalho, e, sim, por aqueles que já a adquiriram.

O economista Mateus Frozza, observa que “as pessoas trabalham em negócios formais, com CNPJ – empresa constituída, mas em que os funcionários exercem atividade informal, posso citar as manicures, pedicures e free lancer”, exemplifica. Em tempos de crise, é natural que as pessoas busquem outra opção de renda, mas Frozza lembra que infelizmente poucos conseguem se manter. “Essa decisão de partir para o mercado informal é por falta de opção mesmo, porque quem está no mercado formal tem todas aquelas vantagens, como FGTS, PIS, férias. Essa tendência de aumento da informalidade só deve mudar quando a economia melhorar”, constata.

Por Róger Haeffner, para a disciplina Jornalismo Especializado I, do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano (1º semestre /2016).

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A fase turbulenta por que o Brasil passa na política acaba refletindo no setor econômico. Com o atual cenário, mais e mais pessoas são empurradas para o trabalho informal. Em meio a demissões e à menor oferta de vagas, a saída pode estar nos “bicos” ou em um pequeno negócio. Devido ao aumento dos impostos e com a inflação batendo à porta, a carteira assinada permanece como um sonho distante para muitos cidadãos.

Entre os sintomas da mundialização da crise está a taxa de desemprego no Brasil, próxima às de países como França e Portugal.
Entre os sintomas da mundialização da crise está a taxa de desemprego no Brasil, próxima às de países como França e Portugal. No entanto, estamos longe da Espanha, por exemplo, que vive desemprego acima de 20% nos últimos anos.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar Continua (PNADC) do IBGE, desde o primeiro trimestre de 2016, os dados indicam que o aumento do desemprego foi causado majoritariamente pela queda da população ocupada, tendo sido reduzida a contribuição da população economicamente ativa. Por outro lado, o aumento do desemprego não tem sido ainda mais intenso porque muitos trabalhadores têm decidido  tornarem-se autônomos. A taxa de desemprego vem num crescente, e alcançou 11,2%, 3,2 pontos acima do observado no mesmo período de 2015. O setor populacional mais atingido é os jovens entre 14 e 24 anos. Apesar desses números, os pesquisadores explicam que o crescimento do desemprego não está atrelado ao aumento dos desligamentos, mas sim a uma diminuição de contratações.

Para o Coordenador Regional FGTAS/ SINE Carlos Vianna, isso foi um dos motivos que acarretou a onda de desemprego na cidade. “Devido a algumas conversas que tivemos com o empresariado, constatamos que, eles estavam demitindo e optando por reorganizar toda a metodologia de trabalho da empresa, com os funcionários que sobraram, ou seja, eles não estavam repondo aquele funcionário que foi demitido”, ressalta.

Joaquim, de empregado a autônomo. Foto: Róger Haeffner.
Joaquim, de empregado a autônomo. Foto: Róger Haeffner.

Para Joaquim Oliveira, 38 anos, o trabalho informal pode ter suas mazelas, mas, com criatividade e um bom “jogo de cintura”, pode-se ganhar a vida.“Comecei como funcionário em uma empresa de som automotivo. O tempo passou, mas a vontade de construir algo próprio sempre se manteve presente”, relembra. Com cautela e força de vontade as metas foram alcançadas. Hoje, Joaquim vive da realização de suas antigas aspirações. “Como todo o início, não foi fácil, mas, de tijolo em tijolo, fui construindo meu negócio”, ressalta.

Para Medianeira, carteira assinada não é prioridade, o mais importante é a liberdade de horários. Foto: Róger Haeffner.
Para Medianeira, carteira assinada não é prioridade, o mais importante é a liberdade de horários. Foto: Róger Haeffner.

Sempre bem solícita e dona de um sorriso cativante, a diarista Medianeira Silva, 49 anos, não reclama da vida. Com muita disposição, ela encara a correria do dia a dia como um gigante, ainda que tenha 1,63m de altura. Acorda bem cedo para arruma a casa antes de sair, e só retorna ao anoitecer. “Meu crachá é meu sorriso! Há mais de vinte anos estou nesta atividade, comecei com minha mãe, e nunca mais parei”, lembra. Nunca se preocupou com carteira assinada, pois sempre quis ser dona do seu horário. “Sei que acabo perdendo, mas prefiro fazer meu horário”, assegura. Sobre os sonhos para o futuro, a diarista afirma: “Meus filhos estão criados, e as únicas preocupações que ainda tenho são comigo e meu namorado”, completa, numa gargalhada.

A queda do número de trabalhadores formais (e também de empregados sem carteira) está sendo mais forte que a de ocupados, situação que se agravou no primeiro trimestre deste ano. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), entre janeiro e março de 2016, foram encerradas mais de 320 mil vagas formais, contra cerca de 65 mil no mesmo período do ano passado.

O economista e professor do Curso de Economia do Centro Universitário Franciscano, Mateus Frozza, explica que a informalidade tem dois atenuantes. O primeiro deles se dá quando o funcionário é conivente com esta situação. Aqui, há a ilusão de que a ausência de sua contribuição não terá risco futuro, quando, na verdade, terá, não apenas em termos de aposentadoria, mas também no auxílio invalidez, gestão e acidentes no trabalho. O segundo atenuante liga-se ao momento econômico, no qual, com pouca renda ou sem emprego, a única saída para muitos é ser empreendedor por necessidade e, assim, não pagar imposto. Frozza destaca “atividades de vendedores de lanches, sacoleiras, artesanato, doces etc”. Para o professor, este balanço se agrava pelas mudanças na concessão do seguro desemprego, e principalmente pela não abertura de vagas temporárias em datas comemorativas. Tudo acaba contribuindo para o aumento da informalidade – cidadãos que trabalham sem carteira assinada, ou que simplesmente não contribuem com o INSS.

Josué: do trabalho informal à carteira assinada. Foto: Róger Haeffner.
Josué: do trabalho informal à carteira assinada. Foto: Róger Haeffner.

Metódico, perfeccionista — são algumas de suas qualidades. Com paciência, as canaletas são instaladas e os fios vão se interligando, como um passe de mágica a luz se ascende. Assim é a rotina de Josué Vidal, 34 anos, um rapaz que buscou nos seus bicos como eletricista uma profissão, até que a atividade deixasse de ser um trabalho informal. “Comecei a trabalhar cedo, pois sempre quis ganhar meu próprio dinheiro. Entrei nesta profissão devido aos ensinamentos de um amigo, e aos trabalhos esporádicos que fazia”, relata. Mesmo com os trabalhos que sempre apareciam, Vidal era preocupado: “E se um dia me acontece algo? Não terei as garantias legais que uma profissão regularizada ampara! ”. O tempo passou, e o desejo de ter a profissão regularizada se materializou com a carteira finalmente assinada.

Santa Maria também sente o reflexo da crise que se alastra pelo país. Para o Coordenador Regional FGTAS/ SINE Carlos Vianna, isso se dá pelo ano excessivo que passamos. “Foi um ano que apresentou dificuldades econômicas, tanto para o empresariado, quanto para os demais órgãos empregadores de Santa Maria”, relata o Coordenador do SINE. Foi constatada uma recessão de cerca de 450 vagas de emprego em Santa Maria. “Isso, com certeza, acarreta uma demanda muito grande de oferta de mão de obra, fazendo com que as vagas que estão disponíveis com os empregadores tenham uma oferta maior de qualidade”, relata Vianna. O que nos mostra isso? Que as vagas não estão sendo preenchidas por pessoas que não possuem uma experiência no mercado de trabalho, e, sim, por aqueles que já a adquiriram.

O economista Mateus Frozza, observa que “as pessoas trabalham em negócios formais, com CNPJ – empresa constituída, mas em que os funcionários exercem atividade informal, posso citar as manicures, pedicures e free lancer”, exemplifica. Em tempos de crise, é natural que as pessoas busquem outra opção de renda, mas Frozza lembra que infelizmente poucos conseguem se manter. “Essa decisão de partir para o mercado informal é por falta de opção mesmo, porque quem está no mercado formal tem todas aquelas vantagens, como FGTS, PIS, férias. Essa tendência de aumento da informalidade só deve mudar quando a economia melhorar”, constata.

Por Róger Haeffner, para a disciplina Jornalismo Especializado I, do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano (1º semestre /2016).