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Santa Maria, RS, Brazil

Previsão do El Niño traz danos a agricultura gaúcha

Fenômeno Climático obriga agricultores a replanejarem plantios e diminui safra de inverno  

Imagem: Arquivo Emater-RS Regional Santa Maria/Vanessa de Moraes

Antes mesmo da chegada das primeiras chuvas intensas, o retorno do El Niño já começou a transformar a rotina no solo gaúcho. A previsão de um fenômeno de forte intensidade, com possibilidade de evoluir até o fim do ano, levou produtores rurais a anteciparem o preparo das lavouras, reorganizarem o manejo dos rebanhos e reverem investimentos para reduzir possíveis prejuízos. O cenário evidencia como a agricultura do Rio Grande do Sul passou a responder não apenas aos impactos do clima, mas também às projeções meteorológicas, refletindo a experiência acumulada após os eventos extremos registrados nos últimos anos.

O El Niño se tornou bem conhecido pelos gaúchos depois de 2024, quando sua característica chuva extraordinária causou um dos maiores desastres climáticos da história do estado. Resultado de uma “combinação perfeita de fatores”, conforme explica Murilo Lopes, Meteorologista da PREVOTS (Plataforma de Registros e Rede Voluntária de Observadores de Tempestades Severas), o fenômeno não foi o único responsável pela quantidade avassaladora de chuvas daquele período e cita que, naquela situação, a resposta atmosférica foi muito mais concentrada que o aquecimento do oceano, que caracteriza o El Niño.

O que é o El Niño?

O fenômeno do El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, próximas à linha do Equador que, devido a geografia do território brasileiro, causa secas na região norte e nordeste, e chuvas nas regiões do sul do Brasil. Murilo explica que perto da Oceania há uma concentração de águas quentes que, em condições normais, não chegam até a América do Sul. Entretanto, devido a algumas interações entre a atmosfera e o oceano, os ventos que mantém essa água de temperatura elevada longe da América são enfraquecidos, o que faz com que ela se disperse até o continente, ocasionando alterações atmosféricas que afetam diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.

“Aqui, na América do Sul, isso é bastante importante porque gera um ramo de ar ascendente sobre o oceano. Porque está mais quente, esse ar é mais leve, e sobe. Consequentemente, isso gera movimentos de ar que descem sobre a região amazônica e o nordeste do Brasil”, explica Murilo. Esse ar aquecido cria condições desfavoráveis para a formação de nuvens. Assim, a umidade que não precipita no norte é transportada para o sul do país, criando condições propícias para chuvas.

Murilo Lopes mostra no mapa o aquecimento das águas próximas à América do Sul (canto inferior direito do mapa). Imagem: Thine Feistauer/LABFEM

Por que o El Niño desse ano preocupa?

As respostas atmosféricas do El Niño geralmente começam a ser sentidas após 2 meses da confirmação do fenômeno. Para isso acontecer, é preciso que a elevação da temperatura das águas a 0,5ºC acima da média persista por 3 semanas. Em maio deste ano as temperaturas ainda estavam dentro da média histórica e logo no início de junho atingiram 1,5ºC acima da média. O meteorologista explica que essa rápida transição para o El Niño é incomum e deve acelerar os efeitos do fenômeno que geralmente ocorrem apenas no período do fim do inverno e início da primavera. Para comparação, o desastre de 2023/2024 iniciou com enchentes no mês de setembro de 2023, e tiveram seu ponto mais crítico em maio de 2024, entre a primavera e o outono, período de duração tradicional do El Niño.

Tabela referente a classificação do El Niño

CLASSIFICAÇÃO DO EL NIÑO
0,5ºC – 1,0ºCFRACO
1,0ºC – 1,5ºCMODERADO
1,5ºC – 2,0ºCFORTE 
2,0ºC < MUITO FORTE OU SUPER EL NIÑO

Tabela produzida a partir dos dados do meteorologista Murilo Lopes.

O fenômeno já foi confirmado pela NOAA (sigla em inglês para: Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos durante a segunda semana de junho e a INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) já divulgou que há 63% de chance de Super El Niño durante os meses de Novembro – Dezembro – Janeiro. Esses números significam que em 2026 pode ocorrer um dos El Niños mais intensos da história em relação a parte oceânica do fenômeno, conforme explica Murilo. “Esse alerta é reforçado porque nós estamos indo para um fenômeno que está se desenvolvendo muito rápido, que vai ser muito forte e quando há essas situações, já existe um histórico bem consolidado de impacto no Rio Grande do Sul”, acrescenta o especialista.

Apesar desse alerta, o meteorologista afirma que é difícil prever as consequências exatas do EL Niño. “Os modelos não permitem dizer, por exemplo, a questão da chuva mensal. A gente vai conseguir dizer, talvez, um mês que vai chover mais, mas se isso vai se concentrar num evento de 5 dias, se vai ser uma chuva bem distribuída, ainda tá longe para dizer.” Essa imprevisibilidade pode ser perigosa para o caso de inundações e alagamentos repentinos.

Qual o impacto na agricultura gaúcha?

A estimativa da empresa pública de auxílio à agricultura familiar, Emater-RS (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), lançada em junho de 2026,  prevê a diminuição da produção rural da safra do inverno em 22% em relação ao ano passado, uma variação de aproximadamente 1 milhão de toneladas. Isso se dá principalmente pelo trigo, que terá uma diminuição de 36,39% na produção em relação a 2025. 

O gerente regional da EMATER de Santa Maria, Guilherme Godoy, explica que apesar de haver uma diminuição na safra de trigo, há um aumento na safra da canola. “A canola é uma cultura mais tolerante às adversidades climáticas que a gente vem observando nos últimos anos, especialmente em um ano que tende a ser chuvoso”. A colheita do trigo ocorre no final do terceiro trimestre de 2026, coincidindo com o período em que o El Niño começa a se tornar mais evidente. Guilherme ainda esclarece que a operação da colheita do trigo é muito sensível e, por isso, precisa de uma condição climática favorável para que a colheita seja feita com a umidade necessária para um cereal de boa qualidade

O Gráfico mostra a previsão de anomalia de chuva para o trimestre de Agosto, Setembro e Outubro desse ano. As manchas azuis indicam o desvio numérico de chuva em relação a média histórica. 

(Fonte: Portal de Previsão Numérica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos)

A preocupação com as mudanças climáticas não parte só dos órgãos oficiais. Aliel Freitas Corrêa é agrônomo e evidencia que os produtores rurais já consideram a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño e de outros eventos climáticos extremos no planejamento das lavouras. Segundo ele, a adoção de tecnologias e de estratégias de manejo faz parte da rotina no campo para reduzir os impactos e aumentar a capacidade de resposta diante das adversidades climáticas. Entre as principais práticas estão o uso de plantas de cobertura e a manutenção do solo protegido ao longo de todo o ano. Essas medidas estão de acordo com as indicações da Emater-RS  e  ajudam a reduzir a erosão, preservar a fertilidade e aumentar a resiliência das lavouras. A empresa pública ainda orienta que os produtores tenham uma variedade de culturas, pois o desafio climático atual é intenso para depender de um tipo de atividade rural.

Essa necessidade já tem provocado mudanças no planejamento da safra de inverno na região. Diante desse cenário, alguns produtores passaram a investir em outras culturas, enquanto a maioria optou pelo cultivo de aveia e azevém para cobertura do solo, preparando as áreas para a safra de verão, segundo Aliel.

Os efeitos do clima no dia a dia do produtor rural

Além das mudanças no sistema de produção, os custos das propriedades rurais também aumentaram. Para enfrentar esse cenário, os produtores contam com linhas de crédito voltadas à agricultura sustentável e programas de recuperação produtiva, voltados ao fortalecimento da agricultura familiar, à recuperação de áreas degradadas e à ampliação da capacidade de adaptação das lavouras às mudanças climáticas como a Terra Forte. O programa concede o repasse de R$ 30.000 para produtores de agricultura familiar aplicarem um projeto conduzido por um profissional da Emater para aumentar a resiliência climática da plantação.

Produtor rural e técnica da Emater-MG
Imagem: Divulgação

Para Aliel, a combinação entre planejamento, acesso à informação, uso de tecnologias e fortalecimento das políticas públicas será fundamental para reduzir os impactos dos eventos extremos, garantir a segurança alimentar e assegurar a sustentabilidade econômica das propriedades rurais nos próximos anos.

Na prática, essa preparação já faz parte da rotina de quem vive no campo. Ao acompanhar as previsões para a ocorrência do El Niño, o agricultor André Silveira, da cidade de São Sepé, afirma que precisou reorganizar as atividades da propriedade para minimizar possíveis prejuízos. Segundo ele, tanto o manejo da pecuária quanto o preparo das áreas de cultivo foram antecipados. O gado está sendo levado para áreas mais altas como forma de prevenir perdas em caso de enchentes, enquanto o planejamento da safra de arroz começou antes do habitual.

De acordo com o produtor, a principal estratégia é deixar toda a terra preparada antes do período de plantio. Como o El Niño costuma provocar excesso de chuvas e encharcamento do solo, a intenção é aproveitar qualquer intervalo de tempo firme para realizar o plantio rapidamente. André explica que, se a preparação fosse feita apenas nesse período, haveria o risco de perder dias importantes de trabalho em razão das chuvas frequentes, comprometendo o desenvolvimento da lavoura.

Apesar de considerar positiva a antecipação dos trabalhos, já que a propriedade estará pronta para iniciar o plantio assim que as condições permitirem, o agricultor ressalta que a mudança também traz desafios. Entre eles está a necessidade de investir mais cedo em insumos, como combustível, em um momento em que os preços dos produtos agrícolas permanecem baixos. Ainda assim, ele afirma que a preparação é indispensável diante das incertezas climáticas, uma vez que tanto o excesso de chuvas quanto um eventual período de estiagem podem causar impactos significativos na produção.

O que esperar para os próximos anos…

O fenômeno do El Niño geralmente ocorre a cada 2 a 7 anos, mas devido ao aquecimento global, há a possibilidade de que esses eventos climáticos sejam cada vez mais frequentes. “De modo geral, como os oceanos estão mais quentes, os ventos que mantém a água aquecida do Oceano Pacífico tendem a enfraquecer como um todo. Isso leva a condições mais favoráveis para o El Niño acontecer”, afirma Murilo Lopes. Ele também explica que mesmo essa tendência é incerta pois, historicamente, nunca houve tanta energia acumulada no oceano, o que torna esse cenário novo. Não se sabe, por exemplo, se essa tendência pode estar associada a maior frequência do fenômeno, ou a fenômenos de maior intensidade ao longo dos anos.

Imagens de satélite mostrando a diferença entre a temperatura média da superfície do mar no Equador, no Oceano Pacífico tropical (representada por vários tons de vermelho e laranja para indicar o calor), durante a primeira semana de junho de 2026, e a linha de base utilizada pelo programa Coral Reef Watch da NOAA.  
Imagem: Reprodução NOAA Satellites

Entretanto, outros fenômenos preocupam a produção rural do estado que vê a necessidade de um planejamento constante de resistência às adversidades climáticas. A La Niña, fenômeno oposto ao El Niño que gera períodos de seca na região, é um exemplo. Segundo Godoy, os períodos de estiagem são ainda mais penosos economicamente para a agricultura do que a chuva intensa. Esse fator comprova que, mais do que nunca, a resiliência aos fenômenos climáticos continuará sendo pauta prioritária na agricultura do Rio Grande do Sul.

Texto em parceria com a acadêmica de Jornalismo: Andressa Rodrigues

Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Especializado, sob orientação da professor Glaíse Palma, no 1º semestre de 2026.

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Fenômeno Climático obriga agricultores a replanejarem plantios e diminui safra de inverno  

Imagem: Arquivo Emater-RS Regional Santa Maria/Vanessa de Moraes

Antes mesmo da chegada das primeiras chuvas intensas, o retorno do El Niño já começou a transformar a rotina no solo gaúcho. A previsão de um fenômeno de forte intensidade, com possibilidade de evoluir até o fim do ano, levou produtores rurais a anteciparem o preparo das lavouras, reorganizarem o manejo dos rebanhos e reverem investimentos para reduzir possíveis prejuízos. O cenário evidencia como a agricultura do Rio Grande do Sul passou a responder não apenas aos impactos do clima, mas também às projeções meteorológicas, refletindo a experiência acumulada após os eventos extremos registrados nos últimos anos.

O El Niño se tornou bem conhecido pelos gaúchos depois de 2024, quando sua característica chuva extraordinária causou um dos maiores desastres climáticos da história do estado. Resultado de uma “combinação perfeita de fatores”, conforme explica Murilo Lopes, Meteorologista da PREVOTS (Plataforma de Registros e Rede Voluntária de Observadores de Tempestades Severas), o fenômeno não foi o único responsável pela quantidade avassaladora de chuvas daquele período e cita que, naquela situação, a resposta atmosférica foi muito mais concentrada que o aquecimento do oceano, que caracteriza o El Niño.

O que é o El Niño?

O fenômeno do El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, próximas à linha do Equador que, devido a geografia do território brasileiro, causa secas na região norte e nordeste, e chuvas nas regiões do sul do Brasil. Murilo explica que perto da Oceania há uma concentração de águas quentes que, em condições normais, não chegam até a América do Sul. Entretanto, devido a algumas interações entre a atmosfera e o oceano, os ventos que mantém essa água de temperatura elevada longe da América são enfraquecidos, o que faz com que ela se disperse até o continente, ocasionando alterações atmosféricas que afetam diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.

“Aqui, na América do Sul, isso é bastante importante porque gera um ramo de ar ascendente sobre o oceano. Porque está mais quente, esse ar é mais leve, e sobe. Consequentemente, isso gera movimentos de ar que descem sobre a região amazônica e o nordeste do Brasil”, explica Murilo. Esse ar aquecido cria condições desfavoráveis para a formação de nuvens. Assim, a umidade que não precipita no norte é transportada para o sul do país, criando condições propícias para chuvas.

Murilo Lopes mostra no mapa o aquecimento das águas próximas à América do Sul (canto inferior direito do mapa). Imagem: Thine Feistauer/LABFEM

Por que o El Niño desse ano preocupa?

As respostas atmosféricas do El Niño geralmente começam a ser sentidas após 2 meses da confirmação do fenômeno. Para isso acontecer, é preciso que a elevação da temperatura das águas a 0,5ºC acima da média persista por 3 semanas. Em maio deste ano as temperaturas ainda estavam dentro da média histórica e logo no início de junho atingiram 1,5ºC acima da média. O meteorologista explica que essa rápida transição para o El Niño é incomum e deve acelerar os efeitos do fenômeno que geralmente ocorrem apenas no período do fim do inverno e início da primavera. Para comparação, o desastre de 2023/2024 iniciou com enchentes no mês de setembro de 2023, e tiveram seu ponto mais crítico em maio de 2024, entre a primavera e o outono, período de duração tradicional do El Niño.

Tabela referente a classificação do El Niño

CLASSIFICAÇÃO DO EL NIÑO
0,5ºC – 1,0ºCFRACO
1,0ºC – 1,5ºCMODERADO
1,5ºC – 2,0ºCFORTE 
2,0ºC < MUITO FORTE OU SUPER EL NIÑO

Tabela produzida a partir dos dados do meteorologista Murilo Lopes.

O fenômeno já foi confirmado pela NOAA (sigla em inglês para: Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos durante a segunda semana de junho e a INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) já divulgou que há 63% de chance de Super El Niño durante os meses de Novembro – Dezembro – Janeiro. Esses números significam que em 2026 pode ocorrer um dos El Niños mais intensos da história em relação a parte oceânica do fenômeno, conforme explica Murilo. “Esse alerta é reforçado porque nós estamos indo para um fenômeno que está se desenvolvendo muito rápido, que vai ser muito forte e quando há essas situações, já existe um histórico bem consolidado de impacto no Rio Grande do Sul”, acrescenta o especialista.

Apesar desse alerta, o meteorologista afirma que é difícil prever as consequências exatas do EL Niño. “Os modelos não permitem dizer, por exemplo, a questão da chuva mensal. A gente vai conseguir dizer, talvez, um mês que vai chover mais, mas se isso vai se concentrar num evento de 5 dias, se vai ser uma chuva bem distribuída, ainda tá longe para dizer.” Essa imprevisibilidade pode ser perigosa para o caso de inundações e alagamentos repentinos.

Qual o impacto na agricultura gaúcha?

A estimativa da empresa pública de auxílio à agricultura familiar, Emater-RS (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), lançada em junho de 2026,  prevê a diminuição da produção rural da safra do inverno em 22% em relação ao ano passado, uma variação de aproximadamente 1 milhão de toneladas. Isso se dá principalmente pelo trigo, que terá uma diminuição de 36,39% na produção em relação a 2025. 

O gerente regional da EMATER de Santa Maria, Guilherme Godoy, explica que apesar de haver uma diminuição na safra de trigo, há um aumento na safra da canola. “A canola é uma cultura mais tolerante às adversidades climáticas que a gente vem observando nos últimos anos, especialmente em um ano que tende a ser chuvoso”. A colheita do trigo ocorre no final do terceiro trimestre de 2026, coincidindo com o período em que o El Niño começa a se tornar mais evidente. Guilherme ainda esclarece que a operação da colheita do trigo é muito sensível e, por isso, precisa de uma condição climática favorável para que a colheita seja feita com a umidade necessária para um cereal de boa qualidade

O Gráfico mostra a previsão de anomalia de chuva para o trimestre de Agosto, Setembro e Outubro desse ano. As manchas azuis indicam o desvio numérico de chuva em relação a média histórica. 

(Fonte: Portal de Previsão Numérica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos)

A preocupação com as mudanças climáticas não parte só dos órgãos oficiais. Aliel Freitas Corrêa é agrônomo e evidencia que os produtores rurais já consideram a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño e de outros eventos climáticos extremos no planejamento das lavouras. Segundo ele, a adoção de tecnologias e de estratégias de manejo faz parte da rotina no campo para reduzir os impactos e aumentar a capacidade de resposta diante das adversidades climáticas. Entre as principais práticas estão o uso de plantas de cobertura e a manutenção do solo protegido ao longo de todo o ano. Essas medidas estão de acordo com as indicações da Emater-RS  e  ajudam a reduzir a erosão, preservar a fertilidade e aumentar a resiliência das lavouras. A empresa pública ainda orienta que os produtores tenham uma variedade de culturas, pois o desafio climático atual é intenso para depender de um tipo de atividade rural.

Essa necessidade já tem provocado mudanças no planejamento da safra de inverno na região. Diante desse cenário, alguns produtores passaram a investir em outras culturas, enquanto a maioria optou pelo cultivo de aveia e azevém para cobertura do solo, preparando as áreas para a safra de verão, segundo Aliel.

Os efeitos do clima no dia a dia do produtor rural

Além das mudanças no sistema de produção, os custos das propriedades rurais também aumentaram. Para enfrentar esse cenário, os produtores contam com linhas de crédito voltadas à agricultura sustentável e programas de recuperação produtiva, voltados ao fortalecimento da agricultura familiar, à recuperação de áreas degradadas e à ampliação da capacidade de adaptação das lavouras às mudanças climáticas como a Terra Forte. O programa concede o repasse de R$ 30.000 para produtores de agricultura familiar aplicarem um projeto conduzido por um profissional da Emater para aumentar a resiliência climática da plantação.

Produtor rural e técnica da Emater-MG
Imagem: Divulgação

Para Aliel, a combinação entre planejamento, acesso à informação, uso de tecnologias e fortalecimento das políticas públicas será fundamental para reduzir os impactos dos eventos extremos, garantir a segurança alimentar e assegurar a sustentabilidade econômica das propriedades rurais nos próximos anos.

Na prática, essa preparação já faz parte da rotina de quem vive no campo. Ao acompanhar as previsões para a ocorrência do El Niño, o agricultor André Silveira, da cidade de São Sepé, afirma que precisou reorganizar as atividades da propriedade para minimizar possíveis prejuízos. Segundo ele, tanto o manejo da pecuária quanto o preparo das áreas de cultivo foram antecipados. O gado está sendo levado para áreas mais altas como forma de prevenir perdas em caso de enchentes, enquanto o planejamento da safra de arroz começou antes do habitual.

De acordo com o produtor, a principal estratégia é deixar toda a terra preparada antes do período de plantio. Como o El Niño costuma provocar excesso de chuvas e encharcamento do solo, a intenção é aproveitar qualquer intervalo de tempo firme para realizar o plantio rapidamente. André explica que, se a preparação fosse feita apenas nesse período, haveria o risco de perder dias importantes de trabalho em razão das chuvas frequentes, comprometendo o desenvolvimento da lavoura.

Apesar de considerar positiva a antecipação dos trabalhos, já que a propriedade estará pronta para iniciar o plantio assim que as condições permitirem, o agricultor ressalta que a mudança também traz desafios. Entre eles está a necessidade de investir mais cedo em insumos, como combustível, em um momento em que os preços dos produtos agrícolas permanecem baixos. Ainda assim, ele afirma que a preparação é indispensável diante das incertezas climáticas, uma vez que tanto o excesso de chuvas quanto um eventual período de estiagem podem causar impactos significativos na produção.

O que esperar para os próximos anos…

O fenômeno do El Niño geralmente ocorre a cada 2 a 7 anos, mas devido ao aquecimento global, há a possibilidade de que esses eventos climáticos sejam cada vez mais frequentes. “De modo geral, como os oceanos estão mais quentes, os ventos que mantém a água aquecida do Oceano Pacífico tendem a enfraquecer como um todo. Isso leva a condições mais favoráveis para o El Niño acontecer”, afirma Murilo Lopes. Ele também explica que mesmo essa tendência é incerta pois, historicamente, nunca houve tanta energia acumulada no oceano, o que torna esse cenário novo. Não se sabe, por exemplo, se essa tendência pode estar associada a maior frequência do fenômeno, ou a fenômenos de maior intensidade ao longo dos anos.

Imagens de satélite mostrando a diferença entre a temperatura média da superfície do mar no Equador, no Oceano Pacífico tropical (representada por vários tons de vermelho e laranja para indicar o calor), durante a primeira semana de junho de 2026, e a linha de base utilizada pelo programa Coral Reef Watch da NOAA.  
Imagem: Reprodução NOAA Satellites

Entretanto, outros fenômenos preocupam a produção rural do estado que vê a necessidade de um planejamento constante de resistência às adversidades climáticas. A La Niña, fenômeno oposto ao El Niño que gera períodos de seca na região, é um exemplo. Segundo Godoy, os períodos de estiagem são ainda mais penosos economicamente para a agricultura do que a chuva intensa. Esse fator comprova que, mais do que nunca, a resiliência aos fenômenos climáticos continuará sendo pauta prioritária na agricultura do Rio Grande do Sul.

Texto em parceria com a acadêmica de Jornalismo: Andressa Rodrigues

Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Especializado, sob orientação da professor Glaíse Palma, no 1º semestre de 2026.