Você se considera um “homem de verdade”? Você é o provedor da sua casa? Você chora? Você lava as suas roupas ou faz a sua própria comida? Algumas características marcam o que as pessoas consideram ser homem: bancar a sua casa sozinho, não chorar, proteger a família e se vestir de uma maneira propriamente masculina. No entanto, segundo os especialistas, o que realmente marca a masculinidade dos dias de hoje são outros fatores: a fragilidade emocional, a incapacidade de participar dos trabalhos da casa e a reação às mudanças dos papéis de gênero.
Ainda hoje, há jovens que não tiveram a abertura para falar com os pais sobre os seus sentimentos. Mathias Chassot, poeta de 21 anos e estudante de letras nunca teve essa experiência e relata sobre como era fechado na sua adolescência. “Eu não gostava de ser como eu era, eu era frio e sentia que conseguia fingir que eu não sentia coisas.” Ele explica que por causa disso frequentemente se sentia sozinho. “Meu pai sempre cresceu distante de mim, assim, a gente se via nas férias,[…] Mas nunca tive esse laço de eu vou me expressar, era sempre essa questão de querer se provar e de competir”, relata.
Fotos: Enzo Martins/Labfem
Mathias diz que começou a escrever para falar sobre o que sentia, se expressar. De maneira parecida, ele começou a pintar o seu cabelo e as suas unhas na pandemia como uma forma de externalizar o seu estado emocional. Hoje em dia, ele pinta porque gosta e já se acostumou com isso. “Pintar a unha é um traço feminino, socialmente falando, mas só é assim porque a gente deixou que fosse, sabe? Não necessariamente porque realmente é.” Ele define. “Acho que ‘não ser homem' é algo muito subjetivo, sempre tem essa questão da figura física rígida, mas não é necessariamente isso”, complementa.
A compreensão sobre o que é Masculinidade sempre esteve em movimento de acordo com as diferentes épocas da sociedade. Atualmente, as definições sobre a figura do homem estão cada vez mais em disputa. A imagem clássica do chefe de família, provedor da casa, frio e que demonstrava seu afeto através da rigidez e disciplina está cada vez mais distante da realidade, seja pela insustentabilidade de uma família se manter financeiramente apenas com um provedor ou pelos traumas que essa rigidez excessiva gerou nos homens durante décadas. Para Mathias, ser forte e frio não é o que define ser homem, são apenas as coisas que nós aprendemos que é ser homem.
Homens, uma revisão de papel
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Se as percepções estéticas sobre um gênero já são capazes de se tornarem debates na sociedade atual, elas tampouco são a totalidade de questões que formam a Crise da Masculinidade. Elas, sobretudo, se relacionam aos diferentes papéis de gênero. A antropóloga e pesquisadora em Divisão Sexual do Trabalho, Jurema Gorski Brites, observa que 30 anos atrás no Rio Grande do Sul era difícil ver um pai passeando com o seu filho no colo na pracinha em pleno sábado. Ela explica que a paternidade foi uma função reinterpretada de maneira generalizada pela sociedade, mas que nem todos os papéis foram repensados da mesma maneira.
A antropóloga responsabiliza o início das mudanças nos papéis de gênero ao movimento feminista, mas enfatiza que a ideia da mulher que adentra ao mercado de trabalho para garantir autonomia e participação igualitária na casa iniciou com as mulheres brancas de classe média/alta. Isso porque no Brasil as mulheres pobres (negras ou pardas em sua maioria) sempre participaram do mercado de trabalho e em profissões precarizadas. Essa questão exemplifica como a redefinição dos papéis de gênero da sociedade depende de diversas condições como: classe social, religião, escolaridade, raça. Para Jurema, a mulher de maneira geral não quer mais ficar em casa, mas as condições sociais e as mudanças de valores necessárias para que essa paridade de papéis aconteça não chegam em todos os locais.
A especialista identifica que essa preocupação sobre uma divisão de papéis mais igualitária entre os gêneros gera uma disputa política diferente da típica oposição do progressismo contra o conservadorismo. Para ela, a Crise da Masculinidade gera comportamentos reacionários. Essa definição se refere a movimentos de homens que acreditam que a divisão mais igualitária entre os gêneros é prejudicial à sociedade e se recusam a ocupar espaços que antes eram das mulheres buscando impedir que elas realizem funções que eles acreditam serem designadas para o homem como forma de reação às mudanças sociais.
Outro fator que molda o que a sociedade pensa sobre os homens é a religião. Segundo os dados do último Censo do IBGE de 2022 (divulgados em 2025) 26,9% dos brasileiros se consideram evangélicos, o que significa um crescimento de 5% em comparação a 2010. A antropóloga explica que há vertentes da igreja evangélica que são progressistas, mas que atualmente existem setores que pautam a divisão sexual do trabalho de forma moralista.
O pastor Rodrigo de Freitas Vieira faz parte da Jesus Church, uma igreja evangélica neopentecostal de Santa Maria e explica que na visão da sua comunidade: “O papel do Homem é aquele que protege, ampara e guarda a família em todas as esferas seja financeira, emocional, espiritual e material, ele é o cerne da família”. Ele ressalta que para a visão religiosa que ele defende o empoderamento feminino é de extrema importância e que apesar de se colocar como aquele que provê na sociedade, o homem não tira essa oportunidade da mulher. Além disso, ele entende que uma compreensão mais completa da Bíblia reconhece que a provisão do homem para a família não é só financeira, mas também é emocional.
O pastor Rodrigo de Freitas Vieira faz parte da Jesus Church. (Enzo Martins / Labfem)
Uma geração de homens mais estáveis?
“Afogar as mágoas” é uma expressão que se refere ao ato de tentar aliviar a tensão, tristeza ou dor na bebida alcoólica. Essa frase é um dizer comum no Brasil que já pertence a inúmeras letras de músicas sobre homens com o coração partido. Mas, o que as mulheres fazem quando precisam desabafar? Em um filme de comédia romântica americano, a protagonista come um pote de sorvete enquanto chora e conversa com as amigas. Essas são imagens bem comuns no nosso imaginário e fazem parte de uma construção social que impacta o modo como homens e mulheres agem no cotidiano. É isso que o psicólogo clínico e professor da UFN (Universidade Franciscana), Félix Guazina, explica.
“O jeito que a gente usa a barba, a gente usa uma camisa, uma calça jeans, isso é uma performance de gênero. E essa performance vem colada a esses modelos” . (Nelson Bofill/Labfem)
Durante décadas, homens compreenderam que a forma socialmente aceita de “ser homem” era esconder seus sentimentos. Félix diz que a cultura do patriarcado vai criando modelos de “ser homem” que influenciam essa educação de que homens devem omitir seus sentimentos. A cultura da qual o psicólogo se refere é a definição de uma cultura na qual os homens têm posições de poder sobre as mulheres, o que acarreta na necessidade de os homens se afastarem de tudo que possa ser interpretado como uma manifestação de feminilidade. No período de 2015 a 2022 (dados mais recentes do DATASUS) 78% dos casos de suicídio no país foram de homens. Por outro lado, o número de diagnósticos de depressão no Brasil são três vezes maiores em mulheres quando comparado aos homens (Dados da COVITEL 2023). O psicólogo afirma que os homens falam menos sobre saúde mental porque compartilhar sentimentos com outros homens é visto como fragilidade e argumenta que esse ato poderia ser um fator de prevenção e promoção de saúde mental.
A professora de História da UFN e pesquisadora sobre relações de gênero e família , Carla Barbosa, explica que essa crise da masculinidade é antiga. Para ela, o auge desse modelo de homem viril, provedor da casa e reprimido se deu pós Segunda Guerra Mundial. Os homens voltaram para suas casas traumatizados, as mulheres que haviam se inserido no mercado de trabalho voltaram a cuidar das tarefas domésticas e os seus maridos não eram capazes de expressar o horror que eles haviam presenciado. A partir das décadas seguintes esse modelo foi sendo quebrado, a precarização do trabalho tornava impossível uma família ser sustentada por um único membro, os movimentos feministas dos anos 60 e 70 questionavam os papéis de gênero e reclamavam a capacidade da mulher participar de forma igualitária ao homem na sociedade e a família.
“Eu acho que a gente pode pensar toda a nossa conversa a partir de uma frase da escritora Margaret Atwood do livro O conto da Aia, Os homens têm medo que as mulheres riam deles. As mulheres têm medo que os homens as matem.” (Vitória Oliveira/Labfem)
Se os homens não são os provedores da casa, os chefes das famílias, ou não ocupam um papel na sociedade distinto das mulheres, então o que faz deles homens? A professora utiliza esse questionamento para exemplificar o que para ela é um fator que explica diversas questões da crise da masculinidade como a violência. Ela explica que o ciúme é um dos motivos que sempre motivaram a violência dos homens contra as mulheres. É o entendimento masculino de que se a namorada ou mulher larga o marido, é porque ele não correspondeu às expectativas de ser homem e isso tem como consequência a ideia da mulher ou da família como uma posse. Se ele não a tem, ele não é tão homem quanto deveria. O último Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou o maior número de feminicídios desde a sua tipificação em 2015 com 1.492 ocorrências. A professora argumenta que esse tipo de violência sempre existiu, mas não eram notificados, o que vem acontecendo nos últimos anos.
Esse modelo clássico de homem viril, que omite seus sentimentos, e que nos piores casos performa essa masculinidade na violência, não é o modelo que as novas gerações buscam corresponder na visão de Félix. Ele relata que vê uma mudança nos jovens, que tanto os seus alunos quanto os seus pacientes são mais abertos em falar sobre os seus sentimentos. Que antigamente o seu consultório atendia majoritariamente mulheres, e hoje isso mudou. Apesar disso, ele entende que ainda existe um ideal a ser seguido constituído por uma identidade frágil. Essa insistência em perseguir esse ideal pode ser exemplificada pelos movimentos Red Pill. Para o professor, quando a reação a essas mudanças acontece sob a forma de ataque, evidencia uma fragilidade emocional desses homens que entendem que perseguir esse modelo é a única forma de serem homens.
A cultura “red pill” e a influência dos grupos masculinistas
A dificuldade de lidar com sentimentos e a desconexão com a realidade, pode criar homens com crenças distorcidas sobre seu papel na sociedade. Em reação aos direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas, desenvolveram-se grupos extremistas quando tratamos da figura do homem, os chamados Grupos Masculinistas. Os “Red Pill”, no português “pílula vermelha”, são um deles. Nesses grupos “tomar a pílula vermelha” (referenciando ao filme Matrix), significa um resgate à virilidade, um pensamento patriarcal exagerado no qual mulheres devem ser submissas e seus direitos conquistados tratam-se na verdade de privilégios.
A Jornalista e Mestra em Política Social e Direitos humanos, Julia Marques pesquisa a atuação desses grupos nas redes e comenta sobre a visão do masculino que eles possuem. “Eles entendem que a masculinidade é uma qualidade, quanto mais masculino você é mais qualidades possui[…] se a mulher tem que ser delicada, se a mulher tem que ser submissa, o homem tem que ser ativo, ele tem que ser dominador, ele tem que ser musculoso”. Ela também cita que os Red Pill consideram a riqueza como parte desse ideal masculino.
Julia defende o uso do termo “Neomachismo” para caracterizar a atuação desses grupos. Ela explica que o discurso neomachista é a adaptação do machismo aos novos contextos da sociedade e as redes sociais. Por causa da falta de regularização e da capacidade de se expressar em anonimato, as plataformas digitais oferecem o cenário para que falas misóginas e reacionárias se proliferem e alcancem mais pessoas. Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Observatório da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, identificou 137 canais com conteúdo misógino no YouTube. Destes, cerca de 80% possuem alguma geração de receita com o conteúdo produzido.
De acordo com Julia, a cooptação de integrantes para esses movimentos, ocorre desde a adolescência, a partir dos influenciadores que disseminam a distorção sobre o papel das mulheres, e a ilusão de que elas estão em vantagem sobre os homens. Na sua pesquisa, a jornalista observou que a utilização de postagens humorísticas é uma ferramenta constante desses grupos para atrair jovens com piadas politicamente incorretas e temáticas identificáveis para adolescentes como a “solidão masculina”. Em relação ao público adulto, Julia cita que um perfil mais suscetível a integrar esses grupos são os homens em situação de vulnerabilidade emocional. Um homem recém divorciado é um exemplo de alvo mais suscetível a se tornar membro de grupos masculinistas e simpatizar com o discurso de superioridade do homem em relação à mulher.
A jornalista também percebe uma conexão destes grupos com o neoliberalismo. “Muitos desses influenciadores, vendem consultoria, cursos e livros. Eles estão fazendo o Red Pill ser rentável. […] É uma ideia de neoliberalismo de que eles têm que acumular, quanto mais capital eles têm, mais masculinos eles são.” A valorização da riqueza para esses grupos também se relaciona ao ideal de mulher que eles cultuam. Eles consideram que uma mulher que “serve pra casar” é uma mulher feminina, delicada, cristã e principalmente submissa. Assim, eles acreditam que essa mulher precisa e busca alguém que a sustente. Essa cultuação do homem bem sucedido também é expressada nas postagens humorísticas que representam essa figura ideal como uma motivação para a vida de muitos dos integrantes.
A religião é outro fator presente no discurso do movimento masculinista. A sua influência é percebida na concepção do homem e da mulher ideal que eles propagam. Julia Marques considera que o “Legendários” é um exemplo de movimento que utiliza a religião sob uma ótica similar à visão dos grupos masculinistas. Ela observa que a exaltação da riqueza, a valorização do exercício físico e do corpo definido se aproxima do que ela chama de “masculinidade exacerbada”, frequentemente associada aos grupos masculinistas. Essa “masculinidade exacerbada” é percebida no conceito do grupo: a venda da ideia de que após pagar caro para ingressar nos retiros em montanhas que incluem desafios físicos intensos como trilhas e exercícios, eles se tornarão homens melhores.
Divisão equitativa do trabalho, uma questão de educação.
“Eu vou estudar anos e não vou ter uma profissão de prestígio, eu vou continuar sendo pedreiro, vou continuar sendo caixa de supermercado.” A antropóloga Jurema Gorski Brites, descreve dessa forma a perspectiva de um menino de classe baixa quanto ao mercado de trabalho. Atualmente, os homens representam apenas 40% das matrículas nas faculdades brasileiras segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). Ela salienta que as mulheres também completam mais o segundo grau do que os homens e que esses dados podem ser explicados por fatores como classe e as expectativas da sociedade em relação aos gêneros. Os meninos, principalmente em famílias mais pobres, logo são impelidos a trabalhar, o que não acontece com a mesma frequência com as mulheres. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, 53% dos homens de 15 a 29 anos que largaram ou nunca frequentaram a escola alegaram a necessidade de trabalhar como o principal motivo. Já entre as mulheres, esse número é reduzido para 25%.
No entanto, a maior escolaridade das mulheres, tanto no ensino básico quanto no ensino superior, não garante uma maior paridade entre os gêneros quanto a divisão do trabalho. Jurema cita o fenômeno da existência de profissões feminilizadas e masculinizadas. Áreas como Enfermagem, Psicologia e Pedagogia contam com um contingente de mais de 80% de mulheres aproximadamente, segundo o Ministério da Educação (MEC). A antropóloga explica que todas as profissões que necessitam de atenção, cuidado, delicadeza, foram feminilizadas e enfatiza que essas ideias estão arraigadas no patriarcado, nas nossas representações e nos valores da sociedade. Essa construção social que define quais trabalhos são masculinos ou femininos também afeta a divisão das tarefas dentro de casa. A última pesquisa do IBGE sobre trabalhos de cuidado ocorreu em 2022 e relatou que mulheres empregadas se dedicaram 6,8 horas a mais na semana aos afazeres domésticos do que homens na mesma condição. Para Jurema, a divisão igualitária do trabalho entre homens e mulheres não foi alcançada com a inserção feminina no mercado e a solução para esse problema é questão de educação.
“Cientificamente, a mulher não tem um gene para lavar roupa, cuidar de criança, de velho, lavar louça e cozinhar. A gente não vem com esse gene. O que a gente vem é pronta para parir, mas não pronta para cuidar. A gente é educada para cuidar.” Jurema reitera que a designação dos papéis de gênero na sociedade é uma questão de socialização, valores que foram ensinados ao longo da história.
Quando surge uma mulher que diz: eu não quero lavar louça sozinha, eu não quero que você mande na minha roupa, eu não quero que tu determine o meu rosto, eu não quero porque agora eu ganho a mesma coisa que tu, uma grande parte dos homens não sabe participar das tarefas de casa e é aí que existe a “Crise da Masculinidade”. Por isso, a antropóloga defende que a pauta da igualdade no mercado de trabalho deve andar junto à pauta da escolarização e da educação da nova geração de homens.
A discussão sobre a divisão sexual do trabalho igualitária ainda é pauta de um nicho muito pequeno da sociedade, como define a antropóloga. É preciso fazer parte de um setor da sociedade que seja intelectualizado de alguma forma e permita uma maior entrada do feminismo, e mesmo dentro de um recorte de classe, gênero, faixa etária, não é possível generalizar completamente os valores aos quais os indivíduos são expostos. Jurema expõe que a necessidade de uma divisão mais igualitária do trabalho ainda não compõe os valores de grande parte da população. Por isso, ser homem na sociedade de hoje ainda é faltar nos trabalhos domésticos, ser incapaz de cuidar emocionalmente de si e de seus relacionamentos e expressar a sua masculinidade da maneira mais exacerbada possível. Mas também pode significar ser um pai que cuida integralmente dos seus filhos, que sabe falar sobre os seus sentimentos e que participa tanto quanto a mulher na casa se houver uma educação da nova geração de homens.
Texto em parceria com o acadêmico de Jornalismo: Cristhian Braga
Reportagem produzida na disciplina de Narrativa Multimídia, sob orientação da professor Glaíse Palma, no 2º semestre de 2025.





