
Escuto gargalhadas finas e sinceras. Chamam meu nome no portão. Rita Lee dizia: “Tem lugares que me lembram minha vida, por onde andei”. Sabe-se lá em que ela estava pensando naquele momento, mas das minhas raízes, eu sei. Talvez nem tão minhas, mas as adotei com o tempo. A palavra árvore, segundo o dicionário, significa planta lenhosa com tronco fixo no solo, raízes, despida na base e carregada de galhos e folhas na parte superior. Lembro-me assim, da minha infância.
O bairro Voluntários da Pátria, em Rosário do Sul, sempre foi um dos mais extensos da cidade, recheado de casas, pessoas, praças e lojas. Na verdade, quem percebia tudo isso eram os adultos. Para mim, o brilho nos olhos era outro. Bem no meio de todos aqueles arredores, entre os canteiros, permanecia o João. Quero dizer, o João Bolão.
Sei que, de cara, parece engraçado e simpático, mas explicarei melhor. Minha infância foi marcada pela inocência de uma gigante árvore que ficava em frente à casa de minha tia, a menos de uma quadra da minha. O tronco surgia com raízes fortes e firmes, de um marrom-escuro intenso, muito bem fixadas no chão gramado do canteiro. Contava-se, naquela época, que ela havia sido plantada com cola branca e, por isso, era tão resistente. Se você não acredita, eu e meus amigos, aos seis anos de idade, achávamos que era a mais pura verdade. Afinal, por que não seria?
Na música chamada “Minha vida”, canta-se também a parte: “As histórias, os caminhos, os destinos, que eu mudei”. Ela era exatamente assim. Essa planta tinha a maior sorte (ou azar) de presenciar as maiores brincadeiras já vistas na terra onde foi plantada. As folhas grandes, majestosas, no verde mais chamativo e escuro que já vi, balançavam de um lado para o outro como se acompanhassem o ritmo lento de uma dança. A título de curiosidade, a casa de minha tia também era verde, o que chegava a ser irônico. Eram tantas folhas que nos perdíamos olhando para cima. O bairro era, de fato, grandioso, mas o João (que agora vocês estão conhecendo) era mil vezes maior.
Assim como na canção, Rita Lee canta: “Cenas no meu filme branco e preto, que o vento levou e o tempo trás”. Esse arvoredo teria inúmeras histórias para contar enquanto o vento o enriquecia de vida. Mas, antes de contar tudo o que ele presenciava, preciso falar de mais uma característica que chamava atenção.
Roxo sempre foi uma das minhas cores favoritas na infância e, talvez agora, pensando bem, o João tenha culpa nisso. O nome “João”, que tantas vezes mencionei, vem do fruto que pesava entre suas folhagens. Pode-se até confundi-lo com uvas, de tão parecido. Quando maduros, os frutos ficam de um roxo quase preto e se enchem de uma polpa suculenta. Porém, não se enganem com a primeira impressão. Na época da safra, eles caem do pé e forram o chão, tingindo tudo o que tocam: mãos, roupas, calçadas e até os carros estacionados sob sua sombra no verão.
Essas frutas presenciavam tudo o que se pode imaginar. Mas era durante as tardes que pareciam mais felizes ao ver as crianças brincarem. O ponto de encontro era sempre ali. Talvez você me pergunte: “Mas e quando chovia?” E eu respondo: também. Afinal, ela protegia qualquer coisa que estivesse embaixo. A altura do João varia entre 13 e 22 metros, mas isso nunca nos assustou. Pelo contrário, nos encorajava. Acredito que, se hoje sou uma pessoa corajosa e forte, foi porque, aos seis anos, escalava todo aquele arvoredo até o topo. Ali, naquele lugar, eu realmente me sentia no topo do mundo.
“Tem pessoas, que a gente não esquece, nem se esquecer”, canta Rita. Muito provavelmente eu e meus amigos éramos assim para o João, e vou contar mais a fundo o porquê. Naquela época, dizia-se que a árvore seria cortada e levada embora. Eu chorava por não querer perder um dos meus melhores amigos. Já minha tia lamentava a possível perda da sombra para o chimarrão. O medo era tanto que, sempre que apareciam para podar a árvore, ficávamos de olho, como guarda-costas de alguém muito famoso (E para nós, ele realmente era).
Pior ainda era quando nós, baixinhos e com nossas bicicletas, chegávamos lá e ela já estava podada. Indignação era a palavra que descrevia aquele momento. Mas nem assim deixávamos o João se abalar. As milhares (sem drama, eram milhares ) de folhas espalhadas pelo chão chegavam a nos encobrir de tão altas. Tudo bem, também não era tão difícil naquela época. Os galhos e folhas cortados formavam um monte que alcançava quase a metade do tronco da árvore. E essa era a parte mais divertida.
Já ouviram falar em piscina ecológica? Pois lhes apresento esse termo.
Quando as folhagens ficavam amontoadas junto ao tronco, escalávamos o João até o mais alto que conseguíamos e, de lá, com toda a coragem do mundo, nos atirávamos sobre elas. Era a nossa forma de não deixar a natureza triste por perder algumas folhas. Também elogiávamos o arvoredo e dizíamos que ele tinha ficado bonito de cabelo cortado. Realmente éramos “personagens do filme de memórias” do João.
“Desenhos que a vida vai fazendo, desbotam alguns, uns ficam iguais”. Sabe aquela frase que ouvimos quando crescemos: “Um dia você brincou pela última vez e não sabia”? Talvez essa parte tenha doído para o João. Ele foi envelhecendo e perdendo o brilho das folhas, assim como nós.
Em algum dia qualquer daquela rua, fizemos comida de mentira com aquelas frutinhas, nos escondemos atrás do arvoredo, sujamos as mãos de roxo, brincamos de casinha e gargalhamos ao subir no topo do mundo, pela última vez.
“Entre todos os amores e amigos, de você, me lembro mais”. Há mais uma coisa que quero contar sobre o João. Existiam outras duas árvores ao seu lado. Porém, com todo respeito a elas, João Bolão era o protagonista. Eram menores, tinham troncos mais finos, menos galhos e menos folhas. Ocupavam menos espaço e pareciam estar ali para lhe fazer companhia quando nós não aparecíamos — o que era raro. Ainda assim, achei importante incluí-las nesta escrita. Elas também têm suas histórias. Mas isso fica para outro dia.
Inclusive, escrevendo este perfil, descobri pela primeira vez que o nome correto é “Jambolão” ou “Jamelão” e que sua origem é indiana. Com todo respeito, João é muito mais criativo e bonito do que qualquer outro nome que poderíamos ter dado.
E, se isso também puder servir de inspiração, essa árvore foi plantada pelo meu pai, em 1991, um ano depois de conhecer minha mãe.
Ou seja, quem me conhece e me vê, de alguma forma também convive com a natureza dessa árvore. Provavelmente, em algum momento, já me ouviu elogiar alguma árvore. E, se ainda não ouviu, há de se esperar. Talvez porque, toda vez que paro para admirar uma delas, eu enxergue um pouco do João. Ou talvez porque, sem perceber, eu tenha aprendido com ele a encontrar beleza até nas raízes e folhas que precisam cair. No fim das contas, quem conhece um pouco de mim, conhece um pouco dele também.
É, João… Rita Lee estava certa: “De você, não esqueço jamais”.
Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.
A imagem é meramente ilustrativa pois a árvore a que a autora se refere não existe mais.





