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Enzo Martins

Fenômeno Climático obriga agricultores a replanejarem plantios e diminui safra de inverno  

Imagem: Arquivo Emater-RS Regional Santa Maria/Vanessa de Moraes

Antes mesmo da chegada das primeiras chuvas intensas, o retorno do El Niño já começou a transformar a rotina no solo gaúcho. A previsão de um fenômeno de forte intensidade, com possibilidade de evoluir até o fim do ano, levou produtores rurais a anteciparem o preparo das lavouras, reorganizarem o manejo dos rebanhos e reverem investimentos para reduzir possíveis prejuízos. O cenário evidencia como a agricultura do Rio Grande do Sul passou a responder não apenas aos impactos do clima, mas também às projeções meteorológicas, refletindo a experiência acumulada após os eventos extremos registrados nos últimos anos.

O El Niño se tornou bem conhecido pelos gaúchos depois de 2024, quando sua característica chuva extraordinária causou um dos maiores desastres climáticos da história do estado. Resultado de uma “combinação perfeita de fatores”, conforme explica Murilo Lopes, Meteorologista da PREVOTS (Plataforma de Registros e Rede Voluntária de Observadores de Tempestades Severas), o fenômeno não foi o único responsável pela quantidade avassaladora de chuvas daquele período e cita que, naquela situação, a resposta atmosférica foi muito mais concentrada que o aquecimento do oceano, que caracteriza o El Niño.

O que é o El Niño?

O fenômeno do El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, próximas à linha do Equador que, devido a geografia do território brasileiro, causa secas na região norte e nordeste, e chuvas nas regiões do sul do Brasil. Murilo explica que perto da Oceania há uma concentração de águas quentes que, em condições normais, não chegam até a América do Sul. Entretanto, devido a algumas interações entre a atmosfera e o oceano, os ventos que mantém essa água de temperatura elevada longe da América são enfraquecidos, o que faz com que ela se disperse até o continente, ocasionando alterações atmosféricas que afetam diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.

“Aqui, na América do Sul, isso é bastante importante porque gera um ramo de ar ascendente sobre o oceano. Porque está mais quente, esse ar é mais leve, e sobe. Consequentemente, isso gera movimentos de ar que descem sobre a região amazônica e o nordeste do Brasil”, explica Murilo. Esse ar aquecido cria condições desfavoráveis para a formação de nuvens. Assim, a umidade que não precipita no norte é transportada para o sul do país, criando condições propícias para chuvas.

Murilo Lopes mostra no mapa o aquecimento das águas próximas à América do Sul (canto inferior direito do mapa). Imagem: Thine Feistauer/LABFEM

Por que o El Niño desse ano preocupa?

As respostas atmosféricas do El Niño geralmente começam a ser sentidas após 2 meses da confirmação do fenômeno. Para isso acontecer, é preciso que a elevação da temperatura das águas a 0,5ºC acima da média persista por 3 semanas. Em maio deste ano as temperaturas ainda estavam dentro da média histórica e logo no início de junho atingiram 1,5ºC acima da média. O meteorologista explica que essa rápida transição para o El Niño é incomum e deve acelerar os efeitos do fenômeno que geralmente ocorrem apenas no período do fim do inverno e início da primavera. Para comparação, o desastre de 2023/2024 iniciou com enchentes no mês de setembro de 2023, e tiveram seu ponto mais crítico em maio de 2024, entre a primavera e o outono, período de duração tradicional do El Niño.

Tabela referente a classificação do El Niño

CLASSIFICAÇÃO DO EL NIÑO
0,5ºC – 1,0ºCFRACO
1,0ºC – 1,5ºCMODERADO
1,5ºC – 2,0ºCFORTE 
2,0ºC < MUITO FORTE OU SUPER EL NIÑO

Tabela produzida a partir dos dados do meteorologista Murilo Lopes.

O fenômeno já foi confirmado pela NOAA (sigla em inglês para: Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos durante a segunda semana de junho e a INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) já divulgou que há 63% de chance de Super El Niño durante os meses de Novembro – Dezembro – Janeiro. Esses números significam que em 2026 pode ocorrer um dos El Niños mais intensos da história em relação a parte oceânica do fenômeno, conforme explica Murilo. “Esse alerta é reforçado porque nós estamos indo para um fenômeno que está se desenvolvendo muito rápido, que vai ser muito forte e quando há essas situações, já existe um histórico bem consolidado de impacto no Rio Grande do Sul”, acrescenta o especialista.

Apesar desse alerta, o meteorologista afirma que é difícil prever as consequências exatas do EL Niño. “Os modelos não permitem dizer, por exemplo, a questão da chuva mensal. A gente vai conseguir dizer, talvez, um mês que vai chover mais, mas se isso vai se concentrar num evento de 5 dias, se vai ser uma chuva bem distribuída, ainda tá longe para dizer.” Essa imprevisibilidade pode ser perigosa para o caso de inundações e alagamentos repentinos.

Qual o impacto na agricultura gaúcha?

A estimativa da empresa pública de auxílio à agricultura familiar, Emater-RS (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), lançada em junho de 2026,  prevê a diminuição da produção rural da safra do inverno em 22% em relação ao ano passado, uma variação de aproximadamente 1 milhão de toneladas. Isso se dá principalmente pelo trigo, que terá uma diminuição de 36,39% na produção em relação a 2025. 

O gerente regional da EMATER de Santa Maria, Guilherme Godoy, explica que apesar de haver uma diminuição na safra de trigo, há um aumento na safra da canola. “A canola é uma cultura mais tolerante às adversidades climáticas que a gente vem observando nos últimos anos, especialmente em um ano que tende a ser chuvoso”. A colheita do trigo ocorre no final do terceiro trimestre de 2026, coincidindo com o período em que o El Niño começa a se tornar mais evidente. Guilherme ainda esclarece que a operação da colheita do trigo é muito sensível e, por isso, precisa de uma condição climática favorável para que a colheita seja feita com a umidade necessária para um cereal de boa qualidade

O Gráfico mostra a previsão de anomalia de chuva para o trimestre de Agosto, Setembro e Outubro desse ano. As manchas azuis indicam o desvio numérico de chuva em relação a média histórica. 

(Fonte: Portal de Previsão Numérica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos)

A preocupação com as mudanças climáticas não parte só dos órgãos oficiais. Aliel Freitas Corrêa é agrônomo e evidencia que os produtores rurais já consideram a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño e de outros eventos climáticos extremos no planejamento das lavouras. Segundo ele, a adoção de tecnologias e de estratégias de manejo faz parte da rotina no campo para reduzir os impactos e aumentar a capacidade de resposta diante das adversidades climáticas. Entre as principais práticas estão o uso de plantas de cobertura e a manutenção do solo protegido ao longo de todo o ano. Essas medidas estão de acordo com as indicações da Emater-RS  e  ajudam a reduzir a erosão, preservar a fertilidade e aumentar a resiliência das lavouras. A empresa pública ainda orienta que os produtores tenham uma variedade de culturas, pois o desafio climático atual é intenso para depender de um tipo de atividade rural.

Essa necessidade já tem provocado mudanças no planejamento da safra de inverno na região. Diante desse cenário, alguns produtores passaram a investir em outras culturas, enquanto a maioria optou pelo cultivo de aveia e azevém para cobertura do solo, preparando as áreas para a safra de verão, segundo Aliel.

Os efeitos do clima no dia a dia do produtor rural

Além das mudanças no sistema de produção, os custos das propriedades rurais também aumentaram. Para enfrentar esse cenário, os produtores contam com linhas de crédito voltadas à agricultura sustentável e programas de recuperação produtiva, voltados ao fortalecimento da agricultura familiar, à recuperação de áreas degradadas e à ampliação da capacidade de adaptação das lavouras às mudanças climáticas como a Terra Forte. O programa concede o repasse de R$ 30.000 para produtores de agricultura familiar aplicarem um projeto conduzido por um profissional da Emater para aumentar a resiliência climática da plantação.

Produtor rural e técnica da Emater-MG
Imagem: Divulgação

Para Aliel, a combinação entre planejamento, acesso à informação, uso de tecnologias e fortalecimento das políticas públicas será fundamental para reduzir os impactos dos eventos extremos, garantir a segurança alimentar e assegurar a sustentabilidade econômica das propriedades rurais nos próximos anos.

Na prática, essa preparação já faz parte da rotina de quem vive no campo. Ao acompanhar as previsões para a ocorrência do El Niño, o agricultor André Silveira, da cidade de São Sepé, afirma que precisou reorganizar as atividades da propriedade para minimizar possíveis prejuízos. Segundo ele, tanto o manejo da pecuária quanto o preparo das áreas de cultivo foram antecipados. O gado está sendo levado para áreas mais altas como forma de prevenir perdas em caso de enchentes, enquanto o planejamento da safra de arroz começou antes do habitual.

De acordo com o produtor, a principal estratégia é deixar toda a terra preparada antes do período de plantio. Como o El Niño costuma provocar excesso de chuvas e encharcamento do solo, a intenção é aproveitar qualquer intervalo de tempo firme para realizar o plantio rapidamente. André explica que, se a preparação fosse feita apenas nesse período, haveria o risco de perder dias importantes de trabalho em razão das chuvas frequentes, comprometendo o desenvolvimento da lavoura.

Apesar de considerar positiva a antecipação dos trabalhos, já que a propriedade estará pronta para iniciar o plantio assim que as condições permitirem, o agricultor ressalta que a mudança também traz desafios. Entre eles está a necessidade de investir mais cedo em insumos, como combustível, em um momento em que os preços dos produtos agrícolas permanecem baixos. Ainda assim, ele afirma que a preparação é indispensável diante das incertezas climáticas, uma vez que tanto o excesso de chuvas quanto um eventual período de estiagem podem causar impactos significativos na produção.

O que esperar para os próximos anos…

O fenômeno do El Niño geralmente ocorre a cada 2 a 7 anos, mas devido ao aquecimento global, há a possibilidade de que esses eventos climáticos sejam cada vez mais frequentes. “De modo geral, como os oceanos estão mais quentes, os ventos que mantém a água aquecida do Oceano Pacífico tendem a enfraquecer como um todo. Isso leva a condições mais favoráveis para o El Niño acontecer”, afirma Murilo Lopes. Ele também explica que mesmo essa tendência é incerta pois, historicamente, nunca houve tanta energia acumulada no oceano, o que torna esse cenário novo. Não se sabe, por exemplo, se essa tendência pode estar associada a maior frequência do fenômeno, ou a fenômenos de maior intensidade ao longo dos anos.

Imagens de satélite mostrando a diferença entre a temperatura média da superfície do mar no Equador, no Oceano Pacífico tropical (representada por vários tons de vermelho e laranja para indicar o calor), durante a primeira semana de junho de 2026, e a linha de base utilizada pelo programa Coral Reef Watch da NOAA.  
Imagem: Reprodução NOAA Satellites

Entretanto, outros fenômenos preocupam a produção rural do estado que vê a necessidade de um planejamento constante de resistência às adversidades climáticas. A La Niña, fenômeno oposto ao El Niño que gera períodos de seca na região, é um exemplo. Segundo Godoy, os períodos de estiagem são ainda mais penosos economicamente para a agricultura do que a chuva intensa. Esse fator comprova que, mais do que nunca, a resiliência aos fenômenos climáticos continuará sendo pauta prioritária na agricultura do Rio Grande do Sul.

Texto em parceria com a acadêmica de Jornalismo: Andressa Rodrigues

Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Especializado, sob orientação da professor Glaíse Palma, no 1º semestre de 2026.

Você se considera um “homem de verdade”? Você é o provedor da sua casa? Você chora? Você lava as suas roupas ou faz a sua própria comida? Algumas características marcam o que as pessoas consideram ser homem: bancar a sua casa sozinho, não chorar, proteger a família e se vestir de uma maneira  propriamente masculina. No entanto, segundo os especialistas, o que realmente marca a masculinidade dos dias de hoje são outros fatores: a fragilidade emocional, a incapacidade de participar dos trabalhos da casa e a reação às mudanças dos papéis de gênero. 

Ainda hoje, há jovens que não tiveram a abertura para falar com os pais sobre os seus sentimentos. Mathias Chassot, poeta de 21 anos e estudante de letras nunca teve essa experiência e relata sobre como era fechado na sua adolescência. “Eu não gostava de ser como eu era, eu era frio e sentia que conseguia fingir que eu não sentia coisas.” Ele explica que por causa disso frequentemente se sentia sozinho. “Meu pai sempre cresceu distante de mim, assim, a gente se via nas férias,[…] Mas nunca tive esse laço de eu vou me expressar, era sempre essa questão de querer se provar e de competir”, relata. 

Fotos:Enzo Martins/Labfem

Mathias diz que começou a escrever para falar sobre o que sentia, se expressar. De maneira parecida, ele começou a pintar o seu cabelo e as suas unhas na pandemia como uma forma de externalizar o seu estado emocional. Hoje em dia, ele pinta porque gosta e já se acostumou com isso. “Pintar a unha é um traço feminino, socialmente falando, mas só é assim porque a gente deixou que fosse, sabe? Não necessariamente porque realmente é.” Ele define. “Acho que ‘não ser homem' é algo muito subjetivo, sempre tem essa questão da figura física rígida, mas não é necessariamente  isso”, complementa.

A compreensão sobre o que é Masculinidade sempre esteve em movimento de acordo com as diferentes épocas da sociedade. Atualmente, as definições sobre a figura do homem estão cada vez mais em disputa. A imagem clássica do chefe de família, provedor da casa, frio e que demonstrava seu afeto através da rigidez e disciplina está cada vez mais distante da realidade, seja pela insustentabilidade de uma família se manter financeiramente apenas com um provedor ou pelos traumas que essa rigidez excessiva gerou nos homens durante décadas. Para Mathias, ser forte e frio não é o que define ser homem, são apenas as coisas que nós aprendemos que é ser homem.

Homens, uma revisão de papel

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Se as percepções estéticas sobre um gênero já são capazes de se tornarem debates na sociedade atual, elas tampouco são a totalidade de questões que formam a Crise da Masculinidade. Elas, sobretudo, se relacionam aos diferentes papéis de gênero. A antropóloga e pesquisadora em Divisão Sexual do Trabalho, Jurema Gorski Brites, observa que 30 anos atrás no Rio Grande do Sul era difícil ver um pai passeando com o seu filho no colo na pracinha em pleno sábado. Ela explica que a paternidade foi uma função reinterpretada de maneira generalizada pela sociedade, mas que nem todos os papéis foram repensados da mesma maneira. 

 

A antropóloga responsabiliza o início das mudanças nos papéis de gênero ao movimento feminista, mas enfatiza que a ideia da mulher que adentra ao mercado de trabalho para garantir autonomia e participação igualitária na casa iniciou com as mulheres brancas de classe média/alta. Isso porque no Brasil as mulheres pobres (negras ou pardas em sua maioria) sempre participaram do mercado de trabalho e em profissões precarizadas. Essa questão exemplifica como a redefinição dos papéis de gênero da sociedade depende de diversas condições como: classe social, religião, escolaridade, raça. Para Jurema, a mulher de maneira geral não quer mais ficar em casa, mas as condições sociais e as mudanças de valores necessárias para que essa paridade de papéis aconteça não chegam em todos os locais. 

 

A especialista identifica que essa preocupação sobre uma divisão de papéis mais igualitária entre os gêneros gera uma disputa política diferente da típica oposição do progressismo contra o conservadorismo. Para ela, a Crise da Masculinidade gera comportamentos reacionários. Essa definição se refere a movimentos de homens que acreditam que a divisão mais igualitária entre os gêneros é prejudicial à sociedade e se recusam a ocupar espaços que antes eram das mulheres buscando impedir que elas realizem funções que eles acreditam serem designadas para o homem como forma de reação às mudanças sociais. 

 

Outro fator que molda o que a sociedade pensa sobre os homens é a religião. Segundo os dados do último Censo do IBGE de 2022 (divulgados em 2025) 26,9% dos brasileiros se consideram evangélicos, o que significa um crescimento de 5% em comparação a 2010. A antropóloga explica que há vertentes da igreja evangélica que são progressistas, mas que atualmente existem setores que pautam a divisão sexual do trabalho de forma moralista. 

O pastor Rodrigo de Freitas Vieira faz parte da Jesus Church, uma igreja evangélica neopentecostal de Santa Maria e explica que na visão da sua comunidade: “O papel do Homem é aquele que protege, ampara e guarda a família em todas as esferas seja financeira, emocional, espiritual e material, ele é o cerne da família”. Ele ressalta que para a visão religiosa que ele defende o empoderamento feminino é de extrema importância e que apesar de se colocar como aquele que provê na sociedade, o homem não tira essa oportunidade da mulher. Além disso, ele entende que uma compreensão mais completa da Bíblia reconhece que a provisão do homem para a família não é só financeira, mas também é emocional.

O pastor Rodrigo de Freitas Vieira faz parte da Jesus Church. (Enzo Martins / Labfem)

Uma geração de homens mais estáveis?

“Afogar as mágoas” é uma expressão que se refere ao ato de tentar aliviar a tensão, tristeza ou dor na bebida alcoólica. Essa frase é um dizer comum no Brasil que já pertence a inúmeras letras de músicas sobre homens com o coração partido. Mas, o que as mulheres fazem quando precisam desabafar? Em um filme de comédia romântica americano, a protagonista come um pote de sorvete enquanto chora e conversa com as amigas. Essas são imagens bem comuns no nosso imaginário e fazem parte de uma construção social que impacta o modo como homens e mulheres agem no cotidiano. É isso que o psicólogo clínico e professor da UFN (Universidade Franciscana), Félix Guazina, explica. 

“O jeito que a gente usa a barba, a gente usa uma camisa, uma calça jeans, isso é uma performance de gênero. E essa performance vem colada a esses modelos”. (Nelson Bofill/Labfem)

Durante décadas, homens compreenderam que a forma socialmente aceita de “ser homem” era esconder seus sentimentos. Félix diz que a cultura do patriarcado vai criando modelos de “ser homem” que influenciam essa educação de que homens devem omitir seus sentimentos. A cultura da qual o psicólogo se refere é a definição de uma cultura na qual os homens têm posições de poder sobre as mulheres, o que acarreta na necessidade de os homens se afastarem de tudo que possa ser interpretado como uma manifestação de feminilidade. No período de 2015 a 2022 (dados mais recentes do DATASUS) 78% dos casos de suicídio no país foram de homens. Por outro lado, o número de diagnósticos de depressão no Brasil são três vezes maiores em mulheres quando comparado aos homens (Dados da COVITEL 2023).  O psicólogo afirma que os homens falam menos sobre saúde mental porque compartilhar sentimentos com outros homens é visto como fragilidade e argumenta que esse ato poderia ser um fator de prevenção e promoção de saúde mental.

A professora de História da UFN e pesquisadora sobre relações de gênero e família , Carla Barbosa, explica que essa crise da masculinidade é antiga. Para ela, o auge desse modelo de homem viril, provedor da casa e reprimido se deu pós Segunda Guerra Mundial. Os homens voltaram para suas casas traumatizados, as mulheres que haviam se inserido no mercado de trabalho voltaram a cuidar das tarefas domésticas e os seus maridos não eram capazes de expressar o horror que eles haviam presenciado. A partir das décadas seguintes esse modelo foi sendo quebrado, a precarização do trabalho tornava impossível uma família ser sustentada por um único membro, os movimentos feministas dos anos 60 e 70 questionavam os papéis de gênero e reclamavam a capacidade da mulher participar de forma igualitária ao homem na sociedade e a família. 

“Eu acho que a gente pode pensar toda a nossa conversa a partir de uma frase da escritora Margaret Atwood do livro O conto da Aia, Os homens têm medo que as mulheres riam deles. As mulheres têm medo que os homens as matem.” (Vitória Oliveira/Labfem)

Se os homens não são os provedores da casa, os chefes das famílias, ou não ocupam um papel na sociedade distinto das mulheres, então o que faz deles homens? A professora utiliza esse questionamento para exemplificar o que para ela é um fator que explica diversas questões da crise da masculinidade como a violência. Ela explica que o ciúme é um dos motivos que sempre motivaram a violência dos homens contra as mulheres. É o entendimento masculino de que se a namorada ou mulher larga o marido, é porque ele não correspondeu às expectativas de ser homem e isso tem como consequência a ideia da mulher ou da família como uma posse. Se ele não a tem, ele não é tão homem quanto deveria. O último Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou o maior número de feminicídios desde a sua tipificação em 2015 com 1.492 ocorrências.  A professora argumenta que esse tipo de violência sempre existiu, mas não eram notificados, o que vem acontecendo nos últimos anos. 

Esse modelo clássico de homem viril, que omite seus sentimentos, e que nos piores casos performa essa masculinidade na violência, não é o modelo que as novas gerações buscam corresponder na visão de Félix. Ele relata que vê uma mudança nos jovens, que tanto os seus alunos quanto os seus pacientes são mais abertos em falar sobre os seus sentimentos. Que antigamente o seu consultório atendia majoritariamente mulheres, e hoje isso mudou. Apesar disso, ele entende que ainda existe um ideal a ser seguido constituído por uma identidade frágil. Essa insistência em perseguir esse ideal pode ser exemplificada pelos movimentos Red Pill. Para o professor, quando a reação a essas mudanças acontece sob a forma de ataque, evidencia uma fragilidade emocional desses homens que entendem que perseguir esse modelo é a única forma de serem homens. 

A cultura “red pill” e a influência dos grupos masculinistas

Foto: Enzo Martins / Labfem

A dificuldade de lidar com sentimentos e a desconexão com a realidade, pode criar homens com crenças distorcidas sobre seu papel na sociedade. Em reação aos direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas, desenvolveram-se grupos extremistas quando tratamos da figura do homem, os chamados Grupos Masculinistas. Os “Red Pill”, no português “pílula vermelha”, são um deles. Nesses grupos “tomar a pílula vermelha” (referenciando ao filme Matrix), significa um resgate à virilidade, um pensamento patriarcal exagerado no qual mulheres devem ser submissas e seus direitos conquistados tratam-se na verdade de privilégios.  

A Jornalista e Mestra em Política Social e Direitos humanos, Julia Marques pesquisa a atuação desses grupos nas redes e comenta sobre a visão do masculino que eles possuem. “Eles entendem que a masculinidade é uma qualidade, quanto mais masculino você é mais qualidades possui[…] se a mulher tem que ser delicada, se a mulher tem que ser submissa, o homem tem que ser ativo, ele tem que ser dominador, ele tem que ser musculoso”. Ela também cita que os Red Pill consideram a riqueza como parte desse ideal masculino.

Julia  defende  o uso do termo “Neomachismo” para caracterizar a atuação desses grupos. Ela explica que o discurso neomachista é a adaptação do machismo aos novos contextos da sociedade e as redes sociais. Por causa da falta de regularização e da capacidade de se expressar em anonimato, as plataformas digitais oferecem o cenário para que falas misóginas e reacionárias se proliferem e alcancem mais pessoas. Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Observatório da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, identificou 137 canais com conteúdo misógino no YouTube. Destes, cerca de 80% possuem alguma geração de receita com o conteúdo produzido. 

De acordo com Julia, a cooptação de integrantes para esses movimentos, ocorre desde a adolescência, a partir dos influenciadores que disseminam a distorção sobre o papel das mulheres, e a ilusão de que elas estão em vantagem sobre os homens. Na sua pesquisa, a jornalista observou que a utilização de postagens humorísticas é uma ferramenta constante desses grupos para atrair jovens com piadas politicamente incorretas e temáticas identificáveis para adolescentes como a “solidão masculina”. Em relação ao público adulto, Julia cita que um perfil mais suscetível a integrar esses grupos são os homens em situação de vulnerabilidade emocional. Um homem recém divorciado é um exemplo de alvo mais suscetível a se tornar membro de grupos masculinistas e simpatizar com o discurso de superioridade do homem em relação à mulher. 

A jornalista também percebe uma conexão destes grupos com o neoliberalismo. “Muitos desses influenciadores, vendem consultoria, cursos e livros. Eles estão fazendo o Red Pill ser rentável. […] É uma ideia de neoliberalismo de que eles têm que acumular, quanto mais capital eles têm, mais masculinos eles são.” A valorização da riqueza para esses grupos também se relaciona ao ideal de mulher que eles cultuam. Eles consideram que uma mulher que “serve pra casar” é uma mulher feminina, delicada, cristã e principalmente submissa. Assim, eles acreditam que essa mulher precisa e busca alguém que a sustente.  Essa cultuação do homem bem sucedido também é expressada nas postagens humorísticas que representam essa figura ideal como uma motivação para a vida de muitos dos integrantes.

A religião é outro fator presente no discurso do movimento masculinista. A sua influência é percebida na concepção do homem e da mulher ideal que eles propagam. Julia Marques considera que o “Legendários” é um exemplo de movimento que utiliza a religião sob uma ótica similar à visão dos grupos masculinistas.  Ela observa que a exaltação da riqueza, a valorização do exercício físico e do corpo definido se aproxima do que ela chama de “masculinidade exacerbada”, frequentemente associada aos grupos masculinistas. Essa “masculinidade exacerbada” é percebida no conceito do grupo: a venda  da ideia de que após pagar caro para ingressar nos retiros em montanhas que incluem desafios físicos intensos como trilhas e exercícios, eles se tornarão homens melhores. 

Divisão equitativa do trabalho, uma questão de educação.

Foto: Inácio Boelter/ Labfem

“Eu vou estudar anos e não vou ter uma profissão de prestígio, eu vou continuar sendo pedreiro, vou continuar sendo caixa de supermercado.” A antropóloga Jurema Gorski Brites, descreve dessa forma a perspectiva de um menino de classe baixa quanto ao mercado de trabalho. Atualmente, os homens representam apenas 40% das matrículas nas faculdades brasileiras segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). Ela salienta que as mulheres também completam mais o segundo grau do que os homens e que esses dados podem ser explicados por fatores como classe e as expectativas da sociedade em relação aos gêneros. Os meninos, principalmente em famílias mais pobres, logo são impelidos a trabalhar, o que não acontece com a mesma frequência com as mulheres. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, 53% dos homens de 15 a 29 anos que largaram ou nunca frequentaram a escola alegaram a necessidade de trabalhar como o principal motivo. Já entre as mulheres, esse número é reduzido para 25%.

No entanto, a maior escolaridade das mulheres, tanto no ensino básico quanto no ensino superior, não garante uma maior paridade entre os gêneros quanto a divisão do trabalho. Jurema cita o fenômeno da existência de profissões feminilizadas e masculinizadas. Áreas como Enfermagem, Psicologia e Pedagogia contam com um contingente de mais de 80% de mulheres aproximadamente, segundo o Ministério da  Educação (MEC). A antropóloga explica que todas as profissões que necessitam de atenção, cuidado, delicadeza, foram feminilizadas e enfatiza que essas ideias estão arraigadas no patriarcado, nas nossas representações e nos valores da sociedade. Essa construção social que define quais trabalhos são masculinos ou femininos também afeta a divisão das tarefas dentro de casa.  A última pesquisa do IBGE sobre trabalhos de cuidado ocorreu em 2022 e relatou que mulheres empregadas se dedicaram 6,8 horas a mais na semana aos afazeres domésticos do que homens na mesma condição. Para Jurema, a divisão igualitária do trabalho entre homens e mulheres não foi alcançada com a inserção feminina no mercado e a solução para esse problema é questão de educação.

“Cientificamente, a mulher não tem um gene para lavar roupa, cuidar de criança, de velho, lavar louça e cozinhar. A gente não vem com esse gene. O que a gente vem é pronta para parir, mas não pronta para cuidar. A gente é educada para cuidar.” Jurema reitera que a designação dos papéis de gênero na sociedade é uma questão de socialização, valores que foram ensinados ao longo da história.

Quando surge uma mulher que diz: eu não quero lavar louça sozinha, eu não quero que você mande na minha roupa, eu não quero que tu determine o meu rosto, eu não quero porque agora eu ganho a mesma coisa que tu, uma grande parte dos homens não sabe participar das tarefas de casa e é aí que existe a “Crise da Masculinidade”. Por isso, a antropóloga defende que a pauta da igualdade no mercado de trabalho deve andar junto à pauta da escolarização e da educação da nova geração de homens.

A discussão sobre a divisão sexual do trabalho igualitária ainda é pauta de um nicho muito pequeno da sociedade, como define a antropóloga. É preciso fazer parte de um setor da sociedade que seja intelectualizado de alguma forma e permita uma maior entrada do feminismo, e mesmo dentro de um recorte de classe, gênero, faixa etária, não é possível generalizar completamente os valores aos quais os indivíduos são expostos. Jurema expõe que a necessidade de uma divisão mais igualitária do trabalho ainda não compõe os valores de grande parte da população. Por isso, ser homem na sociedade de hoje ainda é faltar nos trabalhos domésticos, ser incapaz de cuidar emocionalmente de si e de seus relacionamentos e expressar a sua masculinidade da maneira mais exacerbada possível. Mas também pode significar ser um pai que cuida integralmente dos seus filhos, que sabe falar sobre os seus sentimentos e que participa tanto quanto a mulher na casa se houver uma educação da nova geração de homens.

Texto em parceria com o acadêmico de Jornalismo: Cristhian Braga

Reportagem produzida na disciplina de Narrativa Multimídia, sob orientação da professor Glaíse Palma, no 2º semestre de 2025.

Foto: Divulgação/Legendários Brasil

Uma criança olha para a câmera e uma mãe ansiosa cuida dos seus filhos enquanto espera o marido voltar para casa. Um choro, um abraço apertado e a certeza de que o seu companheiro se tornou um novo homem. Esse é o cenário do vídeo que a influenciadora Viih Tube postou no seu Instagram e que suscitou a polêmica da vez, os Legendários. 

O grupo que mistura pregação religiosa e coaching promete transformar os homens em verdadeiros “governantes” da casa e cobram um preço exorbitante por esse encontro transformador. Esse movimento evidencia o quanto a ideia de masculinidade está atrapalhada nos dias atuais e como homens, em busca de tornarem-se mais viris, transformam tudo em performance.

A ideia, então, é evocar um ideal de homem supostamente estabelecido pela religião. Ele é forte, resistente, capaz de aguentar o peso de uma família inteira em seus braços e se reconecta com Deus e com a sua virilidade em cima de uma montanha. A metáfora aqui é clara, quanto mais alto, mais perto de Deus alguém está. Mas até isso é deturpado, e a subida para se aproximar do céu se torna uma trilha em que os homens fazem exercícios físicos enquanto ouvem pregações. 

É curioso pensar que, no mesmo momento, o movimento Legendários e a série “Adolescência” ocupam lugares de destaque nos principais portais de notícia e entretenimento. O personagem que protagoniza a série é um menino no início da adolescência que é suspeito de assassinar uma colega de classe. Pequeno, fraco e “esquisito” aos olhos dos outros alunos, ele teria a matado depois que ela o humilhou após uma tentativa de flerte. 

Para mim, a masculinidade performática que leva homens a pagarem 80 mil reais para se tornarem o “verdadeiro chefe da família”, é uma diferente expressão do mesmo ressentimento sublimado pelo menino da série. O ideal de homem que o menino persegue e o faz ser excluído, é o mesmo pelo qual homens se submetem ao Legendários. No final, essa ideia performática sempre leva a algum tipo de violência física ou emocional.

Artigo produzido na disciplina de Narrativa Jornalística no 1º semestre de 2025. Supervisão professora Glaíse Bohrer Palma.

A última Feira do Livro de Santa Maria contou com a venda de discos de vinil usados. As bolachas que eram famosas nos anos setenta e oitenta, estiveram presentes em bancas na Praça Saldanha Marinho. Além dos vinilófilos, jovens também procuram adquirir esse antigo formato de ouvir música que tem encontrado novo fôlego no mercado fonográfico.

Clientes garimpam discos raros na Feira do Livro. Imagem: Enzo Martins

            Lp´s originais dos anos 80, de artistas como Chico Buarque, João Bosco e Sandra de Sá, estavam disponíveis junto com discos de artistas Pop da atualidade, como Marina Sena e Duda Beat. Essa renovação no mercado e no público pode ser vista no relatório da Pró-Música, associação que representa os produtores fonográficos do Brasil, lançado ano passado. Apesar de a receita de vendas de música no formato físico representarem apenas 0,6% da receita total da indústria fonográfica brasileira, ela atingiu o maior patamar desde 2018 puxada pela venda dos discos de vinil, que foi o formato físico mais comercializado.

            Atualmente, as plataformas de streaming como o Deezer e o Spotify dominam a indústria musical, mas para os compradores de discos, a experiência de ouvir uma música pelo celular ou pelo computador não é a mesma coisa que colocar o vinil no toca discos e olhar a arte da capa de um álbum. Márcio Grings, criador do selo Memorabília, e que reuniu discos seus e de amigos para vender na Feira, diz que não só o material gráfico do disco atrai as pessoas, mas a qualidade do som também é melhor.

            Os donos das bancas percebem uma diferença entre os entusiastas de longa data do formato do vinil e os compradores jovens. Normalmente, os jovens que compram os discos dificilmente têm um tocador em casa e colecionam esses objetos como um ícone pop. Mesmo assim, os vendedores comemoram que a nova geração está voltando ao formato do vinil.

Texto produzido por Enzo Martins na disciplina de Produção da Notícia, sob supervisão da professora Neli Mombelli, durante o segundo semestre de 2024.

Apesar dos bons números do cinema nacional para o primeiro semestre do ano, o público geral é menor do que o ano passado.

Imagem: Freepik

O mercado cinematográfico brasileiro cresceu e parece estar retomando os números pré-pandemia. O Painel de Indicadores da Ancine (Agência Nacional do Cinema) demonstra que, nesse ano, as produções nacionais já levaram cerca de 7 milhões de pessoas ao cinema, gerando uma renda de 132 milhões de reais. Com esses números, 2024 já ultrapassou 2023 que teve um público de 4 milhões de pessoas aproximadamente, o que gerou uma renda de 67 milhões de reais. Em comparação ao ano de 2019 (ano anterior à paralisação), nesta mesma época do ano, os números de renda estão próximos, mesmo o público sendo inferior. 

Apesar disso, os números totais (filmes nacionais somados aos internacionais) não são animadores.  

Números referentes 23° semana cinematográfica de cada ano. Gráfico: Reprodução/Painel Indicadores do Mercado de Exibição/Ancine 

No ano passado, os números gerais do cinema tinham dado um salto em comparação a 2022, mas os filmes nacionais tiveram um dos seus piores anos. Agora a situação parece ter se invertido. Enquanto o público de filmes internacionais teve uma variação de -34,7% de 2023 para 2024, os filmes nacionais tiveram uma variação de 1095,8%. Três filmes brasileiros estão entre os 10 filmes mais vistos de 2024. Os filmes “Os Farofeiros 2”, “Minha Irmã e Eu” e “Nosso Lar 2 – Os Mensageiros”.  

Dos três filmes, dois têm produções da Globo Filmes

Imagens: Paris Filmes/ Downtown Filmes/ Star Distribution/Divulgação 

As produções cinematográficas brasileiras ainda têm poucas salas disponíveis para exibição. Durante o ano de 2024 as produções ocuparam 17,5% de todas as sessões dos cinemas. Apesar de não chegar a um quinto do total de sessões, os números são maiores que os do ano passado. 

Gráfico: Reprodução/Informe Mercado Cinematográfico Ancine

No dia 19 de junho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o Decreto n°12.067/2024 que reinstitui a cota de exibição de telas para filmes brasileiros, que havia finalizado em 2021, conforme estabelecido na Lei n° 14.814/2024. Ela estabelece anualmente um número mínimo de exibição e títulos nacionais que devem ser exibidos nos cinemas. Os exibidores que não cumprirem a cota ficam sujeitos a multa. Atualmente, a indústria cinematográfica brasileira conta com leis de incentivo à produção como a Lei do Audiovisual e a Lei Rouanet. 

Produção própria. Dados: Portal Gov e Portal do Incentivo 

Neste ano, o mercado cinematográfico nacional foi responsável por 16,4% da renda total dos cinemas brasileiros. 

Matéria produzida na disciplina de Linguagem das Mídias do curso de Jornalismo, no primeiro semestre de 2024, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.